29 de março de 2010

Zacarias D’Aça – in Memoriam (1839-1908)

Entroncado, de bom aspecto, bigode forte e mosca, com seu colarinho engomado e gravata preta em laço, quase uma fita, Francisco Zacarias de Araújo da Costa Aça tinha um ar de bonomia, filho de um militar, Zacarias D’Aça foi um erudito, um caçador emérito, um escritor vernáculo e cavaqueador infatigável.

Profissionalmente, foi 2º oficial da Direcção Geral d’Instrução Pública; leccionou durante 14 anos no Colégio Luso-Brasileiro, foi sócio efectivo do Grémio Artístico e Académico, sócio de mérito da Academia Real de Belas Artes, exercendo com a maior competência o cargo de bibliotecário.
Dedicou-se a assuntos históricos, cinegéticos, à arte e investigação deixando vasta obra publicada, privou com Castilho, Herculano, de quem herdou qualidades literárias.

Prosador de finas e poderosas faculdades, teve singeleza e colorido, elegância e individualidade.


Para além de colaborador em esparsos periódicos da época Occidente, Tiro Civil, Tiro e Sport, A Caça, foi também fundador e director literário do primeiro periódico de caça que existiu nas nossas terras Jornal dos Caçadores, 1875. Também preparou e publicou obras onde o prazer da caça sempre teve lugar destacado, como sucedeu em 1883 com o Almanach dos Caçadores, que incluía preciosas informações e conselhos úteis. Em 1899 publica Caçadas Portuguesas. Figuras de campo, paisagens; e aqui quer na descrição de caçadas, de paisagens ou personagens, a sua pena esteve seguramente à altura de um Silva Porto. Em 1907 já bastante doente, e como se de um último fôlego de tratasse ainda publicou Lisboa Moderna onde trata de assuntos para além do prazer da caça, ainda assim pintando com toda a sua mestria uma boa meia dúzia de episódios de caça. E como se não bastasse por si só, a beleza no estilo, o apropriado da linguagem a graça na descrição, também figuram nas suas páginas os caçadores mais notáveis da época.

Pode ser-se um bom caçador no mato, bater-se a meia encosta com muito vagar, uma bandada de perdizes ou ler no chão rijo o rasto do arteiro e vigoroso javali que vai ferido, mas escrever com maior entusiasmo e singeleza que Zacarias D’Aça não é fácil, foi inegavelmente, o primeiro e ainda do melhor que se escreveu do género em Portugal. Estou seguro que ainda tem a seu lado a sua cadela predilecta a “Jóia”, a sua escopeta “scott” e seus bons companheiros Bulhão Pato, Lopes Cabral, Carlos e Jaime Bramão, Dr. Avelar, Dr. Manuel Bento de Sousa (o famoso Dr. Minerva…) bem como o catraeiro Lourenço, o homem que os transportava para a outra banda em busca da elegante codorniz, da nédia lebre ou da esquiva narceja nesse juncal alagado da Trafaria com alcantis bordejados pelo Tejo.
Quem diria, o paraíso da caça que era a Trafaria meados do século XIX!
Um outro dos seus caçadeiros preferidos, eram essas encostas da Arruda revestidas de vinhedos que corria em busca de uma boa cintada de perdizes, por este lugares ainda ecoam estéreis tiros, deste ínclito caçador-escritor muito marcado pelo romantismo.

Não poderia pois velho companheiro no centenário da sua morte, deixar de relembrá-lo, e dedicar-lhe embora que parcas algumas palavras amigas e de admiração.

Nuno Sebastião

Texto e foto de Nuno Sebastião
Publicado na Calibre 12, em Dezembro de 2008, e aqui reproduzido com a devida autorização do autor

17 de março de 2010

Oito Séculos de Caça em Portugal

"Oito Séculos de Caça em Portugal", um grande livro da autoria de Miguel Sanches Baêna e de João Maria Bravo, com prefácio de Jorge Roque de Pinho.
Data de 20 de Novembro de 1998, com uma tiragem especial de 3500 exemplares em exclusivo para o Grupo BPI.

"O arranjo gráfico e artístico foi de Angelina Luís.
Os textos foram compostos em tipo gillsans e as selecções de cor foram executadas por Reproscan-Reprodução Gráfica, Lda, que também executou a montagem dos fotolitos.
Os trabalhos de impressão e acabamento sobre papel tulimatt de 150 gramas, da tulipel, foram efectuados nas oficinas da Eurolitho, Impressores Gráficos, Lda."

Possui 9 capítulos, que se desenrolam ao longo de 394 páginas, a nomear:
- I Montaria; II Falcoaria; III O Cão de Caça; IV Armas de Caça; V A Caça à Raposa a Cavalo com Matilha; VI A Caça Ligeira; VII Caçadas e Caçadores - memórias de caça; VIII Armas e Caça na África Portuguesa; IX Jóias e Caça (séc. XIX).

Trata-se esta, juntamente com "A Propósito de Caça" e "A Caça no Império Português", de uma das mais emblemáticas obras da literatura cinegética deste País.

