28 de fevereiro de 2015

O descontentamento dos caçadores sobe de tom

O Diário dos Açores,  avança hoje, na primeira página que está confirmada a morte dos coelhos na Ilha de São Miguel através da hemorrágica. 
Também ficamos a saber que os coelhos já estão a morrer na Ilha do Pico e, ao que tudo indica, pelas mesmas razões.
Vislumbramos igualmente que se prepara a abertura da caça ao melro negro e ao pombo-torcaz na Ilha Montanha, sem que os caçadores tenham sido ouvidos no processo, o que tem provocado um enorme mal-estar junto da comunidade venatória, ameaçando Cremildo Marques, representante dos caçadores no Conselho Cinegético da Ilha do Pico, demitir-se das suas funções naquele organismo.
À semelhança do que se passa nas restantes Ilhas dos Açores, com especial relevo para a Ilha de São Miguel, que até já viu descer à maior cidade desta Região uma manifestação de caçadores no passado Domingo, o descontentamento com a actual situação da caça é crescente e sobe agora de intensidade, desconhecendo-se como isto irá acabar, se não houver promoção do diálogo. 

Foto resultante do recorte da notícia do "Diário dos Açores" (pp. 4)

27 de fevereiro de 2015

Resposta ao Diogo Caetano

Conforme já tive a oportunidade de transmitir ao Dr. Diogo Caetano e ele já me respondeu, a propósito do seu artigo publicado no Correio dos Açores de 26 de Março, com o título “Caça Hemorrágica”, refiro que existem caçadores e “caçadores”, razão porque quando se aborda o tema da caça não se podem fazer generalizações, inclusivamente, não fosse o contributo dos caçadores (sem aspas) por este Mundo fora e algumas espécies de aves e mesmo de outros exemplares do mundo animal, já teriam sido extintas. Acresce, que não partilho da ideia que nos Açores o coelho-bravo seja uma “praga das culturas agrícolas”.
Numa fase em que os Açores optaram, e bem, por uma marca em que a nossa Natureza é altamente valorizada, o caçador açoriano deve estar na primeira linha da defesa do ambiente e no qual se inclui o coelho-bravo, razão porque nos dias de hoje não me revejo na sua “Caça Hemorrágica”.


Gualter Furtado
Correio dos Açores, 27 de Fevereiro de 2015

23 de fevereiro de 2015

Caçadores manifestam-se na Ilha de São Miguel

O jornal Açoriano Oriental dá-nos a saber que, ontem, a cidade de Ponta Delgada, foi palco de uma manifestação de cerca de 200 caçadores que saíram à rua com os seus cães de caça em protesto, numa iniciativa do Clube de Caçadores de Vila Franca do Campo (CCVFC), sobre a Doença Hemorrágica Viral (DHV) e contra uma alegada passividade das entidades oficiais em relação à existência e disseminação daquela doença.
Em esclarecimento, a Direcção Regional dos Recursos Florestais (DRRF) fez saber que as medidas tomadas "têm permitido, até à data, uma evolução positiva na contenção dos efeitos do surto nas ilhas onde a doença foi detectada ou por precaução a caça foi proibida", acrescentando que foram ainda "emitidos editais para prevenir a disseminação da doença para outras ilhas, proibindo a circulação de coelhos e seus derivados, assim como de cães de caça".
A determinada altura, José Maria Arruda, presidente da direcção do CCVFC, faz afirmações que considero graves.
Diz ter provas da introdução do vírus na Ilha de São Miguel, não obstante o facto de ter apresentado denúncia no Ministério Público e na GNR, e acrescentou que o CCVFC também iria recolher assinaturas para denunciar a alegada passividade e conivência dos governantes, no Parlamento Regional, junto do Representante da República para os Açores e no Parlamento Europeu, dizendo que os caçadores estavam “cansados”.
Correndo inquérito para averiguar a verdade sobre a existência e a prática de um crime, neste caso da alegada introdução criminosa do vírus nos Açores, seria de todo conveniente que informasse a autoridade judiciária competente da prova que diz possuir, como é da sua obrigação, ao invés de bradar na comunicação social que a tem, se é que a tem.
Quando ainda se esperam os resultados das análises realizadas aos coelhos encontrados mortos e quando é do conhecimento que foram tomadas medidas por parte da DRRF para precaver a extensão dos danos, é leviana a recolha das assinaturas e precipitada a manifestação.
Certamente que se trata de um contexto que nos preocupa a todos e que exige medidas urgentes e concertadas, mas há tempos e limites a respeitar e esses foram ultrapassados.
Que se fará na próxima ocorrência da doença? Abater as aves migratórias? Sim, porque essas também podem transportar o vírus. 
Isto que se fez em nome dos caçadores, não me representa e nada alcançará de positivo.
A bem da verdade, já me bastava a DHV.

22 de fevereiro de 2015

Pombo-torcaz-dos-Açores

O Pombo-torcaz-dos-Açores (Columba palumbos azorica) desde 1993 que é considerado no Arquipélago dos Açores uma espécie incluída na Diretiva das Aves, com o estatuto de ave protegida, e abrangida pela Conservação das Aves Selvagens. Logo a caça a esta espécie está proibida nos Açores.
O Pombo-torcaz é o pombo com maior envergadura na Europa e os que habitam e se reproduzem nos Açores são mesmo tidos pelos estudiosos das aves como uma subespécie endémica do Arquipélago.
É uma ave de grande porte, muito bonita e que tem como habitat privilegiado as matas coníferas embora nos últimos anos seja frequente a sua presença nos jardins das cidades da Europa, inclusive nos mais importantes núcleos urbanos dos Açores.
Nos anos mais recentes devido à expansão desta bonita ave levantam-se muitas vozes, incluindo de caçadores, sendo que alguns são mesmo meus amigos e companheiros de caça,  a defenderem que se deveria abrir a caça ao Pombo-torcaz, e isto como forma de minimizar os prejuízos que esta espécie estaria a provocar na agricultura.
O caminho nos Açores não deve ser este, mas sim indemnizar os prejuízos eventualmente causados pela espécie e elucidar e ajudar os agricultores para que adotem medidas naturais e ambientais de proteção das suas produções agrícolas.
Sabemos que, por exemplo, na Ilha do Pico andam a envenená-los, o que é considerado um crime, mais um que está a ser cometido nestas nossas Ilhas.
A abertura da caça a esta espécie significaria um retrocesso na nossa civilização e municiaria os grupos anti caça de mais um argumento poderosíssimo no combate à caça e aos caçadores.

