29 de janeiro de 2011

Gualter Furtado - A Caça Açoriana na Escrita

No passado dia 27 de Janeiro de 2011, o Correio dos Açores publicou um artigo, da autoria do jornalista Afonso Quental, intitulado "Tertúlia Açoriana - Gualter Furtado e a literatura: A caça açoriana na escrita".
Trata-se de uma entrevista ao Caçador Açoriano Gualter Furtado, sobre a publicação do seu novo livro "UM CONTRIBUTO PARA A DEFESA DA CAÇA", que tomei a liberdade de transcrever:

"Livro «UM CONTRIBUTO PARA A DEFESA DA CAÇA», de Gualter Furtado, na impressão: «Defendo que a caça, quando praticada com desportivismo, amizade, lealdade, segurança, respeito pelos nossos amigos cães, respeito pela natureza e pelas espécies cinegéticas e numa aliança com a ciência e a investigação, é um verdadeiro acto de cultura».

Correio dos Açores - Nome, naturalidade, cidade e país onde reside?
Gualter José Andrade Furtado, natural do Vale das Furnas, resido presentemente nos Arrifes, concelho de Ponta Delgada, nos Açores.

O Primeiro livro que leu?
História do Vale das Furnas do Urbano de Mendonça Dias.

Quando começou a sentir a paixão pela leitura e pela caça?
Comecei a ler desde muito novo, os livros de aventuras foram sempre uma presença constante na minha juventude, depois conheci na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada dois Professores que nos incentivavam a ler e a escrever que foram o Dias de Melo e o Jacinto Soares Albergaria. O primeiro artigo que escrevi com cerca de 12 anos foi um pequeno trabalho que publiquei no Açoriano Oriental a defender a constituição de uma casa museu do Armando Cortes Rodrigues, e muito influenciado pelo Dr Jacinto Soares de Albergaria que para além de ser meu professor era também meu vizinho durante as férias grandes no Vale das Furnas. Acresce que convivi intensamente com amigos Furnenses que estudavam no Seminário e durante as férias quase se sentiam na obrigação de nos transmitir conhecimentos. Depois a nossa família era muito amiga do saudoso padre Afonso Quental, com quem também aprendi muito e fui um grande amigo. Quanto à caça esta é uma Paixão que tenho desde que me conheço, muito influenciada pelo meio ambiente, pelo meu avô, por alguns dos meus companheiros de escola primária como seja o António Manuel Galante e por um pescador da Ribeira Quente que foi o Manuel Caranguejo.

Qual é o seu género literário preferido?
Didáctico.

Na escola primária era habitual ter boas classificações nas redacções?
Sim, sem falsas modéstias fui um BOM aluno. Quando fui para a escola primária com 5 anos já levava a lição bem estudada, as minhas vizinhas, muito cultas para a época, tinham autênticas escolas nas suas casas, e entretinham-se a ensinar alguns dos miúdos da nossa rua, eu fui um deles. Quando fui para a primeira classe não tinha a idade oficial para frequentar a escola, a minha professora, aceitou-me na escola correndo alguns riscos, de tal forma que sempre que batiam à porta da sala de aulas eu corria logo para debaixo da secretária de madeira, o que se revelou muito útil num grande sismo que danificou seriamente a nossa escola, na ocasião eu não sofri nada graças ao meu treino intensivo de me esconder sempre que sentia qualquer barulho. Esta situação fez que eu para fazer a quarta classe tivesse de vir realizar o exame a Ponta Delgada. Enfim outros tempos.

Quais os livros que mais o marcaram?
Os livros que mais me marcaram foram “Os bichos” de Miguel Torga e o “Cão como nós” do Manuel Alegre.

Indique-me um livro de um escritor açoriano de que gostaria de ter sido o autor?
Gostaria de ter escrito muitos e de diversos escritores, mas refiro o “Pastor das Casas Mortas” do Daniel de Sá.

Convive normalmente com escritores, poetas, e cantadores açorianos. Que é que mais admira nessas expressões de cultura?
Tenho amigos escritores que muito prezo como são o Daniel de Sá e o Onésimo de Almeida, como também conheci Poetas Açorianos, mas foram os Cantadores ao Desafio que mais me marcaram. Em todos eles o que mais admiro sãos os seus conhecimentos e o seu carácter genuíno. A afirmação dos Açores sem nunca perder a universalidade é o que mais admiro na cultura.

Já escreveu um livro sobre caça. Sabemos que em breve irá lançar outro. Que espaço geográfico e social caracteriza nesse livro.
A parte substancial do Livro «UM CONTRIBUTO PARA A DEFESA DA CAÇA» é dedicada aos Açores, mas a minha reflexão ultrapassa a nossa Região, até porque a Caça não tem fronteiras e é hoje um problema global. Defendo que a caça, quando praticada com desportivismo, amizade, lealdade, segurança, respeito pelos nossos amigos cães, respeito pela natureza e pelas espécies cinegéticas e numa aliança com a ciência e a investigação, é um verdadeiro acto de cultura.
Não fora a acção de protecção e recuperação de habitats feita por muitos caçadores por este mundo fora e muitas espécies consideradas cinegéticas já tinham visto a sua dimensão demográfica ter sido reduzida substancialmente, ou estariam extintas, refiro-me por exemplo às aquáticas.
A mudança dos habitats, as doenças e os vírus, a mudança do clima, a utilização de químicos e pesticidas, os furtivos, matam muito mais do que os Caçadores. Por conseguinte, este livro é um contributo para a sustentabilidade da caça e um elogio à componente social e gastronómica que deve presidir ao acto da caça.

É um apaixonado pela Caça. Como tem sido a sua actividade nesse desporto.
A minha participação no Mundo da Caça tem sido constante, naturalmente com alguns erros que procuro corrigir, mas sempre de uma forma activa e transparente.
A caça sem cães e sem os outros amigos não faz sentido. Sou, presentemente, o presidente da Assembleia Geral da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores, a primeira do país nesta vertente, o que muito me honra.
Escrevo em revistas nacionais de caça e procuro ter uma presença regular na imprensa escrita açoriana. Sempre que tenho oportunidade faço passeios pedestres em locais em que as espécies cinegéticas estão presentes, e visito museus de história natural.
Em síntese, a caça não é só matar, cada vez mais isto é o que me interessa menos."

26 de janeiro de 2011

Caçadas aos Javalis

Em 1959, através da Casa Véritas – Guarda, e da autoria do Dr. Francisco Maria Manso, foi publicado “CAÇADAS AOS JAVALIS – Pelo DR. FRAMAR”.
Trata-se de uma obra de referência sobre a caça maior em Portugal que, à semelhança de outras que por aqui venho reproduzindo alguns episódios quando o tempo me sobra, deve fazer parte de qualquer biblioteca cinegética que se preze.
Neste livro também encontramos, além de muitas fotografias, diversas referências ao uso da buzina e da corneta nos diversos momentos das caçadas, que o autor aqui designou por campanhas.
Transcrevo então, para memória futura e deleite dos leitores, o texto da convocatória para a Campanha Sétima, onde acabaram por comparecer duas dezenas de espingardas, e a conclusão da narrativa da Campanha Oitava.

"Para conhecimento geral dos apaixonados destas guerras, se mandou lavrar a presente circular, encerrando os dez mandamentos que constituem o regulamento - lei das nossas caçadas:

Caçada aos javalis na Quinta do Major

1. É preciso considerar que os javalis não vivem em bandos… e para caçar com fidalguia, se devem alvejar com bala única, para matar… ao estribo com punhos de renda.
2. Não se vai caçar em coutada. A região é muito extensa, ondulada, com matos de toda a ordem e, porque é extensa, acidentada e coberta de matos, ali se têm acoutado javalis dos primitivos tempos e os actuais, seus descendentes, consta que vivem orgulhosos do seu puro-sangue.
3. São precisos três dias de batidas e mesmo assim não se bate a décima parte dos terrenos onde se acoitam, motivo porque vivem lá ainda, LOBOS, LINCES e JAVALIS… e como eles são pouco curiosos e não vêem observar-nos de perto… vemo-nos obrigados a procura-los, sem que nos digam onde estão… o que é sempre uma trabalheira dos diabos… e às vezes sem sorte nenhuma para dar com eles.
4. Donde se deduz, que se aparecerem e se alvejarem dois ou quatro daqueles «CATEDRÁTICOS» é já andar com muita sorte e aqui fica a prevenção para os que pensam fazer cintos de javalis, como se fazem de codornizes…
5. O regime da caçada não tem similar na Europa. Quem tudo manda é o director. A ele todos devem pedir e ele a todos servir.
6. O caçador não tem direito a quarto, nem cama, nem roupa, nem talher, nem mesa… Mas há-de ficar debaixo de telha, comer, deitar-se e dormir provavelmente… Deve, pois, fazer-se acompanhar de talher, dois pratos de alumínio ou esmaltados, guardanapo (se não achar supérfluo), um copo, toalha e sabão, se quiser lavar-se, porque não é obrigatório… Trazer cobertores, um ou dois, conforme o frio que quiser passar.
7. O custo da caçada, por «cabeça» com pagamento a 50 batedores, quatro dias, aluguer de montadas «puro-sangue» de Malcata, com vitela abatida à vista do hóspede, diária no «PALACE DAS SELVAS» e o mais que não se imagina… deve dar uma conta aproximada entre 600$00 a 800$00.
8. O caçador que abater, a tiros de espingarda, a peça de caça procurada, LOBO, LINCE ou JAVALI, tem direito à cabeça e à pele da vítima… A carne e os ossos pertencem ao resto do exército, que tudo dividirá em partes iguais.
9. Carregar a espingarda só depois de destinada a porta. Preferir bala de chumbo. As portas são sorteadas dia a dia.
10. O que faltar nesta legislação é resolvido livremente pelo director da caçada e, da sua sentença, não cabe apelação para nenhum tribunal nem mesmo para a O.N.U."


Como referi acima e para concluir, deixo-vos os dois últimos parágrafos da Campanha Oitava:

"Entrada triunfal na freguesia de Quadrazais e Vila do Sabugal com visitas obrigatórias das crianças das escolas, de mistura com adultos, ao belo exemplar abatido… Abraços de despedida e até para o ano.
Como recordação, conservo ainda a cabeça do javali, embalsamada, e a pele cerdosa e escura, é o tapete que piso todos os dias, ao sentar-me à minha secretária… e assim a caçada continua!"

25 de janeiro de 2011

Um Contributo Para a Defesa da Caça

"Um Contributo para a Defesa da Caça" é o título do mais recente livro da autoria de Gualter Furtado.
Embora seja o fruto de uma enorme paixão, nas 215 páginas ilustradas pelas mais de 150 fotos que o compõem constata-se a realização de uma análise bastante objectiva sobre o estado da caça nos Açores, no continente e em alguns países do Mundo onde o autor teve a oportunidade de exercer o acto venatório.