A páginas 324, encontramos uma caricatura de Bulhão Pato, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro in Álbum das Glórias.
Introduz-nos a mesma a uma história, narrada por Saraiva Mendes, intitulada "A Espingarda de Bulhão Pato", que tomo a liberdade de transcrever:

Era Inverno e época de caça. Na Quinta do Minhoto, a dois passos dos Riachos e a seis da Golegã, propriedade de Agnelo Freire Salter de Sousa Cid, grande senhor que se ufanava de ir a Torres Novas apenas através das suas terras, ou fazendo o mesmo da Chamusca a Abrantes, há muito que se preparava a grande caçada às narcejas. Essa ave do Norte da Europa e da Ásia Menor, de enorme bico, espécie comum em Portugal e muito difícil de matar, congregara para o belo palacete do Minhoto algumas das melhores espingardas especializadas em tão apreciada ave, nomeadamente o poeta Bulhão Pato, personalidade diversificada de escritor, caçador e gastrónomo.
Bulhão Pato chegara na véspera. E à volta do farto lume da lareira de oliveira e azinho, teciam-se conjecturas prognosticando o número de peças que cada um mataria no dia seguinte.
Salter Cid, homem generoso e brincalhão, começou a duvidar, em pura chalaça, das proezas venatórias do poeta.
«Você diz que mata esse mundo e o outro de narcejas, pois fique sabendo que o meu amigo José Augusto Saraiva, dos Riachos, chega e sobeja para si.»
O que foste dizer. Abespinhado, ferido no seu orgulho, Bulhão Pato retorquiu:
«Diga lá ao seu amigo se, por mero acaso, matar mais narcejas do que eu, sem errar, perco esta espingarda que me ofereceu o rei de Espanha.»
Todos se riram da liberdade poético-venatória, menos Bulhão, que ensimesmou naquela de haver a possibilidade de alguém o bater nas narcejas!
A conversa à roda da lareira continuava com histórias curiosas. Agnelo Cid, bom conversador, e cuja vida era recheada de histórias, atirou esta:
«Sabe. ó Bulhão Pato, quem é o meu amigo Saraiva? É uma história curiosa e dramática. O José Augusto Saraiva era filho do notário em Trancoso, dr. FrancoVeloso, liberal dos sete costados, perseguido como não podia deixar de ser pelos patuleias, casado com D. Rosa Saraiva, de excelentes famílias beiroas. A perseguição foi de tal ordem que ele viu-se na necessidade de espalhar os três filhos. O José Augusto, que trato como filho, foi-me confiado e os outros dois foram para Vila Franca de Xira e Lisboa, também confiados a correligionários liberais.»
«Então o seu amigo dever-se-ia chamar Franco Veloso...»
«Mas isso era nome maldito e tiro pela certa. Os rapazes adoptaram o nome da mãe para se esquivarem a mais perseguições. Cada um fez a sua vida e parece que escaparam à sanha absolutista.»
«Conte-nos agora uma história sua...»
«Calculem vocês, há anos, estava eu na Feira de Sevilha e vi um cavalo soberbo, montado por um grande de Espanha. Quanto quer pelo cavalo?
O homem mirou-me de alto a baixo e atira: 50 mil pesetas. É meu, disse, e paguei-lhe logo em moeda de oiro. Estupefacto pelo gesto, o conde espanhol nem tempo teve de abrir a boca, pois, para maior espanto do orgulho nobre, rapei da minha navalha e cortei as crinas e o rabo do belo animal e apenas murmurei: era o animal que eu precisava para tirar a água à nora!»
Senhor de enormes propriedades, orgulhoso, cacique da região, onde chegou a ter pequeno exército, por si mantido, era respeitado e temido até em Lisboa, pelo apoio incondicional que dava à causa liberal.
«Ó Cid, foi verdade você ter dito à rainha para vir falar consigo?»
«Não é bem assim, mas quase. A rainha, senhora D. Maria II, estava na Quinta da Broa, do José Rafael da Cunha, no termo da Azinhaga, e mandou um enviado para que eu lhe fosse falar. A minha resposta só poderia ser uma: diga a sua magestade que é tão longe do Minhoto à Broa, como da Broa ao Minhoto! Como é evidente, fiquei na minha casa.»
No outro dia, mal se levantaram, o tema de conversa era o mesmo: a aposta da espingarda. No pátio, os cavalos e as carruagens aguardavam os caçadores.
«Ó Bulhão Pato, quero apresentar-lhe o meu amigo de quem lhe falei ontem, o José Augusto Saraiva.»
«Tenho muito prazer em o conhecer. E, segundo me disse o Salter Cid, o senhor é o melhor caçador de narcejas aqui da região. E ontem apostei com o nosso anfitrião que, caso o senhor matasse mais narcejas seguidas do que eu, lhe daria esta espingarda, oferta do rei de Espanha.»
«Isso é uma brincadeira do Salter Cid. Sou um vulgar caçador, às vezes com sorte...»
«Já lhe disse, se o meu amigo me bater, a espingarda será sua.»
Deu-se a caçada e, na verdade, José Augusto Saraiva foi o que pendurou mais narcejas ao cinto, matando nove, sem errar.
Quando regressaram ao Minhoto, virou-se para o companheiro e deu-lhe a espingarda.
«É sua, Sr. José Augusto Saraiva.»
«Desculpe, mas não aceito. Foi uma brincadeira do Salter Cid.»
«Faço questão.»
E questão foi essa que os caçadores ficaram amigos a tal ponto que José Saraiva se deslocou, por diversas vezes, a casa do poeta, na Torre da Caparica, para daí sairem para caçadas... e a espingarda ainda hoje se encontra na posse da família.