Texto e fotografia da autoria de Gualter Furtado

Gualter Furtado, um dos caçadores vivos  dos Açores que mais Pombos-torcazes cobrou nos Açores e em Portugal.
A foto é de um borracho de Pombo-torcaz-dos-Açores, captada pelo autor numa mata da Ilha de São Miguel.

9 de fevereiro de 2015

Dias negros para a caça nos Açores

Recentemente publiquei um artigo com o título “Mortandade de coelhos na Ilha Graciosa”, e a este propósito escrevi, “Paira a dúvida na comunidade de Caçadores  Açorianos se esta brutal mortandade de coelhos foi resultado de mão criminosa, que trouxe para a ilha coelhos infetados pela virose hemorrágica e que rapidamente infetou os coelhos locais, ou, se estamos perante um fenómeno natural que leva a que a hemorrágica apareça ciclicamente nestas Ilhas mediante certas condições climatéricas e outras“, embora saibamos que a variante deste vírus seja diferente da que foi detetada em anteriores epidemias nos Açores e se assemelhe à que ocorre presentemente no Continente  Português  e com  resultados catastróficos. Até hoje não tivemos resposta para esta dúvida.
Depois da Graciosa, São Jorge, Terceira e Flores parece que a Hemorrágica poderá ter chegado à Ilha de São Miguel, pois foram recolhidos no dia 08/02/2015 vários cadáveres de coelhos-bravos nesta Ilha.
Ao que nos informaram os Serviços Florestais, já têm em sua posse vários exemplares, agora só nos resta aguardar os resultados das análises, mas certamente e infelizmente estamos preparados para o pior.
Os caçadores Açorianos e todos aqueles que são amigos da natureza estão a viver dias negros nestas Ilhas.
Sempre defendi que a caça deve estar unida com a Agricultura, e  certamente que o desaparecimento do coelho-bravo da paisagem Açoriana é um duro golpe para todos, sobretudo para uma Região que pretende escolher para Marca de referência a natureza e o meio ambiente.

Gualter Furtado 

7 de fevereiro de 2015

Fiz anos

Fiz anos. Acontece a qualquer um, não é? Não sei, não posso saber, como cada um de vós comemora o seu dia. 
Tempos houve em que o meu dia era uma festa. Mas, o pouco com que a fazia, esvaziou-se das presenças que a faziam. E vieram anos em que, enfim, se mastigava o dia. Depois voltei a desejá-lo: eu queria tanta coisa! Duma simples cartucheira a um atrelado de cães, duma mala de espingarda a uma edição dum livro anos a fio desejado, eu precisava e queria tudo.
Hoje, há alguns anos já, devo dizê-lo, não preciso de nada, não quero nada. Um maço de cigarros serve de prenda. Dos que eu fumo, claro. Houve até, pelo meio, alguns anos em que dei a mim mesmo "aquela prenda". Mas, já não quero nada, não preciso de nada. Agradecido, naturalmente, sempre fui. A família traz uns cheques-livro e eu fico contente. Podia ser tão sómente um maço de tabaco (dos que eu fumo) e já seria muito bom.
Vocês, claro, não souberam mas fiz anos. Há quem, no seu dia, vá jantar fora, a um lado qualquer. Mas eu nunca gostei disso. Aprecio estar na minha casa, na minha jaula, com os meus. Havendo o bulício dos próximos, melhor. Já não conto - não posso contar - com a repetição dos dias em que ruidosamente apareciam os que haveriam de ir às sortes comigo. Agora, com o passar dos anos, habituei-me a um estranho recolhimento em que pesa mais a memória, as "lembrances" que o foguetório do dia. Mas, a carga de nostalgias que isso induz e sempre ensombra uma data, que deve ser nobre, porque sempre é um rei que faz anos tem-me levado a socorrer-me da família para a esconjurar. Impedida por força maior, a família este ano não esteve disponível. Minha mulher, sempre amante, sempre amiga, quiz saber o que eu mais desejava para o jantar. Mas não a pude ajudar, por nada querer, por já nada precisar. "Deixa - disse-lhe - vou convidar uns amigos e basta-me um copo de vinho, umas taliscas de presunto". Imaginou, justamente, a casa invadida, inquiriu, barafustou mas eu, com o meu envelhecido rosto, limitei-me a dizer-lhe "Eu trato de tudo. Não estragues o MEU dia".
Os convidados começaram a chegar. O primeiro, reconhecio-o logo pelo rosto picado das bexigas:
- Camilo, que honra, entre... e não se há-de ir embora sem falarmos da cabra tinhosa no fojo.
- O segundo vinha com a velha samarra: Mestre Aquilino, não imagina como me alegra a sua presença! Vou querer que me explique como levou um pointer para a sua Soutosa.
Não imagina como isso me tem intrigado!
E assim se sucederam. O Pe. Domingos, Torga, Galvão...
Acácio da Rapada vinha com com o Dr. Fausto que, deselegantemente, ainda vinha a remorder «Ele que se foda, deixa-o ficar, que se aguente se quizer que as perdizes não esperam. Vir para aqui de fatinho brasileiro e não aguentar uma linha...» e a desdizer de quem tanto gostava, do Tomaz, que, de resto, também não faltou. Devo-os nomear todos? Mas, se foram tantos... Invadiram-me a casa, inundaram-me a casa. E eu apenas com um copo, uma garrafa e presunto de que sobravam apenas aparas.
Lá fora, entretanto, os cães da vizinhança entraram em alvoroço. E como a minha rua é tal e qual como a que David Mourão-Ferreira escreveu para a Amália " ...rua quieta / onde à noite / ninguém passa..." fui ver. Mal abri uma nesga da porta, entraram os meus cães todos, alguns, devo dizê-lo, de que eu ingratamente já nem me lembrava. Com eles reparti o resto do presunto e ergui o copo a um brinde: um ano, um ano mais, amigos, convosco à minha mesa, convosco pelos montes onde, neste momento deve estar tanto, tanto frio...

Sérgio Paulo Silva
05/02/2015

13 de dezembro de 2014

Mortandade de coelhos na Ilha Graciosa

O Governo da Região Autónoma dos Açores encerrou a caça a todas as espécies cinegéticas na Ilha Graciosa, Ilha do Grupo Central dos Açores.
Esta medida foi tomada no seguimento de um elevado surto de Hemorrágica nos coelhos bravos que ameaça dizimar quase toda a população desta espécie cinegética  naquela Ilha. Nos últimos dois anos a dimensão demográfica de coelhos na Ilha Graciosa apresentava resultados muito positivos ao ponto de alguns caçadores locais retomarem a caça desta espécie, e, inclusivamente, constituído matilhas de podengos, estando agora desolados com o que se está a passar.
Paira a dúvida na comunidade de caçadores açorianos se esta brutal mortandade de coelhos bravos foi resultado de mão criminosa, que trouxe para a Ilha coelhos infetados pela virose hemorrágica e que rapidamente infetou os coelhos locais, ou, se estamos perante um fenómeno natural que leva a que a hemorrágica apareça ciclicamente nas Ilhas  mediante certas condições climatéricas e outras.
Era muito importante que esta dúvida fosse esclarecida. E quem a pode esclarecer são as Autoridades  Policiais, os Serviços Florestais e a Ciência. 
Os caçadores açorianos de outras Ilhas que já viveram no passado este filme de terror, designadamente os das Ilhas Terceira, Santa Maria e de São Miguel, vivem mais uma vez uma grande angústia que é esta doença viral hemorrágica poder a vir espalhar-se novamente pelo Arquipélago, razão porque todo o cuidado é pouco e temos de estar de olhos bem abertos.
O coelho bravo, praticamente desde os primórdios do povoamento das Ilhas Açorianas, que faz parte da nossa realidade rural e constitui um património natural relevante da nossa história. Acreditamos e defendemos que deve haver um compromisso permanente e equilibrado entre os agricultores e os caçadores, por forma a que os lavradores e os agricultores não sejam prejudicados quando ocorrem episódios de sobre-população de coelhos e sejam  ajudados pelos caçadores e vice-versa quando surgem ameaças à sustentabilidade do nosso coelho bravo.
Os próximos dias vão ser muito importantes neste processo.
Relembro que estão em causa muitos valores fundamentais, como seja, por exemplo, as centenas de cães de caça das nossas matilhas.

Gualter Furtado
13 de Dezembro de 2014

8 de dezembro de 2014

Abertura às Codornizes na Ilha de São Miguel

A caça à codorniz na Ilha de São Miguel abriu no dia 7 de Dezembro de 2014 e prolonga-se até ao último Domingo deste mês. Este ano fiz a abertura com o meu parceiro de caça que é o Celestino e acompanharam-nos os meus dois experientes Épagneul bretões, cujos nomes são a admirável Pipoca (F) e o eficiente Pico (M). Escolhemos os terrenos em função do vento moderado de quadrante nordeste, do tipo de maneio que foi aplicado nos tempos mais recentes, do conhecimento do habitat e dos resultados que obtivemos nas últimos épocas. 
A arma que utilizei foi a Browning Maxus, de calibre 12, com 66 cm de cano, choque cilíndrico e cartuchos de bucha de feltro, Galgo Verde, de 32 gramas e de chumbo 9. 
Normalmente utilizo para caçar a esta espécie cinegética a minha paralela Arrieta, de calibre 20, mas como de seguida íamos caçar aos coelhos com os meus outros cães optei pela primeira que é também uma arma polivalente, leve e com a qual tenho obtido excelentes resultados. 
Só fomos depois caçar aos coelhos, porque dá-me pena ver os meus cães coelheiros não poderem fazer o que mais gostam na vida que é caçar e depois, em São Miguel, os dias que se podem caçar a esta espécie não são muitos. Mesmo assim foram seis horas a andar.
Voltando às codornizes, o dia estava excelente para o trabalho dos cães de parar, proporcionando paragens magníficas e cobros muito bonitos. 
As codornizes foram todas cobradas depois de paradas pelos cães, como deve ser neste tipo de caça.
Longe vão os tempos em que se faziam nesta ilha de São Miguel caçadas de dezenas de codornizes e sem pôr em causa a sustentabilidade da espécie. Era o tempo em que a cultura dominante dos Açores era a produção do trigo ceifado à mão e não existiam os adubos, pesticidas e outros produtos químicos que tanto mal fazem às espécies cinegéticas. Não obstante, as mudanças profundas ocorridas nas ultimas décadas no habitat das Ilhas, nas técnicas e no maneio dos campos, ainda hoje esta autêntica heroína, que é a codorniz açoriana, continua a ser a espécie rainha de muitas Ilhas Açorianas e a proporcionar jornadas de caça inesquecíveis.
Compete aos caçadores açorianos e aos serviços oficiais tudo fazerem para preservar este património cinegético que nasce e vive nestas bonitas Ilhas.



Texto da autoria de Gualter Furtado 
Foto da autoria de Mário Arrifano
As codornizes que constam do quadro de caça, resultam do esforço de três caçadores

10 de outubro de 2014

Abertura às Galinholas nos Açores - 2014

A época da caça às Galinholas de 2014 já abriu nos Açores.
Cada Ilha em que é permitida a caça a esta espécie cinegética nobre tem o seu calendário venatório próprio, possuindo em comum que todos começam no mês de Outubro, mas terminam em Novembro ou Dezembro consoante a Ilha em causa.
A caça à Scolopax rusticola nas Ilhas Açorianas só pode ser exercida aos Domingos, durante um período limitado de horas, e o número de espécies cobradas varia entre duas a três Galinholas por caçador.
O processo de caça só pode ser de salto e com cão de parar.
De referir que as Galinholas nos Açores são sedentárias, exigindo pois uma gestão muito cuidada para garantir a sua sustentabilidade. Os principais inimigos da Galinhola são os predadores (cães abandonados e gatos) e principalmente a mudança do habitat. O meio ambiente onde habita a Galinhola é normalmente de difícil acesso e está intimamente ligado com a flora endémica dos Açores. A sua destruição significa um duro golpe na história e na vida do Arquipélago que ainda é um dos mais puros do Globo.

A título de curiosidade a foto foi tirada exactamente na linha da fronteira mais a Ocidente da Europa.
A "pedra" (Ilhéu de Monchique) que se vê no mar deu origem à expressão portuguesa "emigrar a salto", pois era utilizada no século passado na emigração clandestina para os Estados Unidos da América, aproveitando os navios que passavam ao largo da Ilha das Flores, na travessia do Atlântico.

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

21 de setembro de 2014

Estórias de um não caçador confesso

O primeiro tiro

Vou procurar explicar tintim por tintim, qual a razão porque não sou caçador. Em primeiro lugar porque não fui bem sucedido no primeiro disparo, ocorrido aí pelos quinze anos de idade, já que por mau aconchego da coronha no ombro, assim que disparei, apanhei com ela nas ventas e fiz marcha atrás devido ao coice da espingarda. Foi um baptismo de fogo que me marcou para o resto da vida. Hoje, a minha consciência crítica interroga-se, perguntando:
- Quem te mandou a ti sapateiro, tocar rabecão?
Só no sétimo ano do Liceu, aí pelos dezoito anos, vim a perceber como funcionam a Física e a Matemática relativas ao disparo de uma arma de fogo e em particular, o facto de cada disparo ter associado a ele um recuo da arma, o qual na gíria dos caçadores é conhecido por “coice”. Trata-se de um fenómeno dinâmico que envolve a lei da igualdade da acção e da reacção e a lei da conservação da quantidade de movimento. Face à primeira daquelas leis, a qualquer acção de um corpo sobre outro corresponde uma reacção oposta e de grandeza igual à acção. Daí que à força propulsora que faz mover o chumbo de caça esteja associada uma força oposta associada à arma e daí o “coice”. Por outro lado face à segunda daquelas leis, num sistema isolado, a quantidade de movimento do sistema permanece constante. A quantidade de movimento de um sistema é o produto da massa pela velocidade. No nosso caso, o sistema é a espingarda com um cartucho lá dentro. Antes do disparo, a quantidade de movimento da espingarda com um cartucho lá dentro, é zero. Terá de ser o mesmo depois do disparo. Mas após este, o sistema separou-se em duas partes. Daí que a quantidade de movimento do chumbo expelido seja simétrica da quantidade de movimento da arma disparada.
O “coice” que me atingiu ocorreu no decurso de férias grandes passadas em casa do meu tio paterno, na aldeia da Cunheira, no concelho de Alter do Chão. O meu tio era um exímio caçador e assistiu ao infortúnio com a espingarda que me emprestara para eu dar o meu primeiro tiro. Como era um grande brincalhão, nesse dia à tarde submeteu-me à chacota dos frequentadores da taberna de que era proprietário e eu senti-me vexado com as chalaças do meu tio. Como eu o costumava acompanhar a ele e aos caçadores nos petiscos de fim de tarde, bebendo “traçadinhos”, nessa tarde inverti as proporções e usei mais vinho que pirolito de berlinde. O resultado está à vista. Tive que ir mais cedo para a cama e no outro dia de manhã acordei com a boca a saber-me a bicicletas partidas.

A espera às rolas

Noutro dia daquelas fatídicas férias o meu sempre bem disposto tio, levou-me com ele à caça às rolas na modalidade de “espera”. Para tal ficámos emboscados numa choça construída pelo meu tio com vegetação existente no local. O nosso quartel-general fora implantado pelo meu tio à distância julgada conveniente de uma nascente de água existente no meio do mato e onde as rolas iam beber no pino do calor. Todavia, apesar do engenho e arte do meu tio, tanto na construção da choça como pela experiência de tiro, as rolas tardavam em descer dos ares e não se iam dessedentar ao nascente. Intrigado com o que se estava a passar e que não era habitual, o meu tio saiu para fora da choça para avaliar melhor a situação. A conclusão a que chegou foi rápida. As rolas não se aproximavam da nascente, porque eu com quinze anos de idade, tinha um metro e setenta e cinco de altura e metade das pernas fora da choça, a denunciar a nossa presença às rolas. Nesse dia à tarde, fui outra vez alvo das graçolas do meu tio e das risadas dos caçadores. É que ele disse na taberna:
- Hoje fui às rolas e pela primeira vez apanhei uma “grade”. Sabem porquê? É que o meu sobrinho tem pernas de girafa e espantou as rolas.
Nessa tarde cheguei à conclusão que fora talhado para ser não caçador, pelo que fiquei com a cabeça fria. Bebi os traçadinhos com mais pirolito que vinho, deitei-me à hora normal e no dia seguinte acordei fresco que nem uma alface. Daí que por mim, siga o adágio:
- Quem quer caça vai à praça!

Texto da autoria de Hernâni Matos
Autor do blogue Do Tempo da Outra Senhora 

Aguarela Rola-brava ou Rola-comum, da autoria de Francisco Charneca
Perfil no Facebook Francisco Charneca

20 de setembro de 2014

A Colectânea Literária Cinegética vista por Hernâni Matos

ADVERTÊNCIA

Não sei se vai ocorrer aqui hoje ou não, uma tragédia cinegética ou até mesmo um eventual ecocídio. É que só o Diabo se podia lembrar de me convidar para falar desta admirável colectânea literária cinegética. É que eu nem sequer sou “marteleiro”, mas sim um não caçador confesso.
Se não foi o Diabo, então quem foi? Hum, isto cheira-me a tramóia de Mestre Velho Murtigão, afastado dos seus afazeres rituais nos santuários bacorais de Santo Alêxo da Restauração e com o espírito liberto para fazer das suas. Eu até era capaz de jurar pela alma dos quatro perdigões reais, que a urdidura e a trama desta tragédia cinegética tem a marca inconfundível de Mestre Velho Murtigão. Todavia ele não será o único culpado, já que terá contado com a colaboração de mais dois cúmplices. Um deles foi o Francisco Charneca que terá sido o seu lugar-tenente em toda esta marosca. O outro foi o José Amaro, que foi o mestre-de-cerimónias que com falinhas mansas acabou por ser o responsável final por eu estar aqui hoje.
Foi uma armadilha que me montaram e eu caí na esparrela de ter de falar destas caçadas literárias. Convenci-me desde logo que o convite formulado fora fruto das circunstâncias de não terem arranjado um especialista de serviço. Lá diz o rifão “Quem não tem cão, caça com gato”. E nisto tudo havia gato e o gato era eu, pelo que a minha primeira reacção foi declinar o convite do José Amaro. Aconteceu, porém que li uma dedicatória na contracapa do livro, a qual reza assim: “Aos nossos companheiros, cúmplices e amigos inseparáveis da Caça – os cães”. Foi então que mudei radicalmente de opinião e aceitei o convite do José Amaro. Sabem porquê? Porque aquela dedicatória também me é dirigida, já que “Alentejanos, argarvios e cães de caça, é tudo a mesma raça”. Aceitei pois o desafio, correndo o risco de em vez de falar de caça, fazer uma conversa de caca, o que constituiria uma tragédia verbal superior à ablação da cedilha.
De resto fui convidado, não por ser propriamente um “picareta falante”, mas por ser há muito conhecido como “picareta escrevente”.
Vamos lá ver no que isto vai dar. Que Santo Huberto lá no céu e Diana no Olimpo, tenham piedade de nós.

O PRIMEIRO CAÇADOR

De acordo com o Génesis, o primeiro livro da Bíblia, Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, pelo que por necessidade de sobreviver, Adão terá sido o primeiro caçador. Diz-nos a antropologia que de facto, foi a necessidade de sobreviver que levou o homem primitivo a caçar, isto é, a perseguir outras espécies animais, com a finalidade de os abater e consumir na alimentação.
A caça como actividade humana aparece representada nas pinturas e gravuras de grutas como Lascaux, Chauvet ou Altamira. Provavelmente, o homem terá começado por caçar sem armas, às quais terá começado a recorrer em certo estágio da sua evolução. E naturalmente com a evolução do homem, vão evoluindo igualmente as armas usadas na caça. Estas classificam-se em:
-    Armas de arremesso de mão: dardo, azagaia e arpão.
-    Armas de arremesso de engenho: funda, fisga, arco, besta, zarabatana e bumerangue.
-    Armas de choque: cajado, moca, machado, punhal, faca, espada, sabre e lança.
-    Armas de choque e arremesso de mão: machado, punhal e lança.
-   Armas de fogo: mosquete de pederneira, espingarda, pistola, revólver, etc.
Na caça, o homem pode também utilizar armadilhas diversas, tais como gaiolas, laços e redes. Pode igualmente ser auxiliado pelo cavalo em que se faz transportar ou por animais como o cão e o furão, assim como por aves de rapina como o falcão e o açor, usados na caça de altanaria.

O DESESPERO DE ADÃO

Adão deve ter sido o caçador mais feliz de todos os tempos, já que não lhe foi exigida carta de caçador, nem bilhete de identidade ou passaporte, assim como licença de caça, o que pode obrigar a ter cinco tipos de licenças: licença nacional, licença regional, licença de caça para não residentes em território nacional, licença para caça maior e licença para caça a aves aquáticas. Se fosse hoje, para além disso, Adão teria de trazer consigo, recibo comprovativo da detenção de seguro de caça, licença de uso e porte de arma, livrete de manifesto de armas, cartão nacional de identificação dos cães e licença de cão de caça. Estou certo que Adão se passaria dos carretos e diria:
- Arre, porra, que é demais!

A COMUNHÃO COM A NATUREZA

Caçar é uma actividade nobre, regulamentada por lei e existe um “Código de Comportamento do Caçador” elaborado sob os auspícios do Conselho da Europa e adoptado como recomendação n.º 8-17 pelo Comité de Ministros dos Estados Membros em 23 de Setembro de 1985. Divulgado entre nós pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e Associações de Caçadores com oobjectivo de promover uma ética de caça fundamentada nas realidades de hoje. Reconhece-se que a fauna selvagem deve ser preservada para as gerações presentes e futuras pelo seu valor ecológico, económico, estético, cultural e educativo. Reconhece-se ainda que a caça pode ser considerada como um elemento importante de gestão da fauna selvagem, com a condição de respeitar as necessidades ecológicas das espécies e dos seus equilíbrios biológicos. Todavia, certos tipos de comportamento podem ter repercussões nefastas no futuro de algumas espécies. Daí a importância de que se reveste, os caçadores seguirem o “Código de Comportamento”, já que é imperioso respeitar a fauna silvestre e observar normas éticas e de segurança inerentes ao acto venatório assim como contribuir para uma gestão racional dos recursos cinegéticos.
A caça põe o homem em contacto íntimo e em comunhão com a Natureza. Fazem-se grandes caminhadas e como diria o poeta sevilhano António Machado (1875-1939):
- Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar.
E nas suas andanças por cerros e vales, o caçador acompanhado do seu fiel amigo, o cão, aprende a conhecer a natureza, a interpretá-la e a respeitá-la.

ESTÓRIAS DE CAÇADORES

Para além do prazer proporcionado pela caça em si, há outras alegrias no final das caçadas: a exibição dos troféus de caça, o convívio à boa mesa e as estórias que se contam. Lá diz o rifão que:
- Quem conta um conto, aumenta um ponto.
assim como:
- Mau caçador, bom mentidor.
E também:
- Mentiras de caçadores são as maiores.
Um caçador é naturalmente um bom contador de estórias, umas verdadeiras outras romanceadas ou até mesmo pura ficção, mas todas elas, estórias. As estórias contam-se à mesa depois das caçadas, mas contam-se também no Facebook, rede social onde foi criado um grupo chamado “Arte Cinegética”, destinado à divulgação de obras de Arte Cinegética, tanto no âmbito das Artes Plásticas como da Literatura, Fotografia, Joalharia, Design e Taxidermia. Tal grupo de que também sou membro, tem 781 membros e tem como administradores Francisco Charneca, José Amaro José Joaquim Marques Chaparro e Pedro Miguel Silveira. Foi o grupo “Arte Cinegética” que esteve na origem do Clube Literário Cinegético, pelo qual estou aqui a dar a cara ou se preferirem o focinho, já que estamos a falar de caça.
A primeira publicação do Clube é esta “Colectânea Literária Cinegética” onde caçadores, inevitavelmente contadores de histórias, trocaram a espingarda pela caneta e resolveram passar ao papel, tanto em prosa como em poesia, algumas das estórias que lhe vão na alma.

FALEMOS ENTÃO DO LIVRO

Trata-se de um livro com capa cartonada com as dimensões de 17x24x2 cm, com o peso de 585 gramas e um total de 342 páginas, dividido em 48 partes e profusamente ilustrado. Reúne prosa e poesia de 42 autores-caçadores. a saber: Adriano Palhau, Agostinho Beça, Alexandre Fernandes, Ângelo Sequeira, António Afonso Inácio, António Luiz Pacheco, António Maria Pignatelli, António Pedro Rodrigues, Edgar Cordeiro, Fernando Coutinho, Fernando Manuel Santos Mota, Fernando Mascarenhas Loureiro, Francisco Charneca, Gilberto Fernandes, Gonçalo Roquete, Helena Cotrim, Joaquim Santos, João António Freixo Boavida, João Carlos Sequeira, José Amaro, José António Neves, José Maria da Cunha, José Martins, José Joaquim Marques Chaparro, Júlio Sousa, Luís Barata, Luís Guimarães, Luís Miguel Pereira, Luís Paiva, Manuel Prata de Almeida, Manuel Vassalo, Mestre Velho Murtigão, Miguel Pereira, Paulo Farinha Pereira, Paulo Oliveira, Paulo Santos, Pedro Delgado, Pedro Miguel Silveira, Rodrigo Abreu, Sérgio Paulo Silva. Nelson F. Tomaz e Nuno Sehastião. Os textos têm um elo comum a paixão pela caça que lhes está na massa do sangue.
As ilustrações num total de 191 pertencem a 11 autores. São eles: Alexandre Fernandes, António Charneca, Fernando Farinha Pereira, Francisca Paiva, Francisco Charneca, Francisco Fachadas, Francisco Marques, Inês Valadas Pereira, Luís Barata, Manuel Trovisco e Rita de Mascarenhas Loureiro.
A colectânea foi coordenada por José António Neves e por Francisco Charneca, respectivamente a nível de textos e de ilustrações. A paginação e a capa são também de Francisco Charneca.

O SIMBOLISMO DO LIVRO

Este livro está repleto de simbolismo. Tem como cor dominante, a cor da terra de barro, o mesmo barro com que Deus terá modelado o primeiro homem, o qual por desobediência da sua cara-metade, acabou por ter de expulsar do Paraíso. Por isso, este livro é também uma homenagem a Adão, o primeiro caçador da História da Humanidade.
Para além disso, neste livro os tons de ocre castanho, um dos pigmentos minerais usados na decoração de grutas como as de Lascaux, Altamira e Chevreux, são também uma homenagem, aos artistas rupestres precursores da arte cinegética, que esteve na génese do grupo homónimo do Facebook.

DUAS PALAVRAS

Em “Duas palavras...”, que é como que um ante prefácio, os coordenadores da colectânea dão-nos conhecimento que (e passo a citar):
A generalidade dos autores, a maioria, a publicar pela primeira vez, oriundos da geografia portuguesa, assume galhardamente a sua condição de caçadores que escrevem, devendo ser este livro avaliado essencialmente sob esse prisma. Nas suas diversas histórias, narrativas e crónicas, onde a fantasia, o humor e o vernáculo, tão característicos das nossas tertúlias, temperam a austeridade dos lances, encontraremos a expressão de diferentes idiossincrasias, unidas pelo gosto comum da multidisciplinar prática venatória.
E mais adiante dizem:
Nestas páginas encontraremos ainda múltiplas vivências, tanto no território pátrio como fora dele, onde a crua realidade é omnipresente. Isso permite-nos a percepção clara do arrebatamento que incita ao acto cinegético, da dureza imposta pelo ambiente natural e das palpitações do esforço tenaz, materialização sublime do corolário da vontade e do espírito de sacrifício.
E terminam dizendo:
As ilustrações, embora sejam uma manifestação artística com valor próprio - aliás, de excelente qualidade - combinam-se com a escrita numa simbiose admirável. Alguns dos seus autores, apesar de nâo-caçadores, revelaram, em traços precisos e indeléveis, um esclarecido entendimento da paixão que nos movimenta e dos horizontes que perseguimos.

IN MEMORIAM

Em “In Memoriam…”, os coordenadores da colectânea dão conhecimento de que “Nas montarias peninsulares é honrosa tradição recordar os amigos e companheiros desaparecidos.” Por isso entenderam nesta colectânea “…proceder de igual modo através da evocação de uma figura representativa e consensual devido à singularidade dos seus feitos e à extrema dignidade do comportamento pessoal.”. Trata-se de Mestre José Pardal que segundo nos revelam “Na sua multifacetada experiência personifica o arquétipo do caçador integral e consciente, daí a eleição deste vulto incontornável da nossa cinegética para preitear a memória, dos que, como Ele, nos antecederam ou acompanharam.”

PREFÁCIO

O notável prefácio de Gonçalo Roquette levou-me à conclusão de estar em presença de alguém que é com certeza um grande caçador e dispara igualmente bem com a arma e com a caneta. Ideia que é reforçada pela sugestiva ilustração que acompanha o prefácio. Dele respiguei a seguinte afirmação: “Não há dúvida que as terras da felicidade são os nossos locais de caça. Onde regressamos, religiosamente, para celebrar a vida ali vivida. Assim são os livros como este, não só mas também, uma maneira de caçar.”, bem como esta outra:”Com esse apontamento quero assinalar que a caça é indiscutivelmente um factor de união entre os homens, independentemente da sua opinião política, da religião que professam, da sua raça, do sexo, dos seus bens de fortuna e do seu berço, “Os homens compreendem-se uns aos outros na medida em que os animam as mesmas paixões”. E aqui Roquete cita Stendhal. Parabéns pelo texto. Estou certo que é considerado um privilégio, tê-lo como amigo e ser seu companheiro de caça.

DAS ESTÓRIAS

Das estórias pouco posso dizer. São histórias de caça, em prosa e em verso, com estilos e domínios de escrita diversos, reflexo da experiência cinegética e do imaginário de cada um. Há que lê-las e partilhar com cada um dos autores o relato da sua vivência e da sua imaginação.

POSFÁCIO

O posfácio de Nuno Sebastião, elaborado depois de calcorrear estas páginas de caça, trouxe-lhe à memória o saudoso tempo do terreno livre dos seus tempos de catraio, quando acompanhava o pai. Era o tempo da vida livre e desburocratizada de campos sem tabuletas, tempos que não voltam. E felicita os confrades que em prosa e poesia, decidiram formar jolda e trocarem alazarina pela caneta para nos brindarem com uma lição de ética venatória e bom companheirismo.

TRIBUTO

No final do livro e muito bem, os coordenadores da “Colectânea Literária Cinegética” prestam um tributo aos companheiros e companheiras que ao seu lado celebram com a indispensável benevolência, a sua dedicação à festa da caça.

GLOSSÁRIO

No final do livro é possível consultar um valioso glossário com 436 termos e expressões idiomáticas usadas pelos caçadores. Curiosamente, o significado não é o que pode parecer à primeira vista.
A talhe de foice, destaquei os seguintes termos: Amélias que são pessoas pouco desembaraçadas. Badagaio que é a queda desamparada. Bufar que é expirar com força. Choça que é o abrigo utilizado pelo caçador para se esconder da caça na modalidade de espera. Javardo que é o javali adulto. Jolda que é um grupo organizado de caçadores. Marteleiro que é o caçador que erra tudo a que atira. Picada que é um caminho estreito em terra. Pissadas que são raspanetes e Ponta de fora que é a posição do caçador que na caça às perdizes de salto, orienta a caçada.
Este glossário é decerto um bom ponto de partida para a edição autónoma de um dicionário de termos e expressões idiomáticas usadas pelos caçadores. Fico à espera.

ATÉ QUE ENFIM

Permitam-me que termine parafraseando D. Francisco Manuel de Melo, dizendo: “Da infelicidade da composição, erros de escritura e outras imperfeições de estampa, não há que dizer-vos, vós as vedes, vós as castigais”. E acrescentarei:
- Assim seja, para mal dos meus pecados.
Todavia peço-vos, oh cavaleiros do código antigo, cumpridores de preceitos, romeiros dos santuários de caça, fiéis devotos dos templos da sua degustação, tende piedade de mim!

Texto da autoria de Hernâni Matos, autor do blogue "DO TEMPO DA OUTRA SENHORA", lido pelo próprio, aquando da apresentação do livro, na Casa de Estremoz, no dia 6 de Setembro de 2014

28 de agosto de 2014

Octogésimo aniversário do Senhor Braga dos Anjos

No dia 27 de Agosto de 2014, no bonito Lugar dos Anjos, na Ilha de Santa Maria, o Sr. José Braga (o quarto a partir da direita*) completou 80 anos de vida. Nesta foto só estão caçadores que sempre viram no Senhor Braga um exemplo de homem e caçador a seguir.
A família e os amigos prepararam-lhe nos Anjos uma festa simples mas muito bonita e durante a qual os pratos fortes servidos foram muita gastronomia típica da Ilha de Santa Maria, a amizade, a solidariedade, a caça, os cães de caça, o fado e cantigas ao desafio. 
Marcaram presença muitos familiares e amigos vindos de outras Ilhas dos Açores, do Continente Português, da América e do Canadá.
Caçar com o Senhor Braga na sua bela Ilha de Santa Maria foi sempre uma honra e um privilégio. Muitos Parabéns!


*Da esquerda para a direita:
Manuel Frias, Pedro Miguel Silveira, José Frias, Horácio Moura, António Monteiro, José Braga (Braga dos Anjos), Gualter Furtado, Virgílio Paz Ferreira e Jorge Santos

Texto e fotos de Gualter Furtado

16 de agosto de 2014

Duas estreias a 15 de Agosto de 2014

A Primeira: Liegeoise paralela que os Herdeiros do Senhor António  José Galante me ofereceram.
Esta espingarda de caça Belga tem cerca de 60 anos e é possuidora de uma chumbada simplesmente extraordinária. 
Utilizei cartuchos com chumbo 7, que não ultrapassaram os 30g e carregados a pressões também relativamente baixas.
A Segunda: A minha cachorra, quase Beagle, que se revelou um animal excelente.
Nesta primeira oportunidade de caça a sério,  deu-me a cobrar dois coelhos e ela própria cobrou o seu coelho bravo numa cena de caça destemida. 
Esta jornada desenvolveu-se na Ilha Terceira, na companhia de uns amigos caçadores que conheço há longa data, a que se juntou o Celestino.
Os terrenos eram de uma beleza inigualável já que a Caldeira Guilherme Moniz é simplesmente extraordinária e não merece que se deixem lá os cartuchos vazios, pelo que devem ser recolhidos como mandam as boas práticas do exercício cinegético.
Um realce especial para o cuidado e respeito que devemos  ter com os  imponentes toiros bravos1, que são os Reis daquela paisagem e com os quais nos cruzamos por diversas vezes, acautelando sempre a devida distância.
Finalmente, uma referência para o almoço com as deliciosas alcatras, magistralmente preparadas pelas esposas dos amigos caçadores da Ilha Terceira, só possíveis de degustar nesta Ilha de Jesus Cristo2.

Texto da autoria de Gualter Furtado

Legenda:
1- Autarcas e mordomos da Ilha Terceira estão a recolher documentação para candidatar a Tourada à Corda da Ilha Terceira a património da humanidade.
2- Primeira designação da Ilha Terceira

13 de agosto de 2014

Caço por mim

Caço porque gosto
Pela carne que me proporciona
Rica em proteínas e livre de drogas
Pelo "rocket fuel"
Pela liberdade
Pela natureza
Por mim
Pesco pelos mesmos motivos
Nunca o fiz pelo troféu
Não conto fazê-lo
Não cacei durante um ano
Foi o que resisti
Mais facilmente abdicaria da pesca.

4 de agosto de 2014

A Zebra do Lodge

Há um grande empreendimento turístico no Grupo onde sou responsável pela área agrícola. Apoia-se numa estrutura hoteleira com “bungalows” (um "lodje"), restaurante-bar, piscina, entre outros produtos e serviços de elevada qualidade, e num parque com 20.000 Ha, vedado, onde existem diversos animais soltos e se organizam passeios ditos “safaris”, para sua observação, sendo ainda possível fazer percursos a pé, de btt ou de burro. 
Existe ainda um barco para passeios no mar, dado que o "lodje" fica junto ao rio Coporolo e a uns 40 Km de Benguela.
No Sábado apareceu morta uma zebra… por sinal a mais velha e a guia da manada de cerca de 20 que ali foram reintroduzidas, vindas da África do Sul, 2 anos atrás. Ao que dizem já andava coxa há uns dias, e até a viram deitada… Sábado de manhã estava morta.
Como sempre, a despeito das excelentes intenções, os ecologistas, protectores e amantes do ambiente, amigos dos animais, compenetradíssimos na pegada ecológica e nos seus princípios elevados de conservacionismo aprendido no canal da National Geographic e leituras afins, que são quem quase sempre dirigem estas estruturas, baseados em teorias e nenhum conhecimento prático, na força da sua juventude, colapsam quando há problemas… falta-lhes andar a pé no terreno, ao Sol e à chuva, conhecer as gentes e os animais-mesmo não os animais made in Disney, e falta-lhes uma sensibilidade diferente, mais realista e dura, menos poética sobre a Natureza que é magnífica mas insensível e cruel.
A zebra tinha metido uma pata num laço! Quebrou-o e soltou-se, mas este permaneceu agarrado à perna, num corte circular, largo, além de ter provocado feridas na outra também. Gangrenaram e provocaram a morte do animal, que poderia ter sido eventualmente salvo com uma injecção de antibiótico, se alguém com outro entendimento e percepção das coisas, tivesse agido… debilitada a sua captura e internamento na zona da quarentena não era assim tão difícil.
No entanto chorou-se a morte do animal e até se lamentou que as outras, aflitas e com pena daquela, se mantiveram por ali… coitadas!
No mais do resto… o que fazer? Ninguém sabia…
Bom, primeiro, as zebras não têm pena… elas seguem a zebra mais velha, a mãe de pelos menos duas, que é naturalmente a guia. Se esta se deita e morre, pois ficam desorientadas até perceberem que ela não se levanta mais, então outra toma o lugar daquela, as outras seguem-na e a vida continua!
Depois: O laço parece ser velho… aquela zona antes de ser vedada era muito batida pelos carvoeiros (que armadilham muito) e as pessoas de algumas aldeias da zona caçam com laço.
Porém não se usa cabo de aço novo e sim o que se apanha, normalmente usado, é algo inconclusivo.
Ter sido na pata de trás, sugere acidente e não armadilha posta para isso…
Importa saber onde é que foi o local da captura, pois se foi perto da vedação pode indiciar ter sido acção de caça, passaram vários dias mas será ainda possível descobrir onde foi que ela lutou para se soltar. 
Há que tomar medidas, procurar o local, dar uma volta à vedação para ver se há indícios de esta ter sido pulada ou mesmo cortada. 
Também procurar outros laços… perdidos ou colocados. Se foi acto de caça, abre um precedente que é preciso evitar. Estamos na época seca, a melhor para armadilhar, pois os animais se concentram mais e sabe-se qual o seu caminho para a água dos bebedouros e as comidas, certas e determinadas. 
Há ali em volta gente dispersa e uma pequena aldeia, são pastores, gente do mato, bravia e pouco sensível a “lodjes turísticos” e outras coisas que nem entendem. Vivem do que o mato dá mas podem ser postos deste lado se houver interacção com o soba e com a população nesse sentido, de guardarem até a cerca e impedirem outros, vindos de longe e que agora circulam subindo para o rio na época seca, de fazerem o que sempre fizeram, cortar vedações que lhes vedam o acesso milenar à água e pasto, pôr armadilhas para caçar e comer - aliás dependem mesmo disso. Para quem vive do seu gado, trocando pontualmente um animal por farinha ou sal e panos, do leite e da colheita de mel, deslocando-se em função do pasto espontâneo e da água existente nas nascentes ou rio, um parque turístico para se ir ver animais, com uma piscina para lazer, é algo de transcendente!
A zebra, que podia ter sido salva, foi esfolada e a pele congelada (nem sabiam como a manter) para mandar curtir, nas aldeias de pastores há quem faça esse trabalho e tenho amigos que me tratarão disso. 
A carne, imprópria (outro detalhe…) uma parte serve para os crocodilos, a carcaça arrasta-se para onde seja pasto de chacais, gatos, aves e outra bicheza pois na Natureza nada se perde!
Foi pena! Mas é a dura realidade da vida no mato e em África, apesar das cercas e dos "lodjes", onde há coisas que nunca mudam e com as quais temos de contar e de viver!

Texto e foto da autoria de António Luiz Pacheco

27 de julho de 2014

Por um novo Trilho

A Ilha de Santa Maria não necessita de uma associação de caçadores grande, que reúna um número elevado de praticantes, mas sim de um grupo organizado, coerente e funcional de pessoas esclarecidas, que saiba exactamente o que se pretende, que trabalhe para esse fim em conjunto e que proceda em conformidade.
Que seja capaz de buscar, estabelecer e manter parcerias com as diversas entidades públicas e privadas que se movimentam na mesma esfera de interesses, sejam eles interesses partilhados ou contrários.
Santa Maria necessita de uma entidade que nos represente e, através da qual, possamos agir e participar publicamente.

26 de julho de 2014

Caiu de Podre

A Ilha de Santa Maria não tem associação de caçadores.
Já teve, mas era ineficaz.
Os caçadores, enquanto membros activos da sociedade civil, têm o dever de contribuir para um melhor ambiente e para a sustentabilidade de todas as espécies animais, de investir na sensibilização, na formação em matérias de conservação ambiental, na utilização racional dos recursos cinegéticos, na adopção de medidas e comportamentos de segurança e em de boas práticas no exercício da caça.
Nunca teve a associação de caçadores da Ilha de Santa Maria essa consciência. 
Se a possuiu também nunca a demonstrou.
Uma associação onde era bem mais importante a encomenda de cartuchos e estoura-los, mais não lhe restava do que cair por si mesma e sobre si própria, de podre. 

24 de julho de 2014

O Posicionamento do Caçador Moderno

No início deste novo século nos deparamos com três desafios monumentais, sendo eles provenientes das novas tecnologias aplicadas à caça, a sustentabilidade das espécies e o posicionamento do caçador na sociedade.
Nas linhas que se seguem abordarei precisamente este último, por considerar depender dele a solução dos restantes.
A tarefa não se nos afigura fácil quando, em face da incompreensão a que somos votados, nos recolhemos e fechamos em copas perante uma oposição que se apresenta determinada contra a actividade venatória e nos acusa de egoísmo e da prática de alegados comportamentos marginais, através duma estratégia que, na falta de reacção, os faz ganhar adeptos e influência.
Temos a responsabilidade de alterar esta tendência e o devemos fazer participando activamente na comunidade, pois se hoje nos encontramos em clara desvantagem foi precisamente porque abdicamos dessa prática algures no percurso.
A verdade é que num determinado momento nos distanciamos da sociedade, a qual, por via desse fosso e auxílio dos delatores, deixou de nos reconhecer e acabou por esquecer o mérito da nossa contribuição.
Nestas condições pouco ou nada temos recebido para além da indiferença, da incompreensão e da rejeição.
Podemos começar por identificar nas forças vivas mais próximas, sobretudo nas freguesias e nos concelhos onde caçamos, interesses comuns e procurando executa-los em conjunto, com o objectivo de criar parcerias duradouras.
Não bastam as boas ideias, que até existem e que se vão praticando um pouco por todo o país, mas há que enquadra-las nos planos de gestão e de desenvolvimento dos municípios.
Será no estabelecimento e na administração desses interesses comuns, que se deve posicionar o novo caçador, para recuperar e reforçar os laços perdidos.
Relativamente à sustentabilidade da fauna selvagem, receia-se a contínua deterioração dos habitats e o contínuo decréscimo das populações animais, porém depositam-se esperanças na descoberta de tratamentos eficazes para a diversidade das moléstias que afectam as espécies cinegéticas. Por outro lado teremos acesso a tecnologias de elevada precisão, adaptada aos mecanismos de pontaria e munições, em que o sucesso do disparo deixará de depender da habilidade ou da destreza do atirador desvirtuando totalmente a essência da caça.
Os novos tempos estão aí e preparam-se para nos apresentar desafios de tão grande complexidade que nos farão debater profundamente princípios e procedimentos que temos agora por imutáveis.
Cabe-nos, enquanto caçadores, a responsabilidade de analisar tudo isto e de promover uma séria discussão interna, num processo que deverá ser dinâmico e atento aos constantes desenvolvimentos, mas sempre no firme pressuposto da defesa e integração do caçador português na sociedade do séc. XXI.

Retrato da autoria de Francisco Charneca

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