Transmite-nos a mensagem que a caça, quando praticada com desportivismo, amizade, espírito de entreajuda, respeito pelo próximo, pela natureza e pelos animais é um acto social valioso, de cultura e muito importante.
Demonstra-nos que o caçador é um defensor da natureza, que respeita as espécies cinegéticas e que possui uma grande relação de cumplicidade com os seus cães, os quais trata muito bem e não abandona, razão porque, neste quadro aqui exposto, defender a caça é uma atitude muito positiva que a ninguém deve envergonhar.
Diz-nos ainda que o caçador colabora e promove a recuperação dos habitats de tal forma que, por este mundo fora, se não fosse a actividade venatória e este intenso empenhamento que só os caçadores conseguem demonstrar, muitas espécies animais, cinegéticas e não cinegéticas, com particular destaque para algumas aquáticas, já estariam extintas.
Numa altura em que a actividade venatória foi novamente escolhida como alvo a abater por alguns grupos radicais e extremistas ditos amigos dos animais e ambientalistas sedentos de protagonismo fácil, a publicação deste livro, do que ele contém e transmite é um apelo aos homens de boa vontade e um contributo para a afirmação dos valores e da cultura que só a caça e a sua envolvência social e cultural poderão proporcionar.

O lançamento desta obra impar da literatura cinegética insular e nacional, cuja capa foi pintada pela reconhecida artista plástica Maria José Cardoso de Souza, terá lugar no próximo dia 26 de Fevereiro, pelas 17H00, na Academia da Juventude da Ilha Terceira, numa sessão presidida pelo Senhor Juiz Conselheiro Dr. José António Mesquita.

15 de janeiro de 2011

Outono - Elogio da Caça

"Dantes, aos primeiros sinais de Outono, eu entrava em depressão. Mais do que a chegada do Outono, o que me deprimia era o fim do Verão, pois que sempre fui devoto dessa verdade enunciada por Rilke: "só o Verão vale a pena". Imaginar um longo ano pela frente sem as praias e os banhos de mar, sem as noites quentes nos terraços e pátios, as noites em que o luar atravessa a sombra dos pinheiros e vem pousar no chão do quarto onde dormimos de janela aberta, a maresia trazida pelo vento de sueste nas manhãs marítimas, as frutas de Verão nos mercados, o peixe fresco brilhando ainda com luminosidades de prata, as vozes que se transmitem ao longe, dobrando esquinas e ruelas do que resta dos nossos souks em aldeias ou até em Lisboa, tudo isso, imaginar um ano inteiro sem tudo isso, deixava-me irremediavelmente triste e desamparado, como se as marés de equinócio tivessem varrido todas as possibilidades de alegria, todos os dias felizes. Se o Verão morria assim, eu morria também com ele, de cada vez.

Mas, há uns anos, tudo mudou. Alguns amigos começaram a levar-me à caça e eu descobri que, além do mar, também havia a terra, e depois do Verão havia o Outono: foi uma descoberta tardia, mas decisiva, como se tivesse descoberto uma quinta estação do ano e, mais do que isso, um novo pretexto para a felicidade. Rapidamente tomei a minha decisão e resolvi tornar-me caçador. Comecei pelo princípio, passo por passo, e são muitos: as aulas e o exame para obtenção da carta de caçador, aprendendo coisas para mim inteiramente desconhecidas, como o ciclo de vida e hábitos dos animais, modalidades de caça, princípios de balística, como criar e treinar cães de caça, etc.; depois, atravessei todo o imenso processo burocrático para a concessão de licença de porte de arma, escolhi as armas (que ainda hoje são as mesmas), experimentei vários tipos e marcas de cartuchos até perceber com quais me dava melhor e fiz um mínimo de aulas de tiro; finalmente, experimentei dois cães - um tão bom, que mo roubaram, o outro tão mau que foi dispensado e hoje é um urbano-depressivo, cheio de doenças e tiques de personalidade.

Muito embora o campo não me fosse propriamente estranho, eu não sabia como eram os campos de caça. Não fazia ideia do mundo novo, primordial e deslumbrante, que iria encontrar. Não imaginava as manhãs de geada ou de orvalho suspenso nos arbustos e nos ramos das árvores, as manhãs de frio polar ou as de chuva e lama, onde nos enterramos até à alma e maldizemos a decisão de ter saído da cama - que logo depois bendizemos, assim que os primeiros raios de sol rompem as nuvens e o frio ou que a primeira peça de caça tomba no chão. Não imaginava as longas caminhadas por cabeços ou planícies, por leitos secos de rios ou através da água, o cheiro a esteva e a giesta, ou as longas emboscadas, atento a todos os ruídos, ao simples agitar de uma folha, adivinhando a presença próxima dos animais antes de os ver. As esperas silenciosas à beira de um riacho, molhando a cara na água cristalina, aproveitando para colher poejos ou beldroegas tardias, aproveitando para pensar na vida, no essencial, no que verdadeiramente importa. A sós, com os três maiores luxos que um homem pode ter: espaço, tempo e silêncio. Porque aqui não há multidões nem urbanizações turísticas, não há pressa nem vozearia de conversas inúteis.

E não sabia que os 'selvagens dos caçadores' (que os há, como em tudo o resto), também conseguem, outras vezes, reunir um grupo de amigos que tudo pode separar à partida, mas que finalmente se encontram unidos por essa paixão primitiva e talvez inexplicável da caça. Gosto especialmente dos jantares que antecedem as manhãs de caça, das conversas soltas e sem pressa, das anedotas que dão a volta e regressam no final da época. Há quem imagine que as conversas dos caçadores são sobre futebol, mulheres e política. Pois lamento desiludi-los: são sobre armas, cartuchos, cães, viagens, o estado dos campos e das culturas e as memórias antigas de 'lances' de caça, umas vezes inventadas, outras reais, que cada um guarda consigo e a que só a um outro caçador vale a pena contar. E gosto muito das pequenas pensões ou hotéizinhos manhosos de província, onde se joga cartas à lareira do salão (a inevitável 'sueca') e onde os quartos têm pesados armários antigos de madeira e uma casa de banho 'moderna' enxertada no meio do quarto, com o polibã para poupar espaço. Gosto de passar em revista e preparar todo o 'material' de véspera: verificar se as armas estão bem limpas, se os cartuchos escolhidos são os melhores para o que se vai caçar, se a roupa e tudo o resto estão preparados para não perder tempo de manhã, em que cada minuto conta. E depois é tentar adormecer cedo - o que nem sempre é fácil, porque a adrenalina e a excitação já começam a fazer-se sentir. E, se o sono vier cedo, hei-de adormecer feliz, pensando que no dia seguinte vou à caça, enquanto tantos outros, lá na cidade, vão gastar a noite e a madrugada em bares, discotecas, festas e concertos onde se atropelam para atrair as atenções dos fotógrafos das revistas sociais. E,quando eles, se calhar, ainda nem vão no primeiro sono, já eu estou sentado à mesa (trôpego de sono, é verdade) para algum extraordinário pequeno-almoço, como, por exemplo, açorda alentejana com ovo e bacalhau.

"Ah", dirão vocês agora, "e o prazer sádico em matar animais - disso não fala?". Falo sim, para dizer que não existe tal coisa como o prazer de matar. Existe, sim, o prazer de acertar, que é uma consequência lógica do prazer de atirar. Nenhum caçador gosta de errar o tiro ou, pior ainda, de errar parcialmente e deixar um animal ferido, em vez de morto redondo. É por isso que a ética exige que, no caso da caça grossa, que pode resistir muito tempo a um ferimento, o caçador vá atrás da peça ferida até lhe poder dar o chamado tiro de misericórdia. E é por isso, também, que nenhum caçador que se preze atira a uma ave que não esteja em voo ou a um coelho ou uma lebre que não esteja em corrida. Claro que há caçadores que o fazem, mas eu não caço com eles e os meus amigos também não. Também não caçamos o que não comemos e fazemos questão de saber cozinhar uma canja de pombo, uma perdiz de escabeche ou um arroz de tordos. E de nos sentarmos todos à mesa, terminada a 'jornada', e ficarmos à conversa pela noite adentro, moídos de cansaço e de felicidade tranquila, de bem com a consciência, de bem com a natureza e as suas leis, em paz contra as imperfeições do mundo, as suas falsidades e fúteis aparências.

E se me deu para escrever este texto é, não só porque abriu a época de caça, mas também por outras duas razões. Uma, porque amanhã, diz a lei, é 'período de reflexão' e eu mantenho a tradição de não falar de política antes de eleições. Outra, porque a caça é um grande tema de reflexão e uma grande escola de vida e de valores - de companheirismo, de fairplay, de conhecimento e respeito pela natureza, de paciência, persistência, de reaprendizagem de coisas primordiais e evidentes por si mesmas. E, por isso, antes que a multidão politicamente correcta da nova doutrina urbana e 'civilizacional' queira julgar como selvagens a caça e os caçadores, ou mesmo bani-los face à lei, convinha que a sua arrogante ignorância ficasse a saber que falam do que não sabem e não percebem, e que, para infelicidade sua, jamais entenderão."


Texto da autoria de Miguel Sousa Tavares, publicado na edição do Expresso de 9 de Outubro de 2009, aqui transcrito com a devida vénia.
Fotografia retirada da internet, sem autor identificado.

9 de janeiro de 2011

Apelo Contra a Caça - Resposta

No passado dia 01 de Janeiro de 2011, alegados defensores e amigos dos animais, como o Teófilo José Chaves de Braga e o Sérgio Diogo Caetano, entre outros, lançaram um apelo público contra a caça às aves migratórias neste arquipélago açoriano, mais concretamente contra a caça às galinholas, narcejas e patos, de modo a pressionarem e condicionarem o desempenho do Governo dos Açores na elaboração do Regime Jurídico da Protecção da Biodiversidade.
Alegam que “em todo o mundo a caça está a sofrer uma enorme pressão por parte de uma nova geração mais sensibilizada para a defesa do património natural, sendo cada vez maior o número de caçadores desportivos que têm trocado a caça pela observação de aves, pela “caça” fotográfica ou pela realização de filmagens. Que, de igual modo, em todo mundo, em substituição da caça as pessoas optam pelo pedestrianismo, que tem mais de 15 milhões de participantes, e pelo Birdwatching ou Observação de Aves com mais de 80 milhões praticantes”.
Apesar do abundante chorrilho de afirmações que compõem contra a caça, não indicam qualquer fonte fidedigna que as possam sustentar como reais e verídicas. Pelo que aqui fica o desafio para que o façam, para que nos demonstrem que o que afirmam é verdade e que são sinceros.