Apenas uma das muitas histórias em "Oito Séculos de Caça em Portugal", para serem lidas e relidas.

7 de março de 2010

A Propósito de Caça

"A Propósito de Caça", publicado no ano de 1982, é da autoria de João Maria Bravo, uma das personalidades mais conhecidas do Mundo da Caça Português e que foi, inclusive, o Director da prestigiada Revista "Diana", publicada até ao ano de 1975.
O autor justifica a existência desta obra do seguinte modo: "têm sido alguns os que, especialmente nos últimos anos, me têm falado em fazer publicar, num só volume, o que sobre caçadas e caça escrevi, bem ou mal, durante dezenas de anos.
Argumentam estes que, através dos meus escritos, se poderá não só refazer parte de um período importante da história cinegético-venatória portuguesa mas, ainda, colher elementos para uma futura lei da caça."

Trata-se este de um dos Grandes Livros de Caça Nacionais, à semelhança d' "A Caça no Império Português", por exemplo, não só quanto à sua dimensão e ao número de páginas que ostenta (752), mas também ao nível do conteúdo, que é de um valor documental assombroso, sendo-o tanto ao nível da Caça propriamente dita, com imensas gravuras, narrações pessoais e de terceiros que relatam histórias e se debruçam sobre a temática da organização cinegética, como ao nível da história recente deste País.

Relato um episódio que sustenta a afirmação anterior e que se encontra perfeitamente documentado na obra em epígrafe.
Tudo se passou no ano de 1974, poucos meses após a revolução armada que acabou por dar origem ao actual regime político português, quando a Revista "Diana", na sua edição de Outubro daquele ano, através do seu n.º 255, publicou um artigo intitulado de "Chacina Geral da Caça - no dia da abertura geral".
Lê-se, então, em geito de necrologia, um conjunto de notícias identificadas através dos seguintes títulos: "Crime degradante contra a natureza e a Cinegética Nacional"; "Extinguem-se os últimos linces existentes em Portugal (relativa à Herdade da Baraona); "Vitelos e Vacas roubados ou mortos a tiro (relativa à Herdade de Pinheiro)"; "Destruição total de patos"; "Açude de achigão esgotado à rede (relativa a Rio Frio)"; entre outras da mesma natureza, que divulgam e relatam a balbúrdia, as tropelias e os crimes cometidos a coberto da pretensa liberdade que caracterizou a abertura geral da caça, no ano de 1974.

José Ortega y Gasset faz uma afirmação, inserta no ensaio "Sobre a Caça e os Touros", que se enquadra perfeitamente no descrito acima e que acaba por corroborar os factos denunciados e publicados na "Diana", através da pena de João Maria Bravo: "em todas as revoluções, a primeira coisa que fez sempre o «povo» foi saltar as cercas das coutadas ou demoli-las, e em nome da justiça social perseguir a lebre e a perdiz".

O facto é que, em resultado de tão vigorosa escrita, no dia 12 de Dezembro do ano de 1974, recebeu o João Maria Bravo, o Ofício n.º 119/74-C, de 09 de Dezembro de 1974, remetido pela Comissão AD-HOC Para a Imprensa, Rádio, Televisão, Cinema e Teatro, que aplicou à Revista "Diana", "ao abrigo do art.º 3.º, do Decreto-Lei n.º 281/74, de 25 de Junho, a multa de 150.000$00, sem prejuízo da responsabilidade criminal prevista nas leis vigentes que possa ser exigida às pessoas singulares, as quais ficam, como determina a lei, sugeitas ao foro militar".

Em geito de resposta e de esclarecimento para o que então se passava, a "Diana", no seu n.º 256, saído em Janeiro de 1975,  publicou uma carta aberta à comissão supra citada, onde se valeu das suas razões e concluiu dizendo que: "calarmo-nos, por medo, é uma forma de servilismo, uma maneira de morrer, sem razão" e que, "em democracia assim como na vida autêntica o medo não tem lugar".
No mesmo número, desta feita numa notícia de 30 de Janeiro de 1975, a Revista "Diana" informou que iria suspender a sua publicação após 27 anos  de actividade, mas que não o fariam "por espírito de intransigência ou por medo", mas porque "continuar equivaleria a termos de pensar, antes de escrevermos, nas consequências inerentes ao que íamos afirmar, por mais justas e verdadeiras que as nossas afirmações pudessem ser e a só dizermos não o que quiséssemos ou devêssemos mas, só, o que pudéssemos."
Na página precedente a estes dizeres, encontra-se publicada uma carta pessoal, datada de 2 de Dezembro de 1971 (três anos antes do 25 de Abril e deste incidente) proveniente do Gabinete do Presidente, da Presidência do Conselho, relativa a um acontecimento semelhante, desta feita protagonizado pelo serviço de censura do regime derrubado, bem demonstrativa do modo ardente, vigoroso e apaixonado de como a "Diana" se expressava quando estava em causa a defesa da Caça, independentemente de quem exercesse o poder.

