7 de outubro de 2012

Estudos ajudam a regular a população do coelho-bravo nos Açores

O Secretário Regional da Agricultura e Florestas presidiu, na noite de 13 de Setembro de 2012, ao lançamento do livro “Gestão de recursos cinegéticos no arquipélago dos Açores – O Coelho-bravo”.


Trata-se da edição das conclusões de um estudo sobre as espécies cinegéticas do arquipélago, neste caso dedicado ao coelho-bravo, elaborado pelo Centro de Investigação em Biodiversidade e recursos Genéticos da Universidade do Porto, em cooperação com a Direção Regional dos Recursos Florestais (DRSF) da Secretaria que tutela.

Falando aos jornalistas, Noé Rodrigues sublinhou a importância deste trabalho, tal como de outros estudos anteriores realizados na Região pelos serviços oficiais, em colaboração com os caçadores e agricultores locais, para a melhor gestão das populações daquela espécie, nas várias ilhas.

“Na sequência da alteração do edifício jurídico regulamentador da caça e das espécies cinegéticas na Região, tivemos a oportunidade de desenvolver um conjunto de ações, do ponto de vista de melhorar o conhecimento das espécies cinegéticas da Região, associando universidades, quadros técnicos da DRSF e guardas florestais”, no sentido de recolher e divulgar essa informação, junto dos caçadores e agricultores, disse o governante.

Essa informação destina-se, segundo acrescentou, a “determinar melhor os calendários venatórios, os processos de caça a utilizar, a criar novas oportunidades de caça e a melhorar a gestão das várias espécies, fazendo repovoamentos naquelas que tenham níveis de densidade muito baixos e fazendo correções de densidade naquelas com densidade elevada, de forma a acautelar os interesses de caçadores, por um lado, e de caçadores, por outro”.

Noé Rodrigues anunciou, ainda outras medidas, relativas à identificação electrónica e sanidade animal dos cães de caça na Região, bem como a criação de campos de treino para estes animais auxiliares da caça, como forma de obviar à aprendizagem dos mais jovens em matilha.

Fonte: GaCS/FA

28 de julho de 2012

Em jeito de reflexão

Aquilo que vou postar não é para os detractores da tauromaquia, e sim para nós outros, os aficcionados ou aqueles que sem o serem estejam todavia na fronteira da tolerância e do respeito! 
É uma reflexão que só pode interessar a quem reflicta, a quem pense, não a energúmenos eivados de todas as raivas contra o que não entendem e contra quem não pensa como eles. Essa gente que não se assume como gente, antes como animais humanos, como os mesmos animais só sabe urrar, reagindo por mero instinto, irreflectidamente como os animais e não em consequência daquilo que é apanágio da espécie humana, que são as funções de selecção e síntese ou seja, a inteligência! Essa sim, em vez de sons e actos instintivos, irreflectidos, produz idéias e actos inteligentes.
Eu não lhes ligo… também não lhes perdôo lá porque não sabem o que dizem, mas ignoro-os como aos cães que ladram de dentro dos quintais. A única coisa que podem fazer é isso mesmo, ladrar! E, fazem-no para nos perturbar, tentando aliviar assim a sua frustração de não mais conseguirem que de facto aborrecerem-nos! Não acabarão com a tauromaquia, nem nos farão mudar de idéias… e eles sabem-no! Daí a sua irritação, e tanto maior quanto menos conseguirem, ou seja, é um excelente indicador, a actividade e a raiva que manifestam contra nós! Porque resulta da impotência.
Ignorem-nos… eles hão-de concluir que até nisso falharam! 
Sempre houve gente como eles. Que só entendem aquilo que acham como a sua verdade. Que não conseguem nem querem perceber que há outras idéias, outras sensibilidades e maneiras de ver e de sentir, de pensar. Gente que nunca percebeu nem vai perceber que a diversidade das idéias é justamente a maior maravilha da Humanidade! Aquilo que faz do Mundo e da sociedade uma manta de retalhos fabulosa, de criação e diversidade, pelas diferenças que possibilitam haver lugares para todos e para tudo. Nós o sabemos, e por isso daremos exemplo de tolerância! Aceitando e respeitando que haja quem não aprecie, até não seja capaz de ver… 
Os “anti”, são gente de baixa moral, que só vê tudo pelo seu prisma e não entende nem aceita que outros existam, tendo por princípio que todos devem pensar, sentir e agir como eles, e só! Impõem-no e prevêem a destruição física de quem assim não seja, a proibição de tudo o que não seja deles e como eles… ao longo da história eles perpetraram os maiores crimes contra a humanidade, em nome desses seus ideais – tidos por únicos e derradeiros, superiores… 
Esta gente que anda por aí a apodar-nos e a insultar, estariam a assistir vociferantes e alegremente aos autos de fé no Rossio, alguns deles de bom grado sentados nas cadeiras dos inquisidores! Foram quem mandou tanta gente para os campos de concentração, fornos e câmaras de gás nazis, para os Gulag e internamentos soviéticos, quem levantou o muro de Berlim, construiu Guantánamo, tudo em nome dos seus elevados princípios superiores e dos seus ideais absolutos, mas apenas porque outros eram diferentes e pensavam diferente. Temiam-nos e tinham de os destruir.
É bom que nós aficcionados e os outros que não são mas respeitam, percebam isto, e quem é esta gente! Não me refiro a todos os não-aficcionados, pois repito que os há por simples questões culturais e de sensibilidade, como eu não gosto de lieder ou de pintura abstracta, dos filmes de Manoel de Oliveira… esses limitam-se a não gostar! O que de acordo com a minha maneira de ver é legítimo e enriquecedor, pois mau seria se todos gostássemos do mesmo e pensássemos como um só! Era o pensamento único…
Estes são a maioria, felizmente, ou o Mundo seria impossível de nele se viver… 
Os que mais se acirram, os “anti”, são os que se acham donos da verdade e pretendem impor o pensamento único (o deles!). Que usam de falaciosos argumentos, de meias-verdades hábilmente compostas, manipulam imagens, tudo no sentido de impressionar e chamar para a sua causa os que não gostam, os bem-intencionados. 
É preciso desmascarar e fazer entender aos que não gostam, que a finalidade dos anti-taurinos não é apenas acabar com a tauromaquia e sim impor a sua filosofia, formas de estar e de pensar! Quando um dia acordassem e já não houvesse touradas nem toiros de lide, caça, pesca, circo, criação de animais, consumo de carne na alimentação e vestuário ou outras, o Mundo seria o deles, e viver-se-ia e se pensaria como eles determinassem! Só se teria acesso ao que eles deixassem e entendessem de acordo com as suas idéias! As crianças educadas como eles mandassem… as artes, espectáculos, segundo os seus cânones e destruído tudo o resto como as estátuas de Buda, os livros e as pinturas queimadas pela inquisição ou os nazis, etc. 
Convém que se perceba! Que se desmascarem, e, que quem não aprecia touradas continue a não apreciar, pois isso será um excelente e saudável sinal de que as touradas continuam e que não se impôs o pensamento único!
Tudo afinal em nome do desconhecimento e da intolerância por ele gerada… porque os homens tendem a tomar os restantes por si mesmos. Como alguns são incapazes de perceber a tauromaquia, e nem sequer tentam fazê-lo para buscar o conhecimento e entendimento, limitam-se a avaliar segundo o seu limitado pensar, e a concluir erradamente pelas impressões distorcidas que colhem.
Quem de uma lide apenas veja e a reduza a cravar ferros num animal, que interpreta apressada e pouco avisadamente como sendo o que atrai a multidão, está ao mesmo nível de embrutecimento daquele que perante o quadro Guernica, de Picasso, apenas veja e o reduza a um monte de borrões e figuras distorcidas, incapaz de perceber por insensibilidade aquilo que traduz, ou de um modo mais simples, assistindo a um jogo de futebol, o reduza a um grupo de homens em calções a correr de um lado para o outro empurrando uma bola, caindo e levantando-se… 
Porém, se retirada a capa da incompreensão e do preconceito, analisarem toda a cultura e o culto que compõem a tauromaquia, indo mesmo às suas raízes que a determinaram mediterrânica e ibérica, não chinesa nem islandesa, mesmo não passando a gostar – o que repito é uma questão de sensibilidade pessoal – pelo menos cumprem o preceito humanista da busca do saber, pois só o conhecimento conduz à compreensão e esta à tolerância que permite aos homens viverem em sociedade e em paz… do contrário resultam as agressões e a guerra, afinal maioritáriamente causadas por essa incompreensão e intolerância, canalizadas pelo sentimento da agressão de que os nossos detractores (e não os aficcionados) dão tantas provas! 
Lembrem-se de que enquanto eu aficcionado apenas defendo o direito às minhas idéias, os anti-taurinos pretendem impor-nos as deles!
Aos que se julgam “anti”, aos indecisos, aos tolerantes e aficcionados, como forma de esclarecimento, aconselho a leitura de um pequeno mas esclarecedor livro do grande filósofo contemporâneo, espanhol, José Ortega y Gasset, “Da caça e dos touros”, quem reflectiu como homem e filósofo, numa questão profunda e tão característica da nossa cultura. Acreditem que será útil, e todos ganharemos com isso e com a pacificação, sobretudo os animais, afinal em nome de quem se erguem as espadas contra nós! 

