23 de fevereiro de 2010

O Trilho do Caçador

De acordo com o que disse Ortega e Gasset, no seu livro “A Caça e os Touros”, a Caça possui a característica de quase não ter variado na sua estrutura geral desde os tempos primórdios, exemplificando tal afirmação através da comparação da cena de uma batida aos veados, gravada no decurso da era paleolítica, na Cueva de los Caballos, em Espanha, com a de uma imagem fotográfica de uma montaria actual.
Referiu também que a Caça não se pode definir apenas pelo desporto ou pela utilidade, que designou por finalidades transitivas, porque são exteriores, que ficam para além dela e que a supõem, ou seja, que as distintas finalidades atribuídas à Caça não determinam a actuação em que ela consiste, mas modulam somente o seu exercício.
Que tão pouco pode ser definida pelas suas operações particulares, pelas suas técnicas, uma vez que são inumeráveis, sendo que todas e cada uma implicam certos supostos gerais e comuns, que são a verdadeira essência da actividade venatória e que, por isso, é um erro definir a Caça como sendo uma “perseguição raciocinada”, nos termos em que refere Kurt Lindner, no livro “A Caça Pré-histórica”.

Os primeiros Caçadores, foram os primeiros hominídeos. De facto, fomos Caçadores, muito antes de sermos “totalmente” homens. Significa isto que a Caça é uma das nossas heranças genéticas e que se encontra gravada bem fundo no código de ADN que nos dá a forma e o conteúdo (David Petersen, em “Heartsblood”).
Fernando de Araújo Ferreira, designa-o de "Fogo Sagrado"!

A Caça é uma importante actividade social e psicológica para os Caçadores. É uma demanda poderosa e repleta de significado, acima e para além de outras actividades recreativas (Mark Duda).
Paul Shepard referiu um dia que “the hunt brings into play intense emotions and a sense of the mysteries of our existence, a cathartic and mediating transformation”.
A Caça coloca em confronto emoções intensas e profundas, desperta-nos o intelecto para o mistério que envolve a nossa existência!

Conhecemo-la por Diana, nome Romano para a deusa da caça, a rainha dos animais, a soberana dos animais errantes e da natureza livre, mas também é chamada de Thoeris no Egipto, Shakuntala na Índia, Taue Si na América do Sul, Sedna entre o povo Inuit, de Wibalu na Oceania.
Em todos os povos, de todos os países, de todos os continentes, há uma deusa da caça, e algumas delas são tão antigas como a história ancestral do mais antigo desses povos, cuja função essencial reside na atribuição de um significado compreensível e de alguma ordem à vida, bem como estabelecer um conjunto de normas éticas e morais tão essenciais que são à existência em sociedade. Esses deuses tanto podem ser representados através de animais e plantas, rios e vales, lagos e montanhas, o vento que sopra de Norte ou as constelações, como a Ursa Maior ou o Sagitário!

James A. Swan, no seu livro “The Sacred Art of Hunting” refere que, na generalidade das culturas tradicionais, existe a crença de que há muito, muito tempo, os animais andavam e falavam, coexistindo com o homem em igualdade de circunstâncias e comunicando através de uma linguagem comum, geralmente identificada como a linguagem das aves. Uma vez que acreditam que as dimensões do tempo e do espaço se fundem nos sonhos e nas visões, prevalece a crença de que o homem pode reentrar nesse lugar e conversar com os espíritos, tal e qual o fizeram tão inequivocamente os seus antepassados. Acrescenta ainda que crêem que os animais de todas as qualidades se encontram interligados através de uma espécie de teia invisível, que não só os liga entre si, mas também aos seres espirituais que coabitam noutra dimensão mais elevada e que presidem à sabedoria e poderes de cada animal. Que esses poderes podem ser transferidos para os humanos que ganham o reconhecimento desses seres poderosos. Por exemplo, os índios Kwakiutl, acreditam que as almas dos grandes caçadores renascem nas orcas que, para eles, são animais sagrados e poderosos.

Ao contrário dos animais cuja vida não se encontra vazia e indeterminada, como disse Ortega e Gasset, o homem ao encontrar-se existindo, deparou-se com um pavoroso vazio, um espaço que o distanciou ainda mais do mundo natural, donde surgiu e necessita urgentemente de regressar para poder reencontrar-se e compreender-se, e tenta faze-lo desesperadamente desde que tomou consciência da sua humanidade, desde que se tornou caçador.
Os rituais mágicos, os amuletos, o consumo de drogas alucinogénias estão entre as primeiras tentativas de comunicação com os espíritos. Não é por acaso que ainda se reza “O Pai Nosso” na montaria ao javali ou na batida aos veados, da qual disse Ortega e Gasset não ter diferença quando comparada com a gravura existente na Cueva de los Caballos, a tal que remonta à era paleolítica.
Nas grutas de Lascaux, em França, podemos encontrar uma cena de caça que remonta a 17000 anos antes de Cristo, cujo realismo, audácia e movimento inspirou diversos artistas. Picasso, quando com ela se deparou, exclamou: “fui eu que fiz isso!” (La Chasse vue par les peintres, de Sylvie Ménard).

O Sufismo, uma seita espiritual, com origem no Médio Oriente, prega a existência de 72 caminhos, através dos quais podemos chegar a Deus e que todos eles são iguais, sendo um deles o Trilho do Caçador.

A morte de um animal na Caça, seja ele qual for, é um acontecimento triste, mas nunca um acto de maldade, a não ser que o caçador não possua consciência do seu impacto na natureza ou ignore as consequências do seu acto, mas quando assim for, não é Caçador! Por isso mesmo, em tantas culturas por este mundo fora, persistem ritos celebrados também após a morte do animal, para poder dar-lhe o merecido descanso, agradecer-lhe a carne que irá proporcionar e para tranquilizar os deuses, como, por exemplo, o d’"a última refeição", celebrado nalgumas regiões da Europa, em que o caçador serve comida ao animal abatido, tornando-se, por isso, também o local onde foi encontrado e caiu num terreno de caça sagrado.
Nesse contexto disse Fernando de Araújo Ferreira, no seu livro "Galinholas" o seguinte: "não sei se já repararam neles, na expressão desses olhos, quando à vossa mão vai parar uma galinhola de asa... Eu creio que nenhum caçador, que tenha sensibilidade, possa demorar a sua atenção no olhar da galinhola sem que sinta pena, sem que lá dentro haja uma certa revolta por roubar aquela vida à extensão das florestas, à solidão do seu destino".
É assim um acontecimento amargo e desgostoso, mas também de enorme reconhecimento pelo animal que morreu para nos alimentar. Jamais um acto insensível e cruel!

O que mais deseja o Caçador é tornar ao que é natural e verdadeiro e dar o seu válido contributo para o equilíbrio do ecossistema onde todos existimos e nos relacionamos.
Apesar de admitir ser impossível conciliar as suas crenças com as daqueles que o atacam, o Caçador respeita-as, porque aprecia-as, os admiram, e muito, o modo como eles tentam minimizar o seu impacto negativo no Mundo. Nós, Caçadores, também tentamos fazê-lo, mas percorrendo o nosso caminho, tal e qual eles percorrem o deles, e fazemo-lo caminhando no Trilho do Caçador, como sempre o fizemos, desde o primeiro dos dias, e continuaremos a fazê-lo, até ao último dos minutos!

Este texto encontra-se publicado no Santo Huberto e também n' O Baluarte

16 de fevereiro de 2010

Afinal Porque Caçamos

É sabido ser a caça a mais antiga actividade do homem e que esteve na génese de tantas outras, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da humanidade!
Então, porque é que parece ser tão difícil, para alguns, entender que somos herdeiros de algo ancestral, que nos acompanha desde os primeiros tempos? De aceitar que nos assiste o direito a existirmos e a praticar essa nossa actividade, a herança mais antiga da humanidade, para a qual possuímos natural tendência?

Afinal porque caçamos? E é ou não legítimo fazê-lo?
Na actualidade, nalguns sectores da sociedade (os mais modernos e recentes, de raiz urbana), considera-se que caçar é um comportamento reprovável... em nome de uma falsa e hipócrita defesa de um ambiente que sofre infinitamente mais com as outras múltiplas actividades humanas, derivadas do desenvolvimento e da modernidade, do que com a prática da caça – esta aliás, quem mais contribui para a preservação e entendimento desse mesmo ambiente.
Que é vicioso, em nome de discutíveis e exacerbados valores sobre a condição animal, fruto do afastamento da realidade da Natureza e do campo. Consideram-no um desvio, fruto do seu alheamento da vida e da morte, naturais, que não entendem e temem! Que é uma expressão da violência e do mal, segundo princípios anti-armas do pacifismo artificial urbano que todavia desenvolveu a violência psicológica, sofisticada.

Mesmo alguns caçadores têm dúvidas em se assumirem, e até vergonha... tentam que não reparem neles, fazem-no às escondidas e defendem-se com pouca convicção, sem saber exactamente porque são levados a caçar, como se só por si a vontade e o prazer não chegassem para o justificar e antes fossem algo de pecaminoso!

Eu, caçador contemporâneo, aos 54 anos, sempre que chego a um local ao ar livre, qualquer que seja o espaço... um quintal, um jardim, um campo, uma praia... olho em volta à procura dos sinais, dos animais e dos lugares onde eles possam estar, as suas possíveis querenças. É instintivo, inconsciente!
Imediatamente avalio vegetação e terreno, procuro pedras ou onde o mar levante. Dou comigo a identificar o posto onde me iria colocar, como entraria no terreno ou aonde iria à procura de presas!
Não olho para um rio ou pedaço de mar, um bosque, montanha ou planície... que não pense imediatamente que animais ali se encontrarão!
Vejo qualquer espaço aberto e me dá vontade de pôr a arma ao ombro, assobiar ao cão e marchar rumo ao horizonte...
Chegando a uma praia, olho imediatamente para o mar a avaliar o seu potencial, o estado de força, a limpidez, altura da maré, manchas de pedra e outros sinais...
Mal avisto um pedaço de oceano, logo me apetece enfiar máscara e barbatanas e ir por ali fora, de arma na mão!
É mais forte do que qualquer outra coisa, e sempre assim foi desde que me lembro!

Ora o que é isto? Só tenho uma explicação:
- SOU CAÇADOR! Em todas as fibras do meu ser... até ao mais ínfimo protão!

Porquê? Pois porque há em mim um qualquer código que me faz ser assim. Como sei que existe noutros e sei que existem outros cujo primeiro olhar é para os biquínis, ou para a luz e côr do enquadramento que daria uma tela ou uma fotografia; os que ouvem música no vento e nas ondas, ou os que desenham na mente a casa que ali construiriam... cada qual nasce com a sua sensibilidade e tendências...

