31 de dezembro de 2009

Caça e Felicidade

"A vida que nos é dada tem os seus minutos contados e, além disso, é-nos dada vazia.
Quer queiramos quer não, temos que preenche-la por nossa conta: isso é, temos de ocupa-la, de um ou de outro modo.

Por isso a substância de cada vida reside nas suas ocupações.

Ao animal não somente lhe é dada a sua vida, mas também o reportório invariável da sua conduta. Sem a sua intervenção, os instintos dão-lhe já decidido o que vai fazer e evitar. Por isso, não pode dizer-se do animal que se ocupa muito nisto ou naquilo. A sua vida não esteve nunca vazia, indeterminada.

Mas o homem é um animal que perdeu o sistema dos instintos, ou, o que é igual, deles conserva só resíduos e cotos incapazes de lhe impor um plano de comportamento. Ao encontrar-se existindo, encontra-se perante um pavoroso vazio. Não sabe o que fazer; tem ele mesmo que inventar os seus afazeres ou ocupações.

Se contasse com um tempo infinito diante de si, não importaria grandemente: poderia ir fazendo o que lhe ocorresse, experimentando, uma após outra, as ocupações imagináveis. Mas - aí está! - a vida é breve e urgente; consiste sobretudo em pressa, e não há outro remédio senão escolher um programa de existência, com exclusão dos restantes; renunciar a ser uma coisa para poder ser outra; em suma, preferir umas ocupações às restantes."

- excerto retirado do capítulo "Caça e Felicidade", do livro "Sobre a Caça e os Touros", de Ortega y Gasset


Na fotografia, o meu avô está de óculos escuros e boina e esta retrata a primeira caçada realizada na zona das pistas, no Aeroporto de Santa Maria, nos inícios da década de 60, do séc. XX.
Da esquerda para a direita está o Sr. Soares, atrás dele encontra-se o Sr. João Caraça. De joelhos, à frente, situa-se o Mestre João "dos frigoríficos" e, atrás, com um chapéu de aba larga, o Sr. Sargento Pereira, da Guarda Fiscal. À frente do meu avô, está o Sr. José "Espanhol", faroleiro de profissão. Os restantes não fui capaz de identificar.
Nela, são também visíveis as nossas foices de caça e o produto de uma bonita caçada!

O meu avô soube preencher todos os minutos da sua vida e ocupou-a o melhor que pôde, não deixando nunca que o que quer que fosse lhe controlasse ou tomasse o destino, lhe roubasse a substância ou deixasse de ser quem era.
Viveu-a plenamente e fê-lo sem medo de perder ou ganhar, porque é necessário coragem para assumir tanto a derrota como a responsabilidade da vitória e ele teve dumas e doutras, viveu a vida sem renunciar a nada, nem a ninguém.
Acredito que tenha sido feliz e foi de certeza o Caçador que eu pretendo ser!

29 de dezembro de 2009

Galinholas Homenageado

"O Templário", semanário, com sede em Tomar, publicou na sua edição de 24/12/2009, um artigo sobre o livro "Galinholas", de Fernando de Araújo Ferreira, intitulado "Galinholas - editado há 60 anos".


O texto divulgado teve como base a transcrição da composição que elaborei sobre essa obra ímpar da literatura cinegética nacional e começa nos seguintes termos:



"A efeméride é assinalada pelo açoriano Pedro Miguel Silveira no seu blogue ribeira-seca.blogspot.com.
O livro "Galinholas", da autoria de Fernando (Nini) de Araújo Ferreira, irmão de Júlio de Araújo Ferreira, foi editado há 60 anos.
A propósito e com a devida autorização do autor, transcrevemos o apontamento que fez no seu blogue: ..."
.

14 de dezembro de 2009

Um Presente de Natal

Para o Natal proponho um excelente livro.

"Páginas de Caça"

Teve a sua primeira edição em Janeiro de 2009 e tem por base uma rica selecção de textos e organização da responsabilidade de A. M. Pires, que a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros publicou em associação com a Âncora Editora.

Poderá ler-se na apresentação efectuada pelo Eng. Beraldino Pinto, Presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros, o seguinte:

"A caça tornou-se uma marca indelével da identidade do concelho de Macedo de Cavaleiros. Inspirados pela beleza das paisagens, por uma boa jornada de caça e pelo saber receber dos macedenses, são muitos os caçadores que desde tempos longínquos aqui acorrem. A Festa dos Caçadores do Norte e a Feira da Caça são igualmente testemunhos dessa marca que se vai transmitindo entre gerações.
A caça, mais do que o simples acto venatório, pelo contacto que proporciona com a natureza e as peripécias dos caçadores, é também fonte de inspiração literária. A obra de Miguel Torga é um notável exemplo de momentos de caça vertidos em literatura. Como Torga, muitos foram e são os autores transmontanos, uns reconhecidos, outros desconhecidos da maioria, que escreveram em prosa ou verso, sobre a ancestral actividade que é a caça. A produção literária é imensa, mas por vezes publicada em edições de difícil acesso à maioria dos leitores, e daí a necessidade de a compilar.
O epíteto de concelho da caça confere ao Município de Macedo de Cavaleiros condições de excelência para ser o percursor da primeira antologia sobre caça na literatura transmontana.
Acrescentou-se ainda o privilégio de Macedo de Cavaleiros ter um homem desta terra, o Dr. Pires Cabral, escritor de reconhecido valor e exímio organizador de antologias. A conjugação germinou na antologia que tem entre mãos, obra que reflecte um trabalho exaustivo de levantamento e compilação de textos por parte do Dr. Pires Cabral, a quem o Município de Macedo de Cavaleiros agradece ter aceite o convite para organizar esta ontologia e o incondicional empenho que nela depositou.
O Município de Macedo de Cavaleiros orgulha-se de promover esta publicação que vem suprimir uma lacuna na literatura transmontana e nacional e de ter o seu nome inscrito nessa antologia de textos sobre caça escritos por autores transmontanos."

Deixo-vos um pouco do que poderão encontrar, neste excerto de Miguel Torga:

"Vamos, irmã de Apolo!
Ladram de impaciência os cães à nossa espera.
de espingarda traçada a tiracolo.
Não há fera
Que nos resista...
Somos o instinto, a força e a quimera.
Na sua eterna e lúcida conquista!

Como não obtinha resposta, procurava na caça a libertação desse e doutros pesadelos. No regresso às primárias leis da vida, à virgindade nativa do instinto, o pensamento cessava, e a lancinante dor de o possuir amortecia.
- Ferido, Nilo! Busca lá...
Uma perdiz levantara voo no planalto, abrira-se inteira à pontaria, recebera no peito o relâmpago do tiro, e continuara como uma seta.
de repente, lá longe, num último arranco, erguera-se a pino, de bico ao céu, e subira, até se lhe acabar o alento. Só então caíra maciça e perpendicular sobre o abismo.

Desde a roupa que vestia, delida como um velho paramento e afeiçoada aos movimentos do corpo como uma segunda epiderme, á frugalidade sã da merenda, sempre igual, ao vinho bebido excepcionalmente, tudo fazia parte de uma secreta comunhão com a sacralidade da natureza. O dia raiava na emoção do primeiro disparo. Antes que a vontade hesitasse, o estalão das passadas tornava próxima qualquer distância.
Alheia ao suor da fadiga, a atenção ia acompanhando, por relances, objectiva e deslumbradamente, a consumação circular do tempo e a variação ondulada dos horizontes. Quando as forças decaíam, a tarde declinava também. A última perdiz morta era o sol posto."

Além do citado Miguel Torga, encontrarão também Fausto José, António Cabral, Sousa Costa, P.e Domingos Barroso, Camilo Castelo Branco, João de Araújo Correia, Ângelo Sequeira, Salvador Parente, A. M. Pires Cabral, Vaz de Carvalho, João de Deus Rodrigues, Manuel Vaz de Carvalho, Dr. Ferreira Deusdado, Mello Júnior, Montalvão Machado, Cristiano de Morais, Bento da Cruz, Guedes de Amorim, Fernando de Mascarenhas, António Fortuna, Gil Monteiro e Pina de Morais.

São 277 páginas de caça, do melhor que existe na literatura transmontana e do País, uma excelente oferta de Natal.

12 de dezembro de 2009

Galinholas

Assim se designa este livro, cujo autor se trata de Fernando de Araújo Ferreira, irmão de Júlio de Araújo Ferreira.

Esta obra da literatura portuguesa foi composta e impressa no ano de 1949, na Tipografia e Papelaria "A Gráfica", em Tomar, numa altura em que a Europa, devastada pela guerra, muito se esforçava por emergir de um dos mais negros períodos da sua História, que foi a Segunda Guerra Mundial.


Nesse final de década, do séc. passado, na ilha açoriana do Faial, o, então, Capitão Júlio de Araújo Ferreira, tirou as primeiras fotografias de galinholas deste País permitindo, assim, que chegassem até nós através deste excepcional documento que permanece tão actual como o foi no dia em que nasceu.

Possui mapas de rotas, registos datados, medições de exemplares, correspondência trocada com as mais ilustres e distintas personalidades, instituições e universidades estrangeiras, relatos na primeira pessoa, e, uma prosa encantadora, fascinante que nos desperta, estimula e desafia.