Texto e foto da autoria de António Luiz Pacheco

15 de julho de 2012

Crónica de Miguel Sousa Tavares

“Prossigamos na destruição do património público do país. Já vendemos o idioma e o cimento aos brasileiros, a electricidade aos chineses, os combustíveis, parte da banca, do Douro e da comunicação social aos angolanos, vamos vender a TAP aos colombianos ou espanhóis, o espaço aéreo a quem se verá, as minas aos canadianos, a construção naval a quem quiser, e até a água (a agua, meus senhores!) está na agenda.
Mas até o pouco que resta, como património histórico, cultural, social e económico, está ameaçado — agora, não por excesso de liberalismo, mas por excesso de estupidez. Na semana que agora entra, o Bloco de Esquerda propõe-se fazer votar na Assembleia da República uma lei que, redigida de forma sibilina e cobarde, visa abrir caminho para a posterior proibição de touradas, circos com animais, caça e pesca desportiva. Para já, o projecto de lei diz pretender apenas “condicionar” o “apoio institucional ou a cedência de recursos públicos” à “não existência de actos que inflijam sofrimento físico ou psíquico, lesionem ou provoquem a morte do animal”.
Parece pouco, mas é imenso: “condiciona” (ou seja, proíbe) desde logo a cobertura televisiva da RTP às corridas de touros, as reportagens sobre caça ou pesca desportiva; proíbe a cedência de terrenos camarários para a instalação de circos com animais ou criação de zonas de caça ou de pesca municipais (a Câmara Municipal de Mora, por exemplo, já não poderá voltar a organizar o Campeonato do Mundo de Pesca Desportiva, onde os peixes da Ribeira do Raia, coitadinhos, às vezes moncos; a de Benavente não poderá ceder terrenos para as corridas de lebres com galgos, onde, embora não morrendo, o “sofrimento psíquico” das lebres é, infelizmente, bem presumível; a de Mértola, cuja principal fonte de receita turística é a caça, vai ter de cessar todos os seus apoios à actividade que ainda mantém o concelho vivo uns quatro meses por ano); e etc., não há limites para a imaginação persecutória dos “amigos dos animais”. Mas isto, como é evidente, é apenas um primeiro passo, ciclicamente ensaiado, e cujo fim é chegar à proibição, pura e simples, de tudo o que não entendem nem querem entender e que acham que lhes fica bem defender.
Vou, portanto, repetir também a minha cíclica resposta: este lado padreco, Bairro Alto e urbano-esquerdista do Bloco de Esquerda é intragável. A fatal companhia dessa anémona política chamada “Os Verdes” (sempre a oeste das ordens do PCP e a leste de tudo o que interessa na política de Ambiente), é enjoativa. E a inevitável participação do grupelho ‘fracturante’ do PS, estremecendo de emoção de cada vez que se fala de mulheres, gays ou animais, sendo estágio obrigatório de ascensão política lá na agremiação, é desprezível. Todos irão fatalmente votar a favor de um projecto de lei que é verdadeiramente fascista na sua essência, culturalmente ignorante e ditatorial, centralizador e arrogante. Já sei: vou ser uma vez mais esmagado nos vossos blogues e Facebooks (Twitters, perdão), onde, à falta de melhores causas ou de coragem para outras, a vossa grande liberdade é perseguir a liberdade alheia.
Mas, sabem que mais? Estou-me nas tintas para a vossa opinião. Tenho pena, apenas. Tenho pena de quem não entende a beleza de uma tourada ou o “silêncio poético e misterioso, um silêncio que estremece” do toureio de José Tomas (“El País”), de quem nunca cheirou a esteva e o orvalho de uma manhã de caça, de quem nunca perdeu horas sentado na margens de rio à espera que o peixe morda o anzol, de quem vai ao circo e não quer ver os leões do Paquito Cardinslli. Tenho pena, mas não posso fazer nada, que não isto: lutar para que não passem."
Expresso, 06/07/2012