"Meu Caro João Bravo:

Depois da conversa com o seu irmão recebi a Diana e apressei-me a ler o discutido artigo. Quando cheguei ao fim disse de mim para mim: «Se isto é o artigo com cortes, o que diria ele sem cortes...».
Você tem um estilo duro e agressivo e gosta de chamar nomes às pessoas ou aos ... «poderes públicos». O que não acrescenta a razão que possa ter e não favorece o êxito das suas teses. A censura podia não ter cortado nada: mas se num ou noutro caso os cortes são injustificados, noutros creio que lhe prestou um serviço. Tudo se pode dizer: é uma questão de sabê-lo dizer. O estilo contundente, repito, não favorece a civilização necessária no trato entre pessoas que não querem ser selvagens. E não é só selvagem o que mata caça indiscriminadamente...
De caça não sei nada - a não ser que dificilmente vejo dois caçadores de acordo sobre os seus problemas.
Desculpe a rabujice do seu velho professor que tanto o estima,

Assina: MARCELO CAETANO"

Em poucas palavras nos diz este pequeno texto muitas coisas...
E este livro é disso um grande exemplo de informação e saber, bem como da qualidade e da experiência do seu autor e colaboradores, mas também da prova de uma inquestionável paixão pela Caça!
De "A Propósito de Caça" foram numerados e autografados pelo autor, quinhentos exemplares com encadernação de luxo, trabalhada à mão em carneira e ouro, e, da leitura que dele se faz e até ao seu final, poder-se-á inferir que, a tal multa,... continua por pagar e que há muito caiu no esquecimento, mas que a memória da elevada qualidade da "Diana" e da mensagem que transmitiu, essas... prevalecem!

5 de março de 2010

A Caça no Império Português

Trata-se de uma obra fenomenal, da mais emblemática sobre caça em Portugal (continental, insular e ex-colónias ultramarinas).

A Caça no Império Português, foi editada pelo jornal "O Primeiro de Janeiro" - do Porto, iniciada que foi a sua publicação em fascículos, corria o ano de 1943, acabando-se a sua impressão em Fevereiro de 1945, nas Gráficas da Neogravura, Limitada, em Lisboa.

São dois volumes, contando o I - 317 e o II - 639 páginas que se apresentam profusamente ilustradas com fotografias da mais diversa fauna bravia, desenhos, reproduções de quadros e de pinturas especialmente feitas para esta obra, algumas delas do pintor angolano Neves e Sousa.

No Tomo II, podemos encontrar a seguinte distinção entre "atirador" e "caçador":

"... a qualidade do atirador depende essencialmente da sua habilidade e da maneira mais ou menos aperfeiçoada como a cultiva; a qualidade do caçador é condicionada pelos recursos físicos, a experiência e o saber.
Conhecemos um exemplo que ilustra com muita clareza esta distinção de qualidades - aliás complementares, como dissemos.
O caso passou-se há alguns anos, quando o uso do automóvel para digressões de caça não estava ainda tão generalizado como hoje.
Certo caçador da colónia inglesa que habita o nosso país, e muito conhecido em Lisboa, apreciava especialmente a caça às galinholas - essas aves sombrias dos países enevoados e tão comum nalgumas regiões da Inglaterra.
Fazia as suas caçadas, habitualmente, nos pinhais da «outra banda» do Tejo, e acompanhavam-no os seus «pointers», cuidadosamente instruídos - verdadeiros cães de um verdadeiro caçador.
Num ano pobre de galinholas, isto é, num ano de escassa imigração - o que, como se sabe, não é raro - nem por isso esmoreceu o entusiasmo do caçador nem a sua fidelidade aos pinhais em que se acostumara caçar.
Todos os domingos desembarcava na outra margem do Tejo, com a espingarda e os cães, e por lá se gastava todo o santo dia.
E como o ano era ingrato para galinholas, como dissemos, e os caçadores já o sabiam, , nenhum outro senão êle se via a correr aquêles pinhais - a ponto do caso começar a intrigar tôda a gente. Tanta persistência parecia história - e tanto mais, quanto era certo que o nosso homem regressava sempre com o cinto tão leve como o tinha levado. Nem uma galinhola!
Tiros também não se ouviam no pinhal - e um ou outro que lhe espreitava a cartucheira não dava por munições consumidas! Preguntava-se:
- Se está provado que as galinholas escassearam êste ano, se, por isso, ninguém se dá ao trabalho de as ir procurar - e se, finalmente, o homem não traz caça nem dá tiros, que vai êle lá fazer todos os domingos?
Nesse tempo, felizmente, não havia razões para se imaginar ou tecer uma história de espionagem - porque se as houvesse o bom do inglês não teria escapado.
Aconteceu, porém, que certo dia um outro caçador, talvez mais curioso de saber o que o inglês fazia do que desejoso de encontrar galinholas, o bispou nos pinhais e o seguiu de longe - interessado, dizia êle, por admirar o trabalho dos magníficos «pointers». E assistiu a manobras que não havia maneira de compreender. O inglês, atrás dos seus cães, seguia interessadíssimo o seu trabalho, tão atento, cuidadoso e exemplar em todos os movimentos, como se caçasse em ano farto de galinholas. Em certa altura, e depois de uma busca magistralmente conduzida, um dos «pointers» «pára» impecàvelmente, espera o dono com todos os preceitos da arte e, por fim, levanta uma galinhola. O inglês mete a arma à cara, aponta, segue a ave no ponto de mira... e a galinhola desaparece entre os pinheiros, sem ser atirada.
Supôs o caçador que o seguia que tivesse havido precalço e que, por qualquer motivo inesperado, o inglês não pudesse ter disparado.
Continuou a segui-lo.
Os cães tornaram a procurar, realizaram novas e magníficas buscas e, algum tempo depois, eis outra vez um dos «pointers» parado, o dono atento e firme, a galinhola levantada, e espingarda apontada... e nada mais. A ave apagara-se nòvamente, nos seus zig-zags típicos, através das ramadas dos pinheiros.
E a manobra recomeçou - até que, repetindo-se a mesma cena, o caçador intrigado, resolveu aproveitar, em benefício próprio, os levantes provocados pelos cães do inglês, e apanhando a galinhola de feição, tombou-a.
O inglês assistiu impassìvelmente à queda da ave e chamou os cães. O outro, julgando-se na obrigação de lhe explicar a sua intervenção e defender o seu direito de abater uma galinhola que lhe passara a alcance de tiro, dirigiu-se ao inglês que, ainda por cima, se encaminhava para a estrada, mostrando visìvelmente dar a caçada por concluída.
Mas o inglês não estava melindrado nem ofendido. Que compreendia perfeitamente; estava no seu direito. Apenas lamentava que aquêle tiro tivesse vindo roubar a ambos a possibilidade de tornarem a caçar naquêle pinhal.
- ?!!
E explicou então por sua vez:
- É muito simples. Êste ano há poucas galinholas. Esta era a única em tôdo êste pinhal. Há meses que a descobri e todos os domingos aqui venho para a caçar, sem a matar - só para gozar com o prazer de a encontrar e a satisfação de ver trabalhar os cães. Se a matasse, - como era a única - perdia a possibilidade de caçar. E por isso não lhe atirava.
O senhor hoje matou-a. Não há mais nada a fazer. Acabaram por êste ano as caçadas às galinholas neste pinhal. E como acabaram... vou-me embora.
Fez um cumprimento amável e lá se foi, a caminho de Lisboa, com a sua espingarda, os seus «pointers» e o seu cinto vasio.
Ninguém mais o tornou a ver, durante êsse inverno, a caminho do pinhal."

