Há mais de vinte anos, passei o resto de uma época , e a época do ano seguinte, sem caçar. Não foi por falta de tempo, nem por imposição externa. Simplesmente, não consegui.
Não recordo o ano nem o dia, mas ainda me lembro do momento que me levou a isso, como se tivesse acontecido esta manhã.
Era inverno nos campos de caça de Abegoaria Grande, para os lados do Aeroporto, nesta ilha de Santa Maria. A manhã estava fria, um céu de chumbo e o terreno encharcado. Soprava vento norte. A Galiza e o Galileu batiam um silvado por dentro, quando um coelho saltou para terreno aberto, à minha esquerda e para norte, a cerca de 30 metros.
Fiz um disparo.
O coelho foi atingido, mas continuou ferido. Ao ouvirem o tiro, os cães saíram do silvado e foram em perseguição. A Galiza alcançou-o primeiro, o Galileu depois. Ambos quiseram trazê-lo e disputaram-no entre si.
Esperei que um dos cães prevalecesse. Habitualmente, era a Galiza, mais velha e mais experiente. O Galileu estava a aprender e não quis desencoraja-lo. Quando finalmente ela mo trouxe, o coelho ainda vivia. Dei-lhe o golpe de misericórdia.
Devia tê-lo segurado com um segundo tiro. Trazia cartuchos de 30 gramas, chumbo número 6, mas entendi que não seria eficaz, devido à distância e ao vento que soprava contra mim. Talvez tenha sido compreensível e até tecnicamente aceitável.
Mais tarde, quando o limpava, percebi que era uma fêmea e que estava a amamentar.
Compreendi que não tinha matado apenas o animal que segurava. Numa lura, ficaram crias de uma mãe que já não regressaria.
Naquele dia, matei mais do que pretendia.
Não voltei a caçar durante o resto da época e na seguinte, nem tirei a licença.
Acabei por esquecer o ano, o dia e talvez muitos outros pormenores daquela manhã. Mas o céu de chumbo, o vento, o terreno molhado, os cães e sobretudo aquela fêmea que ainda estava a amamentar, permanecem.
Há disparos cujo eco se perde nos campos de caça, outros perduram no tempo e na memória.