7 de julho de 2012

Quem é bárbaro afinal

Leonel Moura, Senhor é uma condição que se adquire consequentemente não aplicável perante as suas afirmações e maneiras, terá outras habilitações ou títulos mas não este, sinto-me na obrigação de responder ao seu texto “Os bárbaros entre nós” porquanto naquele se permite argumentar em nome dos Caçadores, para além dos adjectivar a seu prazer.
Acontece que eu faço parte do grupo de pessoas que, legalmente, praticam essa actividade. A Caça está legislada e regulamentada e para a prática desta paga-se aos Estados onde se pratica, revertendo esta verba para os serviços da administração central, condição que se não verifica para a prática da escrita sobre o desconhecido, que Leonel Moura pratica graciosamente ou até (não sei, por isso não afirmo), sabe-se lá, mediante remuneração.
Do que se permitiu, independentemente das inexactidões e erros, opinar sobre as acções de S.A.R D. Juan Carlos, Rei de Espanha, não me cabe comentar, mas quando se permite afirmar “…A caça, toda ela, de coelhos a elefantes, é uma actividade sem qualquer justificação na sociedade contemporânea. É um crime praticado por gente incivilizada…”, aí já está a entrar no meu espaço e liberdade, classificando-me de criminoso. Acontece que não lho permito porque é falso!
Conforme acima indiquei a Caça é uma actividade legal. Assim, a sua liberdade de opinião acaba quando mente e mentindo atinge e viola (conscientemente) os direitos que, ainda que não concorde, aos caçadores assistem por condição e porque legais.
Da justificação para a existência da Caça na sociedade contemporânea, fique sabendo que a mesma (sociedade contemporânea) pode não se rever no formato e escolhas que Leonel Moura perfilha. Por incrível que lhe possa parecer, também os outros podem ter as suas concepções para essa sociedade, defendê-las e publicitá-las, mas não podem mentir e desinformar para a sua defesa ou estarão, então sim, a cometer o crime de difamação, entre outros.
Permite-se também nesse seu texto adjectivar S.A.R. de “…bárbaro,… primitivo, um delinquente…” que só não comento porque o colou à prática de chacinas de indefesas criaturas, assim sendo não se enquadra na prática da Caça e, portanto, não me merece o comentário ainda que duvide que tenha a capacidade de, em sede própria, fazer prova das suas afirmações, mas essa matéria, por agora, não me compete.
A classificação da caça, como actividade proscrita, ao nível da escravatura, do xenofobismo e racismo, dá uma boa imagem da sua própria concepção da tal “sociedade contemporânea”, onde, como se vê, as práticas dissonantes da sua opinião devem ser combatidas e banidas porque Leonel Moura as não compreende, bravo! Afinal quem é o bárbaro? Deixe-me aplaudir a sua “abertura de espirito”, ou será que o espirito aberto é “modal” e decorrente do interesse comercial e da sua própria promoção de imagem.
Ainda no mesmo parágrafo afirma que os praticantes da Caça “…têm os seus argumentos. Nâo são muitos, reduzem-se a dois….”, poderá Leonel Moura, em nome dos Caçadores, falar? reduzindo-nos a pobres de espirito sem capacidade de argumentação? Não! Leonel Moura mais uma vez crê-se detentor da informação mas erra, muito mais argumentos existem, o que acontece é que os desconhece, até porque não lhe interessará conhecê-los, a matéria “não vende”, o que vende é o ataque despudorado a um colectivo que, até agora, mais não reivindicou que o direito a exercer a sua actividade em sossego e longe das multidões, pagando, regular e sistematicamente, para poder fruir da sua actividade. Se calhar é hora de “chamarmos as vacas pelos nomes” e sairmos em defesa daquilo porque pugnamos, desde já com uma substancial diferença, sem ofender ninguém! 
Um argumento que Leonel Moura desconhece (ou omite) é que, de facto, comprovado cientificamente e com estudos vários a suportá-lo, muitas espécies não existiriam se não se caçasse e não apenas as que são objecto directo da Caça (ditas espécies cinegéticas), mas muitas que apenas controlando as que se caçam permite subsistirem.
Leonel Moura usou, habilmente diga-se, de alguns dados, pena omitir outros, por exemplo, um elefante custa 40.000 euros, segundo o próprio Leonel Moura, efectivamente custará, poderá até custar mais como também menos, mas será que Leonel Moura não saberá que destes 40.000 euros uma percentagem substancial vai, directamente, para as populações locais, bem como a carne dos animais abatidos (e não pensem que aquelas populações têm acesso a carne normalmente),não saberá que o turismo de Caça representa um dos maiores encaixes financeiros daqueles estados (maiores, por vezes, que o do turismo comum), que só o Botswana tem uma população estimada (com monotorização e estudo em que se envolvem as Organizações de Defesa da Natureza e Vida Selvagem) de 140 a 160 MIL elefantes e que apenas cerca de 400 são caçados (legalmente) por ano e estes segundo quotas definidas pelos organismos responsáveis em articulação directa com as Organizações de Defesa e Conservação da Natureza do País e Internacionais.
Será que Leonel Moura desconhece estes factos ou será que os omite voluntariamente, desinformando quem julga estar a ser informado, recolhendo para si os louros do defensor da natureza e sociedade que afinal só conhecerá parcialmente ou desconhece de todo, mas, garantidamente, não se pode permitir representar?
Não saberá que o próprio Quénia equaciona o retomar da prática da caça (exactamente, o Quénia, o primeiro a aboli-la) pois apenas a atribuição directa de um valor aos animais, revertendo total ou parcialmente para as populações locais, permite a conservação das mesmas espécies? Sem este, o seu valor para a população é nulo, tornando-se permeáveis, estimulando até o comércio ilegal e o furtivismo, estes sim crimes. É este valor/espécimen que a Caça permite às populações incutindo nestas a vontade de defesa de um património que, assim, também lhes pertence e que compreendem.
Não saberia também que a destruição do habitat causada pelo excesso de população de elefantes (as causas humanas independentes da Caça, têm também efeitos na Natureza e habitats, a sobrepopulação humana, o desenvolvimento agrícola, a protecção de uma determinada espécie em deterimento de outras, são disso exemplo) está a pôr em causa a sobrevivência de outras espécies, quer animais quer vegetais, nomeadamente no Botswana. 
A visão antropomórfica de algumas espécies, selvagens ou domésticas, leva, em muitos casos, a uma visão deformada e que pode fazer perigar umas espécies em detrimento de outras que são menos apelativas para a generalidade dos humanos. O ursinho “Teddy”, dos contos para criança, transforma-se num monstro quando entra pela nossa própria casa e mata alguém, isto acontece Leonel Moura, então recorrem aos “ignaros e bárbaros” caçadores para o deter, acontece que, se estes puderem manter as populações estabilizadas e o medo dos humanos prevalecer, se evitam estes acidentes em grande número. O desconhecimento destes factos não pode permitir no entanto, que apelidemos aqueles que lhes são alheios de “ignaros”, como alguns tendem a fazer sempre que as escolhas daqueles diferem das suas próprias escolhas.
Quantas vezes Leonel Moura alimentou a fauna selvagem em tempo de escassez? Será que pelo menos conhece a dinâmica das populações de elefantes ou de outras espécies, ou conhece mesmo as próprias espécies, suas deslocações e impacto sobre os habitats? Ou apenas aproveitou um episódio que, porque Real, veio para os meios de comunicação, dando-lhe assim a oportunidade de brilhar? Poderia tê-lo feito sem acusar mais ninguém mas não resistiu à oportunidade de criminalizar a Caça no geral, fez mal, errou, retrate-se ou explique-me porque sou um criminoso, ensine-me e informe-me sobre o campo onde sempre e para quem vivo! Porque será que os que mais distantes estão dela são quem mais comenta sobre a ruralidade? Porque será que querem vir para o campo mas não resistem a querer alterar a sua forma (a mesma que permitiu e permite que ele seja como é e que tanto os atrai), não será arrogância? Será só mesmo ignorância? 
Num ponto concordo com Leonel Moura, concordo quando diz “…O topo da nossa sociedade está repleta de bárbaros. …”, os que têm acesso regular aos média são disso exemplo Leonel Moura ou supõe que todos têm o direito de opinião nos média? Recordo-vos que a Santa Inquisição também se supunha com a razão e também preconizava uma sociedade melhor, lamentavelmente os que foram queimados, por hereges, não podem ser recuperados em acto de contrição.

