28 de setembro de 2010

IV Troféu de Santo Huberto – Dr. Gualter Furtado

Realizar-se-á no próximo dia 2 de Outubro uma prova de Santo Huberto com cão de parar sobre perdizes vermelhas na Ilha do Pico, que pretende ser uma homenagem ao homem e ao caçador que é Gualter Furtado e que possui como grande impulsionador o conhecido confrade Cremildo Marques, além de constituir um momento alto na componente social e de gastronomia cinegética e regional, factores imprescindíveis para a defesa e sustentabilidade da caça.

As Provas terão como Juízes o Internacional José Pedro Leitão e o Luis Figueiredo.
Este acontecimento é já um marco no Santo Huberto e constitui uma verdadeira escola para os caçadores com cão de parar.
Normalmente é realizado em terrenos que apresentam a vegetação típica da Ilha do Pico e os participantes presenteados com vistas deslumbrantes sobre as outras Ilhas que compõem o Grupo Central do Arquipélago.

Acresce mencionar que a vinha do Pico é Património Mundial ao qual se junta a imponente Montanha da Ilha - o ponto mais alto de Portugal, paisagens que emprestam àquela maravilhosa Ilha Açoriana características e belezas deslumbrantes e inigualáveis, o que constitui sempre um forte atractivo para quem anseia ali se deslocar e que estamos na presença de um evento singular que se irá desenrolar numa das sete Maravilhas de Portugal, galardão justamente conquistado e por voto popular, que os caçadores no decurso deste acontecimento irão ter também a oportunidade de usufruir e homenagear.

Texto e Fotografia da autoria de Gualter Furtado

27 de setembro de 2010

Placa de Reconhecimento a Paulo Cruz

Nos passados dias de 25 e 26 do corrente mês de Setembro, na Ilha de São Miguel, realizaram-se as duas últimas Provas de Santo Huberto do Calendário de 2010 com cães de parar sobre perdizes vermelhas, previstas para aquela ilha açoriana.

Neste ano realizaram-se 14 provas, tendo-se classificado no conjunto destes dois dias de competição o José Moniz com a Braco Alemã Íris em 1º Lugar, em 2º Lugar o Filipe Carreiro com a Pointer Mira e em 3º Lugar Gualter Furtado com o Epagneul Breton de nome Pico.

De salientar que estas duas provas finais foram julgadas pelo Juiz Paulo Cruz, da Confederação Nacional dos Caçadores Portugueses, ao qual, na cerimónia de encerramento, foi oferecida uma placa de reconhecimento pelo elevado contributo pessoal que tem dado aos caçadores de Santo Huberto com cão parar nos domínios da segurança, do tiro, espírito desportivo e na condução dos cães de parar.

Texto e fotografia da autoria de Gualter Furtado

12 de setembro de 2010

Os Coelhos de São Jorge

Desconhece-se se alguma das actuais espécies cinegéticas açorianas eram já existentes no arquipélago à data da chegada dos primeiros navegadores, o certo é que antes do povoamento foram lançadas nas diferentes ilhas, perdizes e codornizes, entre outras aves e diversos animais como as ovelhas, cabras, porcos e também alguns coelhos que acabaram por encontrar nestas ilhas condições favoráveis e muito benéficas para o seu estabelecimento e desenvolvimento.
São Jorge é o nome de uma das nove ilhas que compõem o Arquipélago dos Açores e localiza-se no Grupo Central, também constituído pela Terceira, Graciosa, Faial e Pico, distanciando-se desta última por apenas 15 km e caracteriza-se por ser estreita e comprida, possuindo em 2001 uma população de 10500 habitantes.
Uma das actividades económicas mais importantes da ilha reside na exploração agro-pecuária, sobretudo na produção de carne e de leite que depois é transformado no afamado e muito apreciado Queijo de São Jorge, detentor de Denominação de Origem Protegida.
Para salvaguardar este valioso recurso o Governo dos Açores, através do *Calendário Venatório da Ilha de São Jorge, para a época venatória de 2010 e 2011, que se iniciou a 01 de Julho de 2010 e terminará a 30 de Junho de 2011, veio permitir a caça ao coelho todos os dias, sem limite de peças por caçador, acrescida do facto de também estar a criar legislação para licenciar e comercializar a carne de coelho bravo de modo a poder diminuir a densidade populacional desta espécie cinegética no arquipélago, feitos que suscitaram nesta região insular uma ampla e acesa discussão que ainda hoje tem lugar.

Por um lado podemos localizar os agricultores e os lavradores que alegam ter os seus rendimentos diminuídos em virtude dos estragos de que dizem ser vítimas, provocados pelos coelhos nas pastagens e nas plantações.
Por outro temos duas facções de caçadores, uma prudente no acolhimento e outra contra a instituição de tais medidas e ainda temos acima de todos estes intervenientes a Secretaria Regional da Agricultura e Florestas a criar legislação de modo a tentar gerir toda esta conjuntura e o inerente conflito de interesses que acabou por se instalar.
Os agricultores jorgenses de tão lesados que se declaram, já solicitaram até ao passado mês de Julho de 2010, mais de 40 pedidos de correcção de densidades do coelho bravo, os quais resultaram em mais de 5000 abates.
Alguns caçadores, preocupados com esta realidade e conscientes das fraquezas que caracterizam o novel regime de caça associativo açoriano, por se encontrar a dar os primeiros passos, e por temerem que a contínua perda de rendimentos dos agricultores os leve a decidir pela introdução do vírus hemorrágico, consideram ser preferível a caça nos moldes do actual calendário venatório, enquanto a situação o justificar, ao mesmo tempo que se esforçam pela interdição da caça à noite, pela necessidade da existência de uma forte fiscalização e por transmitirem um comportamento adequado do caçador.
Outros, por outro lado, são frontalmente contra, afirmando que o que se passa em São Jorge não é mais do que uma selvajaria, uma matança sem sentido e criticam tanto o que lá se faz, como os que ali vão caçar.
Temos duas correntes de opinião dentro da caça e para melhor compreende-las é necessário ter conhecimento que nos Açores, apesar de existir legislação que permita a criação de Zonas de Caça de Interesse Associativo, a mesma é muito recente, decorrendo ainda a caça neste território insular naquele que é vulgarmente designado por “terreno livre”.
Acontece que não existem dados palpáveis e consistentes sobre a real situação dos efectivos cinegéticos, nem possuem os caçadores, neste quadro, um leque de alternativas que lhes permitam participar num modelo mais elevado, em associação com outras entidades, na resolução desta e de outras dificuldades.
Se por um lado é possível considerar que, na falta de dados consistentes, a decisão da caça ao coelho sem limite, levada a cabo na Ilha de São Jorge, seja fruto de uma enorme pressão e que possa degenerar em actos de selvajaria e de matança gratuita, nas mesmas circunstâncias também é lícito pensar o contrário e afirmar que a medida possa ser razoável e apropriada, até porque todos os que, entre nós, se dedicam à observação e ao estudo das espécies cinegéticas, neste caso do coelho bravo, imaginam o quanto este animal pode ser destrutivo, se se encontrar numa exploração agrícola em números exagerados.
A certeza que subsiste é que, neste momento da História da Caça nos Açores, os Caçadores Açorianos estão completamente limitados nas suas opções e acções.

Sobre a comercialização do coelho bravo açoriano, se nada for alterado e tudo permanecer como está é fácil conceber, no actual contexto, quão dramáticas e nefastas serão as consequências desta actividade para a existência do coelho bravo enquanto espécie cinegética e animal, se a legislação não tiver em conta, nem for adequada à realidade do arquipélago e devidamente assistida no terreno pelos apropriados e necessários meios humanos e materiais para a monitorizar convenientemente e para proceder não só a uma eficaz fiscalização, mas também a uma célere e ajustada autuação das infracções.

É sabido que os Caçadores possuem um papel insubstituível e de primordial importância na gestão dos recursos cinegéticos, responsabilidade da qual não devem ser arredados, porque se interessam e preocupam, porque são activos e diligentes, porque estão no terreno e recolhem informação variada, válida e actual, porque são imprescindíveis para o saudável equilíbrio ambiental e para a segurança das pessoas no controlo das pragas e dos grandes predadores.
Os Caçadores são parte integrante da sociedade moderna, constituem e representam um sector económico importante, pelo que não podem, nem devem refugiar-se em interesses egoístas, por muito apelativos que os mesmos se apresentem, nem permanecerem indiferentes aos acontecimentos que se desenrolam e que tomam, todos os novos dias, as mais diversas formas, sob pena de serem excluídos do debate, de perderem importância e influência e de ser-lhes denegado o poder de decisão.
Situações existirão em que se imporá a manutenção e a inflexibilidade das posições. Apela-se, por isso, a que saibam identifica-las.