Os nomes dos subscritores desse documento constam do Correio dos Açores, de 05/01/2011, e o segundo dos signatários chama-se José de Andrade Melo.

Em Santa Maria também temos um José de Andrade Melo conotado com grupos ditos ambientalistas, que se diz coordenador do Clube dos Amigos e Defensores do Património Cultural e Natural de Santa Maria, membro dos Amigos dos Açores e é um activo escrevinhador na coluna ambiental d’O Baluarte de Santa Maria.
Esse senhor, no passado dia 20/11/2009, n’O Baluarte, e através do artigo intitulado “Os Cagarros estão de partida – salvemos os nossos primeiros habitantes”, da sua autoria, chamou todos os caçadores de criminosos, porque, na sua concepção, eram os caçadores que apanhavam essas aves e que depois as vendiam à margem da lei a quem as quisesse comer.
Cerca de um ano depois, no passado dia 13/11/2010, na estação de rádio do Clube Asas do Atlântico, no decurso de um programa que teve como tema a Caça e onde participei, o mesmo José de Andrade Melo já teve o cuidado de fazer a distinção entre o caçador com o “C”, o “c” e o furtivo, afirmou que não era contra a caça e que não a abominava, nem a hostilizava. Que reconhecia inclusivamente, vantagens e benefícios no campo do lazer, económico e ecológico.
Mais, que a caça promovia a saúde, o convívio e auxiliava as famílias menos favorecidas e tudo isso depois de afirmar, no dia 11/10/2010, pelo dia mundial do animal, n'O Baluarte, que "os animais são seres sencientes e que sentem como gente"!
Referiu ainda nesse programa de rádio, de 13/11/2010, que, no ano de 2001, num encontro que teve lugar no mesmo clube, sob a temática da diversificação económica da ilha, tinha versado sobre o turismo na perspectiva ambiental e referido que a caça poderia ser uma alternativa económica e que era importante que isso fosse para diante.
Com base nisto tudo enviei-lhe um correio electrónico a solicitar que me indicasse se era ele o segundo subscritor desse apelo, porque não fazia qualquer sentido mudar de opinião tantas vezes, tão radicalmente e em tão pouco tempo; dizer que se defende uma coisa num dia e fazer outra, completamente oposta, noutra altura, mas optou por não me responder. Lá saberá o porquê ou então não saberá!...

O Teófilo Braga, assim que nos fizer o favor de informar onde foi buscar a informação que utiliza para fundamentar o seu apelo, cuja veracidade urge corroborar com urgência, sob pena de tudo parecer um falso motivo para se declarar mais uma crise onde ela não existe, que nos indique também quem são, concretamente, os seus apoiantes, se é que o pode fazer...
Até um melhor esclarecimento por parte dos visados, decidirá o leitor a qualidade e o valor a atribuir a este "apelo".

Relacionado:
O Novo Terrorismo Ecológico, de Victor Pires

14 de dezembro de 2010

Aves dos Açores

Venho sugerir a aquisição deste livro, intitulado Aves dos Açores, da autoria de Carlos Pereira e editado no mês de Setembro de 2010, pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves.
Aborda, nas 128 páginas que o compõem, as diferentes espécies de aves residentes, endémicas e migratórias que se podem encontrar nos Açores.

Sobre a Estrelinha diz-nos o seguinte:

“Ferfolha ou Estrelinha; Estrelinha-de-Poupa (continente)

3 Variedades: Regulus regulus azoricus (Seebohm 1883); Regulus regulus sanctae-mariae (Vaurie 1954); Regulus regulus inermis (Murphy 1929)

Biometrias: Comprimento/envergadura: 8-9cm; 13-15cm
Peso: 5-7g

Reprodução
Período de reprodução: Entre Abril e Julho
Dimensão da Postura e período de incubação: 9-11 ovos; 15-17 dias
Autonomia: Primeiros voos a partir dos 17-22 dias

Ocorrência nos Açores
Subespécie endémica. Residente. Existem três subespécies endémicas: R. r. azoricus (São Miguel), R. r. sanctae-mariae (Santa Maria) e R. r. inermis (Grupo Central e Flores). Sendo rara na Graciosa, a espécie apenas está ausente no Corvo.

Distribuição Mundial
Distribui-se pelo Paleártico Ocidental, incluindo a região asiática, desde o sul da Sibéria, Japão, norte do Irão e Himalaias até à China, está presente em praticamente toda a Europa sendo menos comum na região mediterrânica.

Morfologia
É a mais pequena ave da Europa. Muito pequena e irrequieta, a sua plumagem é essencialmente castanha-esverdeada, com as asas pretas e margens brancas na parte superior; a garganta é branca e o peito e o abdómen são dum branco-acastanhado; as suas patas são pretas, assim como o bico, curto e fino. Tem uma lista, de “tipo poupa”, larga na coroa: amarela nas fêmeas e laranja nos machos.

Habitat
Trata-se essencialmente duma ave florestal e, embora mostre uma clara preferência por manchas de floresta nativa, sobretudo com urze e cedro, adapta-se bem a povoamentos mistos e mesmo a zonas de floresta exótica.

Onde Observar
Embora seja uma espécie “confiante”, trata-se porventura do passeriforme mais difícil de observar dos Açores. Mesmo sendo relativamente comum na maior parte das ilhas do arquipélago, o seu tamanho e irrequietez, assim como o facto de se movimentar geralmente no meio da folhagem, tornam muito difícil a sua observação. Para quem conheça o seu característico zi-zi-zi, que assinala habitualmente a sua proximidade, a observação torna-se mais fácil.

Alimentação
Insectos, vermes minúsculos e aranhas.

Estatuto de conservação
A espécie não vem referenciada no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. A nível europeu surge Não Ameaçada sendo a sua situação considerada de Segura (Birdlife International).

Estatuto Legal
Está presente no Anexo II da Convenção de Berna. Uma parte do seu habitat está no Anexo I da Directiva Habitats.

Ameaças
Não está identificada qualquer ameaça que ponha em risco a sua população no arquipélago açoriano” (Pereira, Carlos: 92-93)

O livro encontra-se disponível no Centro Ambiental do Priolo, sito no concelho do Nordeste, na Ilha de São Miguel, e em diversas livrarias.
O preço para sócios da SPEA é de 8,00€ e para não sócios de 12,00€.
Poderá ser solicitado o seu envio à cobrança com um acréscimo de 1,32€.
O Centro Ambiental do Priolo poderá ser contactado através do e-mail: centropriolo@spea.pt

9 de dezembro de 2010

A Narceja e a sua Nidificação em Portugal

A Narceja-comum Gallinago gallinago é uma espécie politípica com uma distribuição Holártica e divide-se em três subespécies, duas das quais habitam o Paleártico Ocidental: a Narceja-comum G. g. Gallinago e a Narceja-das-Féroe G. g. faeroeensis que se distribui pela Islândia, ilhas Féroe, Shetland, Orcadas e St-Kilda. A outra subespécie – reconhecida agora pela A.O.U. (American Ornithologists Union) como uma espécie distinta desde 2002 –, a Narceja de Wilson G.g. delicata, com alguns registos ocasionais na Europa (Inglaterra, Irlanda e Portugal Continental) e África (Senegal e Cabo Verde), é um invernante regular no arquipélago dos Açores, distribuindo-se por toda a América do Norte e Gronelândia.
A Narceja-comum, a subespécie nominal, é sem dúvida a mais conhecida das três subespécies, sendo também a que apresenta uma mais vasta distribuição, estendendo-se por toda a Eurásia. A nível europeu a sua população encontra-se estável, embora apresente, nos últimos anos, em alguns países europeus, um ligeiro declínio. A sua distribuição alarga-se ao longo do ciclo anual por uma área geográfica que vai da Grã-Bretanha à Sibéria Oriental e do Norte da Escandinávia a Portugal durante o período de reprodução; do Sul da Escandinávia até à África Tropical no Inverno, período durante o qual as costas do Oeste de França e as ilhas Britânicas assumem uma grande importância. A bacia do Mediterrâneo, a Ásia Menor e a Índia, assim como parte do Extremo-Oriente recebem, também, importantes contingentes de narcejas no Inverno.

A reprodução
Embora com um ano de idade já tenham atingido a maturidade sexual, a nidificação efectiva nem sempre acontece a partir desta data e isto deve-se sobretudo ao facto de os machos mais velhos serem os primeiros a ocupar os melhores locais com habitat mais favorável, não deixando geralmente grande espaço aos machos mais jovens – e inexperientes -, embora estes possam constituir uma população de substituição, no caso de alguma coisa acontecer aos mais velhos.
As paradas nupciais acontecem sobretudo de manhã e à tarde, às horas crepusculares mas, por vezes, também durante a noite, até à chegada das fêmeas. Desde que estas últimas chegam (são fiéis aos mesmos locais, ano após ano) elas procuram um território de qualidade sobrevoando o local de nidificação; os machos redobram então a excitação e os «balidos» para atrair uma delas sobre os respectivos territórios. Quando uma zona lhe convém, a fêmea pousa e emite pios de chamamento sexual discretos; os machos dos arredores, incluindo aqueles já acasalados, respondem-lhe no mesmo tom, antes de se lhe juntarem efectuando a típica parada, com as asas arqueadas (Arched-wing display): os machos em voo, geralmente a uma dezena de metros do solo (mas por vezes muito mais alto) descem devagar até à fêmea com as asas juntas acima do dorso e mantidas firmemente arqueadas, as patas pendentes, o bico inclinado a 45º e a cauda desfraldada na horizontal. Chegados ao solo, eles recomeçam esta parada à volta da fêmea, encarquilhada, chamam-na, «balem», fazem loopings, com as asas na vertical e podem tomar também a postura de voo arched-wing display, podendo esta parada ser, tanto a 40m de altura como junto ao solo.
No entanto os casais não se formam logo, de forma espontânea, pois as fêmeas ao princípio aceitam acasalar com vários machos. É apenas quando a fêmea encontra um território que lhe convém, e escolhe o local de construção do ninho, que o casal se forma. O macho fica então por perto guardando o seu território, mas se alguma outra fêmea passa pelo local, ele tentará copular com ela.
O ninho, pouco elaborado, é construído pela fêmea. Ela faz quatro ou cinco depressões com o peito, no solo ou num monte de erva, de juncos, urze ou espadana; por fim escolhe dentre elas uma, bem dissimulada na vegetação, que será o ninho definitivo.
As posturas mais precoces acontecem a partir de Março na Grã-Bretanha, mas a maior parte tem lugar durante a segunda quinzena de Abril e muitas apenas acontecem em Maio.
A média das posturas é de quatro ovos, e a fêmea efectua a mesma a qualquer hora do dia, ao ritmo de um ovo com um intervalo de 24 a 30 horas. As posturas de substituição são frequentes em caso de perda da primeira, embora não se tenha a certeza quanto à possibilidade de a fêmea efectuar duas posturas por época.
A incubação é feita apenas pela fêmea, que começa a mesma entre a postura do terceiro e quarto ovo, ou mesmo após o último. A incubação tem a duração de 18-22 dias.
O macho aparentemente desinteressa-se desta fase da vida do casal, embora continue a cantar e em voos de exibição, até à eclosão dos primeiros ovos; então, após a nascimento das duas primeiras crias (por vezes apenas uma), ele que tinha seguido de muito perto toda a fase de eclosão, toma a seu cargo estas últimas afastando-se de seguida. Esta partilha da ninhada corta em definitivo os laços do casal e as duas primeiras crias não chegarão a conhecer nem a mãe nem os irmãos. Este fenómeno aumentará certamente as probabilidades de sobrevivência das crias face aos predadores.
As crias, nidífugas, são alimentadas nos primeiros seis dias pelos progenitores, bico a bico; após este período elas próprias passam a sondar o solo e tornam-se auto-suficientes neste aspecto desde o décimo dia.
Aos 19-20 dias os juvenis estão em condições de voar e emancipam-se em definitivo às seis semanas.