Leonel Moura usou da disponibilidade que o Jornal de negócios lhe faculta para, teoricamente, ao abrigo do percalço de S.A.R. denegrir, insultar e criminalizar uma actividade e todos os seus praticantes. Espero, sinceramente, que agora o mesmo órgão de informação, permita a este colectivo, que não represento mas no qual me incluo, use do direito de resposta que creio assiste a quem é acusado em espaço público.

Póvoa da Isenta, 26 de Abril de 2012

Paulo Farinha Pereira

Texto e foto da autoria de Paulo Farinha Pereira

6 de julho de 2012

Vale a pena ser Caçador

O amigo e Presidente da CNCP Vítor Palmilha desafiou-me a escrever umas palavras nesta notável publicação, que se insere no prestigiante evento que é a XVII Edição da  Feira de Caça, Pesca e do Mundo Rural do Algarve, que muito valoriza esta Região em particular e o Mundo da Caça em geral, pelo que não pude recusar e aqui estou.

Conto 59 anos de uma vida activa e bem preenchida, dos quais passei 53 anos a viver intensamente uma paixão e um acto de cultura que é a caça.

Aos que tiverem paciência para ler estas minhas linhas, principalmente aos mais novos e em jeito de balanço digo-lhes que  continua a valer a pena ser Caçador.
Pratiquei andebol, joguei futebol, fui aluno do quadro de honra de Económicas, na Universidade Técnica de Lisboa, docente de duas universidades a sério, responsável máximo da pasta das Finanças do Governo dos Açores, ajudei a criar  e ainda sou o responsável número um de uma Instituição de Crédito que dignifica o nome que ostenta.
Privei com muita gente, desde a mais humilde à mais distinta e se tivesse que nomear as três palavras que estiveram sempre presentes  na minha vida indicaria a ética, o trabalho e a caça.
Nunca tive vergonha de afirmar, em nenhuma situação e em nenhum lugar, que era Caçador, muito antes pelo contrário.  
Numa fase bastante amarga da nossa vida individual e colectiva, como a que vivemos actualmente e que é por todos conhecida, com uma lei das armas desajustada a afastar cada vez mais caçadores, com o associativismo a passar por enormes dificuldades,  com as pessoas a agredirem-se  mutuamente ao invés de se aproximarem e de se unirem, com uma presença cada vez mais forte e não menos fanática dos movimentos anti-caça, entre tantos outros aspectos negativos, tudo isto contribui decisivamente para afastar da caça os mais jovens, os mais antigos e muitos  dos praticantes que até há pouco tempo eram bastante activos.
 Apesar de tudo isto, destes fortes constrangimentos à prática cinegética, reafirmo que vale a pena ser Caçador, porque mesmo que tenhamos de fazer sacrifícios, continua sempre a valer a pena!
Para comprar a minha primeira espingarda de caça,  uma Baikal, de um cano, na altura por 10 mil escudos,  deixei pura e simplesmente de fumar e acreditem que na altura custou-me bastante fazê-lo. Ainda hoje continuo a preferir a caça e quando tenho de optar entre a caça e outra coisa qualquer, por muito duro que se torne, escolho sempre a caça.
Ainda recentemente  custou-me imenso ter  de denunciar ao Senhor Provedor de Justiça o comportamento da Secretaria Regional da Agricultura dos  Açores, mais concretamente da Direcção Regional dos Recursos Florestais, entidade que tutela a caça na Região Autónoma dos Açores,  por obrigarem os Caçadores Açorianos e residentes nestas ilhas, titulares de carta de caçador nacional e de licença de caça nacional, a terem de  tirar uma licença de caça de Ilha (8 licenças para 8 Ilhas, já que no Corvo não se caça) com o argumento de que o produto  financeiro proveniente das licenças nacionais  ficava para o Orçamento de Estado e não para o Orçamento Regional.
Ora, tendo sido eu um dos autores da proposta da primeira Lei de Finanças das Regiões Autónomas, sei perfeitamente que este argumento não tem fundamento nenhum e que pode facilmente ser ultrapassado e ainda argumentam que um caçador Açoriano, com uma carta de caçador regional, não pode caçar no Continente!
Estamos pois perante um grave atropelo e quem o diz é quem, sem falsas modéstias o afirmo, já deu muito de si, da sua energia e do seu trabalho aos Açores. Poderia ter optado pelo silêncio, que neste caso seria bem mais cómodo, mas a defesa da caça obriga-nos a tomar uma posição clara quando se torna necessário e impõe-nos sérios deveres, um dos quais o combate às injustiças.
Sinto possuir esta obrigação, já que devo à caça parte da minha saúde e da minha alegria. Na caça fiz amigos extraordinários, conheci lugares e Países que nunca previ lá chegar que não fosse doutro modo. Provei sabores e gastronomia cinegética de excelência, sendo que alguns dos pratos confeccionados e a matéria-prima utilizada só se consegue mesmo sendo caçador.
Na caça desenvolvi e apurei o espírito de equipa e de liderança que me ajudaram a ser o homem que sou.
Finalmente por ter tido a honra de partilhar momentos únicos com os meus cães de caça, podengos e perdigueiros que tudo fizeram e fazem para me agradar e tornar num Caçador completo. Ainda hoje, nestes tempos conturbados que vivemos e fora do período da caça, poder usufruir da companhia dos meus cães de caça, nem que seja uma hora por dia, para além de ser um privilégio é um suplemento vitamínico extraordinário para me ajudar a enfrentar os desafios da vida e só por isto já vale a pena ser Caçador!
Com a idade a avançar, comecei a valorizar ainda mais a componente social da caça, a descobrir o desportivismo que a mesma encerra, a desfrutar da natureza e a preocupar-me com o meio ambiente e a sua sustentabilidade. Valorizo mais a qualidade do lance em detrimento da quantidade dos abates, outrora bem mais aliciantes.
Um coelho bravo bem trabalhado pelos meus podengos ou uma galinhola bem amarrada por uma das minhas Setters ou por um dos meus Bretões não tem preço e vale a pena todos os sacrifícios. Aquele que me ler, sendo caçador, decerto que me compreenderá.
Por tudo isto reafirmo a necessidade de nos unirmos em torno dos valores que estimamos e que nos são comuns, de nos empenharmos na defesa da caça e a darmos o nosso válido contributo para o seu desenvolvimento, porque continua valer a pena ser Caçador, mesmo nos dias que correm.