*Os calendários venatórios em vigor nas diferentes ilhas poderão ser consultados no seguinte endereço:
Deles apenas constam oito, porque não é permitida a caça na Ilha do Corvo.

5 de setembro de 2010

Faial da Terra - Do Salto do Prego e do Sanguinho

O meio ambiente, a natureza e o mar constituem uma das mais importantes vantagens comparativas absolutas e relativas do Arquipélago dos Açores.
Nesta oferta ímpar da nossa Região encontram-se os percursos pedestres.
São cada vez em maior número os estrangeiros que nos visitam tendo como objectivo principal, exactamente o de poderem desfrutar da paisagem e das belezas naturais dos Açores, através dos trilhos proporcionados pelos percursos pedestres devidamente assinalados que existem em várias Ilhas desta maravilhosa Região Insular.
Noto com enorme satisfação o facto de alguns residentes também já começarem a percorre-los.
Muitos destes trilhos são testemunho real de uma fase da nossa história, já que eram utilizados originalmente pelos nossos antepassados para se deslocarem entre as diferentes localidades existentes em cada uma das nossas Ilhas, servindo por isso multiplas funções das quais se destacam a distribuição de diversos bens e serviços importantes e essenciais.

Com a construção das novas e modernas vias de comunicação estes trilhos foram abandonados e desprezados, tendo mesmo alguns ficado irremediavelmente esquecidos e perdidos entre plantas invasoras e às vezes também do betão.
Felizmente que nos últimos anos alguns dos antigos percursos pedestres têm vindo a ser recuperados constituindo estas acções de restauração excelentes medidas de política económica com recurso a uma despesa pública modesta, quando comparada com outros investimentos da mesma natureza, mesmo no âmbito municipal.
Evidentemente que não basta reabrir estes trilhos, é preciso cuidar da sua manutenção, garantir a sua segurança e adequada sinalização, tratar da sua limpeza e recolha do lixo que algumas "pessoas" teimam em abandonar, ainda que felizmente num número cada vez mais reduzido, e proceder à sua divulgação.
Estamos pois num campo em que as parcerias entre o Governo dos Açores, as Câmaras Municipais e o sector privado devem ser incentivadas.
Sempre que tenho disponibilidade e companhia gosto de subir o Pico da Vara, a Montanha do Pico (a minha preferida maravilha de Portugal) e fazer alguns percursos pedestres.
Nesta actividade salutar e de estreito contacto com a natureza tenho me cruzado com muitos estrangeiros que por esta via se tornam, sem quaisquer dúvidas, nos melhores embaixadores que os Açores alguma vez tiveram.

Refiro-me em concreto ao percurso pedestre que se inicia junto da Ribeira do Faial da Terra até ao Salto do Prego, onde é possível observar e desfrutar de uma magnífica cascata, e regresso pelo Sanguinho (nome de uma planta endémica dos arquipélagos dos Açores e da Madeira) e pela pequena aldeia constituída por um conjunto de pequenas casas muito bonitas e típicas, que se encontram em fase de reconstrução por uns investidores privados a quem desejo sinceramente os maiores sucessos, embora saiba não ser uma tarefa fácil.
Do Sanguinho temos uma vista deslumbrante do Faial da Terra.
Todo o trilho é ladeado por matas de acácias e incensos e infelizmente também de muitas plantas invasoras, que constituem nos Açores uma autêntica praga (espero que as entidades públicas estejam atentas à turfeira dos Graminhais).
Para terminar, aqui fica pois uma excelente sugestão de percurso pedestre na Ilha de São Miguel, bem assinalado, de dificuldade média e de aproximadamente 5 Km, a realizar sempre em grupo. Sendo que este trilho é bem o exemplo da necessidade da parceria do Governo com a Câmara Municipal, já que alguns troços do percurso necessitam de melhoramentos, embora salvaguardando e sem nunca colocar em causa a sua rusticidade e originalidade.

Texto e fotografias da autoria de Gualter Furtado

28 de agosto de 2010

A Corneta de Caça em Portugal

A corneta é, essencialmente, um instrumento de sopro, que tanto poderá ser constituída por um chifre, um búzio, como por metal, sobretudo latão e cobre.
Inicialmente o bocal, lugar por onde se sopra, era formado apenas por um orifício simples, como ainda se verifica nos búzios e nos chifres, sendo então o som produzido fruto da passagem do ar expelido em conjunção com a vibração da língua e dos lábios. Trata-se de uma técnica que requer alguma prática, embora não seja de difícil realização.
Mais tarde foi desenvolvido um sistema mais simples, através da introdução de uma palheta no próprio bocal, substituindo, deste modo, a necessidade de executar o procedimento supracitado com a língua e os lábios
Utilizamos diferentes tipos de sons para comunicarmos, quer produzidos através da voz ou de instrumentos.
Exemplificativo deste último, temos, por exemplo, o cornetim utilizado nas forças armadas durante a ordem unida.
O uso do chifre, do búzio, da corneta na caça em Portugal é actualmente, apesar de se tratar de uma prática ancestral, um costume em desuso.
Pretendo, na elaboração deste texto, embora de modo elementar e muito modestamente, contribuir para a inversão desta realidade e ajudar a recuperar este uso.

Tais instrumentos foram utilizados nas mais diversas caçadas em que se perseguiam as presas com cães e eram empregados para sinalizar procedimentos ou indicar o que se estava a suceder. 
Ainda se encontram bem presentes na tradição venatória de alguns países europeus, como a Alemanha, a França ou a Inglaterra, entre outros. Possuem toques para cada situação, à semelhança do cornetim na ordem unida que mencionei acima, e melodias próprias como a francesa “Le Chateau de Passin” ou a alemã "Aufbruch zur Jagd", a título exemplificativo.
Quanto aos toques, os ingleses dividem-nos em três grupos: os “signal calls”, utilizados para transmitir informações aos acompanhantes e aos cães; os “disappointed” ou “sad calls”, empregados, por exemplo, para dar conta da perda da presa ou do final da caçada e os “doubled calls”, usados em contraste com os “disappointed” ou “sad calls” para demonstrar grande entusiasmo, encorajamento ou excitação. Dentro destes conjuntos, há então diversos toques que os preenchem, atribuindo à caçada sonoridade e modulação excepcionais. O toque de “blowing for home”, que se insere no segundo grupo, é o único que me parece desobedecer às normas inflexíveis dos restantes, permitindo ao tocador acrescentar alguma da sua originalidade, mas apenas no final da última jornada de caça da época venatória.

Regressando a Portugal, podemos encontrar registos do uso da corneta de caça gravados na arca tumular do Conde D. Pedro, sita na Igreja de Tarouca, que data do séc XIV, e também na arca tumular do falcoeiro-mor de Vasco Estevão de Gatos, do séc XV, localizada no Convento de São Francisco, em Estremoz.
Na página 65.ª, do livro “A Propósito de Caça”, da autoria de João Maria Bravo, encontra-se a fotografia de um caçador português a fazer uso de uma corneta, no decurso de uma batida em Novembro de 1952, em território nacional.
Até à revolução, ocorrida a 25 de Abril de 1974, era utilizada com frequência nas batidas aos lobos e às raposas.
De tudo isto se infere que a utilização da corneta de caça em Portugal tem tradição e era comum!