O habitat
A Narceja escolhe para se instalar durante este período todo o tipo de zonas húmidas turfosas onde abundam a espadana, os juncos e os musgos. As zonas onde aparecem salgueiros, amieiros, bétulas ou Larícios parecem ser um bom indicador de habitat favorável à ocorrência da espécie.
É possível encontrar ninhos até uma altitude de 1000 m na Europa Central, mas a nidificação acima dos 1600 m é normal no Quirguistão e acontece por vezes – raramente – acima dos 2200 m, junto de lagos. De uma maneira geral, os meios húmidos abertos com formações de vegetação baixa, onde o solo macio apresenta uma grande riqueza orgânica, ou seja um potencial alimentar elevado, são sítios preferencialmente procurados. A necessidade de um amplo campo visual para poderem avistar potenciais predadores fazem com que as narcejas tenham de instalar o seu ninho ao abrigo da vegetação herbácea.

Portugal continental
No Continente é um Invernante comum, entre Outubro e Março, com as aparições mais precoces no início de Agosto e as mais tardias em Maio. Distribui-se de Norte a Sul, em todas as zonas húmidas com habitat favorável, sendo claramente mais comum no Litoral Centro (Ria de Aveiro e Vale do Mondego) e nos Estuários do Tejo, Sado e zonas adjacentes. Os habitats mais procurados são: arrozais, pauis, culturas alagadas, lagoas e margens de ribeiras e lameiros.
Em Portugal, actualmente, no Continente, a Narceja nidifica a uma altitude de 1000 m/1200 m (Montalegre/Planalto da Mourela).
No Norte de Portugal a nidificação da Narceja é conhecida desde 1918. Aí pelos anos setenta do século passado existiriam ainda algumas centenas de casais, mas desde então assistiu-se à sua quase extinção como nidificante. Estima-se que, actualmente, apenas exista uma pequena população, de menos de 10 casais, entre a zona Leste do Gerês e a área do Concelho de Montalegre.
As razões desta dramática queda no número de casais reprodutores deve-se sem dúvida a repentinas alterações no habitat, nomeadamente o abandono de práticas agrícolas tradicionais e o consequente desaparecimento dos lameiros naturais substituídos, muitas vezes, por lameiros intensivos.

Nos Açores
Embora nos Açores seja uma espécie residente, até há pouco tempo quase nada se sabia acerca desta população.
Sobre a possível nidificação da Narceja nas ilhas, a primeira referência é de 1870, mas só em 1903, ao ser abatida uma fêmea com ovos, nas Flores, se teve a certeza da sua nidificação no Arquipélago.
A situação actual
É conhecida a nidificação da Narceja em sete ilhas do arquipélago, sendo Portugal, com cerca de 400 casais, o país da Europa Meridional com maior número de casais nidificantes.

São Miguel
Durante o Outono/Inverno é uma espécie relativamente comum na zona das lagoas, no Planalto dos Graminhais e na Achada das Furnas.
Sabe-se agora que grande parte destas narcejas é oriunda da América do Norte, como o atesta a identificação e análise de algumas dezenas de indivíduos aqui caçados, nas épocas venatórias de 1999/2000 e 2007-2008, onde se verificou que metade das aves abatidas pertenciam à (sub)espécie G. g. delicata (Narceja de Wilson).
A população reprodutora é muito reduzida e apenas se conhece a sua nidificação no Monte Escuro e no Planalto dos Graminhais, a uma altitude de 784/961 m de altitude. A estimativa actual do número de casais em São Miguel é de 4-6 casais.

Terceira
Na Terceira, nos meses de Outono e Inverno, a narceja é um visitante comum. A população reprodutora está concentrada, sobretudo, na zona central da ilha, em áreas de pastagens semi-naturais, utilizadas por gado bovino, ocorrendo a uma altitude que varia entre os 250 e os 650 m.
O número de casais estimados para a Terceira é de 34-38 casais.

Faial
Embora num passado recente a espécie deva ter tido uma área de distribuição mais alargada, actualmente apenas se reproduz na Caldeira e na Serra da Feteira, entre os 575/915 m de altitude. O número de reprodutores cifra-se em 6-10 casais.

Pico
Embora ainda tenha uma grande área potencial para a reprodução da Narceja, o excesso de gado bovino e actividades agrícolas associadas – sabe-se que é uma das principais causas de destruição de ninhos – e a degradação das pastagens semi-naturais têm reduzido muito, nos últimos anos, a área disponível essencial à nidificação da Narceja nesta ilha.
Grande parte da população nidificante do Pico está concentrada na zona N/NE, nomeadamente na zona das lagoas (a uma altitude de 715/950 m), sendo o número estimado para esta ilha de 85-88 casais.

São Jorge
São Jorge é a ilha onde a nidificação da espécie tem uma distribuição mais alargada, sendo também aquela que tem o maior número de casais reprodutores em todo o Arquipélago, com 47,9% do efectivo total, ou seja: 180/193 casais. A altitude de ocorrência varia entre os 535 e os 950 m.
Também aqui se assiste a um excesso de gado bovino e à drenagem das pastagens semi-naturais, convertidas, na maior parte dos casos, em pastagens tratadas, empobrecendo grandemente o solo em termos hídricos e consequentemente retirando condições a que as narcejas encontrem habitat favorável no período de reprodução.

Flores
Nas Flores a altitude de ocorrência da espécie varia entre os 480 e os 720 m e a população nidificante está estimada em 30-34 casais.

Corvo
O Corvo é a ilha da Região Autónoma, a seguir a São Jorge e ao Pico, com o maior número de casais reprodutores: 41-51; sendo esta a ilha dos Açores com maior densidade de casais reprodutores (6,8/8,5 casais/km2).
De assinalar o facto de o número de casais existente na ilha estar condicionado ao Caldeirão e às encostas que o ladeiam.
A altitude de ocorrência da espécie no Corvo varia entre os 399 e os 766 m.

Conclusão:
Em Portugal a área de ocorrência da Narceja, durante o período de reprodução, pode variar entre os 250 m e os 1200 m de altitude. A proximidade de lagoas e zonas de pastagem turfosas, entremeadas de Rapa, juncos, cedro e Urze são os locais escolhidos para a reprodução da espécie no nosso país.
Assim, será importante no futuro a manutenção de vastas áreas de pastagens (semi-) naturais, impedindo que essas zonas sejam drenadas ou transformadas em pastagens intensivas, tal como implementar medidas que minimizem as actividades agrícolas/pecuárias nesses locais.
A caça não será uma ameaça directa para a Narceja pois, provavelmente, grande parte das aves abatidas será invernante. O facto de ser uma espécie pouco conhecida, faz com que raramente seja procurada, sendo apenas alvo de «encontros» ocasionais com os caçadores. No entanto um conhecimento dos efectivos populacionais das espécies cinegéticas ao longo do ciclo anual pode ser um instrumento de gestão fundamental e seria importante que fossem efectuados censos com regularidade de modo a perceber a dinâmica populacional da espécie, sobretudo, no arquipélago dos Açores.

Bibliografia:
Bannerman, D. & Bannerman, W., 1966. Birds of the Atlantic Islands. Vol. 3 – A History of the Birds Of the Azores. Oliver & Boyd Ltd, Edinburgh and London.
Beintema, A. J. & Saari, L., 1997. Snipe, Gallinago gallinago. P. 288-289. In: The EBCC Atlas of Breeding Birds: Their distribution and abundance: Hagemeijer, W. J. M. & Blair, M. J. (Ends). T. & A. D. Poyser, London, U.K. 903 p.
BirdLife International (2004). Birds in Europe: population estimates, trends and conservation status. Cambridge, UK: BirdLife International. (BirdLife Conservation series no. 12).
Chavigny, J. & Mayaud, N., 1932. Sur l’Avifaune des Açores. Généralités et Étude Contributive (Suite). Alauda. IV – 3 : 304-308.
Cramp, S. & Simmons, K., 1983. Handbook of the Birds of Europe the Middle East and North Africa. The Birds of Western Paleartic. Vol. III. Royal Society for the Protection of Birds. Oxford University Press.
Del Hoyo, J., Elliott, A. & Sargatal, J. (Eds) 1996. Handbook of the Birds of the World.Vol. 3. Lynx Edicions, Barcelona, Espana. 882 p.
Devort, M., Trolliet, M. & Veiga, J. 1986. Les Bécassines et leurs Chasses. L’Orée, Bordeaux, France. 368 p.
Godmann, F., 1870. Natural History of the Azores or Western Islands. Jonh Van Voorst, Patermoster Row, London.
Green, R. E. 1982. A Study of the Breeding Biology of commun Snipe (Capella gallinago) o¬n Lowland water Meadows in Cambridgeshire, England. I. W. R. B., W. S. R. G. Newsletter 8: 8-9.
Green, R. E. 1983. Progress Report o¬n Studie of breeding commun snipe o¬n Lowland Water Meadows in England. I. W. R. B., W. S. R. G. Newsletter 9: 26-28.
Green, R. E., 1985. Estimating the abundance of breeding Snipe. Bird Study. 32: 141-149.
Hartert, E. & Ogilvie-Grant, W. R., 1905. o¬n the Birds of the Azores. Novitates Zoologicae. XII: 80-129.
Mason, C. F. & Macdonald, S. M. 1976. Aspects of the Breeding Biology of Snipe. Bird Study 23: 33-38.
Noticiário Ornitológico, nº 186, Maio 2005.
Ogilvie, F. M. 1920. Field Observations o¬n British birds. Selwyn & Blount Ltd, London, U. K. O. N. C.
Pereira, C., 2005. Recenseamento de Galinhola Scolopax rusticola, de Narceja Gallinago gallinago e de Bufo-pequeno Asio otus no Arquipélago dos Açores. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves 49 p. Lisboa.
Reis Jr., 1924. Notas Ornitológicas – A Reprodução em Portugal de Gallinago gallinago (Lin.). Anais do Instituto de Zoologia da Universidade do Porto. Pp 35-39.
Rouxel, R. 2000. Les bécassines du paléartic occidental. Publ. OMPO. Ed. Eveil Nature, Saint-Yrieix-sur-Charente, France. 304 p.
Rufino, R. (Coord.), 1989. Atlas das Aves que Nidificam em Portugal Continental. Publ. CEMPA/SNPRCN, Lisboa.
Rufino, R. & Neves, R., 1991. Snipe o¬n Grasslands in Portugal. Wader Study Group Bulletin 61, Supplement: 31-32.
Santos Jr., J. R., 1979. As narcejas e a sua criação em Trás-os-Montes. Cyanopica I (2): 1-14.
Tuck, L. M. 1972. The Snipes: A Study of Genus Capella. Canadian Wildlife Service. Monograph Series- Nr 5: 429 p.
Williamson, K. 1959. Snipe at St. Kilda. Bird Notes 29: 5-9.
Williamson, K. 1960. The development of young Snipe Studied by mist-netting. Bird Study 7: 63-76.

Texto e fotos de Carlos Pereira

30 de novembro de 2010

Galinholas na Bulgária

"Impulsionados pela paixão que nos anima pela caça em geral e em especial pela caça da Galinhola, aproveitando umas passagens aéreas acessíveis, um programa de caça e de estadia na Bulgária que nos pareceu equilibrado, lá nos decidimos a fazer esta viagem.
Tudo foi programado ao pormenor, excepto a densidade de galinholas.

Optamos em boa hora pela companhia aérea Lufthansa, um símbolo de eficiência e de tratamento exemplar para com os nossos dois Setters Ingleses, indo ao ponto de, numa escala de 03h00 que tivemos de fazer em Frankfurt, ter realizado uma limpeza às caixas de transporte dos cães, colocado no fundo das mesmas um papelão absorvente e ainda de ter dado de beber aos animais.
Foi realmente um tratamento excelente e por um preço mais baixo quando comparado com os custos praticados pelas companhias de aviação nacionais e por outras estrangeiras.
Voltando ao nosso percurso, partimos de Ponta Delgada com passagem por Lisboa e Frankfurt até ao destino final Sofia.
De Ponta Delgada a Varna, ida e volta, são cerca de 12 000 Kms.
Chegados à capital Búlgara, dirigimo-nos de carro, num trajecto de 06h00, até Varna, que se situa mesmo junto do Mar Negro e em cujos bosques se encontra a nossa famosa Galinhola, que nesta época do ano chega àquelas paragens fugida dos rigores do Inverno Russo e, sobretudo, do Siberiano.
É realmente necessário sentir muita paixão pela caça para se empreender uma viagem desta magnitude e com algumas noites sem dormir à mistura.

A Bulgária é um país dos Balcãs, com cerca de 7,7 milhões de habitantes e que integra hoje a NATO, sendo, desde 2007, também membro da União Europeia.
Cerca de 84 % da sua população é Búlgara e a restante advém de outras comunidades, com destaque para a Turca e Cigana.
Após a II Guerra Mundial e até 1990, esteve sob domínio da União Soviética, o que explica o facto da maioria esmagadora da população falar apenas o Búlgaro e entender o Russo.
É também um país com muitos problemas, com uma grave crise demográfica, com uma base produtiva baseada na Agricultura e Floresta, nalguma reparação Naval e com dois produtos de excelência que são os iogurtes e o óleo de rosas, o que é muito pouco para fazer face ao atraso estrutural que apresenta, olhando, por isso, para a Senhora Merkel e para a poderosa Alemanha à espera de um milagre.

Caçamos 4 dias às Galinholas, num terreno com uma cobertura muito forte de carvalhos e estes eram de tal forma densos que tínhamos, por vezes, dificuldades em nos deslocarmos em tais condições.
Paralelamente fizemos ainda umas caçadas às Codornizes bravas e a umas Perdizes Cinzentas, estas últimas, na sua maioria, reproduzidas em cativeiro.
Eu, o José Carlos, o Carlos Pedro Jorge e o Jorge da Benedita, andamos cerca de 60 Kms atrás das Galinholas e vivemos lances extraordinários, sobretudo protagonizados pelo Setter Inglês Hudin, que o José Carlos e o Jorge souberam concretizar com o aproveitamento máximo.
A primeira Galinhola foi abatida pelo Carlos Pedro Jorge e cobrada pela Setter Inglesa Madona. Se eu a deixasse fazer tudo o que desejava teria de ir busca-la a Moscovo, dada a intensa Paixão que a movia.
Acresce a emoção das paragens feitas pelos cães a corços no interior dos bosques, a que se seguiam os gritos de alerta do guia a dizer: não, não, não… que nós respeitávamos, obviamente.
Tirando estes momentos extraordinários, e em termos gerais, esta caçada às Galinholas na Bulgária ficou aquém das nossas expectativas já que fomos traídos pelo Clima, o único factor que não chegamos a programar na elaboração desta empresa. É que ao contrário dos anos anteriores, o tempo na Rússia e naquela parte da Europa em particular, estava mais quente para o que seria normal nesta época do ano, alterando assim a rota de emigração das Galinholas.
Em síntese, as Galinholas com que nos deparamos foram em menor número do que aquele que esperávamos encontrar.
O clima está mudar; os incêndios sucedem-se com resultados terríveis para as Galinholas e todo este cenário merece uma reflexão muito profunda. Incluindo nos Açores e no que diz respeito às Galinholas endémicas deste arquipélago.
O que podemos concluir nesta fase é que as condições climatéricas são determinantes na caça às aves de arribação e que o clima está a mudar brutalmente.

Não obstante o esforço da nossa tradutora e dos dois guias que conheciam bem os terrenos de caça, a Organização também ficou abaixo das nossas melhores expectativas.
As condições de alojamento eram sóbrias, rigorosas e com uma lareira poderosa que as condições atmosféricas exteriores infelizmente não justificavam.
A comida era razoável, tal como a Grapa, uma espécie de água ardente que os Búlgaros bebem como aperitivo e a acompanhar as entradas compostas por saladas e massas.

Como curiosidades desta aventura búlgara, junto a capa de uma revista de caça búlgara, uma foto de uma Lebre enorme atirada pelo José Carlos e uma ave cobrada pelo Carlos Pedro Jorge que  julgo ser um macho de codorniz albino, mas quanto a isso aguardo a confirmação do Carlos Pereira."

Texto e fotografias da autoria de Gualter Furtado

29 de novembro de 2010

Um Jovem Caçador

"Nos anos mais recentes e a convite do amigo Carlos Bentes, tenho participado numa caçada às perdizes e lebres promovida pela Associação de Caçadores e Pescadores de Gomes Aires, no Alentejo profundo.
No ano passado conheci nessas andanças o jovem caçador Dinis e este ano voltei novamente a encontrá-lo.
O Dinis tem 12 anos e desde os 5 anos que acompanha o Pai nas caçadas... e sem ser preciso ir acordá-lo.
A sua motivação é genuína e corre-lhe nas veias aquele dom e a paixão que os verdadeiros caçadores têm.
O que nele mais me impressiona é a determinação na condução dos seus cães, dos quais refiro apenas o nome de alguns deles: o Magano, o Pouca Sorte, a Teresa e a sua nova companhia que é a pointer fêmea, Travessa.
Numa época em que todos os factores se conjugam para afastar os caçadores da prática cinegética e dificultar a entrada dos jovens no mundo da caça, é de louvar a atitude do Dínis e fazer votos para que floresçam muitos mais como ele, incluindo também aqui nos Açores."

Texto e fotografia da autoria de Gualter Furtado

28 de novembro de 2010

Recordar é Reviver - O Troféu de Caça

A caça ao troféu, apenas e só pelo troféu é, dentro da actividade venatória, a que menos argumentos apresenta para a firme defesa dos Caçadores.
Pessoalmente muito me custa a compreender a morte de um animal pela mera razão do bicho ostentar um conjunto de atributos físicos exemplares, que depois de medidos e certificados são transformados em pontos, medalhas e demais distinções.
Nessa busca pelo maior e mais belo troféu, não estará também a ser prejudicada a qualidade genética das espécies caçadas?
Não falarei nem de um, nem do outro, porque não entendo semelhante comportamento e porque, quanto à questão, também não lhe sei a resposta.
Dedico sim as linhas que se seguem a todos aqueles que buscam no lance de caça uma experiência pessoal enriquecedora, uma memória para a vida, uma narrativa, o seu verdadeiro troféu!

O troféu de caça não se trata somente de uma recordação e muito menos de uma mera demonstração de triunfo. Perpetua uma memória e honra um animal; seja através da pena de pintor da galinhola, das navalhas de um javali, das hastes de um veado, do crânio de um lobo ou do corpo inteiro de um leão.
Nele valoriza-se o modo como viveu e foi abatido, jamais o facto de estar morto – o que menos importa.
A moderna taxidermia oferece-nos verdadeiras obras de arte que procuram representar a relação que o caçador desenvolveu com o animal no decurso da caçada.
O troféu ideal será o de corpo inteiro, mas nem todos os caçadores possuem capacidade para tal, por diversos factores.
Independentemente do tamanho ou da parte que se optar por manter, o que nele deve ficar imortalizado é o espírito e a essência do animal, sob pena de o diminuir e desvalorizar.
A pose sobre a qual ficará imortalizado deverá ser a mais natural possível, de modo a poder transmitir-nos como se movimentava e vivia, devendo evitar-se exageros antinaturais ou atitudes demasiado agressivas.
Concluído e observado esse trabalho por si só, na ausência do caçador e sem a sua explicação, por mais admirável que se nos possa apresentar, ficará imperceptível tal conexão e não o compreenderemos.
Tudo não passará de uma montagem inerte, que nada nos transmitirá,... um desperdício!
O troféu é único e permanece vivo apenas na memória do caçador que o tomou.