Os autores concluem do seguinte modo: "...é mais fácil atirar bem do que caçar bem. E quem não caçar bem reduz o desporto da caça na Metrópole, a simples matança.
Temos pois de pugnar pelo aumento do número de caçadores entre a massa dos nossos atiradores - alguns, aliás, admiráveis. E êsse número só aumentará se os preconceitos individuais e a formação superficial de uma experiência, derem lugar à observação objectiva dos fenómenos e ao estudo de regras, com sólidas bases numa luta leal entre bicho e homem."

Dizia eu que a mensagem desta magnífica obra literária mantém toda a sua actualidade, apesar de ter sido concebida há 65 anos por Henrique Galvão, Freitas Cruz e António Montêz...

23 de fevereiro de 2010

O Trilho do Caçador

De acordo com o que disse Ortega e Gasset, no seu livro “A Caça e os Touros”, a Caça possui a característica de quase não ter variado na sua estrutura geral desde os tempos primórdios, exemplificando tal afirmação através da comparação da cena de uma batida aos veados, gravada no decurso da era paleolítica, na Cueva de los Caballos, em Espanha, com a de uma imagem fotográfica de uma montaria actual.
Referiu também que a Caça não se pode definir apenas pelo desporto ou pela utilidade, que designou por finalidades transitivas, porque são exteriores, que ficam para além dela e que a supõem, ou seja, que as distintas finalidades atribuídas à Caça não determinam a actuação em que ela consiste, mas modulam somente o seu exercício.
Que tão pouco pode ser definida pelas suas operações particulares, pelas suas técnicas, uma vez que são inumeráveis, sendo que todas e cada uma implicam certos supostos gerais e comuns, que são a verdadeira essência da actividade venatória e que, por isso, é um erro definir a Caça como sendo uma “perseguição raciocinada”, nos termos em que refere Kurt Lindner, no livro “A Caça Pré-histórica”.

Os primeiros Caçadores, foram os primeiros hominídeos. De facto, fomos Caçadores, muito antes de sermos “totalmente” homens. Significa isto que a Caça é uma das nossas heranças genéticas e que se encontra gravada bem fundo no código de ADN que nos dá a forma e o conteúdo (David Petersen, em “Heartsblood”).
Fernando de Araújo Ferreira, designa-o de "Fogo Sagrado"!

A Caça é uma importante actividade social e psicológica para os Caçadores. É uma demanda poderosa e repleta de significado, acima e para além de outras actividades recreativas (Mark Duda).
Paul Shepard referiu um dia que “the hunt brings into play intense emotions and a sense of the mysteries of our existence, a cathartic and mediating transformation”.
A Caça coloca em confronto emoções intensas e profundas, desperta-nos o intelecto para o mistério que envolve a nossa existência!

Conhecemo-la por Diana, nome Romano para a deusa da caça, a rainha dos animais, a soberana dos animais errantes e da natureza livre, mas também é chamada de Thoeris no Egipto, Shakuntala na Índia, Taue Si na América do Sul, Sedna entre o povo Inuit, de Wibalu na Oceania.
Em todos os povos, de todos os países, de todos os continentes, há uma deusa da caça, e algumas delas são tão antigas como a história ancestral do mais antigo desses povos, cuja função essencial reside na atribuição de um significado compreensível e de alguma ordem à vida, bem como estabelecer um conjunto de normas éticas e morais tão essenciais que são à existência em sociedade. Esses deuses tanto podem ser representados através de animais e plantas, rios e vales, lagos e montanhas, o vento que sopra de Norte ou as constelações, como a Ursa Maior ou o Sagitário!

