9 de agosto de 2010

Bambi - Um Alvo a Abater

Se há filmes que recordamos da nossa meninice, então o do "Bambi", de Walt Disney, é um deles.
David Petersen, ao contrário do que pensam e acreditam algumas pessoas, nos vem dizer que este desenho de celuloide não é mais do que um artificio dissimulado, antinatural por natureza, que já devia estar, há muito, bem extinto e soterrado!

Para este autor "a tragédia do Bambi" começou em meados de 1880, quando um jovem húngaro, depois ter assumido o nome de Felix Salten - uma identificação étnicamente muito mais confortável do que o nome judeu original  de Siegmund Salzman, emigrou para Viena. Nessa cidade austríaca, dedicando-se Salten à escrita de peças de teatro, à crítica, à produção de pelo menos uma novela pornográfica (As Memórias de Josephine Mutzenbacher) e à criação de uma enorme porção de livros relacionados com a natureza e destinados às crianças, prosperou.
Entre os seus passatempos, que agora o novo-rico Felix participava com os seus novos amigos aristocráticos, estava a caça, actividade que ele veio a considerar repugnante.
Escrito em 1924, o Bambi de Salten pretendeu, desde o início, instituir sentimentos anti-caça, tanto nas camadas mais jovens, como em todos os outros leitores, embora alguns críticos defendam que se tratava, sobretudo, de uma alegoria anti-facista, em que a pacífica natureza selvagem representava as massas vitimizadas e os caçadores, os odiosos hunos.
Repleto de sofrimento e de morte, tudo isto causado por um inimigo conhecido entre os animais apenas por "Ele" (com a inicial maiúscula, como se de uma referência biblíca se tratasse), este Bambi teve um enorme sucesso junto das classes sociais mais desfavoridas que sempre conceberam a caça praticada ao longo dos séculos por uma minoria privilegiada, uma enorme injustiça.
Entretanto, na América, uma conspiração paralela tomava forma.

Tendo iniciado a sua vida numa quinta, do estado do Missouri, nos E.U.A., Walt Disney caracterizava-se por ser um acérrimo defensor dos "direitos dos animais" e, por conseguinte, frontalmente contra os caçadores, os quais odiava. Narra-nos a história que tudo começou quando o seu irmão, de nome Roy, surpreendeu um coelho com um tiro bem colocado, disparado de uma pressão d'ar, seguido de um  "coup de grâce", torcendo-lhe o pescoço, tendo tudo isto sido presenciado pelo pequeno cineasta. Embora a sua mãe tivesse recebido de bom grado a carne fresca e com ela confeccionado um apetitoso guisado, Walt recusou-se a comê-lo.
O Bambi de Salten foi traduzido para inglês em 1928 e depressa chegou aos Estados Unidos. Entretanto, Walt Disney tornara-se adulto e bastante activo na industria de filmes de animação. Quando leu esse livro foi amor à primeira vista e nele também encontrou uma boa oportunidade para ganhar dinheiro, muito dinheiro. Feito o guião. tiveram as filmagens o seu início em 1937. Apesar do produto da Disney possuir mais vida e cor, transmitir um maior sentimento de esperança do que a novela pardacenta e freudiana de Salten, manteve o conflito primário que a qualificava: a natureza é boa, a humanidade é má.
Em Bambi encontramos figuras benevolentes e conselheiras, como corujas, esquilos, coelhos e codornizes. Apenas bagas selvagens e as flores dos trevos são consumidas, e mesmo assim nem muitas dessas. Na maior parte do tempo essas criaturas ingénuas apenas cantam, brincam, dormem e têm conversas imaturas e infantis entre si.
A misantropia e o sentimento anti-caça não eram os únicos alicerces que suportavam e alumiavam a passagem de Bambi do livro para o filme. Como sempre, para este competente capitalista, o ganho monetário era o objectivo primordial.
Nos seus projectos iniciais, o pai do Rato Mickey, aprendeu rapidamente que o lucro poderia ser bem mais ampliado através da sábia gestão das emoções dos espectadores. Em Bambi, a massiva manipulação da natureza, tendo em vista o efeito emocional e, por conseguinte, o lucro, é projectada para extremos nunca antes explorados.
Cartmill, investigador de História Natural, disse o seguinte: "assim que se compreendeu que o sentimentalismo e o antropomorfismo faziam dinheiro, foi por esse mesmo caminho que seguiram os filmes de Disney ... desinformam deliberadamente a assistência sobre factos biológicos basilares". Acrescentou ainda que "aos animadores foi-lhes dito que poderiam utilizar quaisquer expressões humanas que conseguissem impor na cabeça  inflexível e alongada dum veado. Em consequência dessa directiva as cabeças começaram a ser desenhadas num formato alargado sobre corpos pequenos. Os focinhos foram encurtados para melhor se assemelharem a personagens ameninadas. As pestanas foram desenhadas mais compridas e as pupilas dilatadas... tais como as que podemos encontrar numa cortesã do período renascentista".
Além da sábia condução musical os mágicos da Disney conseguiram alcançar uma irresistível aparência inocente através da introdução de vozes de crianças reais.
Sem deixar pontas soltas, a cena de abertura de Bambi, à qual todas as outras criaturas reverenciavam como sendo o jovem príncipe da floresta, trata-se de uma desavergonhada réplica da Noite de Natal. Mais uma vez Cartmill  observa que, "após os animais venerarem o recém-nascido e terem partido, a imagem focaliza a mãe e a cria aninhadas numa espécie de arbusto - um quadro que Pearce, o editor da história, referiu assemelhar-se "àquele quadro da Madonna" - enquanto o pai contemplava o cenário enternecedor do cimo de um penhasco celestial, tal e qual um deus distante.
David Peterson diz-nos que após ter observado o filme sob a perspectiva de um adulto esclarecido, concordou profundamente com a descrição que o crítico Roger Ebert fez da obra: "uma parábola ao  sexismo, niilismo e desespero, retratando pais ausentes e mães passivas num mundo de morte e violência." Conclui Ebert que não é um produto indicado para jovens, nem para quaisquer mentes impressionáveis.
Mesmo nos dias de hoje, até para adultos sugestionáveis, o filme Bambi transporta aquilo que Cartmill caracteriza como "a força de um malho... apesar da sua penetrante e repelente sedução".

Bambi - o filme para crianças, agora mais facilmente acessível ao público do que alguma vez o foi, é um enorme embuste.
Para David Peterson, se as criaturas da floresta pudessem falar em nome próprio estariam entre os seus maiores críticos, pois sabem bem melhor do que nós quão devastadora tem sido esta farsa, e continua a ser, para o seu modo de vida bravio, através da criação do falso conceito da paz universal e do amor na natureza, que simplesmente não existem.
No âmbito deste filme, se alguns "amigos do Bambi" ou defensores dos direitos dos animais conseguirem levar por diante os seus objectivos, como disseram que fariam, acontecerá uma catástrofe ecológica.
Peterson, na defesa da verdade, realidade e pela dignidade dos processos naturais, afirma que Bambi - essa monstruosidade da propaganda de Hollywood, deve morrer.

Excerto traduzido por mim, retirado do Capítulo XI - The Bambi Syndrome Dismembered: Why Bambi Must Die, da II Parte, do livro intitulado Heartsblood, de David Peterson

5 de agosto de 2010

O Veado das Dez Pontas

Reza a história que, tanto Plácido, um soldado romano do exército de Trajano, como Huberto, filho do duque da Aquitania, se converteram ao cristianismo após se terem deparado com um veado que apresentava o crucifixo de Cristo.
O primeiro ficou conhecido como Santo Eustáquio e o segundo como Santo Huberto - o Padroeiro dos Caçadores!

Santo Eustáquio, cuja conversão ao  catolicismo se deveu a uma visão que teve de um veado  com a cruz entre os esgalhos, também é considerado Padroeiro dos Caçadores, porém tratou-se essencialmente de um culto romano, que teve o seu apogeu no séc. XI.
Por sua vez, Santo Huberto, que também era um ávido caçador, deparou-se, numa Sexta-feira Santa e no decurso de uma caçada, com um magnífico veado de dez pontas, por sinal o mais majestoso que alguma vez vira, e moveu-lhe uma impetuosa perseguição com o intuito de caça-lo. O cervídeo, em vez de correr e de procurar refugio, encarou-o ostentando um crucifixo entre as hastes ao mesmo tempo que uma voz misteriosa lhe disse para se voltar para Deus. Huberto assim o fez, despojando-se dos bens materiais, dedicando-se à oração, à leitura de textos sagrados e à meditação.
Mais tarde, já consagrado bispo da igreja católica, converteu muitos pagãos e realizou diversos milagres, tendo sido canonizado no ano de 743.

Existe uma enorme similitude entre estes veneráveis, porém Santo Huberto substituiu Santo Eustáquio, como Padroeiro dos Caçadores, no séc. XIV e celebra-se Santo Eustáquio no mês de Setembro, por altura das vindimas, enquanto Santo Huberto é no mês de Novembro.
Ambos foram grandes aficionados da actividade venatória, que a renunciaram, precisamente, para venerarem a ordem celeste e aqui encerram um grande paradoxo, pois não deixa de ser curioso que, em nome desta recusa, tenham sido aclamados patronos da caça.
O veado das dez pontas, que também se encontra representado na iconografia cristã,  é, na verdade, o glorificado em toda esta narrativa, pois foi diante dele que o caçador se curvou e humildemente se ajoelhou.

3 de agosto de 2010

Representante da República para os Açores Entronizado pela C.G.C.