Francisco Duarte, n’ “Uma caçada em Arraiolos”, narrativa inserta no seu livro “Caça e Caçadores”, descreve-nos como se processa uma linha de caçadores: “No Alentejo, em 1931, as linhas ainda eram de dez caçadores. E, em terreno plano, é muito difícil caçar com linha reduzida, pois as perdizes fogem para fora, logo no primeiro levanto, deixando-se perseguir muito dificilmente se ela é constituída por poucos caçadores.
Em grande parte do distrito de Évora o terreno é quase plano. Por isso as linhas são em caldeirão, isto é, formando um arco de círculo.
Os caçadores que fazem as pontas vão mais adiantados, os contrapontas um pouco mais atrasados, e os do meio ainda mais recuados de modo a formarem o caldeirão.
Nestes terrenos quase planos, os caçadores distanciam-se uns dos outros, por vezes deixando um espaço superior a cento e cinquenta metros entre cada dois caçadores.
Ora, quando eram permitidas linhas de dez, cada uma chegava a apanhar uma extensão de mais de um quilómetro.
Os caçadores que fazem as pontas têm a missão de meter as perdizes para dentro da linha, enquanto os contrapontas marcam, por assim dizer, a trajectória, são o ponto de referência dos companheiros, para manterem a linha em boa ordem e com o arco de círculo sempre constituído.
Esta é a maneira das perdizes não saírem para fora dela.
Mas se os bandos, ainda assim, dão de asa para um dos lados, então o ponta desse lado pára (ou faz peão) e dá o grito: vá de enrola.
A este sinal, o ponta contrário corre imediatamente para o lado solicitado, bem como toda a linha, indo no entanto mais devagar os do lado da ponta que faz peão.
Esta manobra tem de ser feita conservando continuamente o caldeirão.
E aqui é que se pode verificar se uma linha é constituída por caçadores de categoria ou não, visto que o enrolamento deve ser feito com toda a rapidez. Isto porque as perdizes que já voaram, que são as que tentam sair da linha, é que devem ser perseguidas, pois, se o não forem imediatamente, descansam e dificilmente esperam gatilho.
No Alentejo, para conservar a linha sempre bem, é costume cada caçador olhar para o da sua esquerda. Isto significa que o caçador que faz a ponta esquerda tem que conhecer muito bem o terreno e ser verdadeiro técnico da caça à perdiz. “
Mais à frente, sobre a indicação dos lugares que cada caçador deve ocupar, acrescenta: “Devo dizer que a numeração, no Alentejo, é feita da esquerda para a direita e não como há anos vi na Beira Baixa, o que me surpreendeu.”
E ainda a seguir esclarece-nos que: “A bicada dá-se quando um caçador se adianta e se vai postar na frente da linha, esperando aí as perdizes. Isto em terreno plano, dá um resultadão para quem faz a bicada, mas redunda em prejuízo para os companheiros, especialmente para os que estão perto, que deixam de ter perdizes na sua frente.”
Apesar deste autor não referir a corneta, na margem esquerda do Guadiana, as pontas das linhas dos batedores também utilizavam búzios para sinalizar a volta, recolher os cães ou indicar o levantamento de uma peça de caça, pelo que seria perfeitamente natural substituir o grito de “vá de enrola” pelo som proveniente de uma corneta ou de um búzio, sobretudo nas tais linhas com mais de um quilómetro.

Um dos factores que poderá ter sido determinante para a diminuição do uso de tais instrumentos na nossa caça relaciona-se com o decréscimo da floresta portuguesa e a consequente diminuição da diversidade das espécies de caça maior, sendo talvez devido a estas que ainda persista tal conduta nos países que citei acima, pois desenrolando-se a caçada em tais lugares, será muito mais adequado comunicar por toques de corneta.
Outra das causas residirá na eventual falta de conhecimentos do caçador neófito, muitas vezes sem qualquer tradição familiar recente nesta arte e, por fim, no declínio dos mestres fabricantes de tais utensílios.

Salvar esta prática é perpetuar uma identidade, assente em usos e costumes próprios e profundos que nos identificam e distinguem dos demais, pelo que devemos pugnar pela sua recuperação e dela cuidar para que não se perca no esquecimento, certo de que, com este texto, ainda muito ficou por abordar e referir sobre a corneta de caça em Portugal.

*Um agradecimento especial aos Confrades António Luiz Pacheco, João Acabado, Pedro Almeida Alves e Ricardo de Sousa pela valiosa contribuição que prestaram à minha solicitação no portal Santo Huberto, através da enorme partilha de conhecimento e da muita experiência pessoal!

26 de agosto de 2010

Do Caçador-recolector ao Coleccionador do Séc. XXI

As colecções particulares podem ser de tudo e de alguma coisa. As mais conhecidas são as de selos, as de moedas, mas há outras, como por exemplo as de conchas, de borboletas, de troféus de caça para não fugir ao tema em epígrafe, entre muitas outras.

Iniciei, bem no início da década de 1980, uma colecção de fivelas e começou naturalmente com uma que me fora oferecida, seguindo-se as restantes, umas compradas e outras trocadas - a esmagadora maioria.
Na viragem do século arrumei-a e acabei por recupera-la do fundo do caixote de papelão onde jaziam, há cerca de 2 semanas.
Caracteriza-se por datarem as peças das décadas de 70 e  de 80 do século passado, versarem o tema da caça, por serem fabricadas em bronze, latão dourado maciço ou mesmo em  osso.
Estão todas, apesar dos muitos anos que transportam, em excelente estado de conservação e de funcionamento, o que me dá uma enorme satisfação pessoal, até porque, algumas destas, são, hoje em dia - atrevo-me a referir, exemplares raros.

Principiei-a, porque se tratavam de objectos bonitos, práticos, úteis, porque me reavivavam agradáveis recordações e alimentavam a imaginação. 

Sem me aperceber também comecei a aprender algo sobre as mesmas e, por conseguinte, a enriquecer-me pessoalmente.
Certos estudos também explicam a existência das colecções particulares como sendo resultado da nossa ascendência, proveniente dos caçadores-recolectores, esses primeiros hominídeos que na caça de animais bravios e na recolha de alimentos sustentavam a sua existência, o seu desenvolvimento e a sua evolução.

16 de agosto de 2010

Açorianos nas Finais Nacionais de Santo Huberto

Nos próximos dias 11 e 12 de Setembro, realiza-se em Monfortinho, no Concelho de Idanha-a-Nova, junto da fronteira espanhola, a final nacional da Taça da Confederação Nacional dos Caçadores Portugueses de Santo Huberto com cão de parar sobre perdizes vermelhas, estando os Açores representados por Cremildo Marques, Gualter Furtado e Olivio Ourique.

Nos dias 18 e 19 seguintes, tem lugar a final nacional do campeonato nacional de Santo Huberto, que dará acesso à final do campeonato do Mundo de Santo Huberto e que terá lugar no norte alentejano, mais precisamente no concelho de Gavião.

Os Açores irão participar com a maior delegação nacional, resultante dos apuramentos que se realizaram nas diferentes Ilhas e do elevado número de participantes que existem neste arquipélago, sendo a mesma constituída por Pedro Moniz e José Moniz - da ilha de São Miguel; José Nascimento e José Luis - da ilha Graciosa; José Soares, Miguel Parreira e Olívio Ourique - da ilha Terceira, e Cremildo Marques - da ilha do Pico.

Na edição de 2009, os Açores foram campeões de Portugal e campeões do Mundo, por equipas, através do Alberto Cantineiro.


Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

9 de agosto de 2010

Bambi - Um Alvo a Abater

Se há filmes que recordamos da nossa meninice, então o do "Bambi", de Walt Disney, é um deles.
David Petersen, ao contrário do que pensam e acreditam algumas pessoas, nos vem dizer que este desenho de celuloide não é mais do que um artificio dissimulado, antinatural por natureza, que já devia estar, há muito, bem extinto e soterrado!

Para este autor "a tragédia do Bambi" começou em meados de 1880, quando um jovem húngaro, depois ter assumido o nome de Felix Salten - uma identificação étnicamente muito mais confortável do que o nome judeu original  de Siegmund Salzman, emigrou para Viena. Nessa cidade austríaca, dedicando-se Salten à escrita de peças de teatro, à crítica, à produção de pelo menos uma novela pornográfica (As Memórias de Josephine Mutzenbacher) e à criação de uma enorme porção de livros relacionados com a natureza e destinados às crianças, prosperou.
Entre os seus passatempos, que agora o novo-rico Felix participava com os seus novos amigos aristocráticos, estava a caça, actividade que ele veio a considerar repugnante.
Escrito em 1924, o Bambi de Salten pretendeu, desde o início, instituir sentimentos anti-caça, tanto nas camadas mais jovens, como em todos os outros leitores, embora alguns críticos defendam que se tratava, sobretudo, de uma alegoria anti-facista, em que a pacífica natureza selvagem representava as massas vitimizadas e os caçadores, os odiosos hunos.
Repleto de sofrimento e de morte, tudo isto causado por um inimigo conhecido entre os animais apenas por "Ele" (com a inicial maiúscula, como se de uma referência biblíca se tratasse), este Bambi teve um enorme sucesso junto das classes sociais mais desfavoridas que sempre conceberam a caça praticada ao longo dos séculos por uma minoria privilegiada, uma enorme injustiça.
Entretanto, na América, uma conspiração paralela tomava forma.