James A. Swan, no seu livro “The Sacred Art of Hunting” refere que, na generalidade das culturas tradicionais, existe a crença de que há muito, muito tempo, os animais andavam e falavam, coexistindo com o homem em igualdade de circunstâncias e comunicando através de uma linguagem comum, geralmente identificada como a linguagem das aves. Uma vez que acreditam que as dimensões do tempo e do espaço se fundem nos sonhos e nas visões, prevalece a crença de que o homem pode reentrar nesse lugar e conversar com os espíritos, tal e qual o fizeram tão inequivocamente os seus antepassados. Acrescenta ainda que crêem que os animais de todas as qualidades se encontram interligados através de uma espécie de teia invisível, que não só os liga entre si, mas também aos seres espirituais que coabitam noutra dimensão mais elevada e que presidem à sabedoria e poderes de cada animal. Que esses poderes podem ser transferidos para os humanos que ganham o reconhecimento desses seres poderosos. Por exemplo, os índios Kwakiutl, acreditam que as almas dos grandes caçadores renascem nas orcas que, para eles, são animais sagrados e poderosos.

Ao contrário dos animais cuja vida não se encontra vazia e indeterminada, como disse Ortega e Gasset, o homem ao encontrar-se existindo, deparou-se com um pavoroso vazio, um espaço que o distanciou ainda mais do mundo natural, donde surgiu e necessita urgentemente de regressar para poder reencontrar-se e compreender-se, e tenta faze-lo desesperadamente desde que tomou consciência da sua humanidade, desde que se tornou caçador.
Os rituais mágicos, os amuletos, o consumo de drogas alucinogénias estão entre as primeiras tentativas de comunicação com os espíritos. Não é por acaso que ainda se reza “O Pai Nosso” na montaria ao javali ou na batida aos veados, da qual disse Ortega e Gasset não ter diferença quando comparada com a gravura existente na Cueva de los Caballos, a tal que remonta à era paleolítica.
Nas grutas de Lascaux, em França, podemos encontrar uma cena de caça que remonta a 17000 anos antes de Cristo, cujo realismo, audácia e movimento inspirou diversos artistas. Picasso, quando com ela se deparou, exclamou: “fui eu que fiz isso!” (La Chasse vue par les peintres, de Sylvie Ménard).

O Sufismo, uma seita espiritual, com origem no Médio Oriente, prega a existência de 72 caminhos, através dos quais podemos chegar a Deus e que todos eles são iguais, sendo um deles o Trilho do Caçador.

A morte de um animal na Caça, seja ele qual for, é um acontecimento triste, mas nunca um acto de maldade, a não ser que o caçador não possua consciência do seu impacto na natureza ou ignore as consequências do seu acto, mas quando assim for, não é Caçador! Por isso mesmo, em tantas culturas por este mundo fora, persistem ritos celebrados também após a morte do animal, para poder dar-lhe o merecido descanso, agradecer-lhe a carne que irá proporcionar e para tranquilizar os deuses, como, por exemplo, o d’"a última refeição", celebrado nalgumas regiões da Europa, em que o caçador serve comida ao animal abatido, tornando-se, por isso, também o local onde foi encontrado e caiu num terreno de caça sagrado.
Nesse contexto disse Fernando de Araújo Ferreira, no seu livro "Galinholas" o seguinte: "não sei se já repararam neles, na expressão desses olhos, quando à vossa mão vai parar uma galinhola de asa... Eu creio que nenhum caçador, que tenha sensibilidade, possa demorar a sua atenção no olhar da galinhola sem que sinta pena, sem que lá dentro haja uma certa revolta por roubar aquela vida à extensão das florestas, à solidão do seu destino".
É assim um acontecimento amargo e desgostoso, mas também de enorme reconhecimento pelo animal que morreu para nos alimentar. Jamais um acto insensível e cruel!

O que mais deseja o Caçador é tornar ao que é natural e verdadeiro e dar o seu válido contributo para o equilíbrio do ecossistema onde todos existimos e nos relacionamos.
Apesar de admitir ser impossível conciliar as suas crenças com as daqueles que o atacam, o Caçador respeita-as, porque aprecia-as, os admiram, e muito, o modo como eles tentam minimizar o seu impacto negativo no Mundo. Nós, Caçadores, também tentamos fazê-lo, mas percorrendo o nosso caminho, tal e qual eles percorrem o deles, e fazemo-lo caminhando no Trilho do Caçador, como sempre o fizemos, desde o primeiro dos dias, e continuaremos a fazê-lo, até ao último dos minutos!

Este texto encontra-se publicado no Santo Huberto e também n' O Baluarte

16 de fevereiro de 2010

Afinal Porque Caçamos

É sabido ser a caça a mais antiga actividade do homem e que esteve na génese de tantas outras, contribuindo decisivamente para o desenvolvimento da humanidade!
Então, porque é que parece ser tão difícil, para alguns, entender que somos herdeiros de algo ancestral, que nos acompanha desde os primeiros tempos? De aceitar que nos assiste o direito a existirmos e a praticar essa nossa actividade, a herança mais antiga da humanidade, para a qual possuímos natural tendência?