Os meus antepassados foram formidáveis caçadores! Se não o tivessem sido não estaríamos aqui a discorrer sobre estas questões! Porque o homem é fraco, corre pouco, não possui asas, tem pele fina e nua, unhas curtas e dentes pequenos... Teria sido comido pelos carnívoros, ou, sobrevivendo de raízes, frutos e plantas, não teria chegado ao nível actual dos nossos detractores nem aos locais onde eles se exprimem. Seria um tímido herbívoro não evoluído, um saguim grande e triste, nu, com frio e miserável, em permanente busca de comida e estado de vigilância. Se “eles”, os modernos e os que se julgam anti-caça, se acham no topo da evolução humana, foi por terem sido criados a carne e porque os seus antepassados caçaram e comeram carne!

Este antepassado caçador tinha prazer na caça! Tinha que ter... a necessidade de caçar, teve de proporcionar esse prazer, como tudo o que é instintivo e fundamental à sobrevivência das espécies:
- O prazer do sexo, da comida, de mitigar a sede, de sentir o calor quando se tem frio ou o fresco quando se tem calor... são indispensáveis à própria vida! Por isso os animais brincam e têm prazer nos jogos onde treinam para a sua sobrevivência: as lutas e emboscadas dos leões, o correr e saltar das gazelas... as acrobacias dos macacos e das aves, as brincadeiras das focas, lontras ou golfinhos.

Fala-se da morte e associa-se esta à caça... tentam que seja um argumento de peso contra ela mas, a verdade é que há caçadores e presas em todos os estratos da vida! A morte ocorre em todos os seres e faz por isso parte da vida, e de uma relação profunda e natural, que permite a transmissão da matéria e da energia.

Existe uma teia intrincadíssima entre TODOS os seres vivos, que os condiciona. Nós não somos excepção! Basicamente o homem é um animal e igual a eles: nasce, cresce, reproduz-se e morre! Mas, quanto mais sentimentos desenvolveu e mais elevados, mais se distanciou do básico e portanto do animal. Tanto o animal como o homem partilham sensações físicas elementares como a sede, fome, calor, frio e cansaço. Possuem ainda outros sentimentos mais elaborados como o medo, a disposição para o combate, a luxúria e até o amor maternal. Porém, o homem desenvolveu outros sentimentos ainda mais sofisticados, ao nível da psique, que só ele possui, o tornam diferente e elevam a níveis inacessíveis ao animal!

Nós matamos porque somos caçadores! Sem raiva... porque na Natureza, a morte de uns é a vida de outros. Matamos as presas, naturalmente e em paz! Não porque as odiamos, como o leão não odeia zebras nem a aranha odeia moscas! Mas precisam delas para viver e as capturam, naturalmente. Quando damos a morte é por uma razão: a morte de uns dá a vida aos outros, é assim a ordem de toda a Natureza, das plantas aos animais! A grande árvore que morre, apodrece e dá de comer ás novas... e a tantos insectos e estes aos pássaros e até ao urso... Se tiramos uma vida, podemos todavia dar-lhe continuidade porque ao comer o ser que morreu, o incorporamos, e ele continua assim a viver em nós, até por nossa vez morrermos e sermos incorporados na terra e nos vermes e daí passarmos às outras formas de vida, as plantas e os outros animais. Por isso a vida se mantém, é passada de uns seres para os outros. Nós somos meros transportadores de energia, através da vida.

Dar a morte é algo de natural, porque morrer é consequência de estar vivo e o fim dessa mesma vida. Nós damos a vida ao fazer filhos e também damos a morte... é o mesmo e faz parte da nossa condição! O caçador o pratica, com respeito pelos animais a quem dá a morte pois não o faz com o mesmo sentimento do assassino ou a raiva de quem se vinga ou quer suplantar o adversário, e o faz com frieza e eficiência! O objectivo é matar e não fazer sofrer! Mata porque tem de ser, tal como o leopardo mata a gazela, a águia o coelho e o tubarão a foca. Fazemos parte de um todo onde se mata e se morre, como a morte faz parte da vida. E é por isso que sendo caçadores, amamos os animais que matamos e não os odiamos! O pastor, esse odeia o lobo que lhe come o rebanho, o agricultor odeia o javali que lhe come a seara! Podem odiar, e se compreende, mas raramente os matam, e, quando matam alguma coisa é aos seus animais, para os comer, e também não os matam com ódio, matam-nos com indiferença e porque é preciso! Matar com ódio, mata o assassino, por maldade...coisa que nem a cobra ou o crocodilo fazem, porque o criminoso é mau, é baixo! Está no mais baixo nível da existência!

O homem se foi libertando desta teia e saiu dela, por força da sua evolução e do desenvolvimento, arranjando formas dela menos depender. Mas continua a depender da morte, porque come seres que estiveram vivos... animais mortos, e, ao comer as plantas também as mata! A morte estará sempre associada à transferência da energia natural!

O gosto natural pela caça, o “gene do caçador”, existe e está no nosso código genético! Em todas as classes de seres vivos, em todos os estratos e em todas as comunidades, há predadores e presas, que a Natureza na sua complicada rede de interacções e relacionamento criou, de modo a que se regulasse e mantivesse numa dinâmica de evolução e vida. Esse gosto manteve-se ao longo das gerações, como o gosto em procriar ou comer. O homem ao evoluir ganhou outras sensações que são seu apanágio: os gostos e os prazeres sofisticados, apreciar uma paisagem, um vinho, ouvir música, jogar um jogo complexo! Porque só o homem tem o espírito, ou a "alma", que lhe permitiu desenvolver tais sentimentos superiores, como o amor ou a piedade! Isso o que distingue o homem dos animais... que não os sentem. Por exemplo, e desde logo, a piedade, que nenhum animal possui, por força da sua condição como pela sua total inutilidade ou mesmo vantagem de não a manifestar! Pode imaginar-se que o lobo tenha piedade pelo veado? Seria anti-natural! Ou o amor, o amor puro dos amantes ou pelas outras pessoas que conduz a praticar o bem, e, a generosidade! São sentimentos exclusivos do homem, como apreciar as coisas belas e boas, a gastronomia, a música e o canto, a dança ou um simples pôr-do-Sol! Tudo coisas que o homem desenvolveu, inatingíveis para os animais e que os separam. Coisas que diferenciam os próprios homens e os colocam em diferentes níveis da evolução: da cupidez do ladrão, do ódio do assassino, da luxúria do tarado - exacerbações extremas de paixões - , ao homem que se eleva pela sua arte, ou pelos sentimentos generosos da partilha ou da ajuda, e finalmente ao Santo, cujo desprendimento é total!

Esse gene do caçador, pode existir ou não, como pode estar activo ou adormecido. Neste caso pode revelar-se tardiamente ou nunca se revelar! Porém em nós, ele está activo e nos impele a caçar, como nos podia ter impelido a ser músicos, militares, cozinheiros! Por isso, para mim, caçar é sentir a satisfação e a liberdade imensa de seguir essa tendência que vive no meu ser! O desapego, o afastar de tudo, onde nada mais conta nem importa senão o ir, o procurar... não importa o quê!
Reprimi-lo seria a atrofia de uma tendência natural, a infelicidade e a frustração. E, preciso sim de capturar uma presa, de me apossar dela, de a sentir como sendo minha! De experimentar essa sensação da posse, a satisfação atávica, animalesca e ancestral de "apresar". Não se confunda com matar! Nada tem a ver, porque logo depois a minha parte humana, a alma, se enche de pena e se pudesse daria vida àquele animal e o perseguiria outra vez, pois ao caçá-lo criei uma ligação com ele, me identifiquei com ele e passei a depender dele, como num namoro!
Será assim tão difícil de perceber? E de aceitar? Isto faz de mim um ser vicioso e mau? Um sádico criminoso, como pretendem os que não o entendem... talvez porque nunca lhes explicaram as coisas deste modo, presumindo eles de acordo com a sua percepção?
Depois, comê-la-ei... é outra parte dessa condição de ser caçador: sou impelido a comer a minha captura! Os antigos caçadores, os mais primitivos e os filósofos, explicam bem esta parte, pois ao comer o animal, o incorporamos em nós próprios e ele continua a viver, em nós... é algo de profundo que explica a forte ligação da caça à gastronomia, para lá do pragmatismo puro da alimentação e sobrevivência.
A seguir, partilho com os outros esse momento da posse: o lance vivido! Exibo-me e recebo o reconhecimento dos meus iguais, a admiração. É a vaidade humana entendida sob a forma da recompensa, que nos leva a procurar a eficiência para o bem comum: É-se enaltecido mas se contribuiu para o grupo! O que em tempos idos teve a maior importância e por isso se manteve e nos marcou! E não funciona só na caça!

No acto de historiar, há ainda um componente fundamental: a partilha da experiência e do saber adquirido. O ensinar e o imitar, que melhoram a técnica e portanto os resultados do grupo! Ou julgam que é por acaso que somos uma confraria de "mentirosos"? De contadores de histórias e de potenciais vaidosos?

Percebe-se que a prática da caça mantém a nossa ligação à Natureza, e, que nos reintegramos nela ao regressarmos à condição do caçador. O homem, que se afastou da Natureza, regressa assim ao seu estado mais natural ou primitivo, renova energias, limpa as frustrações da vida moderna, reaproximando-se da Natureza e de si mesmo, como os adultos tendem a voltar à infância ou aonde foram felizes! Mais do que isso, imergem na Natureza, onde têm lugar, são aceites porque o caçador faz parte dela e está previsto! A sua actividade é sustentável, como não é a do homem construtor de mega urbes e do desenvolvimento industrial!

Claro que usufruir da Natureza, também outros o fazem! O caminheiro, o fotógrafo e o observador de pássaros, o mergulhador, o ciclista de btt e o alpinista... experimentam esse contacto, mas apenas o contacto e porque não possuindo o gene do caçador, isso lhes basta. Não têm de satisfazer a necessidade de caçar, de se apoderarem de mais do que sensações ou imagens. A necessidade do caçador é ainda mais física! Além do esforço e do jogo da caça, de iludir o animal, importa a sua posse: a captura! A captura é o grande objectivo! Assuma-se e entenda-se, porque sem a captura do animal, o caçador primitivo não sobrevivia... ele não se alimentava de sensações nem de imagens, e sim de carne!

A caça evoluiu, mas não pode ser separada dessa posse, que redunda na morte... a pesca sem morte é a excelência... quando houver a caça sem morte, talvez surja um novo caçador... porém ficará sempre o vazio da posse física, de incorporar o animal, que hoje ainda não dissocio da caça. No futuro... não sei, pois já não será nesta minha vida. Sei sim que a caça evoluiu também, acompanhou o homem... a que se pratica hoje pouco tem a ver com a do início do século passado, menos ainda com a da idade média e nada com a da pré-história... salvo pelo que se manteve, o impulso de caçar e a finalidade de apresar! Mas em contrapartida e pela lei das compensações, assumiu uma maior importância quer na ligação à terra e à Natureza quer na sua preservação, pois que graças à caça e pela caça, sobrevivem hoje espécies e se mantém o ambiente e a biodiversidade! Não tenho dúvida de que o caçador em mim passará a outro, como me foi passado e se manifestou em mim, e assim acontece desde o início dos tempos, porque ele é útil! E passará, não só pelas leis da genética mas também por via das idéias que se divulgam e cultivam, outra admirável e exclusiva capacidade humana!