Tendo iniciado a sua vida numa quinta, do estado do Missouri, nos E.U.A., Walt Disney caracterizava-se por ser um acérrimo defensor dos "direitos dos animais" e, por conseguinte, frontalmente contra os caçadores, os quais odiava. Narra-nos a história que tudo começou quando o seu irmão, de nome Roy, surpreendeu um coelho com um tiro bem colocado, disparado de uma pressão d'ar, seguido de um  "coup de grâce", torcendo-lhe o pescoço, tendo tudo isto sido presenciado pelo pequeno cineasta. Embora a sua mãe tivesse recebido de bom grado a carne fresca e com ela confeccionado um apetitoso guisado, Walt recusou-se a comê-lo.
O Bambi de Salten foi traduzido para inglês em 1928 e depressa chegou aos Estados Unidos. Entretanto, Walt Disney tornara-se adulto e bastante activo na industria de filmes de animação. Quando leu esse livro foi amor à primeira vista e nele também encontrou uma boa oportunidade para ganhar dinheiro, muito dinheiro. Feito o guião. tiveram as filmagens o seu início em 1937. Apesar do produto da Disney possuir mais vida e cor, transmitir um maior sentimento de esperança do que a novela pardacenta e freudiana de Salten, manteve o conflito primário que a qualificava: a natureza é boa, a humanidade é má.
Em Bambi encontramos figuras benevolentes e conselheiras, como corujas, esquilos, coelhos e codornizes. Apenas bagas selvagens e as flores dos trevos são consumidas, e mesmo assim nem muitas dessas. Na maior parte do tempo essas criaturas ingénuas apenas cantam, brincam, dormem e têm conversas imaturas e infantis entre si.
A misantropia e o sentimento anti-caça não eram os únicos alicerces que suportavam e alumiavam a passagem de Bambi do livro para o filme. Como sempre, para este competente capitalista, o ganho monetário era o objectivo primordial.
Nos seus projectos iniciais, o pai do Rato Mickey, aprendeu rapidamente que o lucro poderia ser bem mais ampliado através da sábia gestão das emoções dos espectadores. Em Bambi, a massiva manipulação da natureza, tendo em vista o efeito emocional e, por conseguinte, o lucro, é projectada para extremos nunca antes explorados.
Cartmill, investigador de História Natural, disse o seguinte: "assim que se compreendeu que o sentimentalismo e o antropomorfismo faziam dinheiro, foi por esse mesmo caminho que seguiram os filmes de Disney ... desinformam deliberadamente a assistência sobre factos biológicos basilares". Acrescentou ainda que "aos animadores foi-lhes dito que poderiam utilizar quaisquer expressões humanas que conseguissem impor na cabeça  inflexível e alongada dum veado. Em consequência dessa directiva as cabeças começaram a ser desenhadas num formato alargado sobre corpos pequenos. Os focinhos foram encurtados para melhor se assemelharem a personagens ameninadas. As pestanas foram desenhadas mais compridas e as pupilas dilatadas... tais como as que podemos encontrar numa cortesã do período renascentista".
Além da sábia condução musical os mágicos da Disney conseguiram alcançar uma irresistível aparência inocente através da introdução de vozes de crianças reais.
Sem deixar pontas soltas, a cena de abertura de Bambi, à qual todas as outras criaturas reverenciavam como sendo o jovem príncipe da floresta, trata-se de uma desavergonhada réplica da Noite de Natal. Mais uma vez Cartmill  observa que, "após os animais venerarem o recém-nascido e terem partido, a imagem focaliza a mãe e a cria aninhadas numa espécie de arbusto - um quadro que Pearce, o editor da história, referiu assemelhar-se "àquele quadro da Madonna" - enquanto o pai contemplava o cenário enternecedor do cimo de um penhasco celestial, tal e qual um deus distante.
David Peterson diz-nos que após ter observado o filme sob a perspectiva de um adulto esclarecido, concordou profundamente com a descrição que o crítico Roger Ebert fez da obra: "uma parábola ao  sexismo, niilismo e desespero, retratando pais ausentes e mães passivas num mundo de morte e violência." Conclui Ebert que não é um produto indicado para jovens, nem para quaisquer mentes impressionáveis.
Mesmo nos dias de hoje, até para adultos sugestionáveis, o filme Bambi transporta aquilo que Cartmill caracteriza como "a força de um malho... apesar da sua penetrante e repelente sedução".

Bambi - o filme para crianças, agora mais facilmente acessível ao público do que alguma vez o foi, é um enorme embuste.
Para David Peterson, se as criaturas da floresta pudessem falar em nome próprio estariam entre os seus maiores críticos, pois sabem bem melhor do que nós quão devastadora tem sido esta farsa, e continua a ser, para o seu modo de vida bravio, através da criação do falso conceito da paz universal e do amor na natureza, que simplesmente não existem.
No âmbito deste filme, se alguns "amigos do Bambi" ou defensores dos direitos dos animais conseguirem levar por diante os seus objectivos, como disseram que fariam, acontecerá uma catástrofe ecológica.
Peterson, na defesa da verdade, realidade e pela dignidade dos processos naturais, afirma que Bambi - essa monstruosidade da propaganda de Hollywood, deve morrer.

Excerto traduzido por mim, retirado do Capítulo XI - The Bambi Syndrome Dismembered: Why Bambi Must Die, da II Parte, do livro intitulado Heartsblood, de David Peterson

5 de agosto de 2010

O Veado das Dez Pontas

Reza a história que, tanto Plácido, um soldado romano do exército de Trajano, como Huberto, filho do duque da Aquitania, se converteram ao cristianismo após se terem deparado com um veado que apresentava o crucifixo de Cristo.
O primeiro ficou conhecido como Santo Eustáquio e o segundo como Santo Huberto - o Padroeiro dos Caçadores!

Santo Eustáquio, cuja conversão ao  catolicismo se deveu a uma visão que teve de um veado  com a cruz entre os esgalhos, também é considerado Padroeiro dos Caçadores, porém tratou-se essencialmente de um culto romano, que teve o seu apogeu no séc. XI.
Por sua vez, Santo Huberto, que também era um ávido caçador, deparou-se, numa Sexta-feira Santa e no decurso de uma caçada, com um magnífico veado de dez pontas, por sinal o mais majestoso que alguma vez vira, e moveu-lhe uma impetuosa perseguição com o intuito de caça-lo. O cervídeo, em vez de correr e de procurar refugio, encarou-o ostentando um crucifixo entre as hastes ao mesmo tempo que uma voz misteriosa lhe disse para se voltar para Deus. Huberto assim o fez, despojando-se dos bens materiais, dedicando-se à oração, à leitura de textos sagrados e à meditação.
Mais tarde, já consagrado bispo da igreja católica, converteu muitos pagãos e realizou diversos milagres, tendo sido canonizado no ano de 743.

Existe uma enorme similitude entre estes veneráveis, porém Santo Huberto substituiu Santo Eustáquio, como Padroeiro dos Caçadores, no séc. XIV e celebra-se Santo Eustáquio no mês de Setembro, por altura das vindimas, enquanto Santo Huberto é no mês de Novembro.
Ambos foram grandes aficionados da actividade venatória, que a renunciaram, precisamente, para venerarem a ordem celeste e aqui encerram um grande paradoxo, pois não deixa de ser curioso que, em nome desta recusa, tenham sido aclamados patronos da caça.
O veado das dez pontas, que também se encontra representado na iconografia cristã,  é, na verdade, o glorificado em toda esta narrativa, pois foi diante dele que o caçador se curvou e humildemente se ajoelhou.

3 de agosto de 2010

Representante da República para os Açores Entronizado pela C.G.C.

No dia 01 de Agosto de 2010, nas instalações do Clube Cinegético e Cinófilo (CCC), sitas no bonito e aprazível Lugar das Fontinhas, na ilha Terceira, a Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores procedeu a mais uma cerimónia de entronização de novos Confrades, cabendo a vez ao Senhor Eduardo Ávila (Camarão) e ao Juiz Conselheiro Dr. José Mesquita, actual Representante da República na Região Autónoma dos Açores e um Verdadeiro Caçador.

O evento, onde também estiveram presentes os representantes da Confraria do Vinho Verdelho, muitos caçadores e familiares, oriundos de diversas Ilhas deste arquipélago açoriano, foi precedido por um merecido repasto - como não podia deixar de ser, constituído exclusivamente por pratos de caça, cozinhados no CCC, entre os quais se destacaram a canja de pomba da rocha, as alcatras de coelho, perdiz e javali, codornizes à caçador, pombas da rocha assadas, galinhola à nossa moda e coelho frito, por todos muito apreciados e degustados, a que se seguiu uma saborosa sobremesa com meloas de Santa Maria.

A Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores é a primeira do género, de Portugal, e tem como Objectivos, entre muitos outros, valorizar a componente social da caça, preservar e divulgar o património gastronómico confeccionado a partir de espécies cinegéticas dos Açores e do País.