"... Não sei se já repararam neles, na expressão desses olhos, quando à vossa mão vai parar uma galinhola de asa... Eu creio que nenhum caçador, que tenha sensibilidade, possa demorar a sua atenção no olhar da galinhola sem que sinta pena, sem que lá dentro haja uma certa revolta por roubar aquela vida à extensão das florestas, à solidão do seu destino. Olhos que parecem chorar muito embora não haja lágrimas vulgares, líquidas, mas sim as que se adivinham na expressão pungente que nos lança, expressão de desalento de saudade.
É assim e eu o sinto... mas no fundo sou essencialmente caçador, corre-me nas veias aquele fogo primário que através de tudo, da própria sensibilidade, nos faz andar em frente como o animal que caça, como o homem bárbaro das cavernas, ou, até, como a «mesmíssima» galinhola - cuja agonia sentimos - ao devorar os seus vermes.

... Caçador é aquele que entregue a si mesmo, sozinho se necessário for, sabe procurar e sabe perseguir, se adapta aos terrenos e parece dotado dum sexto-sentido a que os «caçarretas» chamam muito simplesmente... «leiteira». Caçador não é sinónimo de matador e muito menos de exterminador.
O vulgo, aqueles que vivem longe das realidades do mato, confundem muita vez o bom atirador com o bom caçador. E no entanto a diferença é notória e vasta.

... A caça das galinholas, de salto e na floresta, é só para caçadores, para os que têm em si o «fogo sagrado».

... A vida começa e termina ali, num cão que se pára, numa galinhola que salta, numa finalidade que se realiza. Nada mais para além, nem cidades, nem mundo, nem lutas ou misérias humanas; nós, a vida livre, a raíz da nossa condição de animal caçador a embeber-se na seiva natural que nos envolve.

... Para muitos não há mais do que horas da mesma vida, hoje, amanhã, depois... sempre!
Horas civilizadas de funcionários ou empregados, do homem de hoje, horas que rolam iguais pela vida fora, o mesmo pão, a mesma «fome», a mesma cama, e a esperança doutro rumo a esfumar-se na eterna e gelada realidade ou a acalentar-se como sonho inútil e perdido.
Porque não há-de ser a caça para esses... LIBERTAÇÃO!
Perdidos em considerações fechámos este capítulo. Perdoem-nos os caçadores."


Disse-o Fernando de Araújo Ferreira em algumas das 140 páginas que escreveu e assim que finalizou este maravilhoso livro, numa demonstração da sua nobre qualidade e de uma grande coragem, há 60 anos atrás!

10 de dezembro de 2009

Entronização de Confrades da C.G.C.A.

Numa cerimónia realizada no dia 6 de Dezembro de 2009, nas instalações do Clube Cinegético e Cinófilo da Praia da Vitória, ilha Terceira, procedeu-se a uma cerimónia de entronização de 12 novos Confrades da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores.

De enaltecer a realização da primeira entronização de uma mulher Confrade e que se tratou da jovem Júlia Ourique.

O evento contou ainda com a participação da Confraria do Verdelho, representações da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Secretarias Regionais da Economia e da Agricultura e Florestas, bem como do Representante da República para os Açores, o Juiz Dr. José Mesquita.

As entronizações foram presididas pelos Presidentes da Direcção e da Assembleia Geral, respectivamente Olívio Ourique e Gualter Furtado.

De seguida foi servido um jantar a todos os Confrades e Convidados, cuja ementa foi a seguinte :

- Canja de pomba da rocha
- Arroz de pato bravo (real e marrequinha)
- Coelho bravo frito
- Alcatra de coelho bravo
- Codornizes bravas fritas com molho regional
- Galinhola na Caçarola
- Lebre com feijão
- Javali assado no forno

Entretanto, no dia 5 de Dezembro, no salão nobre da Câmara Municipal da Praia da Vitória, uma ampla delegação da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores participou na cerimónia de entronização que a Confraria do Vinho Verdelho fez ao Presidente do Governo dos Açores - Carlos César.


Texto e fotografias da autoria de Gualter Furtado

9 de dezembro de 2009

Homenagem ao Jornal - Caça

No dia 05 de Dezembro de 2009, o jornal diário Açoriano Oriental publicou um artigo da autoria de Gualter Furtado, sob o título de "A minha homenagem ao Jornal - Caça", que poderá ser lido a seguir.

"Recentemente numa véspera de uma caçada às Galinholas na Ilha do Pico, na Piedade e na perigosa adega do Cremildo, entre algumas histórias de caçadores e um copito de nêveda, aguardente de figo, etc, um caçador continental de nome Nuno Sebastião, perguntou-me se eu já tinha ouvido falar num jornal de caça que tinha sido publicado em São Miguel na década de 30 do séc. passado. Eu respondi que não, mas que em breve e a ser verdade ia procurar ler todos os números deste jornal.
O Nuno Sebastião é detentor de uma das mais importantes bibliotecas de cinegética sobre a caça no “Mundo Português”.
Já em São Miguel contactei o Pedro Miguel Silveira de Santa Maria que também é um caçador bem informado e pai de um dos melhores blogues de caça do País (Ribeira Seca), que prontamente me confirmou esta informação, mais, disse-me que o jornal de nome Caça foi fundado em 1936 e o seu número 1 saiu no dia 1 de Junho de 1936 que era um jornal "mensário e de distribuição gratuita aos Caçadores do Distrito (São Miguel e Santa Maria)" e que o seu Redactor - Editor - Proprietário era o Senhor Eduino G. Botelho.
Munido desta informação pedi ajuda ao Senhor Albano Martins do Vale (Bibliotecário, Pescador e Caçador) que prontamente localizou na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada os 11 números do jornal que penso serem a totalidade da edição desta pioneira e louvável iniciativa realizada no séc. passado. Portanto o meu muito obrigado ao Sr Albano Martins do Vale.
Este jornal editado na gráfica do Açoriano Oriental merece ser recordado hoje e a minha sentida homenagem à meia dúzia de caçadores que tomaram esta iniciativa.
O jornal publicou-se em 1936 e 1937 e tem artigos muito pedagógicos e informações muito úteis para a população e para os caçadores de então. Artigos sobre as espécies cinegéticas, as doenças dos cães de caça, introdução de faisões e perdizes, combate aos furtivos, eram frequentes e alguns deles mantêm a sua actualidade.
Através do jornal Caça pode-se constatar o pioneirismo dos Serviços Florestais de então na promoção da caça, e que deveria ser um incentivo acrescido para a versão actual dos Serviços Florestais.
Os Colaboradores eram meia dúzia de entusiastas pela caça desejosos de levar ao conhecimento dos caçadores e população rural a importância da caça, e designadamente as regras, as leis, as espécies cinegéticas que regiam e constituíam o Mundo da Caça.
Não resisto em transcrever parte do editorial publicado no Nº 1 do Jornal Caça: "... É nosso objectivo despertar o interesse dos caçadores pela caça e nestas palavras cabe tudo o que por este magnifico desporto é necessário fazer-se para que no nosso meio haja caça, haja caçadores e para que cada um tenha por este assunto toda a dedicação, todo o carinho, e até mesmo todo o respeito...” Como são tão actuais estas palavras escritas já lá vão 73 anos!
Aqui fica a minha Homenagem aos Senhores Eduino G. Botelho, Eduardo Rebelo, Vasco Bensaude e a todos os que participaram nesta iniciativa de Cidadania a favor da Caça com regras, entusiasmo e respeito."



Para concluir este "post", gostaria de salientar o seguinte:

- A referência elogiosa que nos é dirigida directamente e que muito nos sensibiliza, em verdade, não a merecemos, pelo que a mesma só poderá ser compreendida em função da vasta educação e delicadeza que caracteriza o autor do texto acima, demonstrada, também, através da enorme partilha de informação e da empenhada colaboração na construção deste lugar de Caça.

- Quem nos deu a conhecer a existência do jornal "Caça" foi o Sr. Nuno Sebastião, aliás, é aos bons conselhos dele que devemos alguns dos bons livros que temos a sorte de desfrutar e de compartilhar, sendo este, precisamente, o nobre sentimento que nos une e que também esteve na origem do Jornal - Caça.

A Todos, bem hajam!

8 de dezembro de 2009

Na Calibre 12

A Calibre 12 - A revista do caçador português, publicou-o em Janeiro do corrente ano.

Teve como base o texto que escrevi neste blogue, sob o título de Caça em Segurança, em 16 de Agosto de 2008, e algumas fotografias que me foram solicitadas.

A Segurança no Manuseamento de Armas de Caça



















Faço votos que o ano de 2010 proporcione, à editora supramencionada, as necessárias condições para que possa regressar e ocupar o lugar que merece, de destaque, no seio da comunidade de caçadores!

7 de dezembro de 2009

A Faca de Caça

Faz parte do equipamento de qualquer caçador e desempenha uma função de primordial importância, embora, por vezes, seja relegada para segundo plano.
Mesmo assim a faca não deixa de ser um utensílio e uma presença indispensável nas jornadas de caça.

Aquando da aquisição de uma faca para a actividade venatória convém termos a consciência de que estamos a adquirir uma ferramenta de trabalho e que, apesar de poder ficar muito bem à cintura, a escolha poderá não ser a mais indicada, pelo que se torna necessário identificar o fim a que se destina antes de adquiri-la, pois uma que seja própria para rematar já não poderá ser a mais propícia para esfolar e o mesmo se passa com a lâmina, pois se a intenção é mantê-la permanentemente afiada convém que não seja em carbono ou num aço muito duro, por dificultar, precisamente, a amolação.

Há modelos muito bonitos, de grande qualidade, em metais cujas ligas e métodos de transformação apenas são conhecidos por quem as junta, com lâminas feitas a primor, cabos em marfim e madeiras exóticas, artísticamente esculpidos e trabalhados, mas que custam alguns milhares de euros e encontram-se noutro patamar sem, no entanto, perderem as qualidades de uma verdadeira arma de caça.