É verdade que o caçador procura um regresso à Natureza? Sim, o operário da cintura industrial das grandes cidades, o urbano dos bairros citadinos, o que vive nas metrópoles, os saudosos do campo e da vida ali, que mantêm vestígios da cultura campesina, e são ainda muitos, hoje talvez até a maioria! Porém e o caçador rural, o aldeão que vive na, com, e da Natureza? Como pensar que vá à caça para se sentir próximo da Natureza? Também isso não basta...

Então afinal porque caçamos?
Bom, eu, caçador actual e ser pensante, cheguei à conclusão que, quando pego na arma e saio para o campo ou para o mar, afinal aquilo que faço é perpetuar o gesto do meu longínquo ancestral, no momento em que empunhou pela primeira vez uma arma e alijando a sua condição de presa, se ergueu em glória de predador!
É isso que eu revivo e celebro desde essa altura!
É o que me foi passado no código genético e que eu passarei a outros, por muito que nos “eduquem”, reprimam ou reprovem.
É isso que nos diferencia do alpinista, do passeante, do observador!
É isso que nos leva a ser o que somos...

Afinal é por isso que caçamos!

Foram os caçadores que deram aos artistas e aos filósofos a oportunidade de o serem... que proporcionaram à humanidade chegar até hoje. Foi a caça que lhes permitiu estarem aqui hoje, os biólogos e políticos, os “bem pensantes” dos direitos animais e do ambiente, os “modernos”, todos os que agora tentam acabar connosco!
Deviam estar-nos gratos, perceber o nosso direito a existirmos pelo simples facto de o sermos e gostarmos de caçar, e, não acabar connosco porque já não lhes fazemos falta, porque perderam a capacidade de nos entender e ignoram este facto ancestral.
Não teremos então já, o direito a existir?
Não pretendo fazer de ninguém caçador, tão pouco impor que seja obrigatório caçar... como o fariam os meus detractores! Procuro apenas divulgar porque sou caçador, e que me respeitem por isso.
Não luto para impor as minhas idéias e sim pela defesa de ter direito a elas!

António Luiz Pacheco, Fevereiro de 2010


Texto da autoria de António Luiz Pacheco e aqui reproduzido com a devida autorização do autor

14 de fevereiro de 2010

Com os Meus Botões

Enquanto procedia à limpeza e manutenção do equipamento, acabei por me deixar envolver e levar em pensamentos e divagações sobre esta paixão que tanto me anima e estimula enquanto devoto de Santo Huberto.

O uso de armadilhas na captura dos animais surgiu muito antes do fabrico das primeiras armas de caça, pois estas exigem um conhecimento mais avançado do que aquele que é necessário para se escavar um buraco no chão e dissimula-lo ou conduzir uma manada para um abismo. No entanto todos estes artifícios possuem em comum quatro objectivos: a segurança do caçador; a conservação de energia; a poupança de tempo e a eficácia na captura.
Neste contexto, as armas foram as que mais se desenvolveram, acabando por transformar-se a pedra que era projectada, através da força muscular, a pouca distância e nem sempre certeira, no mais avançado dos mísseis, controlado por computador e disparado do espaço para um preciso local no globo terrestre.

A tecnologia utilizada na caça acompanhou esta evolução e hoje o caçador moderno tem à sua disposição uma parafernália de acessórios sofisticados que lhe permitem detectar e identificar a presença de um animal a quilómetros de distância na mais negra das noites, medir a extensão que os separa, chama-lo até ao alcance útil da sua arma sem lhe perder o rasto, corrigir a linha de mira através de um sistema digital conectado a um GPS e a uma estação meteorológica portátil, abater o bicho com um único disparo e tudo isto fazer sem qualquer tipo de dificuldade, sem sair do local onde abancou inicialmente e sem perder o tal jogo de futebol que recebe via satélite e visiona através do ecrã do telemóvel, o mesmo que tira a foto final e que manteve o caçador permanentemente conectado ao resto mundo em todas as fases do lance.

Nós, que em defesa da Caça alegamos estar no mais directo contacto com a Mãe Natureza, como é que lidamos e respondemos a isto?
- Investindo em melhores caçadores, mais responsáveis e conscienciosos; privilegiando a aquisição, a partilha de informação e de conhecimentos; agindo na base do saber, do respeito e da ética e, sobretudo, repudiando toda e qualquer conduta do facilitismo em favorecimento do esforço e da persistência que caracterizam os verdadeiros Caçadores e a genuína tradição.

Sobre os botões, a era espacial também nos enriqueceu com materiais próprios para envergarmos na diversidade de climas e condições meteorológicas, os quais persistimos em decorar com pinturas e símbolos vários, objectos em madeira, em osso ou metal, na tentativa de retratar e de regressar ao mundo natural.
Servem como uma espécie de talismãs de boa sorte, "magia" essa que, apesar de falível, jamais será suplantada pela mais exacta tecnologia. Ignorar essa relação é desvirtuar a essência da Caça!

10 de fevereiro de 2010

XI Montaria ao Javali de Mós do Douro

A XI Montaria ao Javali de Mós do Douro, realizou-se no dia 6 de Fevereiro de 2010, e foi organizada pela Associação de Caçadores das Encostas do Douro, tendo sido o seu Director o Sr. Alexandre Silva.
Contou com 110 Portas, 15 Matilhas e 19 Javalis cobrados.

Trata-se já de um acontecimento verdadeiramente Nacional levando a esta Freguesia Monteiros de todo o País incluindo das Regiões Autónomas, embora os caçadores do Norte e em particular os de Trás-os-Montes constituam o grupo mais numeroso.
Os Açorianos Cremildo Marques (o Barbas) e o autor destas linhas são já uma presença constante neste popular e significativo evento cinegético e social.
Como aspecto menos positivo refiro o comportamento impróprio de um ou outro “Monteiro” a fazer tiro ao alvo já depois do sinal indicador do fim da Montaria, com todos os inconvenientes e agravantes que tal comportamento representa para a segurança e para o ajuntamento dos cães (como muito bem sublinhou o Dr. Ângelo Sequeira).

Tanto os mais novos como os Monteiros de idade mais avançada marcaram presença, como foi o caso dos tocadores de acordeão que com a sua sabedoria e sensibilidade musical animaram a festa, a que se juntou um outro cantador de improviso.
Um dos tocadores era Monteiro e transportava a bonita idade de 85 primaveras, enquanto o outro era Matilheiro, mais moderno, mas também na casa dos “entas“.
Destacaram-se também a presença de jovens Monteiras, garantia de um futuro mais alegre, pois sem a presença e participação feminina o futuro da caça seria bem mais triste.

O dia esteve magnífico, com as Portas colocadas a rigor e por Postores eficientes. As vistas sobre o rio Douro eram de cortar a respiração. As vinhas, as amendoeiras, as Oliveiras e o rio são inseparáveis e de uma beleza rara!
A jornada de caça correu bem, com segurança, com porcos, com animação das matilhas.
De seguida foi servido um excelente almoço com uma bela sopa de legumes com feijão e um grão guisado com carne de porco e enchidos e como se não bastasse, tudo isto foi regado com um bom vinho do Douro. Que bem se come nesta Região!

Findo o almoço procedeu-se ao leilão das peças cobradas, ajuda preciosa à Organização para fazer face às crescentes despesas. Aqui o meu amigo Cremildo das Barbas, do Pico, é realmente um Doutorado na matéria. O seu vozeirão, as suas piadas e a sua experiência, são garantia de que os javalis leiloados geram sempre boas receitas, tendo este ano se cumprido novamente tal tradição.
Terminada a arrematação e acertadas as contas, para nós e especialmente para mim, a parte mais difícil foi arranjar o javali “que nos coube em sorte”, não fora o Sr. Januário nos ter disponibilizado a sua garagem, então é que esta tarefa teria sido mesmo muito complicada, é que desmanchar um porco com mais de 100 kgs e às escuras, garanto-lhes que é mesmo muito difícil, mas lá conseguimos dar conta do recado! Inclusivamente foi-nos disponibilizada uma arca congeladora, cedida por uma alma caridosa e amiga, para transportarmos parte do javali, já que a outra foi logo repartida com quem teve a amabilidade de nos ajudar.

Assim, já temos mais um motivo para, em São Miguel, juntarmos uns quantos Compadres e Confrades e fazermos uma festa em honra do Javali e da Caça!
No entanto a Montaria só terminou verdadeiramente na adega do Sr. Polido, a provarmos um excelente Vinho do Porto que só a Região do Douro é capaz de propiciar!

Fazemos votos para que o ano corra Bem para todos e passe depressa, porque já tenho saudades de voltar a Mós do Douro, terra de gente boa e de grandes artistas na arte de trabalhar o Douro.

Gualter Furtado, Fevereiro de 2010


Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

31 de janeiro de 2010

Caça e Desporto

Podemos caracterizar desporto como sendo o fruto duma actividade de recreio, um exercício corporal praticado ou não ao ar livre, cujo objectivo primordial assenta na diversão, no desenvolvimento da agilidade, da destreza, da força física.
A caça é praticada unicamente no espaço livre, em contacto directo com a natureza, mas também é diversão, proporciona o desenvolvimento da agilidade, da destreza, da força física, sendo, por isso, confundida normalmente com desporto, porém Erich Fromm, em "The Anatomy of Human Destructiveness", faz um descrição da Caça que considero justa e pertinente.
Refere que "in the act of hunting, a man becomes, however briefly, part of nature again. He returns to the natural state, becomes one with the animal, and is freed of the existential split, to be part of nature and to transcend it by virtue of his consciousness."
Será, então, a caça um desporto?

Jane Goodall, refere nos estudos que desenvolveu sobre os chimpanzés, que estes se organizam e caçam em grupos, cerca de trinta vezes por ano.
Por sua vez, o antropologista S.L.Washburn, afirma que, entre os primatas, a caça permite o desenvolvimento de uma estrutura social mais humana do que aquela que é registada nos vegetarianos, acrescentando mesmo que a caça não só exigiu novas actividades e novos modos de cooperação, como também alterou a hierarquia e a estrutura social do grupo, factores que foram determinantes para o sucesso da humanidade.

As gravuras rupestres ensinam-nos que fazemos parte do mundo natural e de um outro que não controlamos, que se prolonga na nossa consciência e que existe muito para além da nossa própria existência, o qual ainda buscamos incessantemente tal e qual o fazíamos há milhares de anos atrás, movidos pelos mesmos objectivos e em cumprimento das mesmas regras.