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

1 de agosto de 2010

Separar o Trigo do Joio

Estamos cada vez mais distantes do verdadeiro sentido da caça, e, este é um facto indiscutível.
A caça, por seu turno, encontra-se no centro, entre dois extremos, cada vez mais pronunciados e distantes um do outro. Vivem eles das meias-verdades que debitam vigorosamente e dos argumentos que utilizam para se agredirem mutuamente. Refiro-me aos grupos extremistas pro-caça e anti-caça, respectivamente.

Estes últimos não são os únicos a representarem uma séria ameaça à existência da actividade venatória. Os primeiros também o são! E isso deve-se à incapacidade que temos vindo a demonstrar, hoje em dia, mais do que nunca, de nos organizarmos e estruturarmos à volta dos mesmos objectivos, dos mesmos valores éticos e morais, pelo que há muita coisa a correr muito mal.
A caça furtiva é apenas uma delas e não é só por ser um acto ilegal, pois também persistem actividades venatórias lícitas que não são menos prejudiciais, como por exemplo a caça aos troféus, a caça em terrenos vedados, os concursos de caça, o emprego abusivo das novas tecnologias, a exposição desrespeitosa dos animais abatidos ou mesmo o comportamento altamente reprovável de alguns ditos caçadores quando se pavoneiam  no campo munidos de uma arma de fogo.
Tudo isto contribui para que nos dividamos ainda mais e força alguns Caçadores mais conscienciosos e responsáveis a afastarem-se da Caça, muitos deles convertendo-se em não-caçadores ou mesmo a serem frontalmente anti-caça.
Não é assim que se desperta o interesse nas camadas mais jovens, nem é assim que desarmamos os opositores.

O Verdadeiro Caçador terá que fazer um esforço e reencontrar dentro de si o "fogo sagrado", responder a uma única e simples pergunta: porque é que "eu" caço?

Se chegarmos à conclusão que o fazemos porque somos os mais recentes representantes de uma longa linha de predadores, cuja origem se perde no próprio tempo; que o fazemos em parceria com a natureza, pelo desafio dos nossos próprios limites; para aprendermos sobre a nossa verdadeira identidade e sobre o mundo que nos rodeia, de uma maneira que só a caça nos pode ensinar; para aceitar a responsabilidade pessoal das mortes que provocamos, sabendo que as mesmas nos providenciarão o alimento que necessitamos; para nos integrarmos no mundo natural e sentir essa sensação como se de uma experiência espiritual se tratasse, então estaremos a contribuir para um mundo melhor, a desenvolvermos o nosso próprio ser e, finalmente, estaremos prontos para responde-la, conscientes que essa resposta nos fará ser mais exigentes connosco e com os outros.

Bibliografia consultada: "A Hunter's Heart", de David Petersen

14 de maio de 2010

Os Amigos da Onça

É com relativa facilidade que se encontram diversos pontos em comum e mesmo convergentes, defendidos por caçadores como pelos ditos “ambientalistas” e “amigos dos animais”.
A título de exemplo evoco apenas o da preservação das espécies e do meio ambiente; o do combate à caça furtiva ou o anseio de prevenir e reduzir o desnecessário sofrimento dos animais.
Todos esses objectivos são abraçados tanto por uns, como pelos outros. Porém, enquanto os caçadores assumem a existência dessa associação de interesses de forma livre e espontânea, já o mesmo não se passa com os ditos “ambientalistas” e os tais “amigos dos animais” que a recusam e negam veementemente, i.e., pura e simplesmente não aceitam que possa existir esse tipo de ligação ou qualquer tipo de convergência com os caçadores, que consideram ser um grupo marginal constituído por bárbaros, criminosos, violentos e de assassinos, adjectivos esses que fazem por repetir incessantemente.


Naquilo a que Freud designou por “grupos primitivos”, podemos encontrar uma explicação para esse comportamento e, de certo modo, tentar perceber a necessidade desses grupos anti-caça agirem deste modo tão peculiar.
De acordo com esse psicanalista austríaco a intensificação dos efeitos e a inibição do intelecto são as características basilares dos “grupos primitivos”.
Nesses grupos, ao mesmo tempo que lhes é solicitado que analisem os problemas, pedem-lhes também que desistam do seu pensamento crítico individual e que sigam, sem questionar, os seus líderes carismáticos. Podemos encontrar nos comícios políticos ou nas manifestações violentas dois destes exemplos.


Os “grupos primitivos”, baseiam-se assim - toda a sua existência, na manutenção de emoções fortes e de paixões exacerbadas, daí a necessidade de manterem um agente catalisador e um alvo para onde possam direccionar e arremessar alguns dos sentimentos que os alimentam, como o da frustração, o da inveja ou mesmo o do ódio. O objectivo é manter o caldeirão em permanente ebulição.
Os caçadores parecem ser um alvo favorável, não só pelo que sentimos e constatamos diariamente, mas também pelo que é publicitado e transmitido através dos media, o que resulta numa tentativa constante e doentia de estigmatizar a caça.
Constata-se assim que alguns dos ditos “ambientalistas” e “amigos dos animais” mais extremistas, elegeram a caça como o elo mais fraco dos seus alegados oponentes e também se compreende a razão de não aceitarem sequer a hipótese de poder existir algum tipo de ligação ou de convergência com os caçadores, por mais evidente que esta se possa apresentar, pois se a considerassem, acabavam por se extinguir mais depressa do que as espécies animais que tanto alegam querer proteger da destruição!


Há muito dinheiro a rolar e a alimentar estes tipos de conflitos. Não há nada melhor do que uma boa controvérsia para se declarar uma crise e quanto maior, melhor. Os advogados sabem-no e alguns ditos “activistas sociais” também. Alguns chegam mesmo a fazer dessas disputas um modo de vida, de projecção social e política, mais uma maneira de pagar as contas, pelo que tratam de engendrar organizações e de financia-las, para finalmente poderem enfrentar e combater os bodes expiatórios,… os tais que eles próprios criaram!


Bibliografia consultada: "In Defense of Hunting", de James A. Swan, "Maquiavel em Democracia", de Edouard Balladur e "O Príncipe - Maquiavel", tradução, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio.

6 de abril de 2010

Evocações

Falo-vos de sequazes de Nemrod, que nos fastos da cinegética nacional são bem conhecidos, pelo menos para os mais "peugueiros" de leituras cinegéticas, dada a obra de reconhecido valor que nos legaram.
Trata-se de trabalhos editados, com reconhecido interesse histórico-cinegético, científico, etnográfico e "haliêutico", pois a esta nobre arte também houve quem se dedicasse e apaixonadamente em Tomar, a vetusta terra do Nabão.
Refiro-me a Júlio e a seu irmão Fernando Araújo Ferreira, também conhecido por Dr. Nini Ferreira.

Falemos, pois, um pouco mais das suas trajectórias de vida: feito o 5º ano vem para Lisboa, uma vez que seu pai fora colocado como professor nos "Pupilos do Exército". Era, porém, na sua terra, longe dos olhos mas perto do coração, que o seu pensamento estava: ali passavam sempre as férias, de fisga e mais tarde de "Flobert" em punho, a contas com a passarada. Seriam já os primeiros sinais do afã venatório que viriam a sentir e a viver por toda a vida.
Terminado o liceu pelos anos 20 do século passado, Júlio, o mais velho, segue para a Escola de Guerra, e aqui, no final do ano lectivo eram da praxe as provas de atletismo em que se distinguiam atletas de alto gabarito: e não é que o Júlio bate toda a concorrência, inclusive o Ápio de Almeida, atleta do Sporting, um campeão em título!
De Alvalade vem logo uma comitiva falar com o atrevido, e passado pouco tempo já envergando a camisola do Sporting, sagra-se campeão nacional 110 metros barreiras.
Paralelamente, foi progredindo na sua carreira das armas onde atingiria o posto de coronel. Nos finais dos anos 50 algo não lhe agradou e pediu para passar à reserva. Surge, então, um convite para liderar uma reserva de caça em Terras do Fim do Mundo (Angola). Na metrópole, à revista Diana, Caça e Tiro ao Voo e ao Jornal Caça e Pesca iam chegando interessantes artigos da sua pena. Terminada a missão, volta a Tomar e passa a dedicar-se à escrita de livros até que surge um novo convite, desta feita para comandar o sector militar de Cabinda, cargo que viria a acumular com o de governador. As provas de sensatez e verticalidade dadas no exercício destas missões levariam mais tarde à sua nomeação para Governador de Luanda.