Gualter Furtado

Presidente em exercício da Assembleia Geral da Federação dos Caçadores dos Açores  e Presidente da Assembleia Geral da Associação Nacional de Caçadores de Galinholas

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

13 de maio de 2012

Carta Aberta

Sou um ser humano falso, um fingido, um sádico mascarado de caçador, um mau tipo, um insensível, um mentecapto, um mestre do eufemismo, alguém a quem, por favor, nunca voltes as costas...
Podes tu pertencer aos que dizem que ficas encantado com o campo e com os animais, que amas a mãe natureza e todos os seres que nela habitam, sem excepção. Que te dá prazer visitá-la, se possível na companhia do teu cão, que adoptaste, de passar um fim-de-semana com a tua família ou amigos numa casa rural, esse será sempre o teu plano perfeito.
Desfrutas então quando observas de longe o majestoso voo do abutre, ou o voar rápido do falcão peregrino ou o esvoaçar imóvel do peneireiro.  
Sonhas em conseguir juntar o dinheiro suficiente para conseguires comprar aquele magnífico telescópio austríaco que te irá permitir ver tudo nessas idílicas paisagens, até mesmo o fundo da tua alma.  
Em casa reciclas tudo, para o trabalho vais sempre em transporte público e sempre que podes colaboras com uma organização ambientalista. Sim, decididamente estás comprometido para sempre. Para ti, é isso que é amar a Natureza, o resto - dirás tu - serão cantigas.
Por isso, meu amigo ecologista, que tão bem nos conhecemos, és incapaz de entender porque razão sou eu um caçador e falo de uma estupidez tão grande como o acto de caçar. Como assim?
Eu não posso de forma alguma amar a natureza e os animais pois acabo por, no final, procurar matá-los.
Não, para ti amar a Natureza não é isso.
A minha espingarda será sempre um objecto tétrico, um objecto artificial, que provoca um imenso ruído na paz dos campos, sempre que eu disparo... nunca este cenário poderia encaixar numa tela a óleo de Monet, dirás.
Apesar disso, digo-te e repito que proclamo o meu amor por esta mesma amante, que tu também amas. Mas isso é impossível, dirás. Sou um falso humano, um fingido, um sádico mascarado, um mau tipo, um insensível, um mentecapto, um mestre do eufemismo, alguém de que desconfias e a quem nunca voltarás as costas...não vá o Diabo tecê-las.
Mas deixa-me só dizer-te uma coisa, gostaria muito que, por uma só vez que fosse, te debruçasses comigo sobre a Natureza, aquela que eu verdadeiramente conheço. E que te fundisses com ela tal como eu faço muitos fins-de-semana.
Vem então. Parte essa vitrina que te aprisiona, sai dessa maldita rota do sedentarismo e vem pisar a erva molhada da madrugada ainda escura, que te encharca os pés, sente que és tu o dono do teu caminho e que encaminhas os teus passos para qualquer lado, não te importes nem com o destino nem com a direcção, nem com o resultado.
Esse é o caminho que nós, caçadores, seguimos durante algumas horas, os que deixamos de sonhar em sermos livres para passarmos a sê-lo verdadeiramente, nas nossas jornadas. Sente aquele vento áspero e gelado na tua cara, suja as tuas calças de barro quando saltas aquela charca que está atravessada no teu caminho, treme, encharcado de chuva, frio ou de nervos, quando te sentas um pouco no meio do nada, a descansar, ofegante, naquela imensidão, compreende que, ali, a tua vida, naquele momento, depende única e exclusivamente de ti, pois estás só, ali não existem óleos de Monet, nem a policia, nem a cobertura de telemóvel que tanta falta te fazem. Possivelmente, só os teus companheiros de caça e o teu cão fiel amigo.
Sente-te livre. Pica-te, arranha-te nos tojos quando procuras romper pelo monte acima em busca das perdizes esguias. E sangra das pernas. Acaricia o teu cão companheiro de caça e tenta olhá-lo nos seus olhos fugidios e esquivos. Vais ver que não consegues pois ele está é absolutamente compenetrado em procurar aquela perdiz para ti, que tanto pretendes. Depara-te com a lebre matreira que, dormindo nos pastos, salta à tua frente, em desafio e corrida desenfreada.
Sente as horas, o dia, a fugirem, a escaparem rapidamente debaixo dos teus pés. Desafia essa Gigante toda-poderosa que é a Mãe Natureza. Desfruta-a com toda a atenção a que és obrigado e olha-a com respeito.
Observa como espera a raposa, sinistra, imóvel, como ela salta sobre a ratazana ou o coelho, observa como o falcão peregrino "rasga" aquele bando de torcazes que vem para o Alentejo, onde alguns perdem a vida.
Encontra pelo caminho a cama do Javali, ainda quente, e faz uma careta com o mau cheiro pestilento do animal que ali esteve. Se o encontrares pela frente, vê como o teu sangue parece congelar nas veias durante cinco segundos. Observa como a raposa agarra com os dentes na jugular daquela lebre menos atenta e mais afoita. Sente a fuga do veado , a partir as ramadas das giestas, e que é bem capaz de saltar por cima de ti enquanto foge e escapa aos seus perseguidores, envolvendo o teu coração numa autêntica revolução de sentidos.
Observa muito bem todo esse cenário que nós caçadores vivemos, pois é o mais real que vais ver na puta da tua vida. Aqui estão escritas todas as leis da existência e da sobrevivência. Assim é, há milhares de anos, ainda que tu não o saibas. Uma dessas leis, a mais lapidar, é a da vida e da morte, a de comer ou ser comido, a de fugir ou ser abatido, a de caçar ou ser caçado.
Se tens sangue nas tuas veias, o teu coração irá acelerar e muito ao ser testemunho directo de tão maravilhoso e grandioso espectáculo.
E então talvez compreendas que a única diferença que existe entre nós é que eu não me conformo em ser um mero espectador desta maravilha que é a gloriosa Natureza.
Que eu quero ser o que sempre fui, e que desfruto vivendo a vida da maneira mais simples, esquecendo nestes dias tudo o que aprendi na escola e na universidade, participando nesse formidável jogo de vencedores e vencidos.
Talvez assim entendas porque sou verdadeiramente capaz de me integrar na Natureza como qualquer outro animal. Como animal que tu também foste antes de te tornares completamente artificializado com as tuas teorias humanistas, antes de distorceres a realidade para não sentires o tacto pegajoso do sangue da peça de caça ou do estertor da morte da peça que capturaste e que ainda bate na tua perna, à medida que caminhas.
Nesse dia, depois de veres a vida através dos meus olhos, talvez penses que o meu melhor não é a falsidade e que eu, de facto, amo profundamente a natureza. O meu amor talvez não seja tão idílico, nem tão casto, nem tão puritano como tu gostarias que fosse. Mas é um amor real, longe de ser perfeito, como o que um filho sente pela sua mãe e não como o que uma mãe sente pelo seu filho.
Um amor que por muito que tentes, nunca mo poderás arrebatar.

Um abraço de amizade, de um caçador.

Texto e foto da autoria de Sérgio Vieira, em Histórias de Caça em Portugal

12 de maio de 2012

As Perdizes do Uruguai

A República Oriental do Uruguai é um País da América do Sul que faz fronteira com o Brasil e com a Argentina.  Apresenta  uma população com cerca de 3,3 milhões de habitantes e um território com uma área de 176 mil Km2. 
A capital é Montevideo e tem um regime político republicano presidencialista e pluripartidário.
A segurança no País é aceitável e positiva, embora se recomende muita cautela com os locais que se frequenta e com os "desvios". Infelizmente, no mundo,  já não existem países nem locais totalmente seguros.
A moeda no Uruguai é o peso e, presentemente, com 1 euro se podem comprar 25 pesos uruguaios. Nos anos mais recentes o peso tem vindo a revalorizar-se face ao euro e ao dólar norte-americano (moeda de referência no Uruguai).
O Uruguai é um País essencialmente agrícola, assente em grandes propriedades que produzem para exportação.
Há quem diga ser, embora exageradamente,  uma pequena Suíça da América do Sul.
Montevideo está a cerca de 11 horas de avião de Madrid, a que se deve acrescentar mais umas 3 ou 4 horas até Trinidad (Departamento de Flores), a pequena cidade que escolhemos para servir de base, já  que se encontra próxima dos vastos campos de soja, sorgo, trigo, girassol e pastagens naturais para o gado bovino e ovino com muitos charcos de água.

A caça é dos proprietários (muitos deles Argentinos e Brasileiros) e só se pode caçar com autorização destes, mediante o pagamento de uma "propina" (cerca de 20 a 30 euros).
Em boa parte, o sucesso de um programa de caça resulta da seriedade ou não dos organizadores locais.   Este ponto é fundamental,  pois as opções infelizmente não são muitas,  mas existem lá pessoas muito capazes como é o caso do Nelson Gutierrez (Organizacion Charrua). Em alternativa uma consulta à Top Atlântico e ao experiente  Pedro Lencastre será sempre uma opção válida.
A grande ameaça à caça no Uruguai é a crescente utilização dos pesticidas na agricultura, designadamente na soja, o que coloca em risco a sustentabilidade de diversas espécies e das perdizes em particular.

No entanto, e ainda por enquanto,  o Uruguai continua a ser um paraíso para quem gosta de caçar perdizes com cão de parar como é o meu caso.
Este ano fiz-me acompanhar do Epagneul bretão Pico, de  5 anos de idade, filho do famoso Scotch, pertença do meu amigo Cremildo, da Ilha Montanha (Ilha do Pico) e que é uma referência de primeira ordem na canicultura cinegética Açoriana.
Existem no Uruguai três tipos de perdizes, a perdiz Márron, a Martineta e a perdiz comum. O meu objectivo principal era caçar a perdiz comum, que é praticamente uma codorniz em ponto grande, mas com um comportamento e  um voo que se assemelha em muito à nossa perdiz vermelha. Um outro desejo era o de ver o Pico parar a umas Martinetas, embora sem proceder ao abate já que se encontra presentemente proibida a sua caça (junto umas fotos do tempo em que a sua caça era permitida), trata-se esta da maior perdiz uruguaia e realmente é uma ave magnífica que mete respeito.  
Tendo em conta os objectivos fixados, o Pico  portou-se à altura das responsabilidades e das exigências  parando magistralmente algumas Martinetas, cujas imagens retenho na memória e que jamais esquecerei.
Não é fácil viajar dos Açores com um cão para um país tão distante e proporcionar-lhe o melhor conforto possível nesse percurso. Isso implica desistir dos prazeres que este tipo de viagens proporciona  para que se possa garantir um acompanhamento quase permanente ao nosso companheiro de quatro patas. É preciso sentir uma grande paixão pela caça e pelos cães de parar e neste caso sou afortunado, porque os meus cães acabam sempre por me recompensar por todos estes “sacrifícios”.
No primeiro dia de caça as perdizes uruguaias eram uma novidade para o Pico, já que se furtavam a patas numa velocidade impressionante. No segundo dia o Pico já não se deixou enganar e proporcionou-me lances extraordinários.
Cacei sozinho e também na companhia  alternada do Carlos (um verdadeiro cavalheiro), do Ferreira, do Nuno e do Sr. Henrique,   todos eles bons atiradores, caçadores, cumpridores escrupulosos das regras de segurança e praticantes da boa ética na caça, condições imprescindíveis para serem meus companheiros de jornada.

Como já referi, embora os meus objectivos nesta deslocação, que foi quase de certeza  a última devido à distância, à idade que não perdoa e à Troika, fossem as perdizes, o Pico, para além das Martinetas, parou igualmente lebres, narcejas e cobrou centenas de rolas.
Quanto a estas últimas, refiro que os outros membros do grupo, incluindo o Victor,  atiraram e cobraram milhares de rolas, espécie que continua a proliferar com milhões de exemplares para desespero dos produtores agrícolas e sem nenhum aproveitamento económico. Há muito que se justifica uma indústria de produtos derivados da carne de rola.  Nesse sentido fizemos algumas refeições no campo  à base da carne desta ave e tentamos demonstrar aos nossos amigos locais o potencial gastronómico da rola, mas sem grande sucesso, já que inevitavelmente preferiam os assados da carne de bovino e chouriços, que constituem as iguarias da gastronomia uruguaia.
Por outro lado, no hotel em que ficamos hospedados, os pratos que confeccionamos à base da carne de perdiz e de rola foram altamente apreciados  pelos caçadores franceses e espanhóis que lá se encontravam e que se juntam em Trinidad, pelo 1 de Maio, para fazerem a abertura de caça no Uruguai. Eu próprio tive a oportunidade de demonstrar ao cozinheiro chefe da unidade hoteleira como é que se podiam preparar alguns pratos com estas espécies cinegéticas.   
Finalmente, e não me canso de referir, é impressionante a quantidade e variedade de aves (cerca de 450) que podem ser observadas no Uruguai, um autêntico paraíso para os aficionados do birdwatching, e que também me parece ser uma actividade muito pouco estudada e divulgada.  Saliento, com especial destaque, o exímio trabalho de arquitectura realizado pelos Los Horneros, aquando da feitura dos seus ninhos no topo das varas que suportam as vedações dos terrenos. São uma autêntica obra de arte!
A par desta vivência e de tudo isto que vos descrevi, os animais como o Peludo, o Tatú (símbolo do Uruguai) e mesmo o Carpincho (Capivara) dão à paisagem Uruguaia uma marca única, distintiva e inesquecível, que vale a pena experimentar e que já me levou a regressar por algumas vezes.


Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

22 de fevereiro de 2012

Prenúncio de Morte

No passado dia 19 de Fevereiro de 2012, no decurso da manhã, desloquei-me à costa Oeste da ilha de Santa Maria, com o objectivo de averiguar as informações que me transmitiam e que, infelizmente, acabei por confirmar.
Desde o final do ano passado que sou confrontado com notícias do ressurgimento da doença nos coelhos e que, em face disso, esses animais estavam a morrer em numerosa quantidade, situação que pude constatar pois, numa área inferior a 10 000 m2, detectei várias carcaças, em diversos estádios de decomposição, sendo de tal ordem a devastação que algumas se encontravam aos pares.

A Mixomatose e a Doença Hemorrágica Viral (DHV), cujos vírus foram produzidos pelo Homem, são as moléstias que mais destruição provocam nos coelhos.
A Mixomatose causa a morte entre 4 a 8 dias e é extraordinariamente contagiosa. A sua transmissão realiza-se através dos mosquitos e das pulgas.  
Por sua vez a DHV, que é excessivamente contagiante, transmite-se por contacto directo e indirecto, significa isto que até se propaga através de objectos contaminados, de roedores e insectos. Os sintomas manifestam-se 48h após o contágio e muitas das vezes os coelhos morrem sem apresentar quaisquer indícios, enquanto noutras poderão expor hemorragias pelos orifícios naturais. Este vírus, que é o mais diabólico dos dois, pode conduzir uma população inteira de coelhos à extinção!
Neste preciso momento até os coelhos domésticos estão a morrer em catadupa.

De acordo com informação cedida pela Directora dos Recursos Florestais, Eng.ª Anabela  Isidoro, a doença manifesta-se em toda a Ilha de Santa Maria e têm-se avistado coelhos mortos também por toda a Ilha.
Os primeiros avistamentos datam da última semana de Dezembro de 2011 e verificaram-se na zona alta, mais propriamente na freguesia de Santo Espírito, tendo depois passado para as freguesias de São Pedro e de Almagreira e posteriormente para a zona baixa, principalmente  para os lugares de Ribeira Seca, Cabrestantes e Mobil, tendo sido o último avistamento ontem (21/02/2012).
Na 1.ª e na 3.ª semana de Janeiro de 2012, foram recolhidos 12 exemplares por elementos do corpo de Polícia Florestal e entregues no Serviço de Desenvolvimento Agrário de Santa Maria que os enviou para o Laboratório Regional de Veterinária, o qual procedeu à recolha dos órgãos e os remeteu, entre finais de Janeiro e princípios de Fevereiro, para o Laboratório Nacional de Investigação Veterinária que procedeu às análises e cujos resultados foram positivos para a DHV,  que se deve à acção de um vírus (Calcivírus) que provoca uma hepatite muito severa e uma ruptura do sistema de coagulação do sangue, pelo que os coelhos sofrem hemorragias internas até morrerem. A doença é extremamente contagiosa para as populações de coelhos selvagens e domésticos.
Acrescentou que os elementos do Corpo de Polícia Florestal têm vindo a recolher coelhos mortos e que até ao momento já procederam à recolha de mais de 500 coelhos, que foram cobertos com cal e enterrados.
Parece que o número de coelhos afectados se encontra em decréscimo pois, segundo a mesma responsável, depois de ter havido um pico de mortes, o número de avistamentos de mortes recentes estabilizou e agora são encontrados um número menor de coelhos mortos recentemente, porém não é fácil identificar a fase de desenvolvimento em que se encontra a doença, porque implicaria um acompanhamento extremamente exaustivo, ao nível do número de animais mortos por dia e por zona, para além de requerer a realização de exames laboratoriais quase diários.
Sendo compreensível a preocupação dos caçadores em acompanhar a situação, através da sua deslocação ao terreno, deixa o alerta que será prudente evitar este tipo de procedimento, uma vez que o mesmo se pode revelar como mais um factor de disseminação da doença para zonas de menor incidência.
Já se encontra assinada uma portaria a alterar o actual Calendário Venatório para a ilha de Santa Maria, através da proibição da caça ao coelho-bravo até ao final da decorrente época venatória que, neste momento, se encontra aberta até ao final de Junho próximo, apenas na zona alta da ilha, no primeiro e no terceiro domingo de cada mês, pelo processo de caça "de corricão" e, aos sábados, pelo processo de caça "de cetraria". Estes processos de caça, embora de menor pressão cinegética, constituem fortes meios de disseminação da DHV, pelo que será desaconselhável a sua permissão.
Disse-nos ainda que qualquer pessoa que encontre um coelho morto, com suspeita de DHV, deverá proceder ao seu enterramento no local onde o encontrou e, em seguida, desinfectar as mãos, vestuário e calçado, ou então colocar o animal num saco de plástico bem fechado e entrega-lo no serviço florestal, para destruição.
Que não se trata de uma doença transmissível ao homem, nem a animais de outras espécies, no entanto não será aconselhável o consumo de carne de coelho bravo.
Conclui a Eng.ª Anabela Isidoro que, em comparação ao anterior surto de DHV na Ilha de Santa Maria, que teve lugar no final da década de 90, este está a ser mais virulento e com mais coelhos mortos.