Afinal porque caçamos? E é ou não legítimo fazê-lo?
Na actualidade, nalguns sectores da sociedade (os mais modernos e recentes, de raiz urbana), considera-se que caçar é um comportamento reprovável... em nome de uma falsa e hipócrita defesa de um ambiente que sofre infinitamente mais com as outras múltiplas actividades humanas, derivadas do desenvolvimento e da modernidade, do que com a prática da caça – esta aliás, quem mais contribui para a preservação e entendimento desse mesmo ambiente.
Que é vicioso, em nome de discutíveis e exacerbados valores sobre a condição animal, fruto do afastamento da realidade da Natureza e do campo. Consideram-no um desvio, fruto do seu alheamento da vida e da morte, naturais, que não entendem e temem! Que é uma expressão da violência e do mal, segundo princípios anti-armas do pacifismo artificial urbano que todavia desenvolveu a violência psicológica, sofisticada.

Mesmo alguns caçadores têm dúvidas em se assumirem, e até vergonha... tentam que não reparem neles, fazem-no às escondidas e defendem-se com pouca convicção, sem saber exactamente porque são levados a caçar, como se só por si a vontade e o prazer não chegassem para o justificar e antes fossem algo de pecaminoso!

Eu, caçador contemporâneo, aos 54 anos, sempre que chego a um local ao ar livre, qualquer que seja o espaço... um quintal, um jardim, um campo, uma praia... olho em volta à procura dos sinais, dos animais e dos lugares onde eles possam estar, as suas possíveis querenças. É instintivo, inconsciente!
Imediatamente avalio vegetação e terreno, procuro pedras ou onde o mar levante. Dou comigo a identificar o posto onde me iria colocar, como entraria no terreno ou aonde iria à procura de presas!
Não olho para um rio ou pedaço de mar, um bosque, montanha ou planície... que não pense imediatamente que animais ali se encontrarão!
Vejo qualquer espaço aberto e me dá vontade de pôr a arma ao ombro, assobiar ao cão e marchar rumo ao horizonte...
Chegando a uma praia, olho imediatamente para o mar a avaliar o seu potencial, o estado de força, a limpidez, altura da maré, manchas de pedra e outros sinais...
Mal avisto um pedaço de oceano, logo me apetece enfiar máscara e barbatanas e ir por ali fora, de arma na mão!
É mais forte do que qualquer outra coisa, e sempre assim foi desde que me lembro!

Ora o que é isto? Só tenho uma explicação:
- SOU CAÇADOR! Em todas as fibras do meu ser... até ao mais ínfimo protão!

Porquê? Pois porque há em mim um qualquer código que me faz ser assim. Como sei que existe noutros e sei que existem outros cujo primeiro olhar é para os biquínis, ou para a luz e côr do enquadramento que daria uma tela ou uma fotografia; os que ouvem música no vento e nas ondas, ou os que desenham na mente a casa que ali construiriam... cada qual nasce com a sua sensibilidade e tendências...

Os meus antepassados foram formidáveis caçadores! Se não o tivessem sido não estaríamos aqui a discorrer sobre estas questões! Porque o homem é fraco, corre pouco, não possui asas, tem pele fina e nua, unhas curtas e dentes pequenos... Teria sido comido pelos carnívoros, ou, sobrevivendo de raízes, frutos e plantas, não teria chegado ao nível actual dos nossos detractores nem aos locais onde eles se exprimem. Seria um tímido herbívoro não evoluído, um saguim grande e triste, nu, com frio e miserável, em permanente busca de comida e estado de vigilância. Se “eles”, os modernos e os que se julgam anti-caça, se acham no topo da evolução humana, foi por terem sido criados a carne e porque os seus antepassados caçaram e comeram carne!

Este antepassado caçador tinha prazer na caça! Tinha que ter... a necessidade de caçar, teve de proporcionar esse prazer, como tudo o que é instintivo e fundamental à sobrevivência das espécies:
- O prazer do sexo, da comida, de mitigar a sede, de sentir o calor quando se tem frio ou o fresco quando se tem calor... são indispensáveis à própria vida! Por isso os animais brincam e têm prazer nos jogos onde treinam para a sua sobrevivência: as lutas e emboscadas dos leões, o correr e saltar das gazelas... as acrobacias dos macacos e das aves, as brincadeiras das focas, lontras ou golfinhos.

Fala-se da morte e associa-se esta à caça... tentam que seja um argumento de peso contra ela mas, a verdade é que há caçadores e presas em todos os estratos da vida! A morte ocorre em todos os seres e faz por isso parte da vida, e de uma relação profunda e natural, que permite a transmissão da matéria e da energia.

Existe uma teia intrincadíssima entre TODOS os seres vivos, que os condiciona. Nós não somos excepção! Basicamente o homem é um animal e igual a eles: nasce, cresce, reproduz-se e morre! Mas, quanto mais sentimentos desenvolveu e mais elevados, mais se distanciou do básico e portanto do animal. Tanto o animal como o homem partilham sensações físicas elementares como a sede, fome, calor, frio e cansaço. Possuem ainda outros sentimentos mais elaborados como o medo, a disposição para o combate, a luxúria e até o amor maternal. Porém, o homem desenvolveu outros sentimentos ainda mais sofisticados, ao nível da psique, que só ele possui, o tornam diferente e elevam a níveis inacessíveis ao animal!