A faca é, assim, nos seus diversos modelos, configurações e múltiplas funcionalidades, um auxiliar importante e imprescindível, determinante até, para o bom sucesso da jornada, que não deve ser desprezada.

6 de dezembro de 2009

O Livro do Caçador

"O Livro do Caçador", composto e impresso no ano de 1957, pela Neográfica - Lisboa, foi inserido na "Campanha Nacional de Educação de Adultos", levada a cabo naqueles tempos. Possui 5 capítulos que abordam, desde o "Tiro de Caça" à "Descrição de Alguns Processos de Caça", diversos temas de grande interesse e de muito valor ao longo das 188 páginas que o compõem.
Integra perfeitamente os volumes d"A Caça em Portugal", referidos abaixo, e complementa-os.

O prefácio é da autoria de João Maria Bravo, individualidade de referência na caça do séc. XX português, que o descreve deste modo (um pequeno excerto do prefácio):

- "Caçador, este é o teu livro, o livro com que procuramos aperfeiçoar-te a arte de caçar.
Será esta a primeira vez que ouves chamar arte à caça, essa coisa que apaixona mais de cem mil* portugueses, e te faz correr quilómetros e quilómetros, às vezes, quase já sem forças, de barriga a dar horas e o fato rasgado pelas estevas ou pelo tojo, empurrado por essa ânsia de aplacar o vício terrível, que não perdoa, e que, quanto mais se pratica, mais vício se torna.
Dissemos que caça é arte.
É arte «fechar» uma perdiz que nos passa, puxada pelo vento, a mais de quarenta metros, por cima da cabeça. É arte «enrolar» o coelho, que «picado» pelos cães, se vai enfiar no moroiço de pedras. E tu, se conseguires «pendurar» a perdiz ou o coelho que te saltou nessas condições, és um artista."


Trata-se este excerto de um excelente convite à sua leitura.

*hoje, o número de caçadores portugueses é cerca de trezentos mil.

1 de dezembro de 2009

O Coelho Amarelo

Para quem vai caçar na manhã seguinte, nada melhor existe do que uma noite bem dormida e descansada, mas eu deitei-me tarde, demasiado tarde para quem necessitava de ter todos os sentidos despertos e alerta.

No dia anterior já havia verificado o material, preparado a espingarda, os cartuchos, a documentação, o vestuário. Aos cães, servi-lhes uma refeição reforçada e tratei de consultar a previsão meteorológica, sobretudo em relação à direcção do vento, temperaturas e pluviosidade, pelo que tudo tinha preparado de véspera.

Nesta manhã acordei com o ladrar do Galileu, faltavam cinco minutos para o despertador tocar. Este cão tem destas coisas extraordinárias. Ele possui noção das horas e sabe em que dias é que vou caçar.
Já em pequeno, quando ainda dormia dentro de um caixote de papelão na garagem e o agasalhava com uma manta durante a noite, ele deitava-se e esperava que o fosse aconchegar, depois ajeitava-a com a boca até ficar com a cabeça totalmente coberta, e, assim se deixava permanecer.

Geralmente coloco o despertador para as seis horas da manhã. Isso dá-me tempo, mais do que o necessário para fazer tudo nas calmas e sem agitação. Ele sabe disso. A Galiza também, mas é mais madura e mais paciente do que o Galileu.
Acontece que quando desactivei o despertador, acabei por adormecer novamente.

Faltavam 10 minutos para as oito da manhã e acordo, desta vez, em sobressalto. O Galileu ladrava e, ao longe, conseguia aperceber-me da existência de disparos. Apesar de cansado, ensonado, sabendo do frio que fazia no exterior, da ameaça de chuva, toda a vez que ouvia um tiro, sentia um desespero tal, que nem dormia, nem deixava dormir. Ora rebolava para um lado, ora rebolava para o outro. A única solução era mesmo levantar-me.

Espreito pela janela do quarto e tinha os dois cães a olharem para mim, em pé, de orelhas afitadas, cauda levantada e estáticos, ambos mudos.
A previsão falava em aguaceiros durante a manhã, mas o céu estava limpo. Abri a janela, falei com os cães, que já corriam, já saltavam, já abanavam as caudas. O reboliço era total dentro do canil e decido ir por eles, que bem merecem todas as atenções.

A Galiza é sempre a primeira a entrar no atrelado, seguida pelo Galileu e lá fomos.

No local já se encontrava uma viatura estacionada e estavam na caça, pelo que optei pelo trajecto onde seria menos provável encontra-los, o qual era o mais difícil também. Quem chega tarde tem que se contentar com o que lhe resta, pelo que a minha preocupação era tomar um rumo que não os prejudicasse, e, assim procedi.

Segui pela linha da costa, entre um muro de pedra seca e o mar.
O terreno era pedregoso, recortado por ribeiras, babosas, muitos juncos e pouco silvado.

Nunca tinha caçado um coelho amarelo.
Foi no regresso. Estava ameijoado atrás de uma pedra, sobre um terreno de cascalho, onde essa pedra que o encobria era pouco maior do que o seu tamanho e era a única daquelas dimensões, não havendo outra semelhante, nem maior, num raio de cinco metros.
Saiu ao Galileu e deixei-o alargar-se o suficiente. A Galiza trouxe-o e ficamos os três, cada um à sua maneira, a admira-lo.

Foi um dia de caça diferente, aliás, não há nenhum dia de caça igual e este não foi excepção,... pois será para sempre o dia do coelho amarelo!

30 de novembro de 2009

Balanço do Primeiro Mês

A Abertura-geral nesta ilha teve o seu início no dia 01 de Novembro de 2009 e terminará no último Domingo de Dezembro próximo.
Ontem, concluiu o seu primeiro mês de existência, pelo que urge fazer um balanço.

É de referir que ainda não possuimos uma gestão racional da caça, assente num método de estudo organizado e credível.
Todas as medidas que existem e que regulam a caça nesta ilha se devem àquilo que parece ser, ou seja, quando parece que há coelhos, aumenta-se o número de abate e quando parece que não há coelhos, limitam-se as peças e restringe-se a área de caça.
Por outro lado, corremos o risco de atribuir uma desmedida importância aos furtivos. Não porque esses bandidos a não mereçam, porque dão sempre prejuízo - como os ratos, mas porque também se desconhece a quantidade dos estragos que provocam, por serem impossíveis de quantificar.
O facto é que ninguém sabe ao certo quantos coelhos existem na ilha de Santa Maria, nem se consegue perceber a magnitude dos malefícios provocados pelos ilegais.

Como é que se faz um balanço nestas circunstâncias?
Não é possível fazer, porque permitem apenas e só recolher opiniões baseadas no que parece ser e essas valem o que valem, em função da qualidade de quem as emite.

Assim, e com base na informação verbal que recolhi, a costa N/NO da ilha parece que foi saqueada pelos furtivos e só muito dificilmente se cobra algum coelho, pois são praticamente inexistentes. Também não existem dados que possam corroborar a existência de alguma maleita nesse local.
Por outro lado, numa parte da costa Oeste e na zona da Ribeira Seca, a S/SO, ainda se vão fazendo algumas capturas, parecendo existir mais alguns coelhos.
Quantos(?) é que não se sabe responder, como também se ignora se estes que estão a ser caçados seriam, ou não, determinantes para a recuperação e exploração cinegética dessas zonas.

É urgente investir na caça e na sua gestão e, acima de tudo, tomar consciência que a realidade cinegética de cada ilha açoriana é diferente da outra, pelo que a existência de um calendário venatório como o que está em vigor e sem qualquer base científica que o suporte, assente unicamente no que parece ser, é o resultado de vários erros e estará, seguramente, na origem de outros tantos.

28 de novembro de 2009

Sobre a Caça e os Touros

"Sobre a Caça e os Touros" trata-se de um ensaio que José Ortega y Gasset realizou sobre o tema que consta, precisamente, no título que ostenta.

José Ortega y Gasset é o primeiro vulto da filosofia na Espanha do séc. XX e um dos nomes mais importantes da cultura mundial.
Licenciou-se e doutorou-se na Universidade de Madrid, de que foi catedrático de Metafisíca de 1910 a 1936. De 1905 a 1907 estudou na Universidades de Leipzig, Berlim e Marburgo.

Este que apresento data de 1989, pelas mãos das Edições Cotovia, Lda, com tradução de José Bento.
À semelhança d' "A Caça em Portugal", obra que menciono abaixo, ainda se encontra acessível no mercado, embora através de publicações mais recentes.

Estes magníficos trabalhos, quer os dois volumes d' "A Caça em Portugal", quer agora este ensaio "Sobre a Caça e os Touros", são, para mim, e depois de os ter lido e relido, por diversas vezes, fundamentais para que se possa encontrar uma noção elementar do significado e da importância da caça e alicerçar, numa base sólida e estável, o saber sobre esta temática, de modo a que o mesmo possa ser desenvolvido objectivamente e sem deturpações numa fase posterior.

São, por isso, essenciais para o Caçador que se interroga e deseja progredir.

A páginas tantas o autor diz o seguinte: "não há que buscar a perfeição no arbitrário, porque nessa dimensão não há unidade de medida; nada tem módulo nem limite, tudo se torna infinito, monstruoso e a maior exigência tropeça em seguida com outra que a supera".

Na minha opinião, trata-se este ensaio de um hino à cultura da caça e à moderação, sem deixar de ser uma crítica muito inteligente a todos aqueles que, julgando-se mais lúcidos que os restantes, se arvoram detentores de todos os princípios morais, técnicos e de mais alguns, refugiando-se, por isso, em atitudes e comportamentos extremistas, de repulsa pelo que é diferente e por aquilo que consideram ser inferior, quando, afinal, não passam de uns cínicos e de uns hipócritas, por serem, precisamente, ignorantes!
Essa presunção tem levado a Humanidade a grandes catástrofes, mas nem por isso deixou de existir, encontrando-se ainda bem patente em alguns sectores da sociedade actual.

Inquieta-me o papel que alguns activistas dos ditos "amigos e defensores dos animais" assumem e têm vindo a desenvolver e preocupa-me o modo como o realizam, bem demonstrativo que é da fome e da sede de protagonismo político que os motiva.

Façam por ler estes livros.
Não vos irão ensinar a conseguir melhores cintos, mas, de certeza, a serem melhores Caçadores!

27 de novembro de 2009

A Caça em Portugal

"A Caça em Portugal" é o título que denomina 2 volumes, dirigidos e coordenados por Carlos Eurico da Costa, publicados pela Editorial Estampa.

A primeira edição viu a luz do dia em 1963 e a que está retratada é a 4.ª, que data de 1994.
São 408 páginas no I volume e 434 no II, repletas de informação muito valiosa, a todos os níveis.

Apresenta-se como o mais completo manual de caça desportiva publicado entre nós, onde o leitor encontrará toda a informação sobre a fauna cinegética, os processos de caça (de aves e de pêlo), as armas, munições e tiro, os cães e o ensino do cão de parar e ainda um tratado de culinária de caça, sendo todos os temas abordados pelos mais reputados especialistas.
Imprescindível para o neófito e um complemento importante para o mais experiente.

Neles participam Aquilino Ribeiro, Jayme Duarte de Almeida, Germano Sacarrão, João Maria Bravo, Padre Domingos Barroso, D. Jorge Frederico de Avilez (Visconde de Reguengo), J. M. Varela Cid, Marques Elpídio, Ferreira de Sousa, Elisiário Rodrigues Nogueira, João Sabrosa, Sebastião R. Peretrello, Mello Machado, J. Romana Vargas, L. Almeida Araújo, Torres Botelho, Maria Emília Cancella de Abreu e Renato Boaventura.

Trata-se, acima de tudo, de um livro indispensável ao caçador português, interessado no conhecimento teórico da caça, bem como na sua aplicação prática.

18 de novembro de 2009

Seminário Sobre Armas e Munições

Decorreu no passado dia 13 de Novembro de 2009, na sede do Comando Regional dos Açores da Polícia de Segurança Pública, um seminário devotado ao tema “Armas e Segurança: uma perspectiva transversal”.
Tal iniciativa foi promovida pela PSP e presidida pelo Representante da República para os Açores – Juiz Conselheiro José Mesquita.

A legislação em causa trata-se da republicação da Lei n.º 5/2006, de 23 de Fevereiro, ou seja, a Lei n.º 17/2009, de 6 de Maio.

Neste debate sobre o novo Regime de Armas e Munições, interveio o Caçador Açoriano Gualter Furtado.
Dessa intervenção o jornal Correio dos Açores publicou, na sua edição de hoje, o conteúdo dessa contribuição.

Segue o texto retirado da página online, pertença do jornal mencionado.

Debate sobre novo Regime de Armas e Munições : Gualter Furtado fala de Armas e Caçadores

O caçador açoriano Gualter Furtado manifestou discordâncias sobre o Novo Regime Jurídico sobre Armas e Munições salientando os aspectos que deveriam ser adaptados à realidade insular (mobilidade de armas entre aeroportos) e outros em que houve algum exagero do legislador (passageiros numa viatura onde existe armas não podem ter mais de 1.20 gramas por litro de álcool).
Gualter Furtado centrou parte da sua intervenção nas dificuldades que são criadas aos emigrantes nos Estados Unidos e Canadá para caçarem nos Açores. Natural das Furnas, exerce caça há mais de 40 anos. Desempenha as funções de presidente das Assembleias Gerais da Federação de Caçadores dos Açores, da Associação Nacional de Caçadores de Galinholas e da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores, a primeira do país no sector da caça.

Apresentação

Tenho 56 anos de idade e, seguramente, exerço caça há mais de 40 anos, mas também desde que me conheço. Comecei a usar arma desde os 6 anos, com uma ‘Diane 25’, tendo começado logo como matador e, ao longo da vida, fui percorrendo vários estádios, considerando-me hoje um caçador.
Fui criado num ambiente muito diferente daquele que existe hoje. Nasci no Vale das Furnas e, durante os anos e anos que me conheço, fui criado com a chave na porta. Não existiam os níveis de insegurança que existem hoje. Quando me distraía aos domingos da manhã, os meus colegas entravam livremente pela casa a dentro e iam-me chamar ao quarto. Hoje existem novas exigências de segurança. Recordo o dia 18 de Outubro deste ano, o dia da abertura oficial da caça em são Miguel. Fomos deixar o produto da caça em casa dos meus pais. Qual não foi o meu espanto ao ver a porta aberta, como antigamente, quando tínhamos dias de calor. Infelizmente, tudo mudou, e todo o cuidado é pouco.
Eu compreendo que hoje o ambiente é completamente diferente, as circunstâncias em que nós vivemos já não são compatíveis com esse tipo de comportamentos. Um caçador que se preze e que eu considero um caçador moderno, é apologista de uma nova lei das armas. A legislação que existia era muito difusa, às vezes até contraditória, e isso faz com que sejamos os primeiros a defender uma nova lei das armas. Isto não significa que esteja de acordo com a nova Lei das Amas no seu todo e tal qual está a ser aplicada.

Conflitos na Lei das Armas

Evidentemente que o novo caçador defende as espécies, respeita a lei, considera que a caça, hoje em dia, é um bem escasso e, por conseguinte, há que criar todas as condições para a sua sustentabilidade. É um caçador que cumpre as regras de segurança, utiliza a arma no acto de caça sempre em posição de segurança e nunca comprometendo a segurança das outras pessoas e dos nossos companheiros cães. Nunca deixam os cartuchos no chão (sobretudo nessas armas que agora têm extractores automáticos). Quando abre uma cancela e entra numa propriedade alheia fecha a cancela e até quando tem de subir um muro e cai uma pedra, coloca-a no seu lugar porque respeita a propriedade alheia. Para além disso, tem as licenças em dia, trata bem dos seu cães, vacina-os e, se for preciso, faz sacrifícios financeiros para que tenha os seus animais sempre em condições. Esta é a categoria de caçadores em que me insiro hoje.
Em relação a esta nova lei das armas existem alguns pontos que são muito conflituais, alguns deles não os entendemos bem. Por outro lado, e, no país em que vivemos, estas leis podem não fazer sentido daqui a meia dúzia de meses. Os nossos deputados na Assembleia da República podem a alterar em qualquer altura. Com a capacidade de imaginação de alguns políticos do país, isto será muito possível. Só espero que seja para melhor, e designadamente no que se refere à eliminação da burocracia em relação aos nossos emigrantes e aos caçadores estrangeiros.
A Lei está em vigor e o que nos deve preocupar agora é tentar dar um contributo perante as entidades que aplicam a lei no sentido de facilitar a vida, (o que não quer dizer pisar o risco), ao caçador cumpridor de maneira a que não pague o justo pelo pecador. Isso para que não sejam, de facto, os caçadores cumpridores as primeiras vítimas desta lei.
Neste sentido, aponto alguns aspectos que considero importantes. Algumas das sugestões que faço passam pelo funcionamento da PSP e quero que não interpretem como uma crítica. Quero que tomem isto como uma crítica ao sistema e, se quiserem, à política de finanças públicas que é seguida no país e às mutações orçamentais que são cometidas, bem como às dificuldades tecnológicas que a PSP tem ainda hoje.

Sem cursos de actualização

O que deve preocupar hoje os caçadores é a forma como a lei é aplicada e como é que pode ser aplicada de forma a não nos penalizar ainda mais do que já somos. Começo, então, por um aspecto que é fundamental e que tem a ver com os cursos de actualização técnica, de acordo com o artigo 22 da lei. Estes cursos são imprescindíveis e fundamentais para a melhoria do caçador. Agora começamos pelo problema: tanto quanto sei é necessária uma quota mínima para se poder fazer estes cursos de actualização e o que acontece é que esses cursos, em determinadas ilhas, não são feitos, inclusivamente na ilha Terceira. Por isso, peço que repensassem esse ponto. Temos cá a residir o campeão do mundo de tiro aos pratos, que já se disponibilizou para fazer esses cursos além de outras pessoas habilitadas. Peço, então, para que entre o Clube Desportivo de Tiro de São Miguel, as organizações da caça e a própria PSP, se encontre uma forma de tornar esses cursos mais regulares, disponibilizando-os a mais pessoas e de uma forma mais eficiente e célere.
Outro aspecto tem a ver com o transporte das armas, artigo 41. No caso dos caçadores açorianos que caçam em diversas ilhas é um autêntico martírio. Os nossos profissionais da PSP fazem o seu trabalho com muita dignidade nos aeroportos, mas cada aeroporto tem o seu método de trabalho. Em alguns aeroportos fazemos a declaração junto do gabinete da PSP. Quando vamos para Santa Maria eles preenchem à mão um monte de papelada e depois quando chegamos a Santa Maria e queremos levantar a arma, os Polícias voltam novamente a fazer mais um monte de papéis. Evidentemente que nos tempos que decorrem hoje, através dos meios electrónicos, um simples email ou uma fotocopiadora multifunções, pode aliviar o serviço dos profissionais da PSP, facilitando o trabalho dos caçadores, sobretudo daqueles que estão legais e que têm a sua documentação em dia.
Ainda quanto aos aeroportos, quando chegamos a Lisboa a nossa arma vai para a Alfândega, mostramos os talões das armas e das munições, eles pedem para verificar se está tudo em condições e só depois mandam seguir. Nos aeroportos em que existe Alfândega nos Açores podia-se, perfeitamente, adoptar este método simples, rápido e seguro. Quando chegamos de Santa Maria, Graciosa ou da Terceira e coincide com a chegada de outros voos, chegamos a estar horas à espera que os senhores da SATA levem a arma para o Gabinete da PSP. Às vezes os senhores da PSP têm dó de nós e oferecem-se para ir buscar a espingarda à sala de chegada da SATA.