No dia 01 de Agosto de 2010, nas instalações do Clube Cinegético e Cinófilo (CCC), sitas no bonito e aprazível Lugar das Fontinhas, na ilha Terceira, a Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores procedeu a mais uma cerimónia de entronização de novos Confrades, cabendo a vez ao Senhor Eduardo Ávila (Camarão) e ao Juiz Conselheiro Dr. José Mesquita, actual Representante da República na Região Autónoma dos Açores e um Verdadeiro Caçador.

O evento, onde também estiveram presentes os representantes da Confraria do Vinho Verdelho, muitos caçadores e familiares, oriundos de diversas Ilhas deste arquipélago açoriano, foi precedido por um merecido repasto - como não podia deixar de ser, constituído exclusivamente por pratos de caça, cozinhados no CCC, entre os quais se destacaram a canja de pomba da rocha, as alcatras de coelho, perdiz e javali, codornizes à caçador, pombas da rocha assadas, galinhola à nossa moda e coelho frito, por todos muito apreciados e degustados, a que se seguiu uma saborosa sobremesa com meloas de Santa Maria.

A Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores é a primeira do género, de Portugal, e tem como Objectivos, entre muitos outros, valorizar a componente social da caça, preservar e divulgar o património gastronómico confeccionado a partir de espécies cinegéticas dos Açores e do País.

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

1 de agosto de 2010

Separar o Trigo do Joio

Estamos cada vez mais distantes do verdadeiro sentido da caça, e, este é um facto indiscutível.
A caça, por seu turno, encontra-se no centro, entre dois extremos, cada vez mais pronunciados e distantes um do outro. Vivem eles das meias-verdades que debitam vigorosamente e dos argumentos que utilizam para se agredirem mutuamente. Refiro-me aos grupos extremistas pro-caça e anti-caça, respectivamente.

Estes últimos não são os únicos a representarem uma séria ameaça à existência da actividade venatória. Os primeiros também o são! E isso deve-se à incapacidade que temos vindo a demonstrar, hoje em dia, mais do que nunca, de nos organizarmos e estruturarmos à volta dos mesmos objectivos, dos mesmos valores éticos e morais, pelo que há muita coisa a correr muito mal.
A caça furtiva é apenas uma delas e não é só por ser um acto ilegal, pois também persistem actividades venatórias lícitas que não são menos prejudiciais, como por exemplo a caça aos troféus, a caça em terrenos vedados, os concursos de caça, o emprego abusivo das novas tecnologias, a exposição desrespeitosa dos animais abatidos ou mesmo o comportamento altamente reprovável de alguns ditos caçadores quando se pavoneiam  no campo munidos de uma arma de fogo.
Tudo isto contribui para que nos dividamos ainda mais e força alguns Caçadores mais conscienciosos e responsáveis a afastarem-se da Caça, muitos deles convertendo-se em não-caçadores ou mesmo a serem frontalmente anti-caça.
Não é assim que se desperta o interesse nas camadas mais jovens, nem é assim que desarmamos os opositores.

O Verdadeiro Caçador terá que fazer um esforço e reencontrar dentro de si o "fogo sagrado", responder a uma única e simples pergunta: porque é que "eu" caço?

Se chegarmos à conclusão que o fazemos porque somos os mais recentes representantes de uma longa linha de predadores, cuja origem se perde no próprio tempo; que o fazemos em parceria com a natureza, pelo desafio dos nossos próprios limites; para aprendermos sobre a nossa verdadeira identidade e sobre o mundo que nos rodeia, de uma maneira que só a caça nos pode ensinar; para aceitar a responsabilidade pessoal das mortes que provocamos, sabendo que as mesmas nos providenciarão o alimento que necessitamos; para nos integrarmos no mundo natural e sentir essa sensação como se de uma experiência espiritual se tratasse, então estaremos a contribuir para um mundo melhor, a desenvolvermos o nosso próprio ser e, finalmente, estaremos prontos para responde-la, conscientes que essa resposta nos fará ser mais exigentes connosco e com os outros.

Bibliografia consultada: "A Hunter's Heart", de David Petersen

14 de maio de 2010

Os Amigos da Onça

É com relativa facilidade que se encontram diversos pontos em comum e mesmo convergentes, defendidos por caçadores como pelos ditos “ambientalistas” e “amigos dos animais”.
A título de exemplo evoco apenas o da preservação das espécies e do meio ambiente; o do combate à caça furtiva ou o anseio de prevenir e reduzir o desnecessário sofrimento dos animais.
Todos esses objectivos são abraçados tanto por uns, como pelos outros. Porém, enquanto os caçadores assumem a existência dessa associação de interesses de forma livre e espontânea, já o mesmo não se passa com os ditos “ambientalistas” e os tais “amigos dos animais” que a recusam e negam veementemente, i.e., pura e simplesmente não aceitam que possa existir esse tipo de ligação ou qualquer tipo de convergência com os caçadores, que consideram ser um grupo marginal constituído por bárbaros, criminosos, violentos e de assassinos, adjectivos esses que fazem por repetir incessantemente.


Naquilo a que Freud designou por “grupos primitivos”, podemos encontrar uma explicação para esse comportamento e, de certo modo, tentar perceber a necessidade desses grupos anti-caça agirem deste modo tão peculiar.
De acordo com esse psicanalista austríaco a intensificação dos efeitos e a inibição do intelecto são as características basilares dos “grupos primitivos”.
Nesses grupos, ao mesmo tempo que lhes é solicitado que analisem os problemas, pedem-lhes também que desistam do seu pensamento crítico individual e que sigam, sem questionar, os seus líderes carismáticos. Podemos encontrar nos comícios políticos ou nas manifestações violentas dois destes exemplos.


Os “grupos primitivos”, baseiam-se assim - toda a sua existência, na manutenção de emoções fortes e de paixões exacerbadas, daí a necessidade de manterem um agente catalisador e um alvo para onde possam direccionar e arremessar alguns dos sentimentos que os alimentam, como o da frustração, o da inveja ou mesmo o do ódio. O objectivo é manter o caldeirão em permanente ebulição.
Os caçadores parecem ser um alvo favorável, não só pelo que sentimos e constatamos diariamente, mas também pelo que é publicitado e transmitido através dos media, o que resulta numa tentativa constante e doentia de estigmatizar a caça.
Constata-se assim que alguns dos ditos “ambientalistas” e “amigos dos animais” mais extremistas, elegeram a caça como o elo mais fraco dos seus alegados oponentes e também se compreende a razão de não aceitarem sequer a hipótese de poder existir algum tipo de ligação ou de convergência com os caçadores, por mais evidente que esta se possa apresentar, pois se a considerassem, acabavam por se extinguir mais depressa do que as espécies animais que tanto alegam querer proteger da destruição!


Há muito dinheiro a rolar e a alimentar estes tipos de conflitos. Não há nada melhor do que uma boa controvérsia para se declarar uma crise e quanto maior, melhor. Os advogados sabem-no e alguns ditos “activistas sociais” também. Alguns chegam mesmo a fazer dessas disputas um modo de vida, de projecção social e política, mais uma maneira de pagar as contas, pelo que tratam de engendrar organizações e de financia-las, para finalmente poderem enfrentar e combater os bodes expiatórios,… os tais que eles próprios criaram!


Bibliografia consultada: "In Defense of Hunting", de James A. Swan, "Maquiavel em Democracia", de Edouard Balladur e "O Príncipe - Maquiavel", tradução, introdução e notas de Diogo Pires Aurélio.

6 de abril de 2010

Evocações

Falo-vos de sequazes de Nemrod, que nos fastos da cinegética nacional são bem conhecidos, pelo menos para os mais "peugueiros" de leituras cinegéticas, dada a obra de reconhecido valor que nos legaram.
Trata-se de trabalhos editados, com reconhecido interesse histórico-cinegético, científico, etnográfico e "haliêutico", pois a esta nobre arte também houve quem se dedicasse e apaixonadamente em Tomar, a vetusta terra do Nabão.
Refiro-me a Júlio e a seu irmão Fernando Araújo Ferreira, também conhecido por Dr. Nini Ferreira.

Falemos, pois, um pouco mais das suas trajectórias de vida: feito o 5º ano vem para Lisboa, uma vez que seu pai fora colocado como professor nos "Pupilos do Exército". Era, porém, na sua terra, longe dos olhos mas perto do coração, que o seu pensamento estava: ali passavam sempre as férias, de fisga e mais tarde de "Flobert" em punho, a contas com a passarada. Seriam já os primeiros sinais do afã venatório que viriam a sentir e a viver por toda a vida.
Terminado o liceu pelos anos 20 do século passado, Júlio, o mais velho, segue para a Escola de Guerra, e aqui, no final do ano lectivo eram da praxe as provas de atletismo em que se distinguiam atletas de alto gabarito: e não é que o Júlio bate toda a concorrência, inclusive o Ápio de Almeida, atleta do Sporting, um campeão em título!
De Alvalade vem logo uma comitiva falar com o atrevido, e passado pouco tempo já envergando a camisola do Sporting, sagra-se campeão nacional 110 metros barreiras.
Paralelamente, foi progredindo na sua carreira das armas onde atingiria o posto de coronel. Nos finais dos anos 50 algo não lhe agradou e pediu para passar à reserva. Surge, então, um convite para liderar uma reserva de caça em Terras do Fim do Mundo (Angola). Na metrópole, à revista Diana, Caça e Tiro ao Voo e ao Jornal Caça e Pesca iam chegando interessantes artigos da sua pena. Terminada a missão, volta a Tomar e passa a dedicar-se à escrita de livros até que surge um novo convite, desta feita para comandar o sector militar de Cabinda, cargo que viria a acumular com o de governador. As provas de sensatez e verticalidade dadas no exercício destas missões levariam mais tarde à sua nomeação para Governador de Luanda.

