7 de março de 2010

A Propósito de Caça

"A Propósito de Caça", publicado no ano de 1982, é da autoria de João Maria Bravo, uma das personalidades mais conhecidas do Mundo da Caça Português e que foi, inclusive, o Director da prestigiada Revista "Diana", publicada até ao ano de 1975.
O autor justifica a existência desta obra do seguinte modo: "têm sido alguns os que, especialmente nos últimos anos, me têm falado em fazer publicar, num só volume, o que sobre caçadas e caça escrevi, bem ou mal, durante dezenas de anos.
Argumentam estes que, através dos meus escritos, se poderá não só refazer parte de um período importante da história cinegético-venatória portuguesa mas, ainda, colher elementos para uma futura lei da caça."

Trata-se este de um dos Grandes Livros de Caça Nacionais, à semelhança d' "A Caça no Império Português", por exemplo, não só quanto à sua dimensão e ao número de páginas que ostenta (752), mas também ao nível do conteúdo, que é de um valor documental assombroso, sendo-o tanto ao nível da Caça propriamente dita, com imensas gravuras, narrações pessoais e de terceiros que relatam histórias e se debruçam sobre a temática da organização cinegética, como ao nível da história recente deste País.

Relato um episódio que sustenta a afirmação anterior e que se encontra perfeitamente documentado na obra em epígrafe.
Tudo se passou no ano de 1974, poucos meses após a revolução armada que acabou por dar origem ao actual regime político português, quando a Revista "Diana", na sua edição de Outubro daquele ano, através do seu n.º 255, publicou um artigo intitulado de "Chacina Geral da Caça - no dia da abertura geral".
Lê-se, então, em geito de necrologia, um conjunto de notícias identificadas através dos seguintes títulos: "Crime degradante contra a natureza e a Cinegética Nacional"; "Extinguem-se os últimos linces existentes em Portugal (relativa à Herdade da Baraona); "Vitelos e Vacas roubados ou mortos a tiro (relativa à Herdade de Pinheiro)"; "Destruição total de patos"; "Açude de achigão esgotado à rede (relativa a Rio Frio)"; entre outras da mesma natureza, que divulgam e relatam a balbúrdia, as tropelias e os crimes cometidos a coberto da pretensa liberdade que caracterizou a abertura geral da caça, no ano de 1974.

José Ortega y Gasset faz uma afirmação, inserta no ensaio "Sobre a Caça e os Touros", que se enquadra perfeitamente no descrito acima e que acaba por corroborar os factos denunciados e publicados na "Diana", através da pena de João Maria Bravo: "em todas as revoluções, a primeira coisa que fez sempre o «povo» foi saltar as cercas das coutadas ou demoli-las, e em nome da justiça social perseguir a lebre e a perdiz".

O facto é que, em resultado de tão vigorosa escrita, no dia 12 de Dezembro do ano de 1974, recebeu o João Maria Bravo, o Ofício n.º 119/74-C, de 09 de Dezembro de 1974, remetido pela Comissão AD-HOC Para a Imprensa, Rádio, Televisão, Cinema e Teatro, que aplicou à Revista "Diana", "ao abrigo do art.º 3.º, do Decreto-Lei n.º 281/74, de 25 de Junho, a multa de 150.000$00, sem prejuízo da responsabilidade criminal prevista nas leis vigentes que possa ser exigida às pessoas singulares, as quais ficam, como determina a lei, sugeitas ao foro militar".

Em geito de resposta e de esclarecimento para o que então se passava, a "Diana", no seu n.º 256, saído em Janeiro de 1975,  publicou uma carta aberta à comissão supra citada, onde se valeu das suas razões e concluiu dizendo que: "calarmo-nos, por medo, é uma forma de servilismo, uma maneira de morrer, sem razão" e que, "em democracia assim como na vida autêntica o medo não tem lugar".
No mesmo número, desta feita numa notícia de 30 de Janeiro de 1975, a Revista "Diana" informou que iria suspender a sua publicação após 27 anos  de actividade, mas que não o fariam "por espírito de intransigência ou por medo", mas porque "continuar equivaleria a termos de pensar, antes de escrevermos, nas consequências inerentes ao que íamos afirmar, por mais justas e verdadeiras que as nossas afirmações pudessem ser e a só dizermos não o que quiséssemos ou devêssemos mas, só, o que pudéssemos."
Na página precedente a estes dizeres, encontra-se publicada uma carta pessoal, datada de 2 de Dezembro de 1971 (três anos antes do 25 de Abril e deste incidente) proveniente do Gabinete do Presidente, da Presidência do Conselho, relativa a um acontecimento semelhante, desta feita protagonizado pelo serviço de censura do regime derrubado, bem demonstrativa do modo ardente, vigoroso e apaixonado de como a "Diana" se expressava quando estava em causa a defesa da Caça, independentemente de quem exercesse o poder.

"Meu Caro João Bravo:

Depois da conversa com o seu irmão recebi a Diana e apressei-me a ler o discutido artigo. Quando cheguei ao fim disse de mim para mim: «Se isto é o artigo com cortes, o que diria ele sem cortes...».
Você tem um estilo duro e agressivo e gosta de chamar nomes às pessoas ou aos ... «poderes públicos». O que não acrescenta a razão que possa ter e não favorece o êxito das suas teses. A censura podia não ter cortado nada: mas se num ou noutro caso os cortes são injustificados, noutros creio que lhe prestou um serviço. Tudo se pode dizer: é uma questão de sabê-lo dizer. O estilo contundente, repito, não favorece a civilização necessária no trato entre pessoas que não querem ser selvagens. E não é só selvagem o que mata caça indiscriminadamente...
De caça não sei nada - a não ser que dificilmente vejo dois caçadores de acordo sobre os seus problemas.
Desculpe a rabujice do seu velho professor que tanto o estima,

Assina: MARCELO CAETANO"

Em poucas palavras nos diz este pequeno texto muitas coisas...
E este livro é disso um grande exemplo de informação e saber, bem como da qualidade e da experiência do seu autor e colaboradores, mas também da prova de uma inquestionável paixão pela Caça!
De "A Propósito de Caça" foram numerados e autografados pelo autor, quinhentos exemplares com encadernação de luxo, trabalhada à mão em carneira e ouro, e, da leitura que dele se faz e até ao seu final, poder-se-á inferir que, a tal multa,... continua por pagar e que há muito caiu no esquecimento, mas que a memória da elevada qualidade da "Diana" e da mensagem que transmitiu, essas... prevalecem!

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