Beber ou não beber

Em relação ao artigo 88, que tem a ver com a questão do álcool e condução sobre o efeito do álcool, depois da entrada em vigor desta lei eu fui muito rigoroso na sua interpretação. O que acontece é que depois da entrada em vigor desta lei nunca mais bebi. Mas já viram o que é haver 14 pratos de caça e estar a beber aquilo com sumo? Neste artigo há, de facto, um problema. Eu até compreendo o que esteve na génese deste artigo, mas existem alguns caçadores que acham que essa lei é muito radical. Eu considero que a pessoa que vai conduzir e leva uma arma, automaticamente, deve arcar com as consequências. Mas, pelo contrário, se não se vai conduzindo e a arma está trancada com um cadeado e se quiser beber um copito, quanto a isto sou um bocado condescendente. Em síntese, esta lei deveria ser fortemente penalizante quando o condutor leva a arma e está a conduzir, ou se está alcoolizado no acto da caça, ou de transporte da arma. Quanto às restantes situações constitui uma discriminação em relação aos caçadores.
Outro aspecto ainda muito importante tem a ver com a emissão dos livretes que considero um autêntico flagelo. Eu bem sei que, numa reunião recente em Lisboa, foi-nos transmitido que a concessão da renovação de licenças de uso e porte de armas de caça e a emissão de livretes, autorizações para a aquisição de armas, iam ser aceleradas, mas o certo é que estão com uma média de 2 anos em atraso. Há um caso que está à espera do livrete há 6 anos ( José Carlos). Bem sei que prometeram que isto ia ser rapidamente resolvido. Bem sei que cerca de 4500 cartas emitidas este ano pelo comando da PSP foram devolvidas pelos seus destinatários por terem mudado residência, etc. O certo é que há um problema com os livretes e é um problema muito grave.
O livrete da arma é como o bilhete de identidade ou uma guia para que a pessoa possa circular. Sem o livrete significa não se pode inscrever a arma no cartão europeu das armas de fogo. Isso significa que não se pode ir caçar para um qualquer país europeu por não ter o livrete e não a poder inscrever no passaporte europeu das armas de fogo. Por outro lado, se por qualquer motivo eu ficar desgostoso de uma arma e a quiser oferecer a um amigo, filho ou a um primo, não o posso fazer por não ter o livrete. Resumindo e concluindo, existem neste momento centenas de casos que levam a que já haja um grande descontrole. Há um conjunto de armas em Portugal em situação ilegal.

Caça perde impacto na economia

Eu sei que esta lei das armas não pode ser vista numa perspectiva economicista. Mas, como se sabe, um estudo feito recentemente pela Federação Nacional de Caçadores e pela Confederação dos Caçadores Portugueses mostrou que o valor que a caça apura por ano, anda à volta dos 320 milhões de euros, movimentando à volta de 250 mil pessoas.
Com esta nova lei e com a crise, o que acontece é que, neste ano de 2009-2010, já tivemos cerca de 20 mil caçadores que não tiraram licença de caça. No ano de 1999 eram emitidas, a nível nacional, à volta de 250 mil licenças de caça e, neste momento, já estamos com um valor muito abaixo dos 200 mil. Este ano estima-se que se emitiram menos 20 mil licenças de caça. O número de armas legalmente vendidas desde Janeiro de 2009 até agora tem, aproximadamente, uma quebra de 60% relativamente ao ano passado.
Para além disso, o valor médio das armas, desde a entrada em vigor da nova lei das armas, baixou cerca de 4 vezes. Existe uma oferta no mercado que é uma coisa impressionante. Não queiram imaginar a quantidade de pessoas que me procuram e a amigos meus para venderem armas ou mesmo oferecer. É muito importante que estas questões sejam percebidas e levadas em conta. O que está a acontecer é que ali na zona do Porto Alto até Castro Verde e Almodôvar já não deve existir um único espingardeiro ou então estão mesmo a fechar. O que é que isto significa? Significa que estes indivíduos, por causa dos livretes, não conseguem vender uma única arma, porque segundo a nova lei das armas, só se consegue vender uma arma com o livrete. Portanto, esperando dois anos por um livrete, como é que se pode vender uma arma? Por exemplo, se eu quero uma determinada arma com uma determinada especificidade tenho de esperar pelo livrete não sei quanto tempo. A associação assume que isto não tem a ver com a lei mas com a operacionalização e com a maneira como as coisas funcionam.
Em relação ao artigo 69, alínea a), que tem a ver com a venda das armas em vigor, nós os caçadores açorianos, não temos acesso ao leilão de armas. Penso que chegou à altura de se criar um mecanismo que permita aos caçadores açorianos terem acesso aos leilões de armas. As armas são apreendidas, vão para Lisboa e só depois são colocadas em leilão, apesar de algumas agora serem colocadas na Internet mas nem todas as pessoas têm acesso a isso. Sugiro, até, que uma parte das armas apreendidas pudesse reverter a favor do Estado na Região ou a favor de um museu público nos Açores, sobretudo as com mais história.

Emigrantes quase não podem caçar

Também não quero deixar de referir outro aspecto que tem a ver com os emigrantes. Esta nova lei criou uma teia burocrática aos emigrantes que, praticamente, deixou de ser possível os emigrantes caçarem nos Açores ou em Portugal Continental. A lei está confusa e há muita informação dispersa.
Os nossos emigrantes precisavam de um tratamento dentro da lei mediante um acordo entre a PSP, os Serviços Florestais e a Alfândega para que pudessem facilitar as coisas. Havia aqui uma tradição de alguns emigrantes dos estados Unidos virem caçar para cá na época venatória, fazerem uma caçada ou duas com os seus amigos e esta é uma tradição que está a desaparecer o que, do meu ponto de vista, empobrece-nos bastante. Eles deveriam poder caçar em Portugal, com as licenças de uso e porte de arma e de caça dos Países em que residem e com o seguro que cobrisse eventuais danos causados em Portugal, é fortemente penalizante obrigá-los a ter as licenças nacionais. Aliás, o mesmo se passa com os caçadores estrangeiros que queiram vir caçar a Portugal. Copiem o que se passa em Espanha.

Plateia - Com a nova lei das armas temos uma base de dados a que temos acesso. Não podemos vender licenças a quem não tem licença de uso e porte de armas válida. Com a alteração que houve recentemente, caso não tenhamos fotocopia da licença de uso e porte de arma válida, entramos em contacto com todos os comandos da PSP para certificar se está válida ou não e para saber que licença vamos emitir, se com arma ou sem arma. Temos situações de emigrantes que têm a situação regularizada em Portugal. Estamos a falar de pessoas que passam 6 meses cá e 6 meses lá e vão renovando a licença. Têm de se submeter às novas regras, entre as quais, fazer os cursos de formação técnica e cívica e fazer exames. É uma questão de os emigrantes regularizarem a sua situação de caça aqui e nós vendemos uma licença de uso e porte de arma especial.

Gualter Furtado - Um caçador americano, para caçar em Espanha, tem de assinar um documento especial. O ano passado caçaram em Espanha cerca de 120 mil caçadores com origem nos Estados Unidos e em outros países europeus. Em Portugal nem chegou a 2000 porque, como sabem, o território nacional está ordenado, felizmente, e existem vários sistemas de caça que são os sistemas associativos, municipais, turísticos e existem grupos em Portugal que têm apostado na caça, em zonas rurais, e que não conseguem viabilizar explorações e não conseguem fazer nada com essa forma de actuar perante os estrangeiros e emigrantes.
Evidentemente, se um emigrante que seja cidadão emigrante ou português, que tenha a sua licença de uso e porte de arma legal nos Estados Unidos da América e que tenha um seguro universal, que tenha a sua carta de caçador em dia e a sua licença em dia que lhe permita caçar nos Estados Unidos, não deveria ser necessário ter a licença de uso e porte de armas do sitio onde vai caçar, tem é de estar devidamente legalizado e válido no seu País de residência.
O que eu acho absurdo é que um caçador nos Estados Unidos da América, com quem temos um conjunto de acordos e dos quais nos queremos aproximar mais, exerce o acto venatório legalmente nesse país e depois chega a Portugal e começa a ver uma grandessíssima complicação. Um caçador emigrante não necessita de ter a licença de uso e porte de arma do nosso país, bastaria ter a licença legal dos Estados Unidos, ou de outros, e depois preencher um papel para ter uma licença temporária. É assim que deveria ser feito. Acho que para o emigrante que tenha as coisas legalizadas no seu país é desnecessário fazer os papéis todos de novo. Não se pode prever com 6 ou 7 meses de antecedência a data dos exames porque cada pessoa tem a sua vida. É neste sentido que eu acho que esta lei, sem perda de rigor, devia ser adaptada e contornada.

Plateia - Sou bancário reformado, tenho 62 anos. Sou caçador desde os meus 12 anos e estou no mundo da caça por paixão de uma forma continuada e federada desde 1972. O passaporte europeu traz uma alínea muito engraçada sobre o número do livrete da arma. No Reino Unido os ingleses não querem saber do número do livrete, mas sim do número inscrito na arma. Esta é a grande diferença. Os serviços centrais continuam a colocar o número do livrete que não lhes diz nada por ser facilmente falsificável.

Gualter Furtado - Em algumas espingardas, o número que está nos canos é diferente do número que está na coronha. Isto significa que quando é emitido o livrete vem apenas o número que está na coronha e em determinados países eles querem que esteja registado o número da arma que está no cano e o número registado na coronha. Temos de ver que a Inglaterra é diferente em tudo. Nós andamos pela direita e eles pela esquerda. Muito cuidado com os livretes, às vezes um descuido pode sair caro e ser muito penalizante em muitos países.

Texto da autoria de Gualter Furtado


Nunca é demais falar sobre este tema, sobretudo quando existe tanta desinformação e desconhecimento em relação à própria Lei das Armas e Munições e à sua aplicação nos casos do dia-a-dia, pelo que se tratou de uma iniciativa de muito valor, que merece uma urgente e necessária reflexão, bem como a sua prossecução através de outras diligências de cariz semelhante.

21 de outubro de 2009

Portugal Campeão do Mundo de Santo Huberto

No passado dia 18 de Outubro, do corrente ano, realizou-se na Grécia, a final do Campeonato do Mundo de Santo Huberto e de Caça Prática.

Portugal, na final de Santo Huberto, sagrou-se Campeão do Mundo com o primeiro lugar obtido pelo Carlos Pires, de Barcelos, que também se classificou em terceiro lugar por equipas, com o contributo do Alberto Cantineiro, da ilha Terceira, o qual obteve uma excelente classificação.

Nas provas dos cães de parar, foi vice-campeão do Mundo, a título individual, outro português, desta feita o Vitor Silva e por equipas ocupou o mesmo lugar ou seja, sagrou-se Vice-campão na companhia do Matos, da ilha Terceira.


Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

III Aniversário

Faz hoje três anos que iniciei este blogue.

9 de outubro de 2009

Escritos da Caça Açoriana

São documentos das nossas Gentes, da nossa História, da nossa Cultura, registos das características, daquelas que nos diferenciam e distinguem dos demais, que nos identificam, que manifestam aspirações, desejos, temores e receios, virtudes e defeitos, que nos fazem iguais e diferentes, mas sempre Açorianos!

Na fotografia que ilustra este pequeno texto estão presentes três bons exemplos do que acabo de mencionar e cuja leitura vos aconselho.

Em primeiro plano está "Recordações", de João Gago da Câmara.
Trata-se de uma obra editada em 2002, da qual apenas foi efectuada uma tiragem de 500exemplares e cuja paginação, montagem e impressão esteve a cargo da Gráfica Açoriana, Lda.
No livro, entre outras recordações que a pessoa de grande qualidade que é seu autor nos narra ao longo da sua prosa, está uma referência ao Sargento Soares, do qual refere o seguinte: "foi talvez o melhor caçador que conheci e um inesquecível amigo e companheiro de muitas caçadas. Homem valentíssimo, de estrutura maciça, face extremamente rosada, olhar oblíquo, ombros largos e forte pescoço, faziam dele aquela inconfundível pessoa" e continua por mais algumas páginas.
Nesta ilha encontram-se alguns familiares do Sargento Soares que formam porventura o mais antigo grupo de caça a praticar a actividade venatória em Santa Maria.

Mais recente temos "Um Caçador Açoriano", da autoria de Gualter Furtado, editado que foi em 2006, também pela Gráfica Açoriana, Lda e numa tiragem de 500 exemplares.
A ele já me referi anteriormente e tanto este livro como o "Recordações" possuem inúmeras fotografias que complementam a informação publicada, a qual é de inestimável valor, enriquecendo de sobremaneira o património de qualquer biblioteca cinegética.

Por fim, mas nem por isso menos importante, estão 4 fotocópias retiradas dos exemplares originais do mensário denominado de "Caça", composto e impresso na tipografia d'O Açoriano Oriental, ao longo de 11 números, distribuídos que foram gratuitamente aos caçadores do distrito de Ponta Delgada (o qual ainda engloba o concelho de Vila do Porto) nos anos de 1936 e 1937, cujo redactor, editor e proprietário se tratou de Eduíno G. Botelho.

Numa breve deslocação que fiz à ilha de São Miguel, no passado mês de Setembro, aproveitei para ir à Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada a fim de visitar esse espaço e de matar o pouco tempo livre que me restava, pelo que indaguei sobre a existência desse jornal, um autêntico documento histórico e de muito valor.
A instituição é possuidora de todos os números e poderá cedê-los em formato digital, bastanto para isso, apenas solicita-los.

Uma curiosidade que achei deliciosa na leitura deste jornal, encontra-se na coluna designada por "Receitas uteis aos caçadores". A do primeiro número reza as seguintes, transcritas tal e qual se lêem: "UMA BOA GRAXA PARA BOTAS - Oleo de linhaça cru (bôa qualidade) 1/2 litro; Cebo de Holanda ... 30 grs; Cêra bela ... 23 grs; Resina ... 16 grs. MODO DE FAZER - Derrete-se ao calor o sebo, a cêra e a resina (podendo coar-se para ficar mais pura) e junta-se aquecendo sempre, o oleo a pouco e pouco mexendo sempre; quando se tem tudo misturado mexe-se sempre até arrefecer, podendo-se pôr a vasilha em agua fria para ser mais rapido; uma vez arrefecida aplica-se nas botas com um pincel ou escova branda.
Ferrugem dos canos das ESPINGARDAS
Indicam como sendo muito bôa a seguinte receita: Petroleo ... 1/2 litro; Parafina solida ... 50 gra. Faz-se dissolver a parafina no petroleo. Untam-se os canos e mais a ferragem com esta solução e passadas 24 horas limpam-se muito bem com pano seco."

A este mensário voltarei mais à frente, pois é demonstrativo de excelentes exemplos de associação e participação activa para o desenvolvimento da caça neste distrito, dos quais nos sentiríamos muito envergonhados se fossemos contemporâneos de tais promotores, pois apesar de antigos demonstraram que muito souberam fazer em tempos de grandes dificuldades e que, ainda hoje, passados tantos anos, revelam possuir a nobre capacidade para ensinar.

Concluo com o meu reconhecido e profundo agradecimento a todos estes Açorianos que um dia tiveram a ousadia e a amabilidade de partilhar comigo recordações, vivências e as tão estimadas receitas que tanto enriquecem os escritos da caça Açoriana e nos tornam melhores Caçadores.

14 de setembro de 2009

Açores no Campeonato do Mundo de Santo Huberto

Nos dias 12 e 13 de Setembro realizou-se, em Estarreja - Murtosa, a Final Nacional do Campeonato de Santo Huberto organizado, pela primeira vez em conjunto, pela FENCAÇA - Federação Portuguesa de Caça em associação com a CNCP - Confederação Nacional dos Caçadores Portugueses.

Esta final contou com os patrocínios do Clube de Pesca e Caça da Murtosa, da Associação de Caçadores e Pescadores de Avanca e ainda das Câmaras Municipais da Murtosa e de Estarreja.

Nas provas, que foram julgadas por 6 Juízes, incluindo alguns com estatuto internacional, participaram 26 concorrentes em representação de todo o País, tendo sido a delegação dos Açores constituída pelo Alberto Cantineiro, Olívio Ourique, Ricardo Rodrigues, Cremilde Marques e José Toste, ficando como Delegado da equipa insular o Gualter Furtado.

Quatro dos Caçadores Açorianos classificaram-se nos primeiros 10 lugares e o Alberto Cantineiro, da ilha Terceira, acompanhado da sua braco alemã, Íris dos Açores, nascida na Graciosa, sagrou-se Campeão Nacional e irá representar Portugal na Final Mundial de Santo Huberto, a ocorrer na Grécia, na companhia do segundo classificado, Carlos Pires, da Federação de Caçadores do Minho.

É de enaltecer a importância que assume este feito desportivo já que os Caçadores Açorianos, para além de serem todos amadores, lutam também com imensas dificuldades para treinarem os seus cães de parar, entre outras contrariedades que se lhes apresentam, mas, mesmo assim e contra todas as adversidades, teimam em levar o nome dos Açores e de Portugal mais longe e mais alto.

Vamos torcer para que os nossos desportistas consigam alcançar os mais elevados desígnios e que nos possam presentear com os melhores resultados!

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

3 de setembro de 2009

O Livro e a Caça

Um livro é, por definição, essencialmente, um conjunto de folhas de papel, em branco, escritas ou impressas, soltas ou cosidas, em brochura ou encadernadas, mas um Livro de Caça, é muito mais do que isso!

Este é um tema que penso abordar e registar neste blogue desde há algum tempo a esta parte, mas a falta de oportunidade foi uma condicionante insensivel e indiferente à minha vontade, pouca liberdade, por isso, me concedendo.

Um Livro de Caça é diferente, não por abordar o tema da caça, mas por ser escrito por um Caçador, por aquele que viveu o momento preciso que descreve e não por uma terceira pessoa que o imagina. Na minha opinião, quando isso acontece, ou seja, ser escrito por outrém que não o Caçador, passa a ser uma obra de ficção e de qualidade relativa que, na maior parte das vezes, não vale nem o próprio papel onde foi impresso.
Para mim, assim, um livro de caça tem de possuir duas características essenciais para que possa ser devidamente aproveitado: ser escrito por um Caçador e estar de acordo com as regras da composição.

Felizmente tenho a sorte de possuir alguns poucos destes, lamentavelmente não todos quanto desejo, e deles falarei, atempadamente!

10 de agosto de 2009

Apresentação da Confraria


No dia 9 de Agosto de 2009, nas Fontinhas, Ilha Terceira, foi apresentada a Confraria da Gastronomia Cinegética dos Açores, abreviada para CGCA, numa cerimónia que contou com as representações da Câmara Municipal da Praia da Vitória, da Secretaria Regional da Economia e do Senhor Representante da República para os Açores, o Juíz Conselheiro José Mesquita, e ainda com a participação de muitos Caçadores e Amigos.

O evento foi apadrinhado pela Confraria dos Gastrónomos dos Açores e do seu Presidente António Cavaco, bem como pela Confraria do Vinho Verdelho, através do seu Presidente, tendo sido empossados, na mesma altura, como Confrades da CGCA Gualter Furtado - Presidente da Assembleia Geral e Olívio Ourique - Presidente da Direcção, que em Sessão a realizar na Ilha do Pico, no próximo dia 3 de Outubro, darão posse aos restantes Confrades.

A Confraria compromete-se a defender o património gastronómico cinegético dos Açores e de Portugal já que esta se trata da primeira Confraria Gastronómica do País, no que à caça diz respeito, constituída legalmente e com todos os seus Orgãos Sociais em funções, podendo ser contactada através do Olívio Ourique, com o contacto 917206756.

Em associação com a apresentação da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores o Clube Cinegético e Cinófilo, na mesma data, prestou uma homenagem a alguns caçadores Açorianos cuja vida e presença no mundo da caça se pautou sempre por um sentido ético elevado, uma grande paixão, numa postura alegre e de defesa da caça com princípios.
Estes Homens apresentam-se hoje com cerca de 80 anos e continuam sérios devotos de Santo Huberto.
São eles os Senhores Gabriel José e Alvarino, da Ilha Terceira, o Senhor Valquirio Louro, da ilha Graciosa, e o Senhor Henrique Pacheco, da Ilha de São Miguel.
Cada um deles, à sua maneira, deram um inestimável contributo para que muitos de nós fossemos hoje Caçadores e para que os cães de caça continuem a ter um papel central no acto venatório.

A constituição dos Órgãos Sociais da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores, ficou a seguinte:

Direcção

Presidente – Olívio Ourique
Vice-Presidente – Cremildo Marques
Vogal – Germano Nunes
Suplente – Isaac Ourique
Suplente – José Teixeira

Assembleia-Geral

Presidente – Gualter Furtado
Vogal – Virgínio Carvalho
Vogal – Valquírio Louro

Conselho Fiscal

Presidente – Vivaldo Azinhaes
Vogal – Mário Bettencourt
Vogal – Vítor Inácio

Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

16 de julho de 2009

Uma Caçada na Ilha de São Jorge

Andavam a desafiar-me insistentemente para ir observar o que se estava a passar com o coelho bravo na Ilha de São Jorge e obviamente também para caçar.

Recusei muitas vezes estes convites, já que por princípio não caço no período de reprodução das espécies cinegéticas, mas em meados de Julho, embora existam ainda muitos láparos, o período crítico da reprodução das coelhas está ultrapassado e lá disse que sim aos meus companheiros de caça da Terceira (Olívio) e do Pico (Cremilde). Reunimos alguns cães de caça (já que “caçar” sem cães não é caça) e rumamos a São Jorge. Ao nosso Grupo juntaram-se o “Bivalves”, do Continente, que nos acompanhou numa de apreciar as paisagens e saborear a gastronomia local e por arrasto ver os seus dois podengos trabalhar, o Vitor, também do Continente, e o Valério (Russo), ambos a trabalhar na Ilha do Pico.

A Ilha de São Jorge tem paisagens e vistas deslumbrantes, naquela Ilha tem-se a sensação de estarmos num Arquipélago e no Atlântico.
A Montanha do Pico é uma presença incontornável e a Graciosa, o Faial e mesmo a Terceira estão sempre presentes no horizonte.
Quanto à restauração sugiro uma ida ao Amílcar, na Fajã do Ouvidor, que não se irão arrepender.
É pena alguns restaurantes não utilizarem mais os produtos locais, que são excelentes (carne, lacticínios e peixe), chegando-se ao cúmulo de alguns restaurantes não terem na sua ementa o famoso queijo de São Jorge.

Atenção com o betão e às construções desenquadradas do meio em que se inserem!
A este propósito a Ponta dos Rosais está a pedir uma intervenção urgente que minimize o estado de abandono a que está votada. Mas vão a São Jorge que irão gostar.

Espingardas tínhamos 4, e 6 cães do Olívio, 2 do Bivalves e 1 meu.
Caçamos três dias e o resultado foi muito satisfatório. De referir que nestes três dias fizemos umas refeições á base de coelhos bem prolongadas e ainda fizemos algum turismo com visitas às Fajãs, etc., isto é, podíamos ter ainda cobrado mais coelhos.

Voltando aos coelhos bravos a situação parece-me preocupante, justificam-se pois algumas medidas correctoras da actual densidade desta espécie cinegética, mas sem nunca por em causa a sua sustentabilidade. Não podemos ser tacanhos nem fundamentalistas ao ponto de não reconhecermos que é imprescindível o envolvimento dos agricultores e estes tem de ter rendimento com a presença do coelho bravo, caso contrário a situação pode acabar mal, com tentações criminosas de introdução da hemorrágica e proliferação deliberada de gatos lançados nas pastagens com consequências devastadoras sobre outras espécies como é o caso das Galinholas.

Abrir a caça todos os dias e todo o ano, distribuir pontualmente cartuchos aos “caçadores” são medidas avulso, quando a resposta deve ser integrada e coordenada!
Em situações como a de São Jorge a solução de fundo tem de estar numa lei da caça (1)que permita o ordenamento do território, e que seja suficientemente atractiva para as Organizações da Caça e os Caçadores.
Paralelamente deve ser incentivada a caça social para as pessoas de menores recursos, e aqui também entram os transportes aéreos inter-ilhas que apresentam um preço proibitivo tanto para as passagens das pessoas como para o transporte dos cães (custa uma fortuna) e do produto da caçada.
Uma outra medida passa pela divulgação da elevada qualidade da carne do coelho bravo incentivando o consumo local (nós oferecemos uma parte importante dos coelhos que caçamos a pessoas da Ilha de São Jorge).

A bem da caça e do coelho bravo e da Lavoura justifica-se que os Recursos Florestais (2) promovam um levantamento da situação, contratem quem perceba do assunto, envolvam os lavradores e alguns caçadores e depois tomem as medidas que se justificarem, mas por amor de Deus à partida não antecipem as conclusões e sobretudo não criem as condições para a “emigração“ de quem ousa ter idéias e propostas válidas.
O Coelho bravo nunca deve ser tratado como uma praga e deverá ser sempre encarado como uma mais valia cultural, desportiva e até de rendimento.



(1)- Será que a nova Lei da Caça nos Açores já está em vigor, mesmo com alguns artigos declarados anti-constitucionais?
(2)- Chamem a este debate o Desenvolvimento Agrário, que me parece ter lá gente discreta.

Texto e fotografias da autoria de Gualter Furtado, Julho de 2009

30 de junho de 2009

A Caça à Narceja nos Açores

Divagações e algumas reflexões sobre a sustentabilidade da sua caça no arquipélago.

No início de Junho deste ano, quando regressava aos Açores depois de uma ausência de dois meses, surpreendi-me a pensar que há mais de um mês que não via uma narceja, o que já não me acontecia desde 2004: estar um mês sem observar narcejas…

Nas terras altas da Terceira

Contornando aqui o que esta confissão possa significar no domínio do patológico, depois de uma brevíssima passagem por São Miguel, viajei até à Terceira, em trabalho, e, logo que tive oportunidade procurei as pastagens altas da ilha, para os lados do Pico da Bagacina. Esta é uma zona onde ainda se encontram algumas áreas de pastagens naturais, com interessantes manchas de turfeira e juncos, e solos bastante húmidos, mesmo durante o período estival.

Entrei então numa pastagem que conheço bem, passeando sob o olhar curioso e atento dos touros, um elemento que faz parte da paisagem local. Após prospectar bem o terreno, durante mais de meia-hora, comecei a inquietar-me pela ausência de narcejas e por não lograr um único levante. Mesmo naqueles locais com “bom aspecto”, com juncos e alguma água. Ainda assim continuei. Aproximava-me então dum dos tão característicos – e “amaldiçoados” – muros de pedra solta quando, a cerca de meio-metro dos pés, me salta uma narceja, num “desajeitado voo de ave ferida”, a voar rente ao solo e indo pousar a algumas dezenas de metros de distância. Estaquei de imediato. Um passo a mais poderia significar a morte duma cria ou o esmagamento dum ninho. Com efeito tratava-se dum ninho. Com quatro ovos. E não se tivesse dado o feliz acaso da ave me ter saltado tão próximo, e de ter visto exactamente o local donde havia levantado, nunca teria descoberto este ninho, de tal maneira se encontrava bem escondido e camuflado entre a vegetação. Ali estava, num buraco perfeito entre as ervas, o ninho de narceja mais “invisível” que observei até hoje. Afastei-me do local rapidamente, de modo a não perturbar mais, permitindo que a fêmea regressasse o mais rápido possível à incubação dos ovos. Enquanto me afastava levantei uma segunda narceja, um macho, que ganhando altura se exibiu num ruidoso voo de parada, vocalizando no ar durante alguns minutos. Continuei por mais algum tempo, a procurar na restante área com potencial habitat de reprodução, não voltando a levantar mais nenhuma ave. No entanto, já próximo do carro encontrei os restos duma narceja morta (e predada*). Fiquei então a pairar num misto de exaltação e apreensão pelo que tinha assistido. Saía dali com a certeza de que o local ainda era uma zona de reprodução mas em estado de degradação/decadência. Quando em 2005 ali tinha feito um censo, existiam 2-3 casais de narcejas e agora existia apenas um.

No dia seguinte, uma visita nas pastagens vizinhas mais não fez do que acentuar a minha apreensão. Embora não tendo feito uma busca exaustiva, a observação de apenas mais quatro aves (e ainda os despojos duma segunda ave predada) deixou-me preocupado e a pensar no assunto durante os dias seguintes.

*Um juvenil não-voador e uma fêmea adulta, encontrados numa área relativamente reduzida, fazem adivinhar uma elevada mortalidade durante o período reprodutor, devido à grande vulnerabilidade das fêmeas durante a fase de incubação e às crias/juvenis enquanto estão dependentes dos progenitores.

No Planalto dos Graminhais

Alguns dias depois, já em São Miguel, fui até ao Planalto dos Graminhais, o único sítio nesta ilha onde existe a possibilidade de observar narcejas, durante a época de nidificação. Não visitava o lugar desde o início de Abril e estava com bastante curiosidade, para tentar perceber se eram evidentes os efeitos de uma época de interdição da caça no local. Esta foi a primeira reserva de caça, criada com o propósito de proteger esta espécie, não só nos Açores como a nível nacional. E muito bem, na minha opinião. Com efeito, não fazia sentido continuar a caçar-se a Narceja na única área de reprodução no Grupo Oriental. Menos ainda quando se sabe estarmos na presença duma população reprodutora muito reduzida, de cerca de meia-dúzia de casais (6-7 em 2005; 3-4 em 2008), que tem como zona potencial de nidificação uma área com menos de 100 ha.

Embora durante os meses de Outono e Inverno sejam ali caçadas/observadas, com regularidade, aves oriundas do continente europeu (a Narceja-comum Gallinago gallinago e a Narceja-galega Lymnocryptes minimus) e da América do Norte (a Narceja de Wilson Gallinago delicata), o risco de estarem a caçar- se as aves residentes/potenciais reprodutores era muito elevado e, com a minha experiência pessoal do local e de caça a esta espécie, diria que bastante efectivo. O abate de duas aves ali anilhadas (2007 e 2008), uma a algumas centenas de metros do local onde havia sido anilhada e a outra a poucos quilómetros, na Achada das Furnas, parecem corroborar estes receios.

Mas abandonemos por momentos as reflexões e divaguemos um pouco pelo Planalto dos Graminhais. Que, naquele dia, percorri embevecido e quase em extâse – se a felicidade existe este é o seu estado mais próximo – durante seis horas. Sem parar. Quase sempre envolto por um manto de nevoeiro ou, mais exactamente, pelas nuvens. O lugar é de uma beleza ímpar, coberto por juncos e almofadados montes de musgão, em infinitos tons de verde. E o nevoeiro e tempo chuvoso, que ali encontramos durante grande parte do ano, transmitem ao local uma aura de misticismo únicas. Embora desconhecido é, seguramente, o mais selvagem e belo local de São Miguel e uma das mais originais e antigas paisagens de Portugal. É também uma turfeira e, porventura, a pastagem natural e zona húmida de altitude mais bem conservada do país.

Além do aspecto lúdico e do evidente prazer pessoal que retiro sempre que vou aos Graminhais, esta visita proporcionou-me também, inesperadamente confesso, a confirmação de nidificação de três casais de Narceja: três crias (duas delas já “esvoaçantes”), acompanhadas por adultos, de duas ninhadas diferentes, e um ninho com quatro ovos. Se a descoberta das crias não me surpreendeu muito pela sua localização, pois deu-se na zona onde têm sido localizadas mais aves durante a época de reprodução, a descoberta do ninho deu-se num local “novo” onde, embora habitualmente ali observe uma/duas aves, nunca havia confirmado a sua nidificação. Ainda, o comportamento de algumas das outras aves levantadas/observadas faz-me pensar na forte possibilidade de mais 2-3 casais na zona. Cerca de 14 indivíduos diferentes observados (nunca havia observado tal número durante a época de nidificação) e, embora não tenha feito uma prospecção exaustiva, o que me foi dado observar faz-me pensar na possibilidade, bem real, de 5-6 casais na actualidade, se pensar que podem ter-me passado despercebidas algumas aves (sobretudo alguma fêmea, a incubar ou junto de alguma cria).





No terreno das especulações

Embora avaliando apenas as duas últimas épocas de reprodução, a comparação, talvez prematura, oferece-nos um quadro optimista. Esta avaliação, repito, é no entanto ainda feita “a quente” e, mais do que sustentada por um recenseamento, é resultado da observação directa e do conhecimento empírico que o autor tem da espécie nos Açores e, sobretudo, do estado da sua população no Planalto dos Graminhais.

Assim, este aparente aumento, poderá dever-se à:

- Interdição da caça = estabilidade e incremento da população reprodutora. Com efeito, após uma época sem se caçar na zona, “salvaram-se” não só alguns possíveis reprodutores como – habitat disponível existe –, eventualmente, devido ao sossego agora proporcionado, houve novos indivíduos a estabelecer-se na zona.

Ou, por outro lado a:

- Factores meteorológicos = aumento de habitat disponível e aumento da taxa de sobrevivência das crias. De facto, se chover com maior regularidade as aves poderão sentir-se, por um lado, impelidas a ocupar novos territórios, e por outro, se o clima for mais doce na altura da eclosão dos ovos, a possibilidade de sobrevivência das ninhadas aumenta.

Pessoalmente acredito mais na primeira possibilidade. E se voltar ao início deste texto, à Terceira, os “factos” clarificam-na. Na Terceira, na zona atrás referida (assim como nos restantes territórios de nidificação), está autorizada a caça à narceja. Até ao início da época pré-nupcial. Para se ter uma ideia, no dia 18 de Fevereiro, neste local, ouvi um macho a vocalizar (Chip-call), sendo que a caça a esta espécie havia fechado no fim de semana anterior… Se adicionar-mos o facto de a caça, ao coelho, ter aberto em Agosto, em toda a ilha, e revelarmos que no início de Agosto ainda podem existir crias e juvenis a ensaiar os primeiros voos… Depois, tem havido um aumento do número de caçadores a caçar à narceja e a exercer uma maior pressão sobre a espécie nestas áreas.

Se agora voltarmos ao Planalto dos Graminhais e pegarmos nas primeiras impressões do autor, depois de uma época em que a caça no local esteve interdita, por muito que nos esforcemos, teremos dificuldade em justificar aqui a manutenção da caça a esta espécie.

Poderemos ainda abordar a questão da ilha do Corvo. A única no arquipélago açoriano onde não se caça. A nenhuma espécie. E, embora com habitats de nidificação semelhantes aos que existem em São Jorge, Pico ou Flores, é a ilha com maior densidade de narcejas ou seja, aquela em que proporcionalmente existem mais narcejas. De longe.

Mas não deixemos aqui espaço para mal-entendidos. Não sou contra a caça à narceja. Pelo contrário. A narceja é uma espécie que, embora tendo sofrido um ligeiro declíneo nos últimos anos, a nível europeu, apresenta um estatuto de ameaça pouco preocupante, estando classificada pela BirdLife International como SPEC 3. E no nosso país, no Continente e nos Açores, é um invernante comum e regular. Apenas não concordo – acho mesmo que não faz sentido – que se autorize a sua caça nos seus territórios de reprodução. Sobretudo em locais onde os factores de ameaça são evidentes, como a degradação do habitat e reduzido número de efectivos populacionais. Penso que em alguns locais, como por exemplo aqueles que são referenciados no texto, não se devia autorizar a sua caça e, em relação às outras espécies, apenas se deveria permitir o exercício venatório entre Outubro e o fim de Janeiro.

Por exemplo, acho de uma imoralidade atroz (e inabilidade na gestão dos recursos cinegéticos) que nas Flores a caça ao coelho esteja aberta durante todo o ano, em todo o lado, e todos os dias. Não pelos coelhos, que são de facto imensos, mas pela perturbação que a sua caça pode causar noutras espécies, como as galinholas e as narcejas, que fazem o ninho no solo. E como estamos no campo da cinegética fiquemo-nos apenas por estas duas espécies.
Também aqui se deveriam proteger algumas zonas, pelo menos durante o período de reprodução.

Penso que no Pico e em São Jorge, devido às especificidades dos terrenos frequentados pelas narcejas (“pantanosos”, ventosos e chuvosos), assim como pelos efectivos existentes no Outono e Inverno, o impacto da caça será menor do que noutras ilhas. E, na verdade, o número de caçadores que ali caçam à narceja é pouco significativo. Por outro lado, em Santa Maria e na Graciosa, por serem ilhas onde a espécie não nidifica, pode-se ser menos escrupuloso com os locais e calendários venatórios.

Tal como para todas as espécies cinegéticas dos Açores, o calendário venatório deve ser feito e ajustado tendo em conta o seu estatuto fenológico e particularidades. Para tal é necessário conhecer bem a dinâmica das populações, em todas as ilhas, não só no período de Outono/Inverno como durante a época de reprodução. Como se sabe, em ilhas pequenas os ecossistemas e o equilíbrio das populações de aves é quase sempre muito frágil. Fazer censos regulares, durante todo o ciclo anual, e estudar a ecologia das espécies, é essencial para que se possa estabelecer um calendário criterioso: a bem da caça e da conservação.


Texto e fotos da autoria de Carlos Pereira

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