Perante este cenário muito preocupante e sendo a caça um importante produto da terra, carece a mesma de inúmeros cuidados e de um modelo de gestão racional e adequado, tal e qual como aquele que rege o agricultor que monda as ervas daninhas que surgem nos seus terrenos, sob o risco de, não o fazendo, perder a colheita.  
Nesta perspectiva urge repensar, não só a existência dos calendários venatórios que temos tido na Ilha de Santa Maria, como a própria gestão da caça mariense.  
O resultado das medidas actuais, conjugadas com um clima completamente atípico e muito favorável à reprodução das espécies, traduziu-se no aumento exponencial da população de coelhos bravos e no consequente dispêndio de avultadas quantias monetárias para protecção dos terrenos cultivados, tudo condições geradoras de intranquilidade e insegurança.
O coelho bravo é um factor de conflito e continuará a sê-lo, sempre que for ignorada a sua importância como espécie cinegética e a necessidade de gestão racional dos seus números.
Em Santa Maria é a caça ao coelho bravo aquela que mais se pratica, pelo que qualquer foco de instabilidade, como a mortandade que se verifica actualmente, causa imediatamente um profundo mal-estar.  
Para que se possa minimizar esse efeito deve considerar-se o urgente desenvolvimento de alternativas naturais, como a introdução da perdiz cinzenta, a reintrodução da perdiz vermelha ou repovoamentos de codorniz, modalidades de caça que não devem substituir a caça ao coelho, mas sim complementa-la.

Em face da devastação que podemos constatar, temo estarmos perante uma situação de efeitos deveras catastróficos que, pelos motivos aqui expostos, nos deve levar a repensar, de uma vez por todas e quanto antes, a organização e a gestão da caça neste arquipélago e na Ilha de Santa Maria em particular.


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Correio dos Açores - 23/02/2012 
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12 de fevereiro de 2012

Aves Observadas

Algumas aves que consegui observar e fotografar ontem, das quais saliento as de um dos três falcões que sobrevoam os campos de caça desta bonita Ilha de Santa Maria.
Nestas, em particular, fotografei-o após ele ter capturado um lagarto que acabou por matar em voo, enquanto as restantes fotos foram obtidas na orla costeira.

8 de fevereiro de 2012

Montaria em Mós-do-Douro 2012

A Associação de Caçadores das Encostas do Douro, em colaboração com a Junta de Freguesia de Mós-do-Douro e uma vasta equipa de bons amigos, realizou no dia 4 de Fevereiro de 2012, a XIII Montaria ao Javali de Mós-do-Douro.
O evento, que reúne caçadores de todo o País e de amigos de Mós-do-Douro, já faz parte do património humano, da cinegética nacional e é uma autêntica romaria a um dos locais mais típicos do País onde somos sempre muito bem recebidos e acarinhados pelo Ricardo, Ramiro, Rui, Luís Polido, Presidente da Junta de Freguesia, entre outros.
É claro que a caçada é também um bom pretexto para este reencontro, para saborearmos a fabulosa gastronomia local e encantarmos a vista com a beleza extraordinária que o Douro proporciona a quem com ele se depara.

Este ano fiz-me acompanhar do meu companheiro de sempre o Cremildo Marques, mais conhecido por “Barbas”, e do grande caçador Dr. António Tomás (industrial da famosa fábrica Santana que ao longo dos anos vem produzindo belíssimos azulejos e painéis que muito valorizam o património nacional - mandou fazer um azulejo comemorativo desta Montaria).
O Cremildo com a sua boa disposição e no desempenho de leiloeiro dos javalis cobrados tem constituído uma forte mais valia para a Organização já que os porcos leiloados por ele rendem sempre mais.
Á nossa parte arrematamos 2 porcos (1 pequeno e outro médio) para ajudarmos a Organização e para fazermos um almoço de Javali, que levamos a cabo no dia seguinte, magistralmente cozinhado pelo Luís Polido e sua esposa, que também acabamos por partilhar com o Sr. que teve a amabilidade de nos alojar no anexo das antigas instalações do caminho de ferro de Mós-do-Douro. Ainda sobraram uns pedaços para serem confeccionados em futuros encontros de amigos caçadores.
O dia esteve magnifico, isto depois de um “frio de rachar pedras”, e os cerca de 116 Monteiros, acompanhados por 16 Matilhas, cobraram 16 Javalis, com alguns bons exemplares como o que foi cobrado por um Monteiro sénior (julgo que o seu nome é Marinho) e que se não for uma medalha de ouro fica por lá bem próximo.
A presença de Mulheres Monteiras fez-se também notar, o que enriquece sempre um evento desta natureza, tendo destaque especial a Andreia Catarina.
Figura de relevo foi também a do “Eng.º das navalhas” que este ano nos acompanhou na visita à casa do Sr. Luís Polido e no desmanchar dos javalis. Ele e mais o amigo João Ramiro “fartaram-se de trabalhar”. Esforço altamente apreciado e reconhecido pelo nosso Grupo.
A montaria foi precedida por um esclarecedor discurso do seu Director Pedro Delgado que em breves palavras apelou para o cumprimento das normas fixadas, da segurança, para o espírito desportivo e pela ética. No regresso o almoço foi servido numa sala repleta de gente da caça.
Enquanto observava aqueles caçadores, que ali conviviam em franca amizade, questionava-me sobre o futuro da actividade cinegética a breve prazo, com todas as dificuldades económicas e financeiras porque passa o País e perante as exigências da nova Lei das Armas. Antevejo um futuro muito negro para um sector que quando vivido com ética e segurança é muito enriquecedor.

No dia que se seguiu, e na mesma zona, eu e o Cremildo fomos caçar aos tordos com os “profissionais” Ricardo, João Ramiro, Salgueiro e António Tomás. Segundo estes especialistas o ano está a ser fraco e a culpa é do clima, que está a mudar em todo o mundo, da pressão a que estas aves são sujeitas nos Países onde iniciam a Migração e por onde vão passando antes de chegarem a Portugal, obrigando os tordos a alterar rotas e comportamentos.
Confesso que este tipo de caçada nunca me atraiu muito, já que, para mim, caça que não meta cães é meia caçada, isto não significa que não tivesse apreciado a mestria e a arte de caçar destes nossos amigos e anfitriões.
É impressionante como, com um assobio, trazem eles o tordo lá do alto quase até aos canos da espingarda.
Não era ainda bem meio-dia e para desespero do amigo Tomás já estávamos a abalar para o magnifico almoço de javali que referi. O Tomás bem pregava que estávamos a ir-nos embora na melhor hora - e o Salgueiro bem os derrubava, mas trocar aquele “melrinho”, por um almoço de javali não foi uma decisão difícil, que me perdoe o amigo Tomás (um companheiro formidável).

No fim do almoço ainda tivemos tempo para visitar a igreja de Mós-do-Douro (com um altar em talha de madeira muito bem trabalhada) e tomar um café no estabelecimento local (que o Cremildo muito gosta de visitar) que nos manteve bem acordados até Mação e depois até Lisboa de onde regressamos aos nossos Açores.
Até para o ano Mós-do-Douro e amigos romeiros desta caçaria, isto se a Troika nos deixar regressar para o ano. Se não até um dia qualquer!

Açores 6 de Fevereiro de 2012

Gualter Furtado

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

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