Não se consegue verdadeiramente um troféu de caça num ambiente fechado, artificial e controlado.
O caçador, para o poder ganhar, deve assumir o predador que existe em si, integrar-se e envolver-se intensamente na perseguição do animal selvagem, tentar conquista-lo na natureza bravia e aceitar a possibilidade de derrota, de não conseguir alcançar o alvo.
Jamais deverá confundir-se o troféu de caça com um prémio desportivo, atribuído e testemunhado por estranhos, porque a caça é pessoal e muitas vezes um acto solitário, pelo que deve ser o próprio caçador a decidir se o merece realmente. Decisão essa baseada no seu conhecimento e experiência.
Não deixa de ser, antes de mais, um objecto de recordação, emblemático do animal e do seu local de origem, que acabará por ser exposto num espaço distinto e distante do lugar onde foi capturado, porém, ao contrário dos outros artigos de recordação, o troféu de caça é único, não pode ser produzido em série, comprado e muito menos oferecido, porque simplesmente não teria qualquer significado ou lugar na narrativa verídica que lhe devolve à vida.
Tudo se inicia no próprio acto de caça e desenvolve-se ao longo das etapas de conversão do animal numa tábua ou num elaborado diorama, através de um processo que transformará o animal vivo e impessoal numa representação da relação íntima e única que possui com o caçador, procedente do drama entre a presa e o predador.

Uma das primeiras etapas após a tomada do animal é a realização do quadro de caça, muitas vezes perpetuado através da fotografia.
Até este procedimento, se bem observado, distingue-se do retrato turístico partilhado com os amigos por ocasião do relato da viajem. Neste, o turista apresenta-se descontraído, por vezes em movimento, sem grande cuidado quanto ao enquadramento da imagem e, em todas, aparece defronte do motivo fotografado.
Tal já não acontece na fotografia de um digno troféu de caça.
Verifica-se o respeito pela regra dos terços, quanto ao enquadramento; a apresentação do animal – se de corpo inteiro – é retratado de lado e deitado sobre as suas patas.
A fotografia é tirada ao nível da altura do bicho ou um pouco mais acima; o caçador apresenta-se por detrás do troféu, sobre os seus joelhos, de modo a evitar que apareça o calçado ou as suas pernas e, por vezes, a arma é colocada à frente e encostada ao corpo do animal, sem munição na câmara e numa posição de segurança.
Mesmo tirando o turista uma fotografia a uma espécie selvagem, no seu ambiente natural, pouco mais poderá acrescentar sobre a mesma, porque quase não interagiram. Limitou-se a observa-la de uma segura e controlada distância.
A fotografia do troféu de caça encerra uma história de perseguição, contada com grande entusiasmo e pormenor em relação ao local, às movimentações, à escolha daquele animal específico, à aproximação, ao disparo, à emoção sentida aquando do cobro.
Com o quadro de caça, o caçador, além de concluir um conto de vida e de morte, ao levar o troféu consigo e o expondo na sua sala, perpetuará as características, o comportamento e as qualidades de tão cobiçado animal, através da memória pessoal e da narrativa. Por outras palavras: em casa, devolve-o à vida e caça-o novamente.

No âmbito deste tema, aqui vos transcrevo “Caçadas No Meu Quarto”, da autoria de Eduardo Montufar Barreiros, retirado do seu livro “Caça – Memento Venator”, datado de 1900, que, para além de integrar um valioso documento histórico, constitui uma pérola da literatura cinegética nacional e é um auxiliar importante para a compreensão deste texto.

“Meio surdo; meio cego – porque a tanto corresponde o só ver com o auxílio de vidros de diversos graus – e trôpego – porque assim se pode chamar a quem pouco mais faz do que palmilhar quotidianamente pelas ruas de Lisboa – vão-se-me fechando, para a caça, progressivamente, como o bicho-da-seda, os âmbitos materiais da existência.
Mas não tenho tristezas, porque, em compensação, alargam-se-me os âmbitos da fantasia. E quando escarrancho as lunetas no nariz, ou quando ainda me faço puxar pelo burro nas ladeiras pedregosas da minha Arrábida, gozo nesses momentos – em que esses artificiais meios me transportam iludido, temporariamente, á realidade – mais do que não gozei quando, ali, vivia por mais tempo, sem consciência com os meus verdadeiros olhos, e as minhas desajudadas pernas.
E lucra-se, dia a dia, em ser surdo.
Surdo, porém, cego e entrevado, de todo, que venha a estar, ainda espero continuar caçando… a sonhar, então Deus é grande!
Agora uns pássaros quaisquer pintados em papel, recortados e colados nas paredes, e nas vidraças do meu quarto, povoam-no da precisa caça para, sem sair dele, todas as manhãs eu cair numa poltrona, extenuado do sem número de tiros que disparo.
E não há só esses pássaros – que eu tenho de transformar, com a imaginação, ora na rápida perdiz que me foge através do ar, e da qual me parece até ouvir o estrepitar das asas, ora na silenciosa galinhola, que se esquiva por entre o arvoredo dumas aguarelas do Perez de Castro, ora, finalmente, em codornizes, que me saltam detrás das flores de uma jarra.
Não há só esses pássaros; tenho, em quadros, a bem desenhada caça morta de Traviés; os grauss, os coelhos, e as raposas de Ansdell; e até gansos e veados de Badmer: brutinhos, que, vistos no ponto da espingarda, todos me parece saírem dos quadros, ressuscitados, e em movimento.
E, mais ao vivo, possuo ainda, pregada na parede, a cabeça embalsamada de um veado que matei – a valer – e cujos olhos de vidro, mais imorredouros que os seus naturais foram, nem a verdadeiros tiros agora morreriam.
Mas, na força da fantasia, prescindo até de uns e outros, e crio, sem que existam de todo, coelhos e lebres, que, junto do rodapé, e por entre os pés dos móveis, ou por detrás das árvores de um biombo pintado por minha mulher, se me afiguram acudindo às tocas, através dos matos rasteiros, ou saltando e correndo, às furtas e às carreiras, por entre bosques e balseiras.
Todos este bichinhos eu fuzilo, com tiros, de imaginação ainda, pois nem sequer desfecho a arma para não estragar a fecharia. São tiros que não fazem bulha, a não ser quando os imito com a boca: pan! Pan!
E não fazem gasto de cartuchos, e, melhor que tudo, não custam sangue.
Activam a circulação do meu, e nesse higiénico atear da vida, em que me esforço para recuperar a que o decorrer do tempo me vai levando, acodem, vivas, as imagens remotas do meu passado, a povoarem ainda esses limitados espaços do meu quarto.
Pelas janelas vejo, na realidade, horizontes largos donde emergem algumas das mais saudosas. Tenho a meus pés o amplo Tejo, tantas vezes por mim cruzado nas boas e más monções que lá me levaram á caça. Diviso as colinas da outra banda, com a Trafaria – a dos juncais quentes de codornizes – ao cabo; e, mais longe, a esbater-se, e a tornar-se misteriosa já, aquela serra da Arrábida, tão minha, ainda hoje o meu encanto, e o derradeiro sítio em que talvez caçarei. Lá adivinho, na depressão da serra, Calhariz, com o palácio e as matas, sítios que ressuscitam em mim doces lembranças de decorridos tempos.
Mas os olhos do meu espírito devassam os outros horizontes que á vista se me escondem: os das minhas outras caçadas por todo o meu país, essas que aí ficam nestes contos.
Não sei porquê, na perdiz que rapidamente me foge entre o grande retrato da minha avó – um pastel de Belolli – e uma aguarela de sem nome, vejo aquela perdiz que na Azambuja chumbei na volta de um cabeço, e que, derreada, se afastou de mim sobre o curto mato – continuação daquele de que saltara – e depois, voou por cima das vinhas verdejantes do vale, por entre as árvores de fruto e as oliveiras que ma escondiam, diminuída já de volume pela distância, mal se vendo só por fim, pelo reflexo do sol nas luzentes penas, até desaparecer, caída num cerrado de pedras soltas.
E lembro-me, que ao abrir os olhos, que fechara para descansar a vista, via ao pé de mim o meu perdigueiro com ela já na boca!
O caso era fantástico; e o olhar risonho do meu cão até me parecia diabólico.
Pois se és caçador – tu que me lês – já o mesmo, de certo, te aconteceu, pouco mais ao menos: a perdiz que o cão me trazia á mão não era ela; era outra, que eu matara com o mesmo tiro que fizera àquela, e que eu nem sequer vira.
E os tiros dobrados que eu acerto, desforrando-me assim dos poucos que fiz a valer?
Destes, dos verdadeiros, conto só dez em toda a minha vida de caçador; mas o extraordinário é que, desses, seis foram, num só ano, ás perdizes. Eram estas, perdigotas; mas um tiro dobrado… sempre é um tiro dobrado: não perde o mérito por mais fácil que seja a caça. O desdobrar a vista, o calcular o tempo, para, com serenidade e firmeza, apontar e derrubar as duas peças saltadas simultaneamente, sempre é difícil. Falo de um tiro dobrado feito assim, porque muitos caçadores dão esse nome a dois tiros, logo que os disparem seguidos, embora a caça não salte a um tempo… e chamam-nos assim, mesmo quando os erram. Desses, disparei muitos.
Foi aquela meia dúzia em Sintra, num ano já remoto, em que eu contava em mim os anos de Cristo, e em que a vida me sorria feliz em tudo.
Mas voltemos aos não menos alegres, nem menos felizes tempos de hoje, e aos tiros dobrados do meu quarto, que acertam sempre.
Nem só aos pássaros ou aos quadros os aponto. Hoje emparelharam uns a touca da Irmã de caridade, de um carvão de Brion, com a cruz das minhas espadas de Chobert.
Foram dois tiros que ligaram, por acaso, sem eu querer, esses dois símbolos de paz e guerra; ambos de abnegação e sacrifício de vidas. As armas, porém, são laureadas na terra por glórias, que a Irmã só espera no céu. (Barreiros, Eduardo Montufar: 297 – 301)
Tranquilo, lanço também os olhos para as minhas outras companheiras, menos nobres mas para mim mais queridas, que, através do vidro claro de um esculpido móvel, me espreitam, aprumadas e em linha, resplandecentes de cuidados e brunidos. Se com elas também algum tiro menos leal disparei, aí fica nestes meus contos confessado e assim remido.
E, amigas minhas e ciumentas entre si, vejo-as acotovelarem-se para ser cada uma a preferida quando alguma procuro! E como sinto estremecer e vibrar nas minhas mãos a escolhida, e afagar-me quando a aconchego á cara!
Até as últimas – a Baker, comprada ao Sousa, e a Greener dada por El-Rei, duas gentis «hamerless», conhecidas de ontem, e que ainda não experimentei, e talvez jamais experimentarei á caça – como elas respondem em carícias aos meus afectos, e como procuram, rivais das antigas, levar-me a expulsa-las!
E conseguem-no. A minha outra Baker, e a Relley, de cães á vista, as duas, com que eu tanto atirara, lá foram repudiadas já para estranhas mãos! Nem lhes valeram os históricos pergaminhos, á primeira, de vencedora em Philadelphia, e, á segunda, de manejada por mãos imperiais e régias em Rambouillet.
Só me não desfiz, e isso lá seria não ter vergonha! Das presenteadas: duas Barellas, iguais, que os Duques de Palmela me trouxeram de Berlim, uma carabina tirolesa, de dois canos, que meu tio Bedmar me deixou, e outra, a Werder, que El-Rei D. Luiz me deu.
Todas trato com igual carinho sem excluir a Colt, mercenária e rude, com que na Arrábida atiro ao alvo e defendo a caça. Mas desconfio que seja a senilidade que me faça pender demais para as jovens e viçosas. Serei castigado; isso é de prever. Desenganadas de que não irão comigo á caça, serão elas que afinal de mim se desprenderão, talvez quando o meu coração delas mais precise!
Até lá, porém, hoje com uma, amanhã com outra, e, de quando em quando, com as velhas para as não escandalizar, continuarei, enquanto puder, iludindo-as, atirando com todas às perdizes e aos coelhos que simuladamente me esvoaçam e correm pelo quarto.
Faltam-me todavia nestas caçadas os cães, que me tornariam maior a ilusão. Das molduras espreitam-me um griffon e um basset, e, de cima da estante dos livros, dois perdigueiros de Méne, de bronze; mas, indiferentes á minha voz, não consigo que se movam. E o meu perdigueiro, o de carne e osso, o que tão fagueiro – até demais – acode a mim, e tão bem me entende, afastei-o eu, em benefício seu (e economia minha nas licenças), para as montanhas da sadia Arrábida.
Seguem-me próximos, porém, os olhos espantados da minha consorte, mais compassivos – pelo que ela chama, indulgentemente, a minha maluqueira – do que nunca seriam, por mais que o fossem, os do meu desterrado, o «Sadi».
15 de Agosto de 1900” (Barreiros, Eduardo Montufar: 303 – 304)

O troféu de caça é, deste modo, a recordação de um lance de caça memorável, o testemunho do enredo em que participaram e se envolveram profundamente, num determinado cenário, tanto o caçador como a presa.
Além do prémio que representa, traduz a veneração de um animal especial.
Através da sua contemplação o caçador regressa à caçada e recorda cada um dos intensos momentos que partilhou com aquele animal.
Relembra pormenorizadamente o quanto teve de se esforçar, a concentração que lhe dedicou, as qualidades do animal e as movimentações de ambos. Muitas vezes o perigo que enfrentou e a sorte que teve em regressar.
Sem a memória e a narrativa do caçador que o conquistou, o troféu de caça esvaziar-se-á de conteúdo e de nada valerá.
O troféu de caça representa não o animal em si, mas a memória que o caçador dele possui antes de o ter capturado e na qual ambos revivem através da sua inédita narrativa.

Bibliografia consultada:
Barreiros, Eduardo Montufar (1900). Caça - Memento Venator. A Liberal - Officina Typographica
Marvin, Garry (2010). Living With Dead Animals - Hunting. Wiley-Blackwell

Imagem ilustrativa:
Monet, Claude (1862). Trophée de chasse.

22 de novembro de 2010

Largueza

Da autoria de António Luiz Pacheco, Largueza, editado pela Chiado Editora, é um romance de aventuras e exploração, dividido em dois volumes e escrito numa perspectiva muito pessoal mas portuguesa, com o cunho ribatejano e rural que se poderia esperar.
Passa-se na segunda metade do século XIX, época conturbada, plena de grandes acontecimentos, quando se desenhou o que hoje vivemos!

No primeiro tomo, de 800 páginas, explica-se e apresenta-se o que se vai passar. A acção desenrola-se no Portugal rural do século XIX, parte no Ribatejo e parte em Lisboa, cosmopolita, com referências a outras regiões. Depois, passa para Goa, mais espiritual mas ainda palco de acção. Prossegue em Angola, dura e desmedida, em plena época de desbravamento e conquista. Duas terras que tanto nos marcaram quanto nós as elas. Nesta termina um ciclo e fica aberta a porta para o outro.
No segundo, de 530 páginas, há um compasso de espera em Portugal e sobretudo no Alto Alentejo onde acontecem coisas importantes e de onde se parte para a grande aventura da migração para os EUA, que também os portugueses marcaram!

Ambos nos falam de bons e maus sentimentos; prémio e castigo; amizade sem fronteiras; gastronomia e caça; touros e fado!
Guerra, lutas e morte; amor e burlesco.


O António Luiz Pacheco é Caçador, e dos rijos, mas que ele próprio se apresente:

Nasci em Janeiro de 1956, de famílias tradicionais, muito antigas, ricas em cultura, ligações, histórias e tradições. Fiz-me homem buscando ver e aprender coisas, sem perder de vista de onde vim nem esquecer as histórias que ouvi e aquilo a que fui assistindo nas muitas voltas e andanças da vida.
Compreendi que nos compete mais tarde ou mais cedo, fazer a ligação entre o passado e o presente como elos de uma cadeia: - A da vida!
Tendo crescido num período de grandes convulsões sociais, políticas e económicas, vivi sob a égide da mudança, sobretudo no campo e meio rural, quer por laços de família, como pelos estudos universitários e percurso profissional, tendo assistido ao fim de uma época e ao nascer de outra que aprendi na sebenta da cadeira de sociologia rural, ser a chamada moderna agricultura de especulação comercial que se seguiu à agricultura tradicional. Esta era a que faziam os nossos avós, sustentada e integrada, amiga do ambiente que na altura não tinha “inimigos”… estes uma invenção moderna!
Esta transição provocou mais do que mudanças económicas grandes alterações na forma de estar e de fazer, das pessoas do campo que eu ainda ouvi em histórias ou mesmo assisti. Li à luz do petróleo e da vela; andei de carro de bois e vi lavrar com eles! Pisei uvas nos patamares; vi varejar azeitona, gadanhar e fazer cestos; assisti aos trabalhos da eira, ás descamisadas, a malhar e ao joeirar. Lembro com saudade os ranchos! Paralelamente, cacei no terreno livre e em África, tremi com o levantar das perdizes como de elefantes; mergulhei atrás dos peixes em três oceanos, em sítios virgens! Dormi no chão e ao relento, húmido de cacimbo, com o zumbido dos mosquitos e o rugir do leão; comi farinha e peixe ou carne seca, bebi água de charcas, poços e rios. Tive cães, muitos e de toda a qualidade! Conheci gente dura de vidas muito duras, privei com selvagens e senhores; sofri carga de búfalo, fui empurrado por tubarão, tive o queixo cozido com 11 pontos na praça de toiros de Évora. Fui até emigrante… mas voltei sempre à minha casa, onde nasci e à minha gente.
Digo que sou um caçador e viajante, trabalhando apenas para o poder fazer.
Tenho sentido orgulho em ser Português: da Universidade de Cornell às praias do Índico; das reuniões internacionais às inóspitas ilhas das Caraíbas; pelas feiras profissionais do Mundo; das costas desérticas da América do Sul às angras do Brasil; do sertão de Angola às matas frondosas de Moçambique; Nas pescarias perdidas no Atlântico Sul como nas sofisticadas ilhas do Mediterrâneo!
Tive o privilégio de percorrer o meu país! Negociei, cacei e pesquei por todo o Portugal, de lés a lés! Vi as paisagens, aspirei os ares das serras, das planícies, das ilhas e do mar, bebi vinhos e comi de tudo! Ouvi histórias e vi coisas por toda a parte…
Gosto de ser português, gosto do meu país e do meu povo! Concluí ao fim de mais de 50 anos… Aprendi que ser português, mais do que ter uma nacionalidade e falar uma língua é uma forma de estar no Mundo e entre os homens.
Sou hoje e face aos que me sucedem, filhos, sobrinhos e já sobrinho-netos, uma espécie de guardião das coisas que vi e aprendi, que não podemos esquecer nem deixar perder, porque saber viver no campo foi uma ciência que levou milénios a compor, que de repente os académicos e cientistas - que se enganam muitas vezes e mudam de opinião constantemente -, vieram ensinar nas universidades era o contrário! Por quatro décadas implementaram outras ciências que deram políticas do ambiente e agrícolas, de que se fizeram extensão rural e criaram “cadernos de encargos”, e afinal… viver no campo é o que era e nunca devia ter sido mudado pelas modernas políticas, insensatas, apressadas e imaturas, ditadas por uma ânsia de modernismo de um fascismo urbano-consumista que tudo pretende controlar e moldar à sua imagem e necessidades.
A quem assistiu ao fim daquilo que foram os tempos antigos e tradicionais, compete contar como era, ainda memória viva daquilo que nos identifica e fez de nós um povo, com história, língua e hábitos próprios.
Hoje pretendem-se retomar algumas das coisas perdidas, porque afinal o liberalismo faliu e deixou a todos que o seguiram sem referências, perdidos a humanidade e o bom-viver, afinal a felicidade que a tradição preserva. Fala-se em agricultura “biològica” (acaso ela foi mineral ou metálica?) quando se deveria reaprender sim a tradicional, a dos nossos avós, sustentável, feita com a infinita sabedoria de milénios de vida campesina, sã e integrada na Natureza que aos poucos se foi moldando e pondo a favor, adaptada a ela e não contra ela.
É-se anti-caça, anti-festa brava, pelos direitos dos animais e “ecologista”, afinal mais provas da imensa ignorância e da intolerância que se instalou e foi o verdadeiro flagelo do século XX, fazendo dele o século das maiores devastações da história e dos mais clamorosos crimes, contra a humanidade ou a Terra, em nome da modernidade e do desenvolvimento ou de ideais!
Somos republicanos por imposição e pela força, assentes num assassínio e em falsos pressupostos de igualdades e liberdade. Apenas a canalha política continua a mesma!
A nossa identidade para ser preservada, não pode ser guardada nos meios multimédia e sim na plenitude dos sentidos, como herança humana. E tem de ser praticada!
Este livro pretende exaltar a condição de ser Português, recordar pessoas, costumes e tempos passados mas recentes, heróicos, e deixá-los para os meus. Mas é sobretudo, dedicado e uma homenagem ao nosso povo, à gente brava, valente e corajosa, sacrificada e empreendedora… numa palavra: generosa, que se estendeu pelo Mundo, estabeleceu a Pátria da Língua Portuguesa e a quem os políticos sempre atraiçoaram!
Aos Portugueses, à minha gente, que reencontremos o orgulho e a alegria de ser aquilo que somos e não nos deixemos cair na tristeza de ser aquilo que querem fazer de nós!

O livro pode ser adquirido directamente ao autor, através do seu endereço pessoal: alpacheco.quinta@iol.pt

13 de novembro de 2010

Coruja-do-Nabal

Observação extraordinária!
Foi assim que Carlos Pereira, autor do maravilhoso livro "Aves dos Açores" descreveu o avistamento da Coruja-do-nabal na Ilha de Santa Maria.

Foi anteontem, no final da tarde, em local que não irei mencionar - da Ilha de Santa Maria, na companhia do Victor Carreiro - Caçador, e do Jaime Bairos - Vigilante da Natureza, que consegui tirar a fotografia que ilustra este texto, tendo sido precisamente o Victor Carreiro que detectou a presença desta misteriosa ave, no Domingo passado, quando regressava de mais uma jornada de caça.

Assim que obtive a fotografia, enviei-a imediatamente ao Carlos Pereira para que a pudesse identificar.
Na realidade, para além desta, foram avistadas mais seis, e trata-se, como mencionado, duma Coruja-do-nabal (Asio flammeus), ave - rara - invernante nos Açores.
Já foi observada na Ilha de São Miguel, no Faial, no Pico e, no mês passado, na Ilha Terceira.
São relativamente parecidos com os Mochos dos Açores (Asio otus), mas mais claros, mais corpulentos e com os olhos amarelos (o Asio otus tem os olhos alaranjados).

Dado o interesse da notícia foi informado o Staffan Rodebrand, do BirdingAzores.

A título de curiosidade, duas semanas antes desta observação, o Víctor Carreiro detectou e conseguiu capturar uma coruja da mesma espécie que estava ferida, tendo-a entregue, no mesmo dia, ao Jaime Bairos, que a enviou para a Ilha das Flores a fim de receber tratamento para, depois de recuperada, poder ser devolvida à liberdade. Porém, devido ao adiantado estado da infecção a ave acabou por sucumbir nesse percurso.
Apesar do resultado, não deixou de configurar este acto, por parte do Víctor Carreiro - um Caçador, um comportamento muito nobre, que deve ser enaltecido e seguido por todos.
E mencionou o actual presidente de uma associação dita ecológica, de nome Sérgio Diogo Caetano, em 10/12/2009, que não entende a caça como sendo "filosoficamente compatível com a conservação da natureza"!...

Notas:
- Toda a informação aqui exposta, relativa à ave, foi cedida pelo Carlos Pereira.
- Um agradecimento especial ao Victor Carreiro pela partilha de informação e pela extrema amabilidade em guiar-nos ao local.

8 de novembro de 2010

Caça - Memento Venator

Aqui vos venho apresentar um excerto, intitulado "Lebres e Coelhos", retirado do livro “Caça – Memento, Venator”, de 315 páginas, da autoria de Eduardo Montufar Barreiros, editado pel’ A Liberal – Officina typographica, obra esta datada do distante ano de 1900.
Fala-nos todo este extracto sobre a caça às lebres e aos coelhos, sem deixar de ser uma crónica, mas acima de tudo uma recordação muito pessoal deste nobre homem.
Optei por transcrever somente as partes que dizem respeito ao coelho em detrimento das restantes, pelo que vos suplico o perdão. Umas das razões que a isso me levou foi por ser esta, a par da caça aos patos, a que mais me fascina, enquanto o outro motivo adveio do cansaço que me provocou reproduzir vocábulos desusados.
Convém relembrar-vos que se trata de um texto com cento e dez anos de idade, pelo que irão, por certo, admirar a virtuosa forma de expressão e também estranhar a envelhecida arte da escrita.



"Lebres e Coelhos

Não posso – na qualidade de caçador, se entende – fallar com sympathia d’estes bichos, que na caça, nunca tomei a sério, apesar de não os considerar indignos de um tiro – honra que elles, de certo, dispensariam receber de mim.
Bem sei que entram no numero dos animaes bravios que, perante a lei, dão fóros de caçador a quem os persegue e apprehende; como sei também não ser desprovido de arte o modo de os apanhar.
E não são de poucos os recursos e artificios com que a natureza dotou esses animaesinhos, para se defenderem dos meios de ataque de que ella propria armou os que os perseguem. Contradicção, apparente de certo, e necessaria para a harmonia eterna, com que ella realmente vae ceifando a vida a todos.
Fel’os de ardende sangue, para que o amor – essa felicidade principal dos infimos – os tornasse prolificos; mas aos doze e quinze filhos, que permitiu á lebre ter, por anno (obrigando-a a ser mãe em cada um dos mezes que decorrem de fevereiro a novembro), oppôz, por inimigos todos os animaes carnivoros das florestas e dos ares, e, a mais, o homem; inimigos a que deu o prazer de os caçar – sem distincção de serem filhos ou pães – e a necessidade de os comer – tenrinhos ou durazios. Até os coelhos, que o homem classifica da mesma familia da lebre, perseguem e expulsa esta da sua companhia, e a força a uma vida toda de sustos, errante, em que tem por único abrigo a cama ao ar livre, onde se acoita de dia, vagueando, para o sustento e para os amores, só de noite.
Dos coelhos, fez ainda a natureza, com a fecundidade de que os dotou para conservação da especie, o flagello da humanidade a destruir-lhe as searas: e, dando esta para alimento commum de ambas as especies, obrigou o homem a usar contra elles de todos os meios que lhe suggere ainda para os destruir!
Deu a natureza, á lebre e aos coelhos, côr egual á da terra, para assim melhor se esconderem dos perigos; mas não impediu que o fumegar do corpo, vendo-se sobre as moitas, facilmente os denuncie deitados; e deixou-lhes na pellagem um ponto branco, que serve de guia, quando fugidos, aos que os perseguem.
(...)
Aos coelhos, na cultura do tal instincto, permitiu que se acobertassem em tocas sob a terra, para – melhor do que a lebre – se defenderem, a si e aos seus, mas, nas regiões em que os faz nascer, egualmente nasce a gineta, que ali os mata, e tambem o furão, que n’essas tocas, para si e para o homem, os colhe.
Que resta, pois, para se defenderem, a esses brutinhos, a quem a natureza negou até alcance na vista, concedendo-lhes apenas a vantagem de vêr melhor de noite que de dia? Umas compridas orelhas, movediças, e que, semelhantes as cornetas acusticas, ouvem – para seu martyrio – os mais imperceptiveis sons; e um fino olfacto com que nas movediças ventas haurem os mais tenues cheiros; sentidos que os armam… só para a fuga.
(...)
Os coelhos, sem recursos eguaes aos da lebre para a fuga na carreira, mas mais atilados, esquivam-se em enoveladas e rapidas furtas, muitas vezes com vantagem, aos podengos e aos tiros; e, philosophos, recebem, quando colhidos, mais resignados do que ella, o chumbo ou o golpe fatal atraz das orelhas, que, apesar de brando, tão rapidamente lhes extingue a vida.
Tem arte, na realidade, o caçador que, sabendo das forças e fraquezas d’estes bichos, e dos seus usos e costumes, os procura na estação ou no sitio proprios para a caçada lhe ser propicia.
(...)
E, aos coelhos, não será tambem arte o dirigir a matilha dos esfomeados podengos, a conterem os impetos da paixão e do estomago, e a obedecerem ao caçador, que, ao aceno e á voz, ora os retem na moderada e cuidadosa busca, ora os arrebata na vertiginosa corrida atraz da victima?
E não é arte, senão astucia, descobrir o bicheiro entre a espessa moita o coelho na cama, onde nem os raios X o fariam vêr, e despedir-lhe, na rapida furta, o pau que o deixa morto, ou o chumbo que, a corta-matto, o põe inerte, sem ele vêr o bicho?
E as bem dirigidas batidas, a salto, em cordão com as pontas avançadas, silenciosas, fuzilando mechanicamente e disciplinadas os orelhudos de qualquer especie que levantam? e as de espera com vozearia trazendo ás caladas e immoveis portas as incautas lebres? e as feitas aos coelhos, com gritos, batendo as moitas de que fogem, sorrateiros, para traz indo lançar-se nas portas falsas? todas estas batidas não revelam saber, dextreza e arte?
E é arte ainda, mas de outra especie, esperar silencioso e quieto, nas clareiras, á luz da lua ou pelo alvor da manhã, as lebres e os coelhos no seu pasto; ou durante escura noite, se ao candeio accodem, fuzilar – aquellas ou estes – de peito, quando, sentados, com as patas dianteiras levantadas, olham, curiosos, para o facho, sem nos verem. Nem deixa de ser tambem arte o imitar a voz dos coelhos, com o chio que os faz parar ou attrae á boca do covil para os matar a tiro; ou metter o furão ás covas, acompanhando, á escuta, o guiso que leva ao pescoço para saber da subterranea lucta, que deve trazer á rêde a perseguida victima.
Assim é; (...)
Mais outra vez o relembrar decorridos tempos me vem mostrar o meu estado de alma de hoje em relação ao de então; e a maior piedade, agora, pelas victimas, e o espectaculo mais vivo das bellezas do passado, invadem-me tão doce e intensamente o coração, e o espirito, que, não mais longe do que os momentos que tenho gasto em narrar este conto, já se me apresenta a caça das lebres e dos coelhos mais sympathica."

De referir que os podengos eram utilizados na caça ao coelho e à lebre, sobretudo, pela classe popular, desprovida dos bens e do conforto das mais abastadas, pelo que é por essa razão que o autor a eles se refere como esfomeados.

Trata-se este de um dos mais belos livros que tenho a felicidade de desfrutar, a par de outros que tenho vindo, por aqui e convosco, compartilhando.

Sobre o blogue

Contacto: ribeira-seca@sapo.pt
número de visitas

1 - Pertence-me e não possui fins comerciais;

2 - Transmite a minha opinião;

3 - Os trabalhos publicados são da minha autoria;

4 - Poderei publicar textos de outros autores, mas se o fizer é com autorização;

5 - Desde que se enquadrem também reproduzirei artigos de imprensa;

6 - Pela Caça e Verdadeiros Caçadores;

7 - Em caso de dúvidas ou questões, poderão contactar-me através do e-mail acima;

8 - Detectada alguma imprecisão, agradeço que ma assinalem;

9 - Não é permitido o uso do conteúdo deste espaço sem autorização;

10 - Existe desde o dia 21 de Outubro de 2006.

© Pedro Miguel Silveira

Arquivo