Actualmente as pessoas, inclusivamente algumas das que se dizem caçadores, identificam a Caça como um desporto, porém esta designação não reflecte a verdadeira essência do que é realmente a Caça, sendo mesmo injusta e incompleta, ordinária, que muito a prejudica.
O verdadeiro Caçador jamais poderá aceitar essa designação e muito menos a presença de quem, da caça, queira fazer um desporto.

A Caça é, antes de mais, a realização de um instinto que nos permanece inalterado desde a alvorada dos tempos e negar a sua existência é repudiar a essência do que realmente somos, pois foi da combinação dessa força inata com o intelecto que surgiram as gravuras do Vale do Côa e nasceu a mais moderna das composições.
Podemos facilmente constatar que, passados todos estes anos, permanecemos iguais, fiéis à nossa condição de predadores, unidos e motivados, não por uma mera actividade, mas pela mesma paixão, através da qual regressamos ao nosso estado original, nos tornamos unos com o mundo natural e nos libertamos.
A Caça não é, definitivamente, um desporto!

26 de janeiro de 2010

A Lebre

Organizado pelo Cavaco (Presidente da Confraria dos Gastrónomos dos Açores) e com a participação amiga do actor Fernando Mendes e outros companheiros dos Açores e do Continente, no passado dia 23 de Janeiro, realizou-se um almoço no restaurante “Mar e Serra”, em Ponta Delgada, cujo prato principal foi a Lebre.


Cozinhada a rigor, à moda de Évora e por uma Senhora Alentejana, a Lebre foi alvo de uma homenagem condigna, merecendo inclusivamente um discurso escrito e lido pelo Presidente Cavaco.



A caça não é só o acto de "matar", mas sobretudo um vasto conjunto de vivências e de sentimentos em que a componente social e a gastronomia são ingredientes fundamentais.

Viva a Lebre!

Gualter Furtado, Janeiro de 2010


Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

9 de janeiro de 2010

A Espingarda de Caça em Portugal

Uma arma, independentemente da duvidosa qualidade da legislação que a possa identificar e regulamentar, tanto poderá sê-lo em função da sua natureza, i.e., quando fabricada propositadamente para servir como tal, ou resultante do seu uso e serve para atacar ou para defender.

Óscar Cardoso sabe-o na perfeição e do enorme conhecimento que acumulou ao longo de uma vida bastante preenchida, resultou uma das mais valiosas obras nacionais sobre o tema em epígrafe, intitulado, precisamente, de "A Espingarda de Caça em Portugal - grandes marcas, balística & outras artes".

São 163 páginas recheadas da mais rica informação, acompanhada e complementada por uma diversidade enorme de fotografias e gravuras de qualidade,... em suma: um grande livro que todos devem procurar obter!

A minha admiração pelo mesmo transcende o valor contido em cada uma das suas páginas e se transforma, naturalmente, em respeito pelo seu autor.Tal não se deve apenas à importância do conteúdo desta obra, mas também ao espírito de sacrifício e de abnegação que o caracteriza.

8 de janeiro de 2010

A Caça Vista Pelos Pintores

No título original "La Chasse Vue Par Les Peintres", é uma fenomenal obra da autoria de Sylvie Ménard, publicado em 1987, que retrata e explica, ao longo das 151 páginas que lhe dão o conteúdo, 65 quadros alusivos ao tema da caça.

Começa, precisamente, com a reprodução de uma pintura existente nas Grutas de Lascaux, datada de há dezassete mil anos antes de Cristo, e que representa um bisonte, um homem e um pássaro, perante a qual Picasso, quando com ela se deparou, afirmou: "fui eu que fiz isto", até à mais recente, datada de 1933, da autoria de Marcel Gromaire, intitulada "Le Braconnier", que se encontra exposta actualmente no Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris.

O livro possui vários capítulos, que vão desde o da "Mitologia e Crenças", o "Cerimonial da Caça", e "Artes de Caça" terminando no dos "Quadros de Caça", com o famoso "Trophée de Chasse", de Claude Monet, datado de 1862.

Nas páginas iniciais podemos encontrar o "Saint Eustache", um quadro a óleo sobre tela, não datado, da autoria de Lucas Cranach l'Ancien, que viveu nos anos de 1472 a 1553.
Santo Eustáquio está representado nesse quadro a segurar uma cabeça de veado que possui, entre as hastes, a cruz cristã com Jesus Cristo crucificado.
Reza a história que dava pelo nome de Plácido e servia no exército de Trajano quando se deparou com um cervídio miraculoso que ostentava o símbolo cristão, situação que o levou a converter-se ao cristianismo.
Essa lenda é semelhante à de Santo Huberto, na medida em que foi também um encontro com um veado que apresentava a cruz cristã nos esgalhos, que o levou a interiorizar e a aceitar a fé cristã, sendo hoje reconhecido e aceite mundialmente como o patrono cristão dos Caçadores.

Esta magnífica obra francesa bem que poderia ser o prelúdio para uma outra, de origem portuguesa, que pudesse seleccionar e compilar os melhores trabalhos nacionais desta natureza, haja para tal, apenas e só, a necessária vontade!

31 de dezembro de 2009

Caça e Felicidade

"A vida que nos é dada tem os seus minutos contados e, além disso, é-nos dada vazia.
Quer queiramos quer não, temos que preenche-la por nossa conta: isso é, temos de ocupa-la, de um ou de outro modo.

Por isso a substância de cada vida reside nas suas ocupações.

Ao animal não somente lhe é dada a sua vida, mas também o reportório invariável da sua conduta. Sem a sua intervenção, os instintos dão-lhe já decidido o que vai fazer e evitar. Por isso, não pode dizer-se do animal que se ocupa muito nisto ou naquilo. A sua vida não esteve nunca vazia, indeterminada.

Mas o homem é um animal que perdeu o sistema dos instintos, ou, o que é igual, deles conserva só resíduos e cotos incapazes de lhe impor um plano de comportamento. Ao encontrar-se existindo, encontra-se perante um pavoroso vazio. Não sabe o que fazer; tem ele mesmo que inventar os seus afazeres ou ocupações.

Se contasse com um tempo infinito diante de si, não importaria grandemente: poderia ir fazendo o que lhe ocorresse, experimentando, uma após outra, as ocupações imagináveis. Mas - aí está! - a vida é breve e urgente; consiste sobretudo em pressa, e não há outro remédio senão escolher um programa de existência, com exclusão dos restantes; renunciar a ser uma coisa para poder ser outra; em suma, preferir umas ocupações às restantes."

- excerto retirado do capítulo "Caça e Felicidade", do livro "Sobre a Caça e os Touros", de Ortega y Gasset


Na fotografia, o meu avô está de óculos escuros e boina e esta retrata a primeira caçada realizada na zona das pistas, no Aeroporto de Santa Maria, nos inícios da década de 60, do séc. XX.
Da esquerda para a direita está o Sr. Soares, atrás dele encontra-se o Sr. João Caraça. De joelhos, à frente, situa-se o Mestre João "dos frigoríficos" e, atrás, com um chapéu de aba larga, o Sr. Sargento Pereira, da Guarda Fiscal. À frente do meu avô, está o Sr. José "Espanhol", faroleiro de profissão. Os restantes não fui capaz de identificar.
Nela, são também visíveis as nossas foices de caça e o produto de uma bonita caçada!

O meu avô soube preencher todos os minutos da sua vida e ocupou-a o melhor que pôde, não deixando nunca que o que quer que fosse lhe controlasse ou tomasse o destino, lhe roubasse a substância ou deixasse de ser quem era.
Viveu-a plenamente e fê-lo sem medo de perder ou ganhar, porque é necessário coragem para assumir tanto a derrota como a responsabilidade da vitória e ele teve dumas e doutras, viveu a vida sem renunciar a nada, nem a ninguém.
Acredito que tenha sido feliz e foi de certeza o Caçador que eu pretendo ser!

29 de dezembro de 2009

Galinholas Homenageado

"O Templário", semanário, com sede em Tomar, publicou na sua edição de 24/12/2009, um artigo sobre o livro "Galinholas", de Fernando de Araújo Ferreira, intitulado "Galinholas - editado há 60 anos".


O texto divulgado teve como base a transcrição da composição que elaborei sobre essa obra ímpar da literatura cinegética nacional e começa nos seguintes termos:



"A efeméride é assinalada pelo açoriano Pedro Miguel Silveira no seu blogue ribeira-seca.blogspot.com.
O livro "Galinholas", da autoria de Fernando (Nini) de Araújo Ferreira, irmão de Júlio de Araújo Ferreira, foi editado há 60 anos.
A propósito e com a devida autorização do autor, transcrevemos o apontamento que fez no seu blogue: ..."
.

14 de dezembro de 2009

Um Presente de Natal

Para o Natal proponho um excelente livro.

"Páginas de Caça"

Teve a sua primeira edição em Janeiro de 2009 e tem por base uma rica selecção de textos e organização da responsabilidade de A. M. Pires, que a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros publicou em associação com a Âncora Editora.

Poderá ler-se na apresentação efectuada pelo Eng. Beraldino Pinto, Presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros, o seguinte:

"A caça tornou-se uma marca indelével da identidade do concelho de Macedo de Cavaleiros. Inspirados pela beleza das paisagens, por uma boa jornada de caça e pelo saber receber dos macedenses, são muitos os caçadores que desde tempos longínquos aqui acorrem. A Festa dos Caçadores do Norte e a Feira da Caça são igualmente testemunhos dessa marca que se vai transmitindo entre gerações.
A caça, mais do que o simples acto venatório, pelo contacto que proporciona com a natureza e as peripécias dos caçadores, é também fonte de inspiração literária. A obra de Miguel Torga é um notável exemplo de momentos de caça vertidos em literatura. Como Torga, muitos foram e são os autores transmontanos, uns reconhecidos, outros desconhecidos da maioria, que escreveram em prosa ou verso, sobre a ancestral actividade que é a caça. A produção literária é imensa, mas por vezes publicada em edições de difícil acesso à maioria dos leitores, e daí a necessidade de a compilar.
O epíteto de concelho da caça confere ao Município de Macedo de Cavaleiros condições de excelência para ser o percursor da primeira antologia sobre caça na literatura transmontana.
Acrescentou-se ainda o privilégio de Macedo de Cavaleiros ter um homem desta terra, o Dr. Pires Cabral, escritor de reconhecido valor e exímio organizador de antologias. A conjugação germinou na antologia que tem entre mãos, obra que reflecte um trabalho exaustivo de levantamento e compilação de textos por parte do Dr. Pires Cabral, a quem o Município de Macedo de Cavaleiros agradece ter aceite o convite para organizar esta ontologia e o incondicional empenho que nela depositou.
O Município de Macedo de Cavaleiros orgulha-se de promover esta publicação que vem suprimir uma lacuna na literatura transmontana e nacional e de ter o seu nome inscrito nessa antologia de textos sobre caça escritos por autores transmontanos."

Deixo-vos um pouco do que poderão encontrar, neste excerto de Miguel Torga:

"Vamos, irmã de Apolo!
Ladram de impaciência os cães à nossa espera.
de espingarda traçada a tiracolo.
Não há fera
Que nos resista...
Somos o instinto, a força e a quimera.
Na sua eterna e lúcida conquista!

Como não obtinha resposta, procurava na caça a libertação desse e doutros pesadelos. No regresso às primárias leis da vida, à virgindade nativa do instinto, o pensamento cessava, e a lancinante dor de o possuir amortecia.
- Ferido, Nilo! Busca lá...
Uma perdiz levantara voo no planalto, abrira-se inteira à pontaria, recebera no peito o relâmpago do tiro, e continuara como uma seta.
de repente, lá longe, num último arranco, erguera-se a pino, de bico ao céu, e subira, até se lhe acabar o alento. Só então caíra maciça e perpendicular sobre o abismo.

Desde a roupa que vestia, delida como um velho paramento e afeiçoada aos movimentos do corpo como uma segunda epiderme, á frugalidade sã da merenda, sempre igual, ao vinho bebido excepcionalmente, tudo fazia parte de uma secreta comunhão com a sacralidade da natureza. O dia raiava na emoção do primeiro disparo. Antes que a vontade hesitasse, o estalão das passadas tornava próxima qualquer distância.
Alheia ao suor da fadiga, a atenção ia acompanhando, por relances, objectiva e deslumbradamente, a consumação circular do tempo e a variação ondulada dos horizontes. Quando as forças decaíam, a tarde declinava também. A última perdiz morta era o sol posto."

Além do citado Miguel Torga, encontrarão também Fausto José, António Cabral, Sousa Costa, P.e Domingos Barroso, Camilo Castelo Branco, João de Araújo Correia, Ângelo Sequeira, Salvador Parente, A. M. Pires Cabral, Vaz de Carvalho, João de Deus Rodrigues, Manuel Vaz de Carvalho, Dr. Ferreira Deusdado, Mello Júnior, Montalvão Machado, Cristiano de Morais, Bento da Cruz, Guedes de Amorim, Fernando de Mascarenhas, António Fortuna, Gil Monteiro e Pina de Morais.

São 277 páginas de caça, do melhor que existe na literatura transmontana e do País, uma excelente oferta de Natal.

12 de dezembro de 2009

Galinholas

Assim se designa este livro, cujo autor se trata de Fernando de Araújo Ferreira, irmão de Júlio de Araújo Ferreira.

Esta obra da literatura portuguesa foi composta e impressa no ano de 1949, na Tipografia e Papelaria "A Gráfica", em Tomar, numa altura em que a Europa, devastada pela guerra, muito se esforçava por emergir de um dos mais negros períodos da sua História, que foi a Segunda Guerra Mundial.


Nesse final de década, do séc. passado, na ilha açoriana do Faial, o, então, Capitão Júlio de Araújo Ferreira, tirou as primeiras fotografias de galinholas deste País permitindo, assim, que chegassem até nós através deste excepcional documento que permanece tão actual como o foi no dia em que nasceu.

Possui mapas de rotas, registos datados, medições de exemplares, correspondência trocada com as mais ilustres e distintas personalidades, instituições e universidades estrangeiras, relatos na primeira pessoa, e, uma prosa encantadora, fascinante que nos desperta, estimula e desafia.

"... Não sei se já repararam neles, na expressão desses olhos, quando à vossa mão vai parar uma galinhola de asa... Eu creio que nenhum caçador, que tenha sensibilidade, possa demorar a sua atenção no olhar da galinhola sem que sinta pena, sem que lá dentro haja uma certa revolta por roubar aquela vida à extensão das florestas, à solidão do seu destino. Olhos que parecem chorar muito embora não haja lágrimas vulgares, líquidas, mas sim as que se adivinham na expressão pungente que nos lança, expressão de desalento de saudade.
É assim e eu o sinto... mas no fundo sou essencialmente caçador, corre-me nas veias aquele fogo primário que através de tudo, da própria sensibilidade, nos faz andar em frente como o animal que caça, como o homem bárbaro das cavernas, ou, até, como a «mesmíssima» galinhola - cuja agonia sentimos - ao devorar os seus vermes.

... Caçador é aquele que entregue a si mesmo, sozinho se necessário for, sabe procurar e sabe perseguir, se adapta aos terrenos e parece dotado dum sexto-sentido a que os «caçarretas» chamam muito simplesmente... «leiteira». Caçador não é sinónimo de matador e muito menos de exterminador.
O vulgo, aqueles que vivem longe das realidades do mato, confundem muita vez o bom atirador com o bom caçador. E no entanto a diferença é notória e vasta.

... A caça das galinholas, de salto e na floresta, é só para caçadores, para os que têm em si o «fogo sagrado».

... A vida começa e termina ali, num cão que se pára, numa galinhola que salta, numa finalidade que se realiza. Nada mais para além, nem cidades, nem mundo, nem lutas ou misérias humanas; nós, a vida livre, a raíz da nossa condição de animal caçador a embeber-se na seiva natural que nos envolve.

... Para muitos não há mais do que horas da mesma vida, hoje, amanhã, depois... sempre!
Horas civilizadas de funcionários ou empregados, do homem de hoje, horas que rolam iguais pela vida fora, o mesmo pão, a mesma «fome», a mesma cama, e a esperança doutro rumo a esfumar-se na eterna e gelada realidade ou a acalentar-se como sonho inútil e perdido.
Porque não há-de ser a caça para esses... LIBERTAÇÃO!
Perdidos em considerações fechámos este capítulo. Perdoem-nos os caçadores."


Disse-o Fernando de Araújo Ferreira em algumas das 140 páginas que escreveu e assim que finalizou este maravilhoso livro, numa demonstração da sua nobre qualidade e de uma grande coragem, há 60 anos atrás!

10 de dezembro de 2009

Entronização de Confrades da C.G.C.A.

Numa cerimónia realizada no dia 6 de Dezembro de 2009, nas instalações do Clube Cinegético e Cinófilo da Praia da Vitória, ilha Terceira, procedeu-se a uma cerimónia de entronização de 12 novos Confrades da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores.

De enaltecer a realização da primeira entronização de uma mulher Confrade e que se tratou da jovem Júlia Ourique.

O evento contou ainda com a participação da Confraria do Verdelho, representações da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Secretarias Regionais da Economia e da Agricultura e Florestas, bem como do Representante da República para os Açores, o Juiz Dr. José Mesquita.

As entronizações foram presididas pelos Presidentes da Direcção e da Assembleia Geral, respectivamente Olívio Ourique e Gualter Furtado.

De seguida foi servido um jantar a todos os Confrades e Convidados, cuja ementa foi a seguinte :

- Canja de pomba da rocha
- Arroz de pato bravo (real e marrequinha)
- Coelho bravo frito
- Alcatra de coelho bravo
- Codornizes bravas fritas com molho regional
- Galinhola na Caçarola
- Lebre com feijão
- Javali assado no forno

Entretanto, no dia 5 de Dezembro, no salão nobre da Câmara Municipal da Praia da Vitória, uma ampla delegação da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores participou na cerimónia de entronização que a Confraria do Vinho Verdelho fez ao Presidente do Governo dos Açores - Carlos César.


Texto e fotografias da autoria de Gualter Furtado

9 de dezembro de 2009

Homenagem ao Jornal - Caça

No dia 05 de Dezembro de 2009, o jornal diário Açoriano Oriental publicou um artigo da autoria de Gualter Furtado, sob o título de "A minha homenagem ao Jornal - Caça", que poderá ser lido a seguir.

"Recentemente numa véspera de uma caçada às Galinholas na Ilha do Pico, na Piedade e na perigosa adega do Cremildo, entre algumas histórias de caçadores e um copito de nêveda, aguardente de figo, etc, um caçador continental de nome Nuno Sebastião, perguntou-me se eu já tinha ouvido falar num jornal de caça que tinha sido publicado em São Miguel na década de 30 do séc. passado. Eu respondi que não, mas que em breve e a ser verdade ia procurar ler todos os números deste jornal.
O Nuno Sebastião é detentor de uma das mais importantes bibliotecas de cinegética sobre a caça no “Mundo Português”.
Já em São Miguel contactei o Pedro Miguel Silveira de Santa Maria que também é um caçador bem informado e pai de um dos melhores blogues de caça do País (Ribeira Seca), que prontamente me confirmou esta informação, mais, disse-me que o jornal de nome Caça foi fundado em 1936 e o seu número 1 saiu no dia 1 de Junho de 1936 que era um jornal "mensário e de distribuição gratuita aos Caçadores do Distrito (São Miguel e Santa Maria)" e que o seu Redactor - Editor - Proprietário era o Senhor Eduino G. Botelho.
Munido desta informação pedi ajuda ao Senhor Albano Martins do Vale (Bibliotecário, Pescador e Caçador) que prontamente localizou na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada os 11 números do jornal que penso serem a totalidade da edição desta pioneira e louvável iniciativa realizada no séc. passado. Portanto o meu muito obrigado ao Sr Albano Martins do Vale.
Este jornal editado na gráfica do Açoriano Oriental merece ser recordado hoje e a minha sentida homenagem à meia dúzia de caçadores que tomaram esta iniciativa.
O jornal publicou-se em 1936 e 1937 e tem artigos muito pedagógicos e informações muito úteis para a população e para os caçadores de então. Artigos sobre as espécies cinegéticas, as doenças dos cães de caça, introdução de faisões e perdizes, combate aos furtivos, eram frequentes e alguns deles mantêm a sua actualidade.
Através do jornal Caça pode-se constatar o pioneirismo dos Serviços Florestais de então na promoção da caça, e que deveria ser um incentivo acrescido para a versão actual dos Serviços Florestais.
Os Colaboradores eram meia dúzia de entusiastas pela caça desejosos de levar ao conhecimento dos caçadores e população rural a importância da caça, e designadamente as regras, as leis, as espécies cinegéticas que regiam e constituíam o Mundo da Caça.
Não resisto em transcrever parte do editorial publicado no Nº 1 do Jornal Caça: "... É nosso objectivo despertar o interesse dos caçadores pela caça e nestas palavras cabe tudo o que por este magnifico desporto é necessário fazer-se para que no nosso meio haja caça, haja caçadores e para que cada um tenha por este assunto toda a dedicação, todo o carinho, e até mesmo todo o respeito...” Como são tão actuais estas palavras escritas já lá vão 73 anos!
Aqui fica a minha Homenagem aos Senhores Eduino G. Botelho, Eduardo Rebelo, Vasco Bensaude e a todos os que participaram nesta iniciativa de Cidadania a favor da Caça com regras, entusiasmo e respeito."



Para concluir este "post", gostaria de salientar o seguinte:

- A referência elogiosa que nos é dirigida directamente e que muito nos sensibiliza, em verdade, não a merecemos, pelo que a mesma só poderá ser compreendida em função da vasta educação e delicadeza que caracteriza o autor do texto acima, demonstrada, também, através da enorme partilha de informação e da empenhada colaboração na construção deste lugar de Caça.

- Quem nos deu a conhecer a existência do jornal "Caça" foi o Sr. Nuno Sebastião, aliás, é aos bons conselhos dele que devemos alguns dos bons livros que temos a sorte de desfrutar e de compartilhar, sendo este, precisamente, o nobre sentimento que nos une e que também esteve na origem do Jornal - Caça.

A Todos, bem hajam!

8 de dezembro de 2009

Na Calibre 12

A Calibre 12 - A revista do caçador português, publicou-o em Janeiro do corrente ano.

Teve como base o texto que escrevi neste blogue, sob o título de Caça em Segurança, em 16 de Agosto de 2008, e algumas fotografias que me foram solicitadas.

A Segurança no Manuseamento de Armas de Caça



















Faço votos que o ano de 2010 proporcione, à editora supramencionada, as necessárias condições para que possa regressar e ocupar o lugar que merece, de destaque, no seio da comunidade de caçadores!

7 de dezembro de 2009

A Faca de Caça

Faz parte do equipamento de qualquer caçador e desempenha uma função de primordial importância, embora, por vezes, seja relegada para segundo plano.
Mesmo assim a faca não deixa de ser um utensílio e uma presença indispensável nas jornadas de caça.

Aquando da aquisição de uma faca para a actividade venatória convém termos a consciência de que estamos a adquirir uma ferramenta de trabalho e que, apesar de poder ficar muito bem à cintura, a escolha poderá não ser a mais indicada, pelo que se torna necessário identificar o fim a que se destina antes de adquiri-la, pois uma que seja própria para rematar já não poderá ser a mais propícia para esfolar e o mesmo se passa com a lâmina, pois se a intenção é mantê-la permanentemente afiada convém que não seja em carbono ou num aço muito duro, por dificultar, precisamente, a amolação.

Há modelos muito bonitos, de grande qualidade, em metais cujas ligas e métodos de transformação apenas são conhecidos por quem as junta, com lâminas feitas a primor, cabos em marfim e madeiras exóticas, artísticamente esculpidos e trabalhados, mas que custam alguns milhares de euros e encontram-se noutro patamar sem, no entanto, perderem as qualidades de uma verdadeira arma de caça.

A faca é, assim, nos seus diversos modelos, configurações e múltiplas funcionalidades, um auxiliar importante e imprescindível, determinante até, para o bom sucesso da jornada, que não deve ser desprezada.

6 de dezembro de 2009

O Livro do Caçador

"O Livro do Caçador", composto e impresso no ano de 1957, pela Neográfica - Lisboa, foi inserido na "Campanha Nacional de Educação de Adultos", levada a cabo naqueles tempos. Possui 5 capítulos que abordam, desde o "Tiro de Caça" à "Descrição de Alguns Processos de Caça", diversos temas de grande interesse e de muito valor ao longo das 188 páginas que o compõem.
Integra perfeitamente os volumes d"A Caça em Portugal", referidos abaixo, e complementa-os.

O prefácio é da autoria de João Maria Bravo, individualidade de referência na caça do séc. XX português, que o descreve deste modo (um pequeno excerto do prefácio):

- "Caçador, este é o teu livro, o livro com que procuramos aperfeiçoar-te a arte de caçar.
Será esta a primeira vez que ouves chamar arte à caça, essa coisa que apaixona mais de cem mil* portugueses, e te faz correr quilómetros e quilómetros, às vezes, quase já sem forças, de barriga a dar horas e o fato rasgado pelas estevas ou pelo tojo, empurrado por essa ânsia de aplacar o vício terrível, que não perdoa, e que, quanto mais se pratica, mais vício se torna.
Dissemos que caça é arte.
É arte «fechar» uma perdiz que nos passa, puxada pelo vento, a mais de quarenta metros, por cima da cabeça. É arte «enrolar» o coelho, que «picado» pelos cães, se vai enfiar no moroiço de pedras. E tu, se conseguires «pendurar» a perdiz ou o coelho que te saltou nessas condições, és um artista."


Trata-se este excerto de um excelente convite à sua leitura.

*hoje, o número de caçadores portugueses é cerca de trezentos mil.

1 de dezembro de 2009

O Coelho Amarelo

Para quem vai caçar na manhã seguinte, nada melhor existe do que uma noite bem dormida e descansada, mas eu deitei-me tarde, demasiado tarde para quem necessitava de ter todos os sentidos despertos e alerta.

No dia anterior já havia verificado o material, preparado a espingarda, os cartuchos, a documentação, o vestuário. Aos cães, servi-lhes uma refeição reforçada e tratei de consultar a previsão meteorológica, sobretudo em relação à direcção do vento, temperaturas e pluviosidade, pelo que tudo tinha preparado de véspera.

Nesta manhã acordei com o ladrar do Galileu, faltavam cinco minutos para o despertador tocar. Este cão tem destas coisas extraordinárias. Ele possui noção das horas e sabe em que dias é que vou caçar.
Já em pequeno, quando ainda dormia dentro de um caixote de papelão na garagem e o agasalhava com uma manta durante a noite, ele deitava-se e esperava que o fosse aconchegar, depois ajeitava-a com a boca até ficar com a cabeça totalmente coberta, e, assim se deixava permanecer.

Geralmente coloco o despertador para as seis horas da manhã. Isso dá-me tempo, mais do que o necessário para fazer tudo nas calmas e sem agitação. Ele sabe disso. A Galiza também, mas é mais madura e mais paciente do que o Galileu.
Acontece que quando desactivei o despertador, acabei por adormecer novamente.

Faltavam 10 minutos para as oito da manhã e acordo, desta vez, em sobressalto. O Galileu ladrava e, ao longe, conseguia aperceber-me da existência de disparos. Apesar de cansado, ensonado, sabendo do frio que fazia no exterior, da ameaça de chuva, toda a vez que ouvia um tiro, sentia um desespero tal, que nem dormia, nem deixava dormir. Ora rebolava para um lado, ora rebolava para o outro. A única solução era mesmo levantar-me.

Espreito pela janela do quarto e tinha os dois cães a olharem para mim, em pé, de orelhas afitadas, cauda levantada e estáticos, ambos mudos.
A previsão falava em aguaceiros durante a manhã, mas o céu estava limpo. Abri a janela, falei com os cães, que já corriam, já saltavam, já abanavam as caudas. O reboliço era total dentro do canil e decido ir por eles, que bem merecem todas as atenções.

A Galiza é sempre a primeira a entrar no atrelado, seguida pelo Galileu e lá fomos.

No local já se encontrava uma viatura estacionada e estavam na caça, pelo que optei pelo trajecto onde seria menos provável encontra-los, o qual era o mais difícil também. Quem chega tarde tem que se contentar com o que lhe resta, pelo que a minha preocupação era tomar um rumo que não os prejudicasse, e, assim procedi.

Segui pela linha da costa, entre um muro de pedra seca e o mar.
O terreno era pedregoso, recortado por ribeiras, babosas, muitos juncos e pouco silvado.

Nunca tinha caçado um coelho amarelo.
Foi no regresso. Estava ameijoado atrás de uma pedra, sobre um terreno de cascalho, onde essa pedra que o encobria era pouco maior do que o seu tamanho e era a única daquelas dimensões, não havendo outra semelhante, nem maior, num raio de cinco metros.
Saiu ao Galileu e deixei-o alargar-se o suficiente. A Galiza trouxe-o e ficamos os três, cada um à sua maneira, a admira-lo.

Foi um dia de caça diferente, aliás, não há nenhum dia de caça igual e este não foi excepção,... pois será para sempre o dia do coelho amarelo!

30 de novembro de 2009

Balanço do Primeiro Mês

A Abertura-geral nesta ilha teve o seu início no dia 01 de Novembro de 2009 e terminará no último Domingo de Dezembro próximo.
Ontem, concluiu o seu primeiro mês de existência, pelo que urge fazer um balanço.

É de referir que ainda não possuimos uma gestão racional da caça, assente num método de estudo organizado e credível.
Todas as medidas que existem e que regulam a caça nesta ilha se devem àquilo que parece ser, ou seja, quando parece que há coelhos, aumenta-se o número de abate e quando parece que não há coelhos, limitam-se as peças e restringe-se a área de caça.
Por outro lado, corremos o risco de atribuir uma desmedida importância aos furtivos. Não porque esses bandidos a não mereçam, porque dão sempre prejuízo - como os ratos, mas porque também se desconhece a quantidade dos estragos que provocam, por serem impossíveis de quantificar.
O facto é que ninguém sabe ao certo quantos coelhos existem na ilha de Santa Maria, nem se consegue perceber a magnitude dos malefícios provocados pelos ilegais.

Como é que se faz um balanço nestas circunstâncias?
Não é possível fazer, porque permitem apenas e só recolher opiniões baseadas no que parece ser e essas valem o que valem, em função da qualidade de quem as emite.

Assim, e com base na informação verbal que recolhi, a costa N/NO da ilha parece que foi saqueada pelos furtivos e só muito dificilmente se cobra algum coelho, pois são praticamente inexistentes. Também não existem dados que possam corroborar a existência de alguma maleita nesse local.
Por outro lado, numa parte da costa Oeste e na zona da Ribeira Seca, a S/SO, ainda se vão fazendo algumas capturas, parecendo existir mais alguns coelhos.
Quantos(?) é que não se sabe responder, como também se ignora se estes que estão a ser caçados seriam, ou não, determinantes para a recuperação e exploração cinegética dessas zonas.

É urgente investir na caça e na sua gestão e, acima de tudo, tomar consciência que a realidade cinegética de cada ilha açoriana é diferente da outra, pelo que a existência de um calendário venatório como o que está em vigor e sem qualquer base científica que o suporte, assente unicamente no que parece ser, é o resultado de vários erros e estará, seguramente, na origem de outros tantos.

28 de novembro de 2009

Sobre a Caça e os Touros

"Sobre a Caça e os Touros" trata-se de um ensaio que José Ortega y Gasset realizou sobre o tema que consta, precisamente, no título que ostenta.

José Ortega y Gasset é o primeiro vulto da filosofia na Espanha do séc. XX e um dos nomes mais importantes da cultura mundial.
Licenciou-se e doutorou-se na Universidade de Madrid, de que foi catedrático de Metafisíca de 1910 a 1936. De 1905 a 1907 estudou na Universidades de Leipzig, Berlim e Marburgo.

Este que apresento data de 1989, pelas mãos das Edições Cotovia, Lda, com tradução de José Bento.
À semelhança d' "A Caça em Portugal", obra que menciono abaixo, ainda se encontra acessível no mercado, embora através de publicações mais recentes.

Estes magníficos trabalhos, quer os dois volumes d' "A Caça em Portugal", quer agora este ensaio "Sobre a Caça e os Touros", são, para mim, e depois de os ter lido e relido, por diversas vezes, fundamentais para que se possa encontrar uma noção elementar do significado e da importância da caça e alicerçar, numa base sólida e estável, o saber sobre esta temática, de modo a que o mesmo possa ser desenvolvido objectivamente e sem deturpações numa fase posterior.

São, por isso, essenciais para o Caçador que se interroga e deseja progredir.

A páginas tantas o autor diz o seguinte: "não há que buscar a perfeição no arbitrário, porque nessa dimensão não há unidade de medida; nada tem módulo nem limite, tudo se torna infinito, monstruoso e a maior exigência tropeça em seguida com outra que a supera".

Na minha opinião, trata-se este ensaio de um hino à cultura da caça e à moderação, sem deixar de ser uma crítica muito inteligente a todos aqueles que, julgando-se mais lúcidos que os restantes, se arvoram detentores de todos os princípios morais, técnicos e de mais alguns, refugiando-se, por isso, em atitudes e comportamentos extremistas, de repulsa pelo que é diferente e por aquilo que consideram ser inferior, quando, afinal, não passam de uns cínicos e de uns hipócritas, por serem, precisamente, ignorantes!
Essa presunção tem levado a Humanidade a grandes catástrofes, mas nem por isso deixou de existir, encontrando-se ainda bem patente em alguns sectores da sociedade actual.

Inquieta-me o papel que alguns activistas dos ditos "amigos e defensores dos animais" assumem e têm vindo a desenvolver e preocupa-me o modo como o realizam, bem demonstrativo que é da fome e da sede de protagonismo político que os motiva.

Façam por ler estes livros.
Não vos irão ensinar a conseguir melhores cintos, mas, de certeza, a serem melhores Caçadores!

27 de novembro de 2009

A Caça em Portugal

"A Caça em Portugal" é o título que denomina 2 volumes, dirigidos e coordenados por Carlos Eurico da Costa, publicados pela Editorial Estampa.

A primeira edição viu a luz do dia em 1963 e a que está retratada é a 4.ª, que data de 1994.
São 408 páginas no I volume e 434 no II, repletas de informação muito valiosa, a todos os níveis.

Apresenta-se como o mais completo manual de caça desportiva publicado entre nós, onde o leitor encontrará toda a informação sobre a fauna cinegética, os processos de caça (de aves e de pêlo), as armas, munições e tiro, os cães e o ensino do cão de parar e ainda um tratado de culinária de caça, sendo todos os temas abordados pelos mais reputados especialistas.
Imprescindível para o neófito e um complemento importante para o mais experiente.

Neles participam Aquilino Ribeiro, Jayme Duarte de Almeida, Germano Sacarrão, João Maria Bravo, Padre Domingos Barroso, D. Jorge Frederico de Avilez (Visconde de Reguengo), J. M. Varela Cid, Marques Elpídio, Ferreira de Sousa, Elisiário Rodrigues Nogueira, João Sabrosa, Sebastião R. Peretrello, Mello Machado, J. Romana Vargas, L. Almeida Araújo, Torres Botelho, Maria Emília Cancella de Abreu e Renato Boaventura.

Trata-se, acima de tudo, de um livro indispensável ao caçador português, interessado no conhecimento teórico da caça, bem como na sua aplicação prática.

18 de novembro de 2009

Seminário Sobre Armas e Munições

Decorreu no passado dia 13 de Novembro de 2009, na sede do Comando Regional dos Açores da Polícia de Segurança Pública, um seminário devotado ao tema “Armas e Segurança: uma perspectiva transversal”.
Tal iniciativa foi promovida pela PSP e presidida pelo Representante da República para os Açores – Juiz Conselheiro José Mesquita.

A legislação em causa trata-se da republicação da Lei n.º 5/2006, de 23 de Fevereiro, ou seja, a Lei n.º 17/2009, de 6 de Maio.

Neste debate sobre o novo Regime de Armas e Munições, interveio o Caçador Açoriano Gualter Furtado.
Dessa intervenção o jornal Correio dos Açores publicou, na sua edição de hoje, o conteúdo dessa contribuição.

Segue o texto retirado da página online, pertença do jornal mencionado.

Debate sobre novo Regime de Armas e Munições : Gualter Furtado fala de Armas e Caçadores

O caçador açoriano Gualter Furtado manifestou discordâncias sobre o Novo Regime Jurídico sobre Armas e Munições salientando os aspectos que deveriam ser adaptados à realidade insular (mobilidade de armas entre aeroportos) e outros em que houve algum exagero do legislador (passageiros numa viatura onde existe armas não podem ter mais de 1.20 gramas por litro de álcool).
Gualter Furtado centrou parte da sua intervenção nas dificuldades que são criadas aos emigrantes nos Estados Unidos e Canadá para caçarem nos Açores. Natural das Furnas, exerce caça há mais de 40 anos. Desempenha as funções de presidente das Assembleias Gerais da Federação de Caçadores dos Açores, da Associação Nacional de Caçadores de Galinholas e da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores, a primeira do país no sector da caça.

Apresentação

Tenho 56 anos de idade e, seguramente, exerço caça há mais de 40 anos, mas também desde que me conheço. Comecei a usar arma desde os 6 anos, com uma ‘Diane 25’, tendo começado logo como matador e, ao longo da vida, fui percorrendo vários estádios, considerando-me hoje um caçador.
Fui criado num ambiente muito diferente daquele que existe hoje. Nasci no Vale das Furnas e, durante os anos e anos que me conheço, fui criado com a chave na porta. Não existiam os níveis de insegurança que existem hoje. Quando me distraía aos domingos da manhã, os meus colegas entravam livremente pela casa a dentro e iam-me chamar ao quarto. Hoje existem novas exigências de segurança. Recordo o dia 18 de Outubro deste ano, o dia da abertura oficial da caça em são Miguel. Fomos deixar o produto da caça em casa dos meus pais. Qual não foi o meu espanto ao ver a porta aberta, como antigamente, quando tínhamos dias de calor. Infelizmente, tudo mudou, e todo o cuidado é pouco.
Eu compreendo que hoje o ambiente é completamente diferente, as circunstâncias em que nós vivemos já não são compatíveis com esse tipo de comportamentos. Um caçador que se preze e que eu considero um caçador moderno, é apologista de uma nova lei das armas. A legislação que existia era muito difusa, às vezes até contraditória, e isso faz com que sejamos os primeiros a defender uma nova lei das armas. Isto não significa que esteja de acordo com a nova Lei das Amas no seu todo e tal qual está a ser aplicada.

Conflitos na Lei das Armas

Evidentemente que o novo caçador defende as espécies, respeita a lei, considera que a caça, hoje em dia, é um bem escasso e, por conseguinte, há que criar todas as condições para a sua sustentabilidade. É um caçador que cumpre as regras de segurança, utiliza a arma no acto de caça sempre em posição de segurança e nunca comprometendo a segurança das outras pessoas e dos nossos companheiros cães. Nunca deixam os cartuchos no chão (sobretudo nessas armas que agora têm extractores automáticos). Quando abre uma cancela e entra numa propriedade alheia fecha a cancela e até quando tem de subir um muro e cai uma pedra, coloca-a no seu lugar porque respeita a propriedade alheia. Para além disso, tem as licenças em dia, trata bem dos seu cães, vacina-os e, se for preciso, faz sacrifícios financeiros para que tenha os seus animais sempre em condições. Esta é a categoria de caçadores em que me insiro hoje.
Em relação a esta nova lei das armas existem alguns pontos que são muito conflituais, alguns deles não os entendemos bem. Por outro lado, e, no país em que vivemos, estas leis podem não fazer sentido daqui a meia dúzia de meses. Os nossos deputados na Assembleia da República podem a alterar em qualquer altura. Com a capacidade de imaginação de alguns políticos do país, isto será muito possível. Só espero que seja para melhor, e designadamente no que se refere à eliminação da burocracia em relação aos nossos emigrantes e aos caçadores estrangeiros.
A Lei está em vigor e o que nos deve preocupar agora é tentar dar um contributo perante as entidades que aplicam a lei no sentido de facilitar a vida, (o que não quer dizer pisar o risco), ao caçador cumpridor de maneira a que não pague o justo pelo pecador. Isso para que não sejam, de facto, os caçadores cumpridores as primeiras vítimas desta lei.
Neste sentido, aponto alguns aspectos que considero importantes. Algumas das sugestões que faço passam pelo funcionamento da PSP e quero que não interpretem como uma crítica. Quero que tomem isto como uma crítica ao sistema e, se quiserem, à política de finanças públicas que é seguida no país e às mutações orçamentais que são cometidas, bem como às dificuldades tecnológicas que a PSP tem ainda hoje.

Sem cursos de actualização

O que deve preocupar hoje os caçadores é a forma como a lei é aplicada e como é que pode ser aplicada de forma a não nos penalizar ainda mais do que já somos. Começo, então, por um aspecto que é fundamental e que tem a ver com os cursos de actualização técnica, de acordo com o artigo 22 da lei. Estes cursos são imprescindíveis e fundamentais para a melhoria do caçador. Agora começamos pelo problema: tanto quanto sei é necessária uma quota mínima para se poder fazer estes cursos de actualização e o que acontece é que esses cursos, em determinadas ilhas, não são feitos, inclusivamente na ilha Terceira. Por isso, peço que repensassem esse ponto. Temos cá a residir o campeão do mundo de tiro aos pratos, que já se disponibilizou para fazer esses cursos além de outras pessoas habilitadas. Peço, então, para que entre o Clube Desportivo de Tiro de São Miguel, as organizações da caça e a própria PSP, se encontre uma forma de tornar esses cursos mais regulares, disponibilizando-os a mais pessoas e de uma forma mais eficiente e célere.
Outro aspecto tem a ver com o transporte das armas, artigo 41. No caso dos caçadores açorianos que caçam em diversas ilhas é um autêntico martírio. Os nossos profissionais da PSP fazem o seu trabalho com muita dignidade nos aeroportos, mas cada aeroporto tem o seu método de trabalho. Em alguns aeroportos fazemos a declaração junto do gabinete da PSP. Quando vamos para Santa Maria eles preenchem à mão um monte de papelada e depois quando chegamos a Santa Maria e queremos levantar a arma, os Polícias voltam novamente a fazer mais um monte de papéis. Evidentemente que nos tempos que decorrem hoje, através dos meios electrónicos, um simples email ou uma fotocopiadora multifunções, pode aliviar o serviço dos profissionais da PSP, facilitando o trabalho dos caçadores, sobretudo daqueles que estão legais e que têm a sua documentação em dia.
Ainda quanto aos aeroportos, quando chegamos a Lisboa a nossa arma vai para a Alfândega, mostramos os talões das armas e das munições, eles pedem para verificar se está tudo em condições e só depois mandam seguir. Nos aeroportos em que existe Alfândega nos Açores podia-se, perfeitamente, adoptar este método simples, rápido e seguro. Quando chegamos de Santa Maria, Graciosa ou da Terceira e coincide com a chegada de outros voos, chegamos a estar horas à espera que os senhores da SATA levem a arma para o Gabinete da PSP. Às vezes os senhores da PSP têm dó de nós e oferecem-se para ir buscar a espingarda à sala de chegada da SATA.