Nós matamos porque somos caçadores! Sem raiva... porque na Natureza, a morte de uns é a vida de outros. Matamos as presas, naturalmente e em paz! Não porque as odiamos, como o leão não odeia zebras nem a aranha odeia moscas! Mas precisam delas para viver e as capturam, naturalmente. Quando damos a morte é por uma razão: a morte de uns dá a vida aos outros, é assim a ordem de toda a Natureza, das plantas aos animais! A grande árvore que morre, apodrece e dá de comer ás novas... e a tantos insectos e estes aos pássaros e até ao urso... Se tiramos uma vida, podemos todavia dar-lhe continuidade porque ao comer o ser que morreu, o incorporamos, e ele continua assim a viver em nós, até por nossa vez morrermos e sermos incorporados na terra e nos vermes e daí passarmos às outras formas de vida, as plantas e os outros animais. Por isso a vida se mantém, é passada de uns seres para os outros. Nós somos meros transportadores de energia, através da vida.

Dar a morte é algo de natural, porque morrer é consequência de estar vivo e o fim dessa mesma vida. Nós damos a vida ao fazer filhos e também damos a morte... é o mesmo e faz parte da nossa condição! O caçador o pratica, com respeito pelos animais a quem dá a morte pois não o faz com o mesmo sentimento do assassino ou a raiva de quem se vinga ou quer suplantar o adversário, e o faz com frieza e eficiência! O objectivo é matar e não fazer sofrer! Mata porque tem de ser, tal como o leopardo mata a gazela, a águia o coelho e o tubarão a foca. Fazemos parte de um todo onde se mata e se morre, como a morte faz parte da vida. E é por isso que sendo caçadores, amamos os animais que matamos e não os odiamos! O pastor, esse odeia o lobo que lhe come o rebanho, o agricultor odeia o javali que lhe come a seara! Podem odiar, e se compreende, mas raramente os matam, e, quando matam alguma coisa é aos seus animais, para os comer, e também não os matam com ódio, matam-nos com indiferença e porque é preciso! Matar com ódio, mata o assassino, por maldade...coisa que nem a cobra ou o crocodilo fazem, porque o criminoso é mau, é baixo! Está no mais baixo nível da existência!

O homem se foi libertando desta teia e saiu dela, por força da sua evolução e do desenvolvimento, arranjando formas dela menos depender. Mas continua a depender da morte, porque come seres que estiveram vivos... animais mortos, e, ao comer as plantas também as mata! A morte estará sempre associada à transferência da energia natural!

O gosto natural pela caça, o “gene do caçador”, existe e está no nosso código genético! Em todas as classes de seres vivos, em todos os estratos e em todas as comunidades, há predadores e presas, que a Natureza na sua complicada rede de interacções e relacionamento criou, de modo a que se regulasse e mantivesse numa dinâmica de evolução e vida. Esse gosto manteve-se ao longo das gerações, como o gosto em procriar ou comer. O homem ao evoluir ganhou outras sensações que são seu apanágio: os gostos e os prazeres sofisticados, apreciar uma paisagem, um vinho, ouvir música, jogar um jogo complexo! Porque só o homem tem o espírito, ou a "alma", que lhe permitiu desenvolver tais sentimentos superiores, como o amor ou a piedade! Isso o que distingue o homem dos animais... que não os sentem. Por exemplo, e desde logo, a piedade, que nenhum animal possui, por força da sua condição como pela sua total inutilidade ou mesmo vantagem de não a manifestar! Pode imaginar-se que o lobo tenha piedade pelo veado? Seria anti-natural! Ou o amor, o amor puro dos amantes ou pelas outras pessoas que conduz a praticar o bem, e, a generosidade! São sentimentos exclusivos do homem, como apreciar as coisas belas e boas, a gastronomia, a música e o canto, a dança ou um simples pôr-do-Sol! Tudo coisas que o homem desenvolveu, inatingíveis para os animais e que os separam. Coisas que diferenciam os próprios homens e os colocam em diferentes níveis da evolução: da cupidez do ladrão, do ódio do assassino, da luxúria do tarado - exacerbações extremas de paixões - , ao homem que se eleva pela sua arte, ou pelos sentimentos generosos da partilha ou da ajuda, e finalmente ao Santo, cujo desprendimento é total!

Esse gene do caçador, pode existir ou não, como pode estar activo ou adormecido. Neste caso pode revelar-se tardiamente ou nunca se revelar! Porém em nós, ele está activo e nos impele a caçar, como nos podia ter impelido a ser músicos, militares, cozinheiros! Por isso, para mim, caçar é sentir a satisfação e a liberdade imensa de seguir essa tendência que vive no meu ser! O desapego, o afastar de tudo, onde nada mais conta nem importa senão o ir, o procurar... não importa o quê!
Reprimi-lo seria a atrofia de uma tendência natural, a infelicidade e a frustração. E, preciso sim de capturar uma presa, de me apossar dela, de a sentir como sendo minha! De experimentar essa sensação da posse, a satisfação atávica, animalesca e ancestral de "apresar". Não se confunda com matar! Nada tem a ver, porque logo depois a minha parte humana, a alma, se enche de pena e se pudesse daria vida àquele animal e o perseguiria outra vez, pois ao caçá-lo criei uma ligação com ele, me identifiquei com ele e passei a depender dele, como num namoro!
Será assim tão difícil de perceber? E de aceitar? Isto faz de mim um ser vicioso e mau? Um sádico criminoso, como pretendem os que não o entