21 de agosto de 2026

Dos tiros que perduram no tempo e na memória

Há mais de vinte anos, passei o resto de uma época , e a época do ano seguinte, sem caçar. Não foi por falta de tempo, nem por imposição externa. Simplesmente, não consegui.

Não recordo o ano nem o dia, mas ainda me lembro do momento que me levou a isso, como se tivesse acontecido esta manhã.

Era inverno nos campos de caça de Abegoaria Grande, para os lados do Aeroporto, nesta ilha de Santa Maria. A manhã estava fria, um céu de chumbo e o terreno encharcado. Soprava vento norte. A Galiza e o Galileu batiam um silvado por dentro, quando um coelho saltou para terreno aberto, à minha esquerda e para norte, a cerca de 30 metros.

Fiz um disparo.

O coelho foi atingido, mas continuou ferido. Ao ouvirem o tiro, os cães saíram do silvado e foram em perseguição. A Galiza alcançou-o primeiro, o Galileu depois. Ambos quiseram trazê-lo e disputaram-no entre si.

Esperei que um dos cães prevalecesse. Habitualmente, era a Galiza, mais velha e mais experiente. O Galileu estava a aprender e não quis desencoraja-lo. Quando finalmente ela mo trouxe, o coelho ainda vivia. Dei-lhe o golpe de misericórdia.

Devia tê-lo segurado com um segundo tiro. Trazia cartuchos de 30 gramas, chumbo número 6, mas entendi que não seria eficaz, devido à distância e ao vento que soprava contra mim. Talvez tenha sido compreensível e até tecnicamente aceitável.

Mais tarde, quando o limpava, percebi que era uma fêmea e que estava a amamentar.

Compreendi que não tinha matado apenas o animal que segurava. Numa lura, ficaram crias de uma mãe que já não regressaria.

Naquele dia, matei mais do que pretendia.

Não voltei a caçar durante o resto da época e na seguinte, nem tirei a licença.

Acabei por esquecer o ano, o dia e talvez muitos outros pormenores daquela manhã. Mas o céu de chumbo, o vento, o terreno molhado, os cães e sobretudo aquela fêmea que ainda estava a amamentar, permanecem.

Há disparos cujo eco se perde nos campos de caça, outros perduram no tempo e na memória. 

17 de agosto de 2026

A caça quer ser caçada

A Doença Hemorrágica Viral atingiu Santa Maria em 2015, reduzindo drasticamente a população de coelho-bravo e impedindo a caça durante várias épocas.

Entre os caçadores marienses persistiu uma suspeita que nunca se confirmou: a mortandade parecia começar, todas as épocas, pela mesma altura e na mesma zona desta ilha. O padrão poderia indiciar uma introduçao criminosa do vírus, mas também ser explicado pela sua permanência no meio e pelo reaparecimento sazonal. A dúvida, no entanto, permanece.

A verdade é que Santa Maria possui uma importante produção de meloa que deve ser protegida e que o nosso coelho-bravo, que está em boa recuperação, não pode atingir densidades capazes de ameaçar essas culturas e que a solução não deve passar pela eliminação criminosa nem total do coelho-bravo. É necessário conservar uma população saudável de coelho, compatível com a caça e com produção de meloa, controlando a presença do coelho-bravo junto das explorações através da monitorização dos seus números e de uma pressão cinegética ajustada. A caça deve fazer parte da solução, nunca do problema! 

O recurso à doença seria irresponsável e criminoso! Um vírus não distingue zonas agrícolas de zonas cinegéticas e pode destruir tanto a população de coelhos bravos como a de domésticos durante anos. Defender a meloa e conservar o coelho-bravo não são objetivos incompatíveis. Exigem diálogo, equilíbrio e colaboração entre produtores, caçadores e serviços oficiais.

Os mais antigos, muito mais ligados e dependentes da agricultora do que somos hoje, já diziam que a "caça quer ser caçada!"

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