Beber ou não beber

Em relação ao artigo 88, que tem a ver com a questão do álcool e condução sobre o efeito do álcool, depois da entrada em vigor desta lei eu fui muito rigoroso na sua interpretação. O que acontece é que depois da entrada em vigor desta lei nunca mais bebi. Mas já viram o que é haver 14 pratos de caça e estar a beber aquilo com sumo? Neste artigo há, de facto, um problema. Eu até compreendo o que esteve na génese deste artigo, mas existem alguns caçadores que acham que essa lei é muito radical. Eu considero que a pessoa que vai conduzir e leva uma arma, automaticamente, deve arcar com as consequências. Mas, pelo contrário, se não se vai conduzindo e a arma está trancada com um cadeado e se quiser beber um copito, quanto a isto sou um bocado condescendente. Em síntese, esta lei deveria ser fortemente penalizante quando o condutor leva a arma e está a conduzir, ou se está alcoolizado no acto da caça, ou de transporte da arma. Quanto às restantes situações constitui uma discriminação em relação aos caçadores.
Outro aspecto ainda muito importante tem a ver com a emissão dos livretes que considero um autêntico flagelo. Eu bem sei que, numa reunião recente em Lisboa, foi-nos transmitido que a concessão da renovação de licenças de uso e porte de armas de caça e a emissão de livretes, autorizações para a aquisição de armas, iam ser aceleradas, mas o certo é que estão com uma média de 2 anos em atraso. Há um caso que está à espera do livrete há 6 anos ( José Carlos). Bem sei que prometeram que isto ia ser rapidamente resolvido. Bem sei que cerca de 4500 cartas emitidas este ano pelo comando da PSP foram devolvidas pelos seus destinatários por terem mudado residência, etc. O certo é que há um problema com os livretes e é um problema muito grave.
O livrete da arma é como o bilhete de identidade ou uma guia para que a pessoa possa circular. Sem o livrete significa não se pode inscrever a arma no cartão europeu das armas de fogo. Isso significa que não se pode ir caçar para um qualquer país europeu por não ter o livrete e não a poder inscrever no passaporte europeu das armas de fogo. Por outro lado, se por qualquer motivo eu ficar desgostoso de uma arma e a quiser oferecer a um amigo, filho ou a um primo, não o posso fazer por não ter o livrete. Resumindo e concluindo, existem neste momento centenas de casos que levam a que já haja um grande descontrole. Há um conjunto de armas em Portugal em situação ilegal.

Caça perde impacto na economia

Eu sei que esta lei das armas não pode ser vista numa perspectiva economicista. Mas, como se sabe, um estudo feito recentemente pela Federação Nacional de Caçadores e pela Confederação dos Caçadores Portugueses mostrou que o valor que a caça apura por ano, anda à volta dos 320 milhões de euros, movimentando à volta de 250 mil pessoas.
Com esta nova lei e com a crise, o que acontece é que, neste ano de 2009-2010, já tivemos cerca de 20 mil caçadores que não tiraram licença de caça. No ano de 1999 eram emitidas, a nível nacional, à volta de 250 mil licenças de caça e, neste momento, já estamos com um valor muito abaixo dos 200 mil. Este ano estima-se que se emitiram menos 20 mil licenças de caça. O número de armas legalmente vendidas desde Janeiro de 2009 até agora tem, aproximadamente, uma quebra de 60% relativamente ao ano passado.
Para além disso, o valor médio das armas, desde a entrada em vigor da nova lei das armas, baixou cerca de 4 vezes. Existe uma oferta no mercado que é uma coisa impressionante. Não queiram imaginar a quantidade de pessoas que me procuram e a amigos meus para venderem armas ou mesmo oferecer. É muito importante que estas questões sejam percebidas e levadas em conta. O que está a acontecer é que ali na zona do Porto Alto até Castro Verde e Almodôvar já não deve existir um único espingardeiro ou então estão mesmo a fechar. O que é que isto significa? Significa que estes indivíduos, por causa dos livretes, não conseguem vender uma única arma, porque segundo a nova lei das armas, só se consegue vender uma arma com o livrete. Portanto, esperando dois anos por um livrete, como é que se pode vender uma arma? Por exemplo, se eu quero uma determinada arma com uma determinada especificidade tenho de esperar pelo livrete não sei quanto tempo. A associação assume que isto não tem a ver com a lei mas com a operacionalização e com a maneira como as coisas funcionam.
Em relação ao artigo 69, alínea a), que tem a ver com a venda das armas em vigor, nós os caçadores açorianos, não temos acesso ao leilão de armas. Penso que chegou à altura de se criar um mecanismo que permita aos caçadores açorianos terem acesso aos leilões de armas. As armas são apreendidas, vão para Lisboa e só depois são colocadas em leilão, apesar de algumas agora serem colocadas na Internet mas nem todas as pessoas têm acesso a isso. Sugiro, até, que uma parte das armas apreendidas pudesse reverter a favor do Estado na Região ou a favor de um museu público nos Açores, sobretudo as com mais história.

Emigrantes quase não podem caçar

Também não quero deixar de referir outro aspecto que tem a ver com os emigrantes. Esta nova lei criou uma teia burocrática aos emigrantes que, praticamente, deixou de ser possível os emigrantes caçarem nos Açores ou em Portugal Continental. A lei está confusa e há muita informação dispersa.
Os nossos emigrantes precisavam de um tratamento dentro da lei mediante um acordo entre a PSP, os Serviços Florestais e a Alfândega para que pudessem facilitar as coisas. Havia aqui uma tradição de alguns emigrantes dos estados Unidos virem caçar para cá na época venatória, fazerem uma caçada ou duas com os seus amigos e esta é uma tradição que está a desaparecer o que, do meu ponto de vista, empobrece-nos bastante. Eles deveriam poder caçar em Portugal, com as licenças de uso e porte de arma e de caça dos Países em que residem e com o seguro que cobrisse eventuais danos causados em Portugal, é fortemente penalizante obrigá-los a ter as licenças nacionais. Aliás, o mesmo se passa com os caçadores estrangeiros que queiram vir caçar a Portugal. Copiem o que se passa em Espanha.

Plateia - Com a nova lei das armas temos uma base de dados a que temos acesso. Não podemos vender licenças a quem não tem licença de uso e porte de armas válida. Com a alteração que houve recentemente, caso não tenhamos fotocopia da licença de uso e porte de arma válida, entramos em contacto com todos os comandos da PSP para certificar se está válida ou não e para saber que licença vamos emitir, se com arma ou sem arma. Temos situações de emigrantes que têm a situação regularizada em Portugal. Estamos a falar de pessoas que passam 6 meses cá e 6 meses lá e vão renovando a licença. Têm de se submeter às novas regras, entre as quais, fazer os cursos de formação técnica e cívica e fazer exames. É uma questão de os emigrantes regularizarem a sua situação de caça aqui e nós vendemos uma licença de uso e porte de arma especial.

Gualter Furtado - Um caçador americano, para caçar em Espanha, tem de assinar um documento especial. O ano passado caçaram em Espanha cerca de 120 mil caçadores com origem nos Estados Unidos e em outros países europeus. Em Portugal nem chegou a 2000 porque, como sabem, o território nacional está ordenado, felizmente, e existem vários sistemas de caça que são os sistemas associativos, municipais, turísticos e existem grupos em Portugal que têm apostado na caça, em zonas rurais, e que não conseguem viabilizar explorações e não conseguem fazer nada com essa forma de actuar perante os estrangeiros e emigrantes.
Evidentemente, se um emigrante que seja cidadão emigrante ou português, que tenha a sua licença de uso e porte de arma legal nos Estados Unidos da América e que tenha um seguro universal, que tenha a sua carta de caçador em dia e a sua licença em dia que lhe permita caçar nos Estados Unidos, não deveria ser necessário ter a licença de uso e porte de armas do sitio onde vai caçar, tem é de estar devidamente legalizado e válido no seu País de residência.
O que eu acho absurdo é que um caçador nos Estados Unidos da América, com quem temos um conjunto de acordos e dos quais nos queremos aproximar mais, exerce o acto venatório legalmente nesse país e depois chega a Portugal e começa a ver uma grandessíssima complicação. Um caçador emigrante não necessita de ter a licença de uso e porte de arma do nosso país, bastaria ter a licença legal dos Estados Unidos, ou de outros, e depois preencher um papel para ter uma licença temporária. É assim que deveria ser feito. Acho que para o emigrante que tenha as coisas legalizadas no seu país é desnecessário fazer os papéis todos de novo. Não se pode prever com 6 ou 7 meses de antecedência a data dos exames porque cada pessoa tem a sua vida. É neste sentido que eu acho que esta lei, sem perda de rigor, devia ser adaptada e contornada.

Plateia - Sou bancário reformado, tenho 62 anos. Sou caçador desde os meus 12 anos e estou no mundo da caça por paixão de uma forma continuada e federada desde 1972. O passaporte europeu traz uma alínea muito engraçada sobre o número do livrete da arma. No Reino Unido os ingleses não querem saber do número do livrete, mas sim do número inscrito na arma. Esta é a grande diferença. Os serviços centrais continuam a colocar o número do livrete que não lhes diz nada por ser facilmente falsificável.

Gualter Furtado - Em algumas espingardas, o número que está nos canos é diferente do número que está na coronha. Isto significa que quando é emitido o livrete vem apenas o número que está na coronha e em determinados países eles querem que esteja registado o número da arma que está no cano e o número registado na coronha. Temos de ver que a Inglaterra é diferente em tudo. Nós andamos pela direita e eles pela esquerda. Muito cuidado com os livretes, às vezes um descuido pode sair caro e ser muito penalizante em muitos países.

Texto da autoria de Gualter Furtado


Nunca é demais falar sobre este tema, sobretudo quando existe tanta desinformação e desconhecimento em relação à própria Lei das Armas e Munições e à sua aplicação nos casos do dia-a-dia, pelo que se tratou de uma iniciativa de muito valor, que merece uma urgente e necessária reflexão, bem como a sua prossecução através de outras diligências de cariz semelhante.

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