O seu irmão segue outro rumo, licencia-se em farmácia e estabelece-se em Tomar com a "Farmácia Central", actividade que desempenhou de permeio com a sua outra paixão, o jornalismo, onde pugna pela causa Tomarense (ecologia, festas e tradições locais). Colaborou acerrimamente e dirigiu (O Templário 1952-58, Cidade de Tomar 1983-85).
Deixou-nos também obra incontornável sobre Tomar, seus costumes e tradições e os não menos interessantes Galinholas, (1949) e Pesca Desportiva - ao redor da linha francesa (1969), este com tradução em espanhol.

Por seu lado Júlio, voluntáriamente destacado para os então territórios ultramarinos, nas horas de ócio acampava ou aboletava-se em tabanca amiga; pois era esse o seu deleite. Nas suas incursões, o intrépido caçador calcorreou vinhedos e pinhais, a "vassouras" e florestas, savanas e pântanos, "lalas" e "bolanhas", "chanas" e "anhares". Foi o que habitualmente se chama um caçador do tordo ao elefante; mas não foi só para caçar, muitas vezes deixava a arma no descanso e com desvelo pegava na sua "Leica", pois o seu interesse pela fauna e sua biologia era enorme.
Em 1949 delineia um plano para a Reserva da Cufada na Guiné, propondo-o ao então Governador, vindo este a aprova-lo. As suas incursões de caçador e de naturalista resultaram em vários livros de monta publicada, (A Fauna da reserva da Cufada, 1948; Bichos da Guiné, 1973; A Técnica do tiro de Caça a Chumbo, 1979 e A Caça uma Saudade, 1989).
No intervalo das suas comissões de serviço e sempre que lhe era permitido, Júlio Ferreira regressava à Metrópole, para aí poder confraternizar lado a lado com o irmão; mas sempre sem desprendidos de rivalidade.

Portanto companheiros, agora que as nossas armas repousam no armeiro, errem, errem por esses campos (das letras) na companhia de velhos confrades de antanho.

Nuno Sebastião

Texto e foto de Nuno Sebastião
Publicado na Calibre 12, em Junho 2009 e aqui transcrito com a devida autorização do autor

29 de março de 2010

Zacarias D’Aça – in Memoriam (1839-1908)

Entroncado, de bom aspecto, bigode forte e mosca, com seu colarinho engomado e gravata preta em laço, quase uma fita, Francisco Zacarias de Araújo da Costa Aça tinha um ar de bonomia, filho de um militar, Zacarias D’Aça foi um erudito, um caçador emérito, um escritor vernáculo e cavaqueador infatigável.

Profissionalmente, foi 2º oficial da Direcção Geral d’Instrução Pública; leccionou durante 14 anos no Colégio Luso-Brasileiro, foi sócio efectivo do Grémio Artístico e Académico, sócio de mérito da Academia Real de Belas Artes, exercendo com a maior competência o cargo de bibliotecário.
Dedicou-se a assuntos históricos, cinegéticos, à arte e investigação deixando vasta obra publicada, privou com Castilho, Herculano, de quem herdou qualidades literárias.

Prosador de finas e poderosas faculdades, teve singeleza e colorido, elegância e individualidade.


Para além de colaborador em esparsos periódicos da época Occidente, Tiro Civil, Tiro e Sport, A Caça, foi também fundador e director literário do primeiro periódico de caça que existiu nas nossas terras Jornal dos Caçadores, 1875. Também preparou e publicou obras onde o prazer da caça sempre teve lugar destacado, como sucedeu em 1883 com o Almanach dos Caçadores, que incluía preciosas informações e conselhos úteis. Em 1899 publica Caçadas Portuguesas. Figuras de campo, paisagens; e aqui quer na descrição de caçadas, de paisagens ou personagens, a sua pena esteve seguramente à altura de um Silva Porto. Em 1907 já bastante doente, e como se de um último fôlego de tratasse ainda publicou Lisboa Moderna onde trata de assuntos para além do prazer da caça, ainda assim pintando com toda a sua mestria uma boa meia dúzia de episódios de caça. E como se não bastasse por si só, a beleza no estilo, o apropriado da linguagem a graça na descrição, também figuram nas suas páginas os caçadores mais notáveis da época.

Pode ser-se um bom caçador no mato, bater-se a meia encosta com muito vagar, uma bandada de perdizes ou ler no chão rijo o rasto do arteiro e vigoroso javali que vai ferido, mas escrever com maior entusiasmo e singeleza que Zacarias D’Aça não é fácil, foi inegavelmente, o primeiro e ainda do melhor que se escreveu do género em Portugal. Estou seguro que ainda tem a seu lado a sua cadela predilecta a “Jóia”, a sua escopeta “scott” e seus bons companheiros Bulhão Pato, Lopes Cabral, Carlos e Jaime Bramão, Dr. Avelar, Dr. Manuel Bento de Sousa (o famoso Dr. Minerva…) bem como o catraeiro Lourenço, o homem que os transportava para a outra banda em busca da elegante codorniz, da nédia lebre ou da esquiva narceja nesse juncal alagado da Trafaria com alcantis bordejados pelo Tejo.
Quem diria, o paraíso da caça que era a Trafaria meados do século XIX!
Um outro dos seus caçadeiros preferidos, eram essas encostas da Arruda revestidas de vinhedos que corria em busca de uma boa cintada de perdizes, por este lugares ainda ecoam estéreis tiros, deste ínclito caçador-escritor muito marcado pelo romantismo.

Não poderia pois velho companheiro no centenário da sua morte, deixar de relembrá-lo, e dedicar-lhe embora que parcas algumas palavras amigas e de admiração.

Nuno Sebastião

Texto e foto de Nuno Sebastião
Publicado na Calibre 12, em Dezembro de 2008, e aqui reproduzido com a devida autorização do autor

17 de março de 2010

Oito Séculos de Caça em Portugal

"Oito Séculos de Caça em Portugal", um grande livro da autoria de Miguel Sanches Baêna e de João Maria Bravo, com prefácio de Jorge Roque de Pinho.
Data de 20 de Novembro de 1998, com uma tiragem especial de 3500 exemplares em exclusivo para o Grupo BPI.

"O arranjo gráfico e artístico foi de Angelina Luís.
Os textos foram compostos em tipo gillsans e as selecções de cor foram executadas por Reproscan-Reprodução Gráfica, Lda, que também executou a montagem dos fotolitos.
Os trabalhos de impressão e acabamento sobre papel tulimatt de 150 gramas, da tulipel, foram efectuados nas oficinas da Eurolitho, Impressores Gráficos, Lda."

Possui 9 capítulos, que se desenrolam ao longo de 394 páginas, a nomear:
- I Montaria; II Falcoaria; III O Cão de Caça; IV Armas de Caça; V A Caça à Raposa a Cavalo com Matilha; VI A Caça Ligeira; VII Caçadas e Caçadores - memórias de caça; VIII Armas e Caça na África Portuguesa; IX Jóias e Caça (séc. XIX).

Trata-se esta, juntamente com "A Propósito de Caça" e "A Caça no Império Português", de uma das mais emblemáticas obras da literatura cinegética deste País.

A páginas 324, encontramos uma caricatura de Bulhão Pato, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro in Álbum das Glórias.
Introduz-nos a mesma a uma história, narrada por Saraiva Mendes, intitulada "A Espingarda de Bulhão Pato", que tomo a liberdade de transcrever:

Era Inverno e época de caça. Na Quinta do Minhoto, a dois passos dos Riachos e a seis da Golegã, propriedade de Agnelo Freire Salter de Sousa Cid, grande senhor que se ufanava de ir a Torres Novas apenas através das suas terras, ou fazendo o mesmo da Chamusca a Abrantes, há muito que se preparava a grande caçada às narcejas. Essa ave do Norte da Europa e da Ásia Menor, de enorme bico, espécie comum em Portugal e muito difícil de matar, congregara para o belo palacete do Minhoto algumas das melhores espingardas especializadas em tão apreciada ave, nomeadamente o poeta Bulhão Pato, personalidade diversificada de escritor, caçador e gastrónomo.
Bulhão Pato chegara na véspera. E à volta do farto lume da lareira de oliveira e azinho, teciam-se conjecturas prognosticando o número de peças que cada um mataria no dia seguinte.
Salter Cid, homem generoso e brincalhão, começou a duvidar, em pura chalaça, das proezas venatórias do poeta.
«Você diz que mata esse mundo e o outro de narcejas, pois fique sabendo que o meu amigo José Augusto Saraiva, dos Riachos, chega e sobeja para si.»
O que foste dizer. Abespinhado, ferido no seu orgulho, Bulhão Pato retorquiu:
«Diga lá ao seu amigo se, por mero acaso, matar mais narcejas do que eu, sem errar, perco esta espingarda que me ofereceu o rei de Espanha.»
Todos se riram da liberdade poético-venatória, menos Bulhão, que ensimesmou naquela de haver a possibilidade de alguém o bater nas narcejas!
A conversa à roda da lareira continuava com histórias curiosas. Agnelo Cid, bom conversador, e cuja vida era recheada de histórias, atirou esta:
«Sabe. ó Bulhão Pato, quem é o meu amigo Saraiva? É uma história curiosa e dramática. O José Augusto Saraiva era filho do notário em Trancoso, dr. FrancoVeloso, liberal dos sete costados, perseguido como não podia deixar de ser pelos patuleias, casado com D. Rosa Saraiva, de excelentes famílias beiroas. A perseguição foi de tal ordem que ele viu-se na necessidade de espalhar os três filhos. O José Augusto, que trato como filho, foi-me confiado e os outros dois foram para Vila Franca de Xira e Lisboa, também confiados a correligionários liberais.»
«Então o seu amigo dever-se-ia chamar Franco Veloso...»
«Mas isso era nome maldito e tiro pela certa. Os rapazes adoptaram o nome da mãe para se esquivarem a mais perseguições. Cada um fez a sua vida e parece que escaparam à sanha absolutista.»
«Conte-nos agora uma história sua...»
«Calculem vocês, há anos, estava eu na Feira de Sevilha e vi um cavalo soberbo, montado por um grande de Espanha. Quanto quer pelo cavalo?
O homem mirou-me de alto a baixo e atira: 50 mil pesetas. É meu, disse, e paguei-lhe logo em moeda de oiro. Estupefacto pelo gesto, o conde espanhol nem tempo teve de abrir a boca, pois, para maior espanto do orgulho nobre, rapei da minha navalha e cortei as crinas e o rabo do belo animal e apenas murmurei: era o animal que eu precisava para tirar a água à nora!»
Senhor de enormes propriedades, orgulhoso, cacique da região, onde chegou a ter pequeno exército, por si mantido, era respeitado e temido até em Lisboa, pelo apoio incondicional que dava à causa liberal.
«Ó Cid, foi verdade você ter dito à rainha para vir falar consigo?»
«Não é bem assim, mas quase. A rainha, senhora D. Maria II, estava na Quinta da Broa, do José Rafael da Cunha, no termo da Azinhaga, e mandou um enviado para que eu lhe fosse falar. A minha resposta só poderia ser uma: diga a sua magestade que é tão longe do Minhoto à Broa, como da Broa ao Minhoto! Como é evidente, fiquei na minha casa.»
No outro dia, mal se levantaram, o tema de conversa era o mesmo: a aposta da espingarda. No pátio, os cavalos e as carruagens aguardavam os caçadores.
«Ó Bulhão Pato, quero apresentar-lhe o meu amigo de quem lhe falei ontem, o José Augusto Saraiva.»
«Tenho muito prazer em o conhecer. E, segundo me disse o Salter Cid, o senhor é o melhor caçador de narcejas aqui da região. E ontem apostei com o nosso anfitrião que, caso o senhor matasse mais narcejas seguidas do que eu, lhe daria esta espingarda, oferta do rei de Espanha.»
«Isso é uma brincadeira do Salter Cid. Sou um vulgar caçador, às vezes com sorte...»
«Já lhe disse, se o meu amigo me bater, a espingarda será sua.»
Deu-se a caçada e, na verdade, José Augusto Saraiva foi o que pendurou mais narcejas ao cinto, matando nove, sem errar.
Quando regressaram ao Minhoto, virou-se para o companheiro e deu-lhe a espingarda.
«É sua, Sr. José Augusto Saraiva.»
«Desculpe, mas não aceito. Foi uma brincadeira do Salter Cid.»
«Faço questão.»
E questão foi essa que os caçadores ficaram amigos a tal ponto que José Saraiva se deslocou, por diversas vezes, a casa do poeta, na Torre da Caparica, para daí sairem para caçadas... e a espingarda ainda hoje se encontra na posse da família.

Apenas uma das muitas histórias em "Oito Séculos de Caça em Portugal", para serem lidas e relidas.

7 de março de 2010

A Propósito de Caça

"A Propósito de Caça", publicado no ano de 1982, é da autoria de João Maria Bravo, uma das personalidades mais conhecidas do Mundo da Caça Português e que foi, inclusive, o Director da prestigiada Revista "Diana", publicada até ao ano de 1975.
O autor justifica a existência desta obra do seguinte modo: "têm sido alguns os que, especialmente nos últimos anos, me têm falado em fazer publicar, num só volume, o que sobre caçadas e caça escrevi, bem ou mal, durante dezenas de anos.
Argumentam estes que, através dos meus escritos, se poderá não só refazer parte de um período importante da história cinegético-venatória portuguesa mas, ainda, colher elementos para uma futura lei da caça."

Trata-se este de um dos Grandes Livros de Caça Nacionais, à semelhança d' "A Caça no Império Português", por exemplo, não só quanto à sua dimensão e ao número de páginas que ostenta (752), mas também ao nível do conteúdo, que é de um valor documental assombroso, sendo-o tanto ao nível da Caça propriamente dita, com imensas gravuras, narrações pessoais e de terceiros que relatam histórias e se debruçam sobre a temática da organização cinegética, como ao nível da história recente deste País.

Relato um episódio que sustenta a afirmação anterior e que se encontra perfeitamente documentado na obra em epígrafe.
Tudo se passou no ano de 1974, poucos meses após a revolução armada que acabou por dar origem ao actual regime político português, quando a Revista "Diana", na sua edição de Outubro daquele ano, através do seu n.º 255, publicou um artigo intitulado de "Chacina Geral da Caça - no dia da abertura geral".
Lê-se, então, em geito de necrologia, um conjunto de notícias identificadas através dos seguintes títulos: "Crime degradante contra a natureza e a Cinegética Nacional"; "Extinguem-se os últimos linces existentes em Portugal (relativa à Herdade da Baraona); "Vitelos e Vacas roubados ou mortos a tiro (relativa à Herdade de Pinheiro)"; "Destruição total de patos"; "Açude de achigão esgotado à rede (relativa a Rio Frio)"; entre outras da mesma natureza, que divulgam e relatam a balbúrdia, as tropelias e os crimes cometidos a coberto da pretensa liberdade que caracterizou a abertura geral da caça, no ano de 1974.

José Ortega y Gasset faz uma afirmação, inserta no ensaio "Sobre a Caça e os Touros", que se enquadra perfeitamente no descrito acima e que acaba por corroborar os factos denunciados e publicados na "Diana", através da pena de João Maria Bravo: "em todas as revoluções, a primeira coisa que fez sempre o «povo» foi saltar as cercas das coutadas ou demoli-las, e em nome da justiça social perseguir a lebre e a perdiz".

O facto é que, em resultado de tão vigorosa escrita, no dia 12 de Dezembro do ano de 1974, recebeu o João Maria Bravo, o Ofício n.º 119/74-C, de 09 de Dezembro de 1974, remetido pela Comissão AD-HOC Para a Imprensa, Rádio, Televisão, Cinema e Teatro, que aplicou à Revista "Diana", "ao abrigo do art.º 3.º, do Decreto-Lei n.º 281/74, de 25 de Junho, a multa de 150.000$00, sem prejuízo da responsabilidade criminal prevista nas leis vigentes que possa ser exigida às pessoas singulares, as quais ficam, como determina a lei, sugeitas ao foro militar".

Em geito de resposta e de esclarecimento para o que então se passava, a "Diana", no seu n.º 256, saído em Janeiro de 1975,  publicou uma carta aberta à comissão supra citada, onde se valeu das suas razões e concluiu dizendo que: "calarmo-nos, por medo, é uma forma de servilismo, uma maneira de morrer, sem razão" e que, "em democracia assim como na vida autêntica o medo não tem lugar".
No mesmo número, desta feita numa notícia de 30 de Janeiro de 1975, a Revista "Diana" informou que iria suspender a sua publicação após 27 anos  de actividade, mas que não o fariam "por espírito de intransigência ou por medo", mas porque "continuar equivaleria a termos de pensar, antes de escrevermos, nas consequências inerentes ao que íamos afirmar, por mais justas e verdadeiras que as nossas afirmações pudessem ser e a só dizermos não o que quiséssemos ou devêssemos mas, só, o que pudéssemos."
Na página precedente a estes dizeres, encontra-se publicada uma carta pessoal, datada de 2 de Dezembro de 1971 (três anos antes do 25 de Abril e deste incidente) proveniente do Gabinete do Presidente, da Presidência do Conselho, relativa a um acontecimento semelhante, desta feita protagonizado pelo serviço de censura do regime derrubado, bem demonstrativa do modo ardente, vigoroso e apaixonado de como a "Diana" se expressava quando estava em causa a defesa da Caça, independentemente de quem exercesse o poder.

"Meu Caro João Bravo:

Depois da conversa com o seu irmão recebi a Diana e apressei-me a ler o discutido artigo. Quando cheguei ao fim disse de mim para mim: «Se isto é o artigo com cortes, o que diria ele sem cortes...».
Você tem um estilo duro e agressivo e gosta de chamar nomes às pessoas ou aos ... «poderes públicos». O que não acrescenta a razão que possa ter e não favorece o êxito das suas teses. A censura podia não ter cortado nada: mas se num ou noutro caso os cortes são injustificados, noutros creio que lhe prestou um serviço. Tudo se pode dizer: é uma questão de sabê-lo dizer. O estilo contundente, repito, não favorece a civilização necessária no trato entre pessoas que não querem ser selvagens. E não é só selvagem o que mata caça indiscriminadamente...
De caça não sei nada - a não ser que dificilmente vejo dois caçadores de acordo sobre os seus problemas.
Desculpe a rabujice do seu velho professor que tanto o estima,

Assina: MARCELO CAETANO"

Em poucas palavras nos diz este pequeno texto muitas coisas...
E este livro é disso um grande exemplo de informação e saber, bem como da qualidade e da experiência do seu autor e colaboradores, mas também da prova de uma inquestionável paixão pela Caça!
De "A Propósito de Caça" foram numerados e autografados pelo autor, quinhentos exemplares com encadernação de luxo, trabalhada à mão em carneira e ouro, e, da leitura que dele se faz e até ao seu final, poder-se-á inferir que, a tal multa,... continua por pagar e que há muito caiu no esquecimento, mas que a memória da elevada qualidade da "Diana" e da mensagem que transmitiu, essas... prevalecem!

5 de março de 2010

A Caça no Império Português

Trata-se de uma obra fenomenal, da mais emblemática sobre caça em Portugal (continental, insular e ex-colónias ultramarinas).

A Caça no Império Português, foi editada pelo jornal "O Primeiro de Janeiro" - do Porto, iniciada que foi a sua publicação em fascículos, corria o ano de 1943, acabando-se a sua impressão em Fevereiro de 1945, nas Gráficas da Neogravura, Limitada, em Lisboa.

São dois volumes, contando o I - 317 e o II - 639 páginas que se apresentam profusamente ilustradas com fotografias da mais diversa fauna bravia, desenhos, reproduções de quadros e de pinturas especialmente feitas para esta obra, algumas delas do pintor angolano Neves e Sousa.

No Tomo II, podemos encontrar a seguinte distinção entre "atirador" e "caçador":

"... a qualidade do atirador depende essencialmente da sua habilidade e da maneira mais ou menos aperfeiçoada como a cultiva; a qualidade do caçador é condicionada pelos recursos físicos, a experiência e o saber.
Conhecemos um exemplo que ilustra com muita clareza esta distinção de qualidades - aliás complementares, como dissemos.
O caso passou-se há alguns anos, quando o uso do automóvel para digressões de caça não estava ainda tão generalizado como hoje.
Certo caçador da colónia inglesa que habita o nosso país, e muito conhecido em Lisboa, apreciava especialmente a caça às galinholas - essas aves sombrias dos países enevoados e tão comum nalgumas regiões da Inglaterra.
Fazia as suas caçadas, habitualmente, nos pinhais da «outra banda» do Tejo, e acompanhavam-no os seus «pointers», cuidadosamente instruídos - verdadeiros cães de um verdadeiro caçador.
Num ano pobre de galinholas, isto é, num ano de escassa imigração - o que, como se sabe, não é raro - nem por isso esmoreceu o entusiasmo do caçador nem a sua fidelidade aos pinhais em que se acostumara caçar.
Todos os domingos desembarcava na outra margem do Tejo, com a espingarda e os cães, e por lá se gastava todo o santo dia.
E como o ano era ingrato para galinholas, como dissemos, e os caçadores já o sabiam, , nenhum outro senão êle se via a correr aquêles pinhais - a ponto do caso começar a intrigar tôda a gente. Tanta persistência parecia história - e tanto mais, quanto era certo que o nosso homem regressava sempre com o cinto tão leve como o tinha levado. Nem uma galinhola!
Tiros também não se ouviam no pinhal - e um ou outro que lhe espreitava a cartucheira não dava por munições consumidas! Preguntava-se:
- Se está provado que as galinholas escassearam êste ano, se, por isso, ninguém se dá ao trabalho de as ir procurar - e se, finalmente, o homem não traz caça nem dá tiros, que vai êle lá fazer todos os domingos?
Nesse tempo, felizmente, não havia razões para se imaginar ou tecer uma história de espionagem - porque se as houvesse o bom do inglês não teria escapado.
Aconteceu, porém, que certo dia um outro caçador, talvez mais curioso de saber o que o inglês fazia do que desejoso de encontrar galinholas, o bispou nos pinhais e o seguiu de longe - interessado, dizia êle, por admirar o trabalho dos magníficos «pointers». E assistiu a manobras que não havia maneira de compreender. O inglês, atrás dos seus cães, seguia interessadíssimo o seu trabalho, tão atento, cuidadoso e exemplar em todos os movimentos, como se caçasse em ano farto de galinholas. Em certa altura, e depois de uma busca magistralmente conduzida, um dos «pointers» «pára» impecàvelmente, espera o dono com todos os preceitos da arte e, por fim, levanta uma galinhola. O inglês mete a arma à cara, aponta, segue a ave no ponto de mira... e a galinhola desaparece entre os pinheiros, sem ser atirada.
Supôs o caçador que o seguia que tivesse havido precalço e que, por qualquer motivo inesperado, o inglês não pudesse ter disparado.
Continuou a segui-lo.
Os cães tornaram a procurar, realizaram novas e magníficas buscas e, algum tempo depois, eis outra vez um dos «pointers» parado, o dono atento e firme, a galinhola levantada, e espingarda apontada... e nada mais. A ave apagara-se nòvamente, nos seus zig-zags típicos, através das ramadas dos pinheiros.
E a manobra recomeçou - até que, repetindo-se a mesma cena, o caçador intrigado, resolveu aproveitar, em benefício próprio, os levantes provocados pelos cães do inglês, e apanhando a galinhola de feição, tombou-a.
O inglês assistiu impassìvelmente à queda da ave e chamou os cães. O outro, julgando-se na obrigação de lhe explicar a sua intervenção e defender o seu direito de abater uma galinhola que lhe passara a alcance de tiro, dirigiu-se ao inglês que, ainda por cima, se encaminhava para a estrada, mostrando visìvelmente dar a caçada por concluída.
Mas o inglês não estava melindrado nem ofendido. Que compreendia perfeitamente; estava no seu direito. Apenas lamentava que aquêle tiro tivesse vindo roubar a ambos a possibilidade de tornarem a caçar naquêle pinhal.
- ?!!
E explicou então por sua vez:
- É muito simples. Êste ano há poucas galinholas. Esta era a única em tôdo êste pinhal. Há meses que a descobri e todos os domingos aqui venho para a caçar, sem a matar - só para gozar com o prazer de a encontrar e a satisfação de ver trabalhar os cães. Se a matasse, - como era a única - perdia a possibilidade de caçar. E por isso não lhe atirava.
O senhor hoje matou-a. Não há mais nada a fazer. Acabaram por êste ano as caçadas às galinholas neste pinhal. E como acabaram... vou-me embora.
Fez um cumprimento amável e lá se foi, a caminho de Lisboa, com a sua espingarda, os seus «pointers» e o seu cinto vasio.
Ninguém mais o tornou a ver, durante êsse inverno, a caminho do pinhal."

Os autores concluem do seguinte modo: "...é mais fácil atirar bem do que caçar bem. E quem não caçar bem reduz o desporto da caça na Metrópole, a simples matança.
Temos pois de pugnar pelo aumento do número de caçadores entre a massa dos nossos atiradores - alguns, aliás, admiráveis. E êsse número só aumentará se os preconceitos individuais e a formação superficial de uma experiência, derem lugar à observação objectiva dos fenómenos e ao estudo de regras, com sólidas bases numa luta leal entre bicho e homem."

Dizia eu que a mensagem desta magnífica obra literária mantém toda a sua actualidade, apesar de ter sido concebida há 65 anos por Henrique Galvão, Freitas Cruz e António Montêz...

23 de fevereiro de 2010

O Trilho do Caçador

De acordo com o que disse Ortega e Gasset, no seu livro “A Caça e os Touros”, a Caça possui a característica de quase não ter variado na sua estrutura geral desde os tempos primórdios, exemplificando tal afirmação através da comparação da cena de uma batida aos veados, gravada no decurso da era paleolítica, na Cueva de los Caballos, em Espanha, com a de uma imagem fotográfica de uma montaria actual.
Referiu também que a Caça não se pode definir apenas pelo desporto ou pela utilidade, que designou por finalidades transitivas, porque são exteriores, que ficam para além dela e que a supõem, ou seja, que as distintas finalidades atribuídas à Caça não determinam a actuação em que ela consiste, mas modulam somente o seu exercício.
Que tão pouco pode ser definida pelas suas operações particulares, pelas suas técnicas, uma vez que são inumeráveis, sendo que todas e cada uma implicam certos supostos gerais e comuns, que são a verdadeira essência da actividade venatória e que, por isso, é um erro definir a Caça como sendo uma “perseguição raciocinada”, nos termos em que refere Kurt Lindner, no livro “A Caça Pré-histórica”.

Os primeiros Caçadores, foram os primeiros hominídeos. De facto, fomos Caçadores, muito antes de sermos “totalmente” homens. Significa isto que a Caça é uma das nossas heranças genéticas e que se encontra gravada bem fundo no código de ADN que nos dá a forma e o conteúdo (David Petersen, em “Heartsblood”).
Fernando de Araújo Ferreira, designa-o de "Fogo Sagrado"!

A Caça é uma importante actividade social e psicológica para os Caçadores. É uma demanda poderosa e repleta de significado, acima e para além de outras actividades recreativas (Mark Duda).
Paul Shepard referiu um dia que “the hunt brings into play intense emotions and a sense of the mysteries of our existence, a cathartic and mediating transformation”.
A Caça coloca em confronto emoções intensas e profundas, desperta-nos o intelecto para o mistério que envolve a nossa existência!

Conhecemo-la por Diana, nome Romano para a deusa da caça, a rainha dos animais, a soberana dos animais errantes e da natureza livre, mas também é chamada de Thoeris no Egipto, Shakuntala na Índia, Taue Si na América do Sul, Sedna entre o povo Inuit, de Wibalu na Oceania.
Em todos os povos, de todos os países, de todos os continentes, há uma deusa da caça, e algumas delas são tão antigas como a história ancestral do mais antigo desses povos, cuja função essencial reside na atribuição de um significado compreensível e de alguma ordem à vida, bem como estabelecer um conjunto de normas éticas e morais tão essenciais que são à existência em sociedade. Esses deuses tanto podem ser representados através de animais e plantas, rios e vales, lagos e montanhas, o vento que sopra de Norte ou as constelações, como a Ursa Maior ou o Sagitário!

James A. Swan, no seu livro “The Sacred Art of Hunting” refere que, na generalidade das culturas tradicionais, existe a crença de que há muito, muito tempo, os animais andavam e falavam, coexistindo com o homem em igualdade de circunstâncias e comunicando através de uma linguagem comum, geralmente identificada como a linguagem das aves. Uma vez que acreditam que as dimensões do tempo e do espaço se fundem nos sonhos e nas visões, prevalece a crença de que o homem pode reentrar nesse lugar e conversar com os espíritos, tal e qual o fizeram tão inequivocamente os seus antepassados. Acrescenta ainda que crêem que os animais de todas as qualidades se encontram interligados através de uma espécie de teia invisível, que não só os liga entre si, mas também aos seres espirituais que coabitam noutra dimensão mais elevada e que presidem à sabedoria e poderes de cada animal. Que esses poderes podem ser transferidos para os humanos que ganham o reconhecimento desses seres poderosos. Por exemplo, os índios Kwakiutl, acreditam que as almas dos grandes caçadores renascem nas orcas que, para eles, são animais sagrados e poderosos.

Ao contrário dos animais cuja vida não se encontra vazia e indeterminada, como disse Ortega e Gasset, o homem ao encontrar-se existindo, deparou-se com um pavoroso vazio, um espaço que o distanciou ainda mais do mundo natural, donde surgiu e necessita urgentemente de regressar para poder reencontrar-se e compreender-se, e tenta faze-lo desesperadamente desde que tomou consciência da sua humanidade, desde que se tornou caçador.
Os rituais mágicos, os amuletos, o consumo de drogas alucinogénias estão entre as primeiras tentativas de comunicação com os espíritos. Não é por acaso que ainda se reza “O Pai Nosso” na montaria ao javali ou na batida aos veados, da qual disse Ortega e Gasset não ter diferença quando comparada com a gravura existente na Cueva de los Caballos, a tal que remonta à era paleolítica.
Nas grutas de Lascaux, em França, podemos encontrar uma cena de caça que remonta a 17000 anos antes de Cristo, cujo realismo, audácia e movimento inspirou diversos artistas. Picasso, quando com ela se deparou, exclamou: “fui eu que fiz isso!” (La Chasse vue par les peintres, de Sylvie Ménard).

O Sufismo, uma seita espiritual, com origem no Médio Oriente, prega a existência de 72 caminhos, através dos quais podemos chegar a Deus e que todos eles são iguais, sendo um deles o Trilho do Caçador.

A morte de um animal na Caça, seja ele qual for, é um acontecimento triste, mas nunca um acto de maldade, a não ser que o caçador não possua consciência do seu impacto na natureza ou ignore as consequências do seu acto, mas quando assim for, não é Caçador! Por isso mesmo, em tantas culturas por este mundo fora, persistem ritos celebrados também após a morte do animal, para poder dar-lhe o merecido descanso, agradecer-lhe a carne que irá proporcionar e para tranquilizar os deuses, como, por exemplo, o d’"a última refeição", celebrado nalgumas regiões da Europa, em que o caçador serve comida ao animal abatido, tornando-se, por isso, também o local onde foi encontrado e caiu num terreno de caça sagrado.
Nesse contexto disse Fernando de Araújo Ferreira, no seu livro "Galinholas" o seguinte: "não sei se já repararam neles, na expressão desses olhos, quando à vossa mão vai parar uma galinhola de asa... Eu creio que nenhum caçador, que tenha sensibilidade, possa demorar a sua atenção no olhar da galinhola sem que sinta pena, sem que lá dentro haja uma certa revolta por roubar aquela vida à extensão das florestas, à solidão do seu destino".
É assim um acontecimento amargo e desgostoso, mas também de enorme reconhecimento pelo animal que morreu para nos alimentar. Jamais um acto insensível e cruel!

O que mais deseja o Caçador é tornar ao que é natural e verdadeiro e dar o seu válido contributo para o equilíbrio do ecossistema onde todos existimos e nos relacionamos.
Apesar de admitir ser impossível conciliar as suas crenças com as daqueles que o atacam, o Caçador respeita-as, porque aprecia-as, os admiram, e muito, o modo como eles tentam minimizar o seu impacto negativo no Mundo. Nós, Caçadores, também tentamos fazê-lo, mas percorrendo o nosso caminho, tal e qual eles percorrem o deles, e fazemo-lo caminhando no Trilho do Caçador, como sempre o fizemos, desde o primeiro dos dias, e continuaremos a fazê-lo, até ao último dos minutos!

Este texto encontra-se publicado no Santo Huberto e também n' O Baluarte

16 de fevereiro de 2010

Afinal Porque Caçamos

É sabido ser a caça a mais antiga actividade do homem e que esteve na génese de tantas outras, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da humanidade!
Então, porque é que parece ser tão difícil, para alguns, entender que somos herdeiros de algo ancestral, que nos acompanha desde os primeiros tempos? De aceitar que nos assiste o direito a existirmos e a praticar essa nossa actividade, a herança mais antiga da humanidade, para a qual possuímos natural tendência?

Afinal porque caçamos? E é ou não legítimo fazê-lo?
Na actualidade, nalguns sectores da sociedade (os mais modernos e recentes, de raiz urbana), considera-se que caçar é um comportamento reprovável... em nome de uma falsa e hipócrita defesa de um ambiente que sofre infinitamente mais com as outras múltiplas actividades humanas, derivadas do desenvolvimento e da modernidade, do que com a prática da caça – esta aliás, quem mais contribui para a preservação e entendimento desse mesmo ambiente.
Que é vicioso, em nome de discutíveis e exacerbados valores sobre a condição animal, fruto do afastamento da realidade da Natureza e do campo. Consideram-no um desvio, fruto do seu alheamento da vida e da morte, naturais, que não entendem e temem! Que é uma expressão da violência e do mal, segundo princípios anti-armas do pacifismo artificial urbano que todavia desenvolveu a violência psicológica, sofisticada.

Mesmo alguns caçadores têm dúvidas em se assumirem, e até vergonha... tentam que não reparem neles, fazem-no às escondidas e defendem-se com pouca convicção, sem saber exactamente porque são levados a caçar, como se só por si a vontade e o prazer não chegassem para o justificar e antes fossem algo de pecaminoso!

Eu, caçador contemporâneo, aos 54 anos, sempre que chego a um local ao ar livre, qualquer que seja o espaço... um quintal, um jardim, um campo, uma praia... olho em volta à procura dos sinais, dos animais e dos lugares onde eles possam estar, as suas possíveis querenças. É instintivo, inconsciente!
Imediatamente avalio vegetação e terreno, procuro pedras ou onde o mar levante. Dou comigo a identificar o posto onde me iria colocar, como entraria no terreno ou aonde iria à procura de presas!
Não olho para um rio ou pedaço de mar, um bosque, montanha ou planície... que não pense imediatamente que animais ali se encontrarão!
Vejo qualquer espaço aberto e me dá vontade de pôr a arma ao ombro, assobiar ao cão e marchar rumo ao horizonte...
Chegando a uma praia, olho imediatamente para o mar a avaliar o seu potencial, o estado de força, a limpidez, altura da maré, manchas de pedra e outros sinais...
Mal avisto um pedaço de oceano, logo me apetece enfiar máscara e barbatanas e ir por ali fora, de arma na mão!
É mais forte do que qualquer outra coisa, e sempre assim foi desde que me lembro!

Ora o que é isto? Só tenho uma explicação:
- SOU CAÇADOR! Em todas as fibras do meu ser... até ao mais ínfimo protão!

Porquê? Pois porque há em mim um qualquer código que me faz ser assim. Como sei que existe noutros e sei que existem outros cujo primeiro olhar é para os biquínis, ou para a luz e côr do enquadramento que daria uma tela ou uma fotografia; os que ouvem música no vento e nas ondas, ou os que desenham na mente a casa que ali construiriam... cada qual nasce com a sua sensibilidade e tendências...

Os meus antepassados foram formidáveis caçadores! Se não o tivessem sido não estaríamos aqui a discorrer sobre estas questões! Porque o homem é fraco, corre pouco, não possui asas, tem pele fina e nua, unhas curtas e dentes pequenos... Teria sido comido pelos carnívoros, ou, sobrevivendo de raízes, frutos e plantas, não teria chegado ao nível actual dos nossos detractores nem aos locais onde eles se exprimem. Seria um tímido herbívoro não evoluído, um saguim grande e triste, nu, com frio e miserável, em permanente busca de comida e estado de vigilância. Se “eles”, os modernos e os que se julgam anti-caça, se acham no topo da evolução humana, foi por terem sido criados a carne e porque os seus antepassados caçaram e comeram carne!

Este antepassado caçador tinha prazer na caça! Tinha que ter... a necessidade de caçar, teve de proporcionar esse prazer, como tudo o que é instintivo e fundamental à sobrevivência das espécies:
- O prazer do sexo, da comida, de mitigar a sede, de sentir o calor quando se tem frio ou o fresco quando se tem calor... são indispensáveis à própria vida! Por isso os animais brincam e têm prazer nos jogos onde treinam para a sua sobrevivência: as lutas e emboscadas dos leões, o correr e saltar das gazelas... as acrobacias dos macacos e das aves, as brincadeiras das focas, lontras ou golfinhos.

Fala-se da morte e associa-se esta à caça... tentam que seja um argumento de peso contra ela mas, a verdade é que há caçadores e presas em todos os estratos da vida! A morte ocorre em todos os seres e faz por isso parte da vida, e de uma relação profunda e natural, que permite a transmissão da matéria e da energia.

Existe uma teia intrincadíssima entre TODOS os seres vivos, que os condiciona. Nós não somos excepção! Basicamente o homem é um animal e igual a eles: nasce, cresce, reproduz-se e morre! Mas, quanto mais sentimentos desenvolveu e mais elevados, mais se distanciou do básico e portanto do animal. Tanto o animal como o homem partilham sensações físicas elementares como a sede, fome, calor, frio e cansaço. Possuem ainda outros sentimentos mais elaborados como o medo, a disposição para o combate, a luxúria e até o amor maternal. Porém, o homem desenvolveu outros sentimentos ainda mais sofisticados, ao nível da psique, que só ele possui, o tornam diferente e elevam a níveis inacessíveis ao animal!

Nós matamos porque somos caçadores! Sem raiva... porque na Natureza, a morte de uns é a vida de outros. Matamos as presas, naturalmente e em paz! Não porque as odiamos, como o leão não odeia zebras nem a aranha odeia moscas! Mas precisam delas para viver e as capturam, naturalmente. Quando damos a morte é por uma razão: a morte de uns dá a vida aos outros, é assim a ordem de toda a Natureza, das plantas aos animais! A grande árvore que morre, apodrece e dá de comer ás novas... e a tantos insectos e estes aos pássaros e até ao urso... Se tiramos uma vida, podemos todavia dar-lhe continuidade porque ao comer o ser que morreu, o incorporamos, e ele continua assim a viver em nós, até por nossa vez morrermos e sermos incorporados na terra e nos vermes e daí passarmos às outras formas de vida, as plantas e os outros animais. Por isso a vida se mantém, é passada de uns seres para os outros. Nós somos meros transportadores de energia, através da vida.

Dar a morte é algo de natural, porque morrer é consequência de estar vivo e o fim dessa mesma vida. Nós damos a vida ao fazer filhos e também damos a morte... é o mesmo e faz parte da nossa condição! O caçador o pratica, com respeito pelos animais a quem dá a morte pois não o faz com o mesmo sentimento do assassino ou a raiva de quem se vinga ou quer suplantar o adversário, e o faz com frieza e eficiência! O objectivo é matar e não fazer sofrer! Mata porque tem de ser, tal como o leopardo mata a gazela, a águia o coelho e o tubarão a foca. Fazemos parte de um todo onde se mata e se morre, como a morte faz parte da vida. E é por isso que sendo caçadores, amamos os animais que matamos e não os odiamos! O pastor, esse odeia o lobo que lhe come o rebanho, o agricultor odeia o javali que lhe come a seara! Podem odiar, e se compreende, mas raramente os matam, e, quando matam alguma coisa é aos seus animais, para os comer, e também não os matam com ódio, matam-nos com indiferença e porque é preciso! Matar com ódio, mata o assassino, por maldade...coisa que nem a cobra ou o crocodilo fazem, porque o criminoso é mau, é baixo! Está no mais baixo nível da existência!

O homem se foi libertando desta teia e saiu dela, por força da sua evolução e do desenvolvimento, arranjando formas dela menos depender. Mas continua a depender da morte, porque come seres que estiveram vivos... animais mortos, e, ao comer as plantas também as mata! A morte estará sempre associada à transferência da energia natural!

O gosto natural pela caça, o “gene do caçador”, existe e está no nosso código genético! Em todas as classes de seres vivos, em todos os estratos e em todas as comunidades, há predadores e presas, que a Natureza na sua complicada rede de interacções e relacionamento criou, de modo a que se regulasse e mantivesse numa dinâmica de evolução e vida. Esse gosto manteve-se ao longo das gerações, como o gosto em procriar ou comer. O homem ao evoluir ganhou outras sensações que são seu apanágio: os gostos e os prazeres sofisticados, apreciar uma paisagem, um vinho, ouvir música, jogar um jogo complexo! Porque só o homem tem o espírito, ou a "alma", que lhe permitiu desenvolver tais sentimentos superiores, como o amor ou a piedade! Isso o que distingue o homem dos animais... que não os sentem. Por exemplo, e desde logo, a piedade, que nenhum animal possui, por força da sua condição como pela sua total inutilidade ou mesmo vantagem de não a manifestar! Pode imaginar-se que o lobo tenha piedade pelo veado? Seria anti-natural! Ou o amor, o amor puro dos amantes ou pelas outras pessoas que conduz a praticar o bem, e, a generosidade! São sentimentos exclusivos do homem, como apreciar as coisas belas e boas, a gastronomia, a música e o canto, a dança ou um simples pôr-do-Sol! Tudo coisas que o homem desenvolveu, inatingíveis para os animais e que os separam. Coisas que diferenciam os próprios homens e os colocam em diferentes níveis da evolução: da cupidez do ladrão, do ódio do assassino, da luxúria do tarado - exacerbações extremas de paixões - , ao homem que se eleva pela sua arte, ou pelos sentimentos generosos da partilha ou da ajuda, e finalmente ao Santo, cujo desprendimento é total!

Esse gene do caçador, pode existir ou não, como pode estar activo ou adormecido. Neste caso pode revelar-se tardiamente ou nunca se revelar! Porém em nós, ele está activo e nos impele a caçar, como nos podia ter impelido a ser músicos, militares, cozinheiros! Por isso, para mim, caçar é sentir a satisfação e a liberdade imensa de seguir essa tendência que vive no meu ser! O desapego, o afastar de tudo, onde nada mais conta nem importa senão o ir, o procurar... não importa o quê!
Reprimi-lo seria a atrofia de uma tendência natural, a infelicidade e a frustração. E, preciso sim de capturar uma presa, de me apossar dela, de a sentir como sendo minha! De experimentar essa sensação da posse, a satisfação atávica, animalesca e ancestral de "apresar". Não se confunda com matar! Nada tem a ver, porque logo depois a minha parte humana, a alma, se enche de pena e se pudesse daria vida àquele animal e o perseguiria outra vez, pois ao caçá-lo criei uma ligação com ele, me identifiquei com ele e passei a depender dele, como num namoro!
Será assim tão difícil de perceber? E de aceitar? Isto faz de mim um ser vicioso e mau? Um sádico criminoso, como pretendem os que não o entendem... talvez porque nunca lhes explicaram as coisas deste modo, presumindo eles de acordo com a sua percepção?
Depois, comê-la-ei... é outra parte dessa condição de ser caçador: sou impelido a comer a minha captura! Os antigos caçadores, os mais primitivos e os filósofos, explicam bem esta parte, pois ao comer o animal, o incorporamos em nós próprios e ele continua a viver, em nós... é algo de profundo que explica a forte ligação da caça à gastronomia, para lá do pragmatismo puro da alimentação e sobrevivência.
A seguir, partilho com os outros esse momento da posse: o lance vivido! Exibo-me e recebo o reconhecimento dos meus iguais, a admiração. É a vaidade humana entendida sob a forma da recompensa, que nos leva a procurar a eficiência para o bem comum: É-se enaltecido mas se contribuiu para o grupo! O que em tempos idos teve a maior importância e por isso se manteve e nos marcou! E não funciona só na caça!

No acto de historiar, há ainda um componente fundamental: a partilha da experiência e do saber adquirido. O ensinar e o imitar, que melhoram a técnica e portanto os resultados do grupo! Ou julgam que é por acaso que somos uma confraria de "mentirosos"? De contadores de histórias e de potenciais vaidosos?

Percebe-se que a prática da caça mantém a nossa ligação à Natureza, e, que nos reintegramos nela ao regressarmos à condição do caçador. O homem, que se afastou da Natureza, regressa assim ao seu estado mais natural ou primitivo, renova energias, limpa as frustrações da vida moderna, reaproximando-se da Natureza e de si mesmo, como os adultos tendem a voltar à infância ou aonde foram felizes! Mais do que isso, imergem na Natureza, onde têm lugar, são aceites porque o caçador faz parte dela e está previsto! A sua actividade é sustentável, como não é a do homem construtor de mega urbes e do desenvolvimento industrial!

Claro que usufruir da Natureza, também outros o fazem! O caminheiro, o fotógrafo e o observador de pássaros, o mergulhador, o ciclista de btt e o alpinista... experimentam esse contacto, mas apenas o contacto e porque não possuindo o gene do caçador, isso lhes basta. Não têm de satisfazer a necessidade de caçar, de se apoderarem de mais do que sensações ou imagens. A necessidade do caçador é ainda mais física! Além do esforço e do jogo da caça, de iludir o animal, importa a sua posse: a captura! A captura é o grande objectivo! Assuma-se e entenda-se, porque sem a captura do animal, o caçador primitivo não sobrevivia... ele não se alimentava de sensações nem de imagens, e sim de carne!

A caça evoluiu, mas não pode ser separada dessa posse, que redunda na morte... a pesca sem morte é a excelência... quando houver a caça sem morte, talvez surja um novo caçador... porém ficará sempre o vazio da posse física, de incorporar o animal, que hoje ainda não dissocio da caça. No futuro... não sei, pois já não será nesta minha vida. Sei sim que a caça evoluiu também, acompanhou o homem... a que se pratica hoje pouco tem a ver com a do início do século passado, menos ainda com a da idade média e nada com a da pré-história... salvo pelo que se manteve, o impulso de caçar e a finalidade de apresar! Mas em contrapartida e pela lei das compensações, assumiu uma maior importância quer na ligação à terra e à Natureza quer na sua preservação, pois que graças à caça e pela caça, sobrevivem hoje espécies e se mantém o ambiente e a biodiversidade! Não tenho dúvida de que o caçador em mim passará a outro, como me foi passado e se manifestou em mim, e assim acontece desde o início dos tempos, porque ele é útil! E passará, não só pelas leis da genética mas também por via das idéias que se divulgam e cultivam, outra admirável e exclusiva capacidade humana!

É verdade que o caçador procura um regresso à Natureza? Sim, o operário da cintura industrial das grandes cidades, o urbano dos bairros citadinos, o que vive nas metrópoles, os saudosos do campo e da vida ali, que mantêm vestígios da cultura campesina, e são ainda muitos, hoje talvez até a maioria! Porém e o caçador rural, o aldeão que vive na, com, e da Natureza? Como pensar que vá à caça para se sentir próximo da Natureza? Também isso não basta...

Então afinal porque caçamos?
Bom, eu, caçador actual e ser pensante, cheguei à conclusão que, quando pego na arma e saio para o campo ou para o mar, afinal aquilo que faço é perpetuar o gesto do meu longínquo ancestral, no momento em que empunhou pela primeira vez uma arma e alijando a sua condição de presa, se ergueu em glória de predador!
É isso que eu revivo e celebro desde essa altura!
É o que me foi passado no código genético e que eu passarei a outros, por muito que nos “eduquem”, reprimam ou reprovem.
É isso que nos diferencia do alpinista, do passeante, do observador!
É isso que nos leva a ser o que somos...

Afinal é por isso que caçamos!

Foram os caçadores que deram aos artistas e aos filósofos a oportunidade de o serem... que proporcionaram à humanidade chegar até hoje. Foi a caça que lhes permitiu estarem aqui hoje, os biólogos e políticos, os “bem pensantes” dos direitos animais e do ambiente, os “modernos”, todos os que agora tentam acabar connosco!
Deviam estar-nos gratos, perceber o nosso direito a existirmos pelo simples facto de o sermos e gostarmos de caçar, e, não acabar connosco porque já não lhes fazemos falta, porque perderam a capacidade de nos entender e ignoram este facto ancestral.
Não teremos então já, o direito a existir?
Não pretendo fazer de ninguém caçador, tão pouco impor que seja obrigatório caçar... como o fariam os meus detractores! Procuro apenas divulgar porque sou caçador, e que me respeitem por isso.
Não luto para impor as minhas idéias e sim pela defesa de ter direito a elas!

António Luiz Pacheco, Fevereiro de 2010


Texto da autoria de António Luiz Pacheco e aqui reproduzido com a devida autorização do autor

14 de fevereiro de 2010

Com os Meus Botões

Enquanto procedia à limpeza e manutenção do equipamento, acabei por me deixar envolver e levar em pensamentos e divagações sobre esta paixão que tanto me anima e estimula enquanto devoto de Santo Huberto.

O uso de armadilhas na captura dos animais surgiu muito antes do fabrico das primeiras armas de caça, pois estas exigem um conhecimento mais avançado do que aquele que é necessário para se escavar um buraco no chão e dissimula-lo ou conduzir uma manada para um abismo. No entanto todos estes artifícios possuem em comum quatro objectivos: a segurança do caçador; a conservação de energia; a poupança de tempo e a eficácia na captura.
Neste contexto, as armas foram as que mais se desenvolveram, acabando por transformar-se a pedra que era projectada, através da força muscular, a pouca distância e nem sempre certeira, no mais avançado dos mísseis, controlado por computador e disparado do espaço para um preciso local no globo terrestre.

A tecnologia utilizada na caça acompanhou esta evolução e hoje o caçador moderno tem à sua disposição uma parafernália de acessórios sofisticados que lhe permitem detectar e identificar a presença de um animal a quilómetros de distância na mais negra das noites, medir a extensão que os separa, chama-lo até ao alcance útil da sua arma sem lhe perder o rasto, corrigir a linha de mira através de um sistema digital conectado a um GPS e a uma estação meteorológica portátil, abater o bicho com um único disparo e tudo isto fazer sem qualquer tipo de dificuldade, sem sair do local onde abancou inicialmente e sem perder o tal jogo de futebol que recebe via satélite e visiona através do ecrã do telemóvel, o mesmo que tira a foto final e que manteve o caçador permanentemente conectado ao resto mundo em todas as fases do lance.

Nós, que em defesa da Caça alegamos estar no mais directo contacto com a Mãe Natureza, como é que lidamos e respondemos a isto?
- Investindo em melhores caçadores, mais responsáveis e conscienciosos; privilegiando a aquisição, a partilha de informação e de conhecimentos; agindo na base do saber, do respeito e da ética e, sobretudo, repudiando toda e qualquer conduta do facilitismo em favorecimento do esforço e da persistência que caracterizam os verdadeiros Caçadores e a genuína tradição.

Sobre os botões, a era espacial também nos enriqueceu com materiais próprios para envergarmos na diversidade de climas e condições meteorológicas, os quais persistimos em decorar com pinturas e símbolos vários, objectos em madeira, em osso ou metal, na tentativa de retratar e de regressar ao mundo natural.
Servem como uma espécie de talismãs de boa sorte, "magia" essa que, apesar de falível, jamais será suplantada pela mais exacta tecnologia. Ignorar essa relação é desvirtuar a essência da Caça!

10 de fevereiro de 2010

XI Montaria ao Javali de Mós do Douro

A XI Montaria ao Javali de Mós do Douro, realizou-se no dia 6 de Fevereiro de 2010, e foi organizada pela Associação de Caçadores das Encostas do Douro, tendo sido o seu Director o Sr. Alexandre Silva.
Contou com 110 Portas, 15 Matilhas e 19 Javalis cobrados.

Trata-se já de um acontecimento verdadeiramente Nacional levando a esta Freguesia Monteiros de todo o País incluindo das Regiões Autónomas, embora os caçadores do Norte e em particular os de Trás-os-Montes constituam o grupo mais numeroso.
Os Açorianos Cremildo Marques (o Barbas) e o autor destas linhas são já uma presença constante neste popular e significativo evento cinegético e social.
Como aspecto menos positivo refiro o comportamento impróprio de um ou outro “Monteiro” a fazer tiro ao alvo já depois do sinal indicador do fim da Montaria, com todos os inconvenientes e agravantes que tal comportamento representa para a segurança e para o ajuntamento dos cães (como muito bem sublinhou o Dr. Ângelo Sequeira).

Tanto os mais novos como os Monteiros de idade mais avançada marcaram presença, como foi o caso dos tocadores de acordeão que com a sua sabedoria e sensibilidade musical animaram a festa, a que se juntou um outro cantador de improviso.
Um dos tocadores era Monteiro e transportava a bonita idade de 85 primaveras, enquanto o outro era Matilheiro, mais moderno, mas também na casa dos “entas“.
Destacaram-se também a presença de jovens Monteiras, garantia de um futuro mais alegre, pois sem a presença e participação feminina o futuro da caça seria bem mais triste.

O dia esteve magnífico, com as Portas colocadas a rigor e por Postores eficientes. As vistas sobre o rio Douro eram de cortar a respiração. As vinhas, as amendoeiras, as Oliveiras e o rio são inseparáveis e de uma beleza rara!
A jornada de caça correu bem, com segurança, com porcos, com animação das matilhas.
De seguida foi servido um excelente almoço com uma bela sopa de legumes com feijão e um grão guisado com carne de porco e enchidos e como se não bastasse, tudo isto foi regado com um bom vinho do Douro. Que bem se come nesta Região!

Findo o almoço procedeu-se ao leilão das peças cobradas, ajuda preciosa à Organização para fazer face às crescentes despesas. Aqui o meu amigo Cremildo das Barbas, do Pico, é realmente um Doutorado na matéria. O seu vozeirão, as suas piadas e a sua experiência, são garantia de que os javalis leiloados geram sempre boas receitas, tendo este ano se cumprido novamente tal tradição.
Terminada a arrematação e acertadas as contas, para nós e especialmente para mim, a parte mais difícil foi arranjar o javali “que nos coube em sorte”, não fora o Sr. Januário nos ter disponibilizado a sua garagem, então é que esta tarefa teria sido mesmo muito complicada, é que desmanchar um porco com mais de 100 kgs e às escuras, garanto-lhes que é mesmo muito difícil, mas lá conseguimos dar conta do recado! Inclusivamente foi-nos disponibilizada uma arca congeladora, cedida por uma alma caridosa e amiga, para transportarmos parte do javali, já que a outra foi logo repartida com quem teve a amabilidade de nos ajudar.

Assim, já temos mais um motivo para, em São Miguel, juntarmos uns quantos Compadres e Confrades e fazermos uma festa em honra do Javali e da Caça!
No entanto a Montaria só terminou verdadeiramente na adega do Sr. Polido, a provarmos um excelente Vinho do Porto que só a Região do Douro é capaz de propiciar!

Fazemos votos para que o ano corra Bem para todos e passe depressa, porque já tenho saudades de voltar a Mós do Douro, terra de gente boa e de grandes artistas na arte de trabalhar o Douro.

Gualter Furtado, Fevereiro de 2010


Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

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