O seu irmão segue outro rumo, licencia-se em farmácia e estabelece-se em Tomar com a "Farmácia Central", actividade que desempenhou de permeio com a sua outra paixão, o jornalismo, onde pugna pela causa Tomarense (ecologia, festas e tradições locais). Colaborou acerrimamente e dirigiu (O Templário 1952-58, Cidade de Tomar 1983-85).
Deixou-nos também obra incontornável sobre Tomar, seus costumes e tradições e os não menos interessantes Galinholas, (1949) e Pesca Desportiva - ao redor da linha francesa (1969), este com tradução em espanhol.

Por seu lado Júlio, voluntáriamente destacado para os então territórios ultramarinos, nas horas de ócio acampava ou aboletava-se em tabanca amiga; pois era esse o seu deleite. Nas suas incursões, o intrépido caçador calcorreou vinhedos e pinhais, a "vassouras" e florestas, savanas e pântanos, "lalas" e "bolanhas", "chanas" e "anhares". Foi o que habitualmente se chama um caçador do tordo ao elefante; mas não foi só para caçar, muitas vezes deixava a arma no descanso e com desvelo pegava na sua "Leica", pois o seu interesse pela fauna e sua biologia era enorme.
Em 1949 delineia um plano para a Reserva da Cufada na Guiné, propondo-o ao então Governador, vindo este a aprova-lo. As suas incursões de caçador e de naturalista resultaram em vários livros de monta publicada, (A Fauna da reserva da Cufada, 1948; Bichos da Guiné, 1973; A Técnica do tiro de Caça a Chumbo, 1979 e A Caça uma Saudade, 1989).
No intervalo das suas comissões de serviço e sempre que lhe era permitido, Júlio Ferreira regressava à Metrópole, para aí poder confraternizar lado a lado com o irmão; mas sempre sem desprendidos de rivalidade.

Portanto companheiros, agora que as nossas armas repousam no armeiro, errem, errem por esses campos (das letras) na companhia de velhos confrades de antanho.

Nuno Sebastião

Texto e foto de Nuno Sebastião
Publicado na Calibre 12, em Junho 2009 e aqui transcrito com a devida autorização do autor

29 de março de 2010

Zacarias D’Aça – in Memoriam (1839-1908)

Entroncado, de bom aspecto, bigode forte e mosca, com seu colarinho engomado e gravata preta em laço, quase uma fita, Francisco Zacarias de Araújo da Costa Aça tinha um ar de bonomia, filho de um militar, Zacarias D’Aça foi um erudito, um caçador emérito, um escritor vernáculo e cavaqueador infatigável.

Profissionalmente, foi 2º oficial da Direcção Geral d’Instrução Pública; leccionou durante 14 anos no Colégio Luso-Brasileiro, foi sócio efectivo do Grémio Artístico e Académico, sócio de mérito da Academia Real de Belas Artes, exercendo com a maior competência o cargo de bibliotecário.
Dedicou-se a assuntos históricos, cinegéticos, à arte e investigação deixando vasta obra publicada, privou com Castilho, Herculano, de quem herdou qualidades literárias.

Prosador de finas e poderosas faculdades, teve singeleza e colorido, elegância e individualidade.


Para além de colaborador em esparsos periódicos da época Occidente, Tiro Civil, Tiro e Sport, A Caça, foi também fundador e director literário do primeiro periódico de caça que existiu nas nossas terras Jornal dos Caçadores, 1875. Também preparou e publicou obras onde o prazer da caça sempre teve lugar destacado, como sucedeu em 1883 com o Almanach dos Caçadores, que incluía preciosas informações e conselhos úteis. Em 1899 publica Caçadas Portuguesas. Figuras de campo, paisagens; e aqui quer na descrição de caçadas, de paisagens ou personagens, a sua pena esteve seguramente à altura de um Silva Porto. Em 1907 já bastante doente, e como se de um último fôlego de tratasse ainda publicou Lisboa Moderna onde trata de assuntos para além do prazer da caça, ainda assim pintando com toda a sua mestria uma boa meia dúzia de episódios de caça. E como se não bastasse por si só, a beleza no estilo, o apropriado da linguagem a graça na descrição, também figuram nas suas páginas os caçadores mais notáveis da época.

Pode ser-se um bom caçador no mato, bater-se a meia encosta com muito vagar, uma bandada de perdizes ou ler no chão rijo o rasto do arteiro e vigoroso javali que vai ferido, mas escrever com maior entusiasmo e singeleza que Zacarias D’Aça não é fácil, foi inegavelmente, o primeiro e ainda do melhor que se escreveu do género em Portugal. Estou seguro que ainda tem a seu lado a sua cadela predilecta a “Jóia”, a sua escopeta “scott” e seus bons companheiros Bulhão Pato, Lopes Cabral, Carlos e Jaime Bramão, Dr. Avelar, Dr. Manuel Bento de Sousa (o famoso Dr. Minerva…) bem como o catraeiro Lourenço, o homem que os transportava para a outra banda em busca da elegante codorniz, da nédia lebre ou da esquiva narceja nesse juncal alagado da Trafaria com alcantis bordejados pelo Tejo.
Quem diria, o paraíso da caça que era a Trafaria meados do século XIX!
Um outro dos seus caçadeiros preferidos, eram essas encostas da Arruda revestidas de vinhedos que corria em busca de uma boa cintada de perdizes, por este lugares ainda ecoam estéreis tiros, deste ínclito caçador-escritor muito marcado pelo romantismo.

Não poderia pois velho companheiro no centenário da sua morte, deixar de relembrá-lo, e dedicar-lhe embora que parcas algumas palavras amigas e de admiração.

Nuno Sebastião

Texto e foto de Nuno Sebastião
Publicado na Calibre 12, em Dezembro de 2008, e aqui reproduzido com a devida autorização do autor

17 de março de 2010

Oito Séculos de Caça em Portugal

"Oito Séculos de Caça em Portugal", um grande livro da autoria de Miguel Sanches Baêna e de João Maria Bravo, com prefácio de Jorge Roque de Pinho.
Data de 20 de Novembro de 1998, com uma tiragem especial de 3500 exemplares em exclusivo para o Grupo BPI.

"O arranjo gráfico e artístico foi de Angelina Luís.
Os textos foram compostos em tipo gillsans e as selecções de cor foram executadas por Reproscan-Reprodução Gráfica, Lda, que também executou a montagem dos fotolitos.
Os trabalhos de impressão e acabamento sobre papel tulimatt de 150 gramas, da tulipel, foram efectuados nas oficinas da Eurolitho, Impressores Gráficos, Lda."

Possui 9 capítulos, que se desenrolam ao longo de 394 páginas, a nomear:
- I Montaria; II Falcoaria; III O Cão de Caça; IV Armas de Caça; V A Caça à Raposa a Cavalo com Matilha; VI A Caça Ligeira; VII Caçadas e Caçadores - memórias de caça; VIII Armas e Caça na África Portuguesa; IX Jóias e Caça (séc. XIX).

Trata-se esta, juntamente com "A Propósito de Caça" e "A Caça no Império Português", de uma das mais emblemáticas obras da literatura cinegética deste País.

A páginas 324, encontramos uma caricatura de Bulhão Pato, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro in Álbum das Glórias.
Introduz-nos a mesma a uma história, narrada por Saraiva Mendes, intitulada "A Espingarda de Bulhão Pato", que tomo a liberdade de transcrever:

Era Inverno e época de caça. Na Quinta do Minhoto, a dois passos dos Riachos e a seis da Golegã, propriedade de Agnelo Freire Salter de Sousa Cid, grande senhor que se ufanava de ir a Torres Novas apenas através das suas terras, ou fazendo o mesmo da Chamusca a Abrantes, há muito que se preparava a grande caçada às narcejas. Essa ave do Norte da Europa e da Ásia Menor, de enorme bico, espécie comum em Portugal e muito difícil de matar, congregara para o belo palacete do Minhoto algumas das melhores espingardas especializadas em tão apreciada ave, nomeadamente o poeta Bulhão Pato, personalidade diversificada de escritor, caçador e gastrónomo.
Bulhão Pato chegara na véspera. E à volta do farto lume da lareira de oliveira e azinho, teciam-se conjecturas prognosticando o número de peças que cada um mataria no dia seguinte.
Salter Cid, homem generoso e brincalhão, começou a duvidar, em pura chalaça, das proezas venatórias do poeta.
«Você diz que mata esse mundo e o outro de narcejas, pois fique sabendo que o meu amigo José Augusto Saraiva, dos Riachos, chega e sobeja para si.»
O que foste dizer. Abespinhado, ferido no seu orgulho, Bulhão Pato retorquiu:
«Diga lá ao seu amigo se, por mero acaso, matar mais narcejas do que eu, sem errar, perco esta espingarda que me ofereceu o rei de Espanha.»
Todos se riram da liberdade poético-venatória, menos Bulhão, que ensimesmou naquela de haver a possibilidade de alguém o bater nas narcejas!
A conversa à roda da lareira continuava com histórias curiosas. Agnelo Cid, bom conversador, e cuja vida era recheada de histórias, atirou esta:
«Sabe. ó Bulhão Pato, quem é o meu amigo Saraiva? É uma história curiosa e dramática. O José Augusto Saraiva era filho do notário em Trancoso, dr. FrancoVeloso, liberal dos sete costados, perseguido como não podia deixar de ser pelos patuleias, casado com D. Rosa Saraiva, de excelentes famílias beiroas. A perseguição foi de tal ordem que ele viu-se na necessidade de espalhar os três filhos. O José Augusto, que trato como filho, foi-me confiado e os outros dois foram para Vila Franca de Xira e Lisboa, também confiados a correligionários liberais.»
«Então o seu amigo dever-se-ia chamar Franco Veloso...»
«Mas isso era nome maldito e tiro pela certa. Os rapazes adoptaram o nome da mãe para se esquivarem a mais perseguições. Cada um fez a sua vida e parece que escaparam à sanha absolutista.»
«Conte-nos agora uma história sua...»
«Calculem vocês, há anos, estava eu na Feira de Sevilha e vi um cavalo soberbo, montado por um grande de Espanha. Quanto quer pelo cavalo?
O homem mirou-me de alto a baixo e atira: 50 mil pesetas. É meu, disse, e paguei-lhe logo em moeda de oiro. Estupefacto pelo gesto, o conde espanhol nem tempo teve de abrir a boca, pois, para maior espanto do orgulho nobre, rapei da minha navalha e cortei as crinas e o rabo do belo animal e apenas murmurei: era o animal que eu precisava para tirar a água à nora!»
Senhor de enormes propriedades, orgulhoso, cacique da região, onde chegou a ter pequeno exército, por si mantido, era respeitado e temido até em Lisboa, pelo apoio incondicional que dava à causa liberal.
«Ó Cid, foi verdade você ter dito à rainha para vir falar consigo?»
«Não é bem assim, mas quase. A rainha, senhora D. Maria II, estava na Quinta da Broa, do José Rafael da Cunha, no termo da Azinhaga, e mandou um enviado para que eu lhe fosse falar. A minha resposta só poderia ser uma: diga a sua magestade que é tão longe do Minhoto à Broa, como da Broa ao Minhoto! Como é evidente, fiquei na minha casa.»
No outro dia, mal se levantaram, o tema de conversa era o mesmo: a aposta da espingarda. No pátio, os cavalos e as carruagens aguardavam os caçadores.
«Ó Bulhão Pato, quero apresentar-lhe o meu amigo de quem lhe falei ontem, o José Augusto Saraiva.»
«Tenho muito prazer em o conhecer. E, segundo me disse o Salter Cid, o senhor é o melhor caçador de narcejas aqui da região. E ontem apostei com o nosso anfitrião que, caso o senhor matasse mais narcejas seguidas do que eu, lhe daria esta espingarda, oferta do rei de Espanha.»
«Isso é uma brincadeira do Salter Cid. Sou um vulgar caçador, às vezes com sorte...»
«Já lhe disse, se o meu amigo me bater, a espingarda será sua.»
Deu-se a caçada e, na verdade, José Augusto Saraiva foi o que pendurou mais narcejas ao cinto, matando nove, sem errar.
Quando regressaram ao Minhoto, virou-se para o companheiro e deu-lhe a espingarda.
«É sua, Sr. José Augusto Saraiva.»
«Desculpe, mas não aceito. Foi uma brincadeira do Salter Cid.»
«Faço questão.»
E questão foi essa que os caçadores ficaram amigos a tal ponto que José Saraiva se deslocou, por diversas vezes, a casa do poeta, na Torre da Caparica, para daí sairem para caçadas... e a espingarda ainda hoje se encontra na posse da família.

Apenas uma das muitas histórias em "Oito Séculos de Caça em Portugal", para serem lidas e relidas.

7 de março de 2010

A Propósito de Caça

"A Propósito de Caça", publicado no ano de 1982, é da autoria de João Maria Bravo, uma das personalidades mais conhecidas do Mundo da Caça Português e que foi, inclusive, o Director da prestigiada Revista "Diana", publicada até ao ano de 1975.
O autor justifica a existência desta obra do seguinte modo: "têm sido alguns os que, especialmente nos últimos anos, me têm falado em fazer publicar, num só volume, o que sobre caçadas e caça escrevi, bem ou mal, durante dezenas de anos.
Argumentam estes que, através dos meus escritos, se poderá não só refazer parte de um período importante da história cinegético-venatória portuguesa mas, ainda, colher elementos para uma futura lei da caça."

Trata-se este de um dos Grandes Livros de Caça Nacionais, à semelhança d' "A Caça no Império Português", por exemplo, não só quanto à sua dimensão e ao número de páginas que ostenta (752), mas também ao nível do conteúdo, que é de um valor documental assombroso, sendo-o tanto ao nível da Caça propriamente dita, com imensas gravuras, narrações pessoais e de terceiros que relatam histórias e se debruçam sobre a temática da organização cinegética, como ao nível da história recente deste País.

Relato um episódio que sustenta a afirmação anterior e que se encontra perfeitamente documentado na obra em epígrafe.
Tudo se passou no ano de 1974, poucos meses após a revolução armada que acabou por dar origem ao actual regime político português, quando a Revista "Diana", na sua edição de Outubro daquele ano, através do seu n.º 255, publicou um artigo intitulado de "Chacina Geral da Caça - no dia da abertura geral".
Lê-se, então, em geito de necrologia, um conjunto de notícias identificadas através dos seguintes títulos: "Crime degradante contra a natureza e a Cinegética Nacional"; "Extinguem-se os últimos linces existentes em Portugal (relativa à Herdade da Baraona); "Vitelos e Vacas roubados ou mortos a tiro (relativa à Herdade de Pinheiro)"; "Destruição total de patos"; "Açude de achigão esgotado à rede (relativa a Rio Frio)"; entre outras da mesma natureza, que divulgam e relatam a balbúrdia, as tropelias e os crimes cometidos a coberto da pretensa liberdade que caracterizou a abertura geral da caça, no ano de 1974.

José Ortega y Gasset faz uma afirmação, inserta no ensaio "Sobre a Caça e os Touros", que se enquadra perfeitamente no descrito acima e que acaba por corroborar os factos denunciados e publicados na "Diana", através da pena de João Maria Bravo: "em todas as revoluções, a primeira coisa que fez sempre o «povo» foi saltar as cercas das coutadas ou demoli-las, e em nome da justiça social perseguir a lebre e a perdiz".

O facto é que, em resultado de tão vigorosa escrita, no dia 12 de Dezembro do ano de 1974, recebeu o João Maria Bravo, o Ofício n.º 119/74-C, de 09 de Dezembro de 1974, remetido pela Comissão AD-HOC Para a Imprensa, Rádio, Televisão, Cinema e Teatro, que aplicou à Revista "Diana", "ao abrigo do art.º 3.º, do Decreto-Lei n.º 281/74, de 25 de Junho, a multa de 150.000$00, sem prejuízo da responsabilidade criminal prevista nas leis vigentes que possa ser exigida às pessoas singulares, as quais ficam, como determina a lei, sugeitas ao foro militar".

Em geito de resposta e de esclarecimento para o que então se passava, a "Diana", no seu n.º 256, saído em Janeiro de 1975,  publicou uma carta aberta à comissão supra citada, onde se valeu das suas razões e concluiu dizendo que: "calarmo-nos, por medo, é uma forma de servilismo, uma maneira de morrer, sem razão" e que, "em democracia assim como na vida autêntica o medo não tem lugar".
No mesmo número, desta feita numa notícia de 30 de Janeiro de 1975, a Revista "Diana" informou que iria suspender a sua publicação após 27 anos  de actividade, mas que não o fariam "por espírito de intransigência ou por medo", mas porque "continuar equivaleria a termos de pensar, antes de escrevermos, nas consequências inerentes ao que íamos afirmar, por mais justas e verdadeiras que as nossas afirmações pudessem ser e a só dizermos não o que quiséssemos ou devêssemos mas, só, o que pudéssemos."
Na página precedente a estes dizeres, encontra-se publicada uma carta pessoal, datada de 2 de Dezembro de 1971 (três anos antes do 25 de Abril e deste incidente) proveniente do Gabinete do Presidente, da Presidência do Conselho, relativa a um acontecimento semelhante, desta feita protagonizado pelo serviço de censura do regime derrubado, bem demonstrativa do modo ardente, vigoroso e apaixonado de como a "Diana" se expressava quando estava em causa a defesa da Caça, independentemente de quem exercesse o poder.

"Meu Caro João Bravo:

Depois da conversa com o seu irmão recebi a Diana e apressei-me a ler o discutido artigo. Quando cheguei ao fim disse de mim para mim: «Se isto é o artigo com cortes, o que diria ele sem cortes...».
Você tem um estilo duro e agressivo e gosta de chamar nomes às pessoas ou aos ... «poderes públicos». O que não acrescenta a razão que possa ter e não favorece o êxito das suas teses. A censura podia não ter cortado nada: mas se num ou noutro caso os cortes são injustificados, noutros creio que lhe prestou um serviço. Tudo se pode dizer: é uma questão de sabê-lo dizer. O estilo contundente, repito, não favorece a civilização necessária no trato entre pessoas que não querem ser selvagens. E não é só selvagem o que mata caça indiscriminadamente...
De caça não sei nada - a não ser que dificilmente vejo dois caçadores de acordo sobre os seus problemas.
Desculpe a rabujice do seu velho professor que tanto o estima,

Assina: MARCELO CAETANO"

Em poucas palavras nos diz este pequeno texto muitas coisas...
E este livro é disso um grande exemplo de informação e saber, bem como da qualidade e da experiência do seu autor e colaboradores, mas também da prova de uma inquestionável paixão pela Caça!
De "A Propósito de Caça" foram numerados e autografados pelo autor, quinhentos exemplares com encadernação de luxo, trabalhada à mão em carneira e ouro, e, da leitura que dele se faz e até ao seu final, poder-se-á inferir que, a tal multa,... continua por pagar e que há muito caiu no esquecimento, mas que a memória da elevada qualidade da "Diana" e da mensagem que transmitiu, essas... prevalecem!

5 de março de 2010

A Caça no Império Português

Trata-se de uma obra fenomenal, da mais emblemática sobre caça em Portugal (continental, insular e ex-colónias ultramarinas).

A Caça no Império Português, foi editada pelo jornal "O Primeiro de Janeiro" - do Porto, iniciada que foi a sua publicação em fascículos, corria o ano de 1943, acabando-se a sua impressão em Fevereiro de 1945, nas Gráficas da Neogravura, Limitada, em Lisboa.

São dois volumes, contando o I - 317 e o II - 639 páginas que se apresentam profusamente ilustradas com fotografias da mais diversa fauna bravia, desenhos, reproduções de quadros e de pinturas especialmente feitas para esta obra, algumas delas do pintor angolano Neves e Sousa.

No Tomo II, podemos encontrar a seguinte distinção entre "atirador" e "caçador":

"... a qualidade do atirador depende essencialmente da sua habilidade e da maneira mais ou menos aperfeiçoada como a cultiva; a qualidade do caçador é condicionada pelos recursos físicos, a experiência e o saber.
Conhecemos um exemplo que ilustra com muita clareza esta distinção de qualidades - aliás complementares, como dissemos.
O caso passou-se há alguns anos, quando o uso do automóvel para digressões de caça não estava ainda tão generalizado como hoje.
Certo caçador da colónia inglesa que habita o nosso país, e muito conhecido em Lisboa, apreciava especialmente a caça às galinholas - essas aves sombrias dos países enevoados e tão comum nalgumas regiões da Inglaterra.
Fazia as suas caçadas, habitualmente, nos pinhais da «outra banda» do Tejo, e acompanhavam-no os seus «pointers», cuidadosamente instruídos - verdadeiros cães de um verdadeiro caçador.
Num ano pobre de galinholas, isto é, num ano de escassa imigração - o que, como se sabe, não é raro - nem por isso esmoreceu o entusiasmo do caçador nem a sua fidelidade aos pinhais em que se acostumara caçar.
Todos os domingos desembarcava na outra margem do Tejo, com a espingarda e os cães, e por lá se gastava todo o santo dia.
E como o ano era ingrato para galinholas, como dissemos, e os caçadores já o sabiam, , nenhum outro senão êle se via a correr aquêles pinhais - a ponto do caso começar a intrigar tôda a gente. Tanta persistência parecia história - e tanto mais, quanto era certo que o nosso homem regressava sempre com o cinto tão leve como o tinha levado. Nem uma galinhola!
Tiros também não se ouviam no pinhal - e um ou outro que lhe espreitava a cartucheira não dava por munições consumidas! Preguntava-se:
- Se está provado que as galinholas escassearam êste ano, se, por isso, ninguém se dá ao trabalho de as ir procurar - e se, finalmente, o homem não traz caça nem dá tiros, que vai êle lá fazer todos os domingos?
Nesse tempo, felizmente, não havia razões para se imaginar ou tecer uma história de espionagem - porque se as houvesse o bom do inglês não teria escapado.
Aconteceu, porém, que certo dia um outro caçador, talvez mais curioso de saber o que o inglês fazia do que desejoso de encontrar galinholas, o bispou nos pinhais e o seguiu de longe - interessado, dizia êle, por admirar o trabalho dos magníficos «pointers». E assistiu a manobras que não havia maneira de compreender. O inglês, atrás dos seus cães, seguia interessadíssimo o seu trabalho, tão atento, cuidadoso e exemplar em todos os movimentos, como se caçasse em ano farto de galinholas. Em certa altura, e depois de uma busca magistralmente conduzida, um dos «pointers» «pára» impecàvelmente, espera o dono com todos os preceitos da arte e, por fim, levanta uma galinhola. O inglês mete a arma à cara, aponta, segue a ave no ponto de mira... e a galinhola desaparece entre os pinheiros, sem ser atirada.
Supôs o caçador que o seguia que tivesse havido precalço e que, por qualquer motivo inesperado, o inglês não pudesse ter disparado.
Continuou a segui-lo.
Os cães tornaram a procurar, realizaram novas e magníficas buscas e, algum tempo depois, eis outra vez um dos «pointers» parado, o dono atento e firme, a galinhola levantada, e espingarda apontada... e nada mais. A ave apagara-se nòvamente, nos seus zig-zags típicos, através das ramadas dos pinheiros.
E a manobra recomeçou - até que, repetindo-se a mesma cena, o caçador intrigado, resolveu aproveitar, em benefício próprio, os levantes provocados pelos cães do inglês, e apanhando a galinhola de feição, tombou-a.
O inglês assistiu impassìvelmente à queda da ave e chamou os cães. O outro, julgando-se na obrigação de lhe explicar a sua intervenção e defender o seu direito de abater uma galinhola que lhe passara a alcance de tiro, dirigiu-se ao inglês que, ainda por cima, se encaminhava para a estrada, mostrando visìvelmente dar a caçada por concluída.
Mas o inglês não estava melindrado nem ofendido. Que compreendia perfeitamente; estava no seu direito. Apenas lamentava que aquêle tiro tivesse vindo roubar a ambos a possibilidade de tornarem a caçar naquêle pinhal.
- ?!!
E explicou então por sua vez:
- É muito simples. Êste ano há poucas galinholas. Esta era a única em tôdo êste pinhal. Há meses que a descobri e todos os domingos aqui venho para a caçar, sem a matar - só para gozar com o prazer de a encontrar e a satisfação de ver trabalhar os cães. Se a matasse, - como era a única - perdia a possibilidade de caçar. E por isso não lhe atirava.
O senhor hoje matou-a. Não há mais nada a fazer. Acabaram por êste ano as caçadas às galinholas neste pinhal. E como acabaram... vou-me embora.
Fez um cumprimento amável e lá se foi, a caminho de Lisboa, com a sua espingarda, os seus «pointers» e o seu cinto vasio.
Ninguém mais o tornou a ver, durante êsse inverno, a caminho do pinhal."

Os autores concluem do seguinte modo: "...é mais fácil atirar bem do que caçar bem. E quem não caçar bem reduz o desporto da caça na Metrópole, a simples matança.
Temos pois de pugnar pelo aumento do número de caçadores entre a massa dos nossos atiradores - alguns, aliás, admiráveis. E êsse número só aumentará se os preconceitos individuais e a formação superficial de uma experiência, derem lugar à observação objectiva dos fenómenos e ao estudo de regras, com sólidas bases numa luta leal entre bicho e homem."

Dizia eu que a mensagem desta magnífica obra literária mantém toda a sua actualidade, apesar de ter sido concebida há 65 anos por Henrique Galvão, Freitas Cruz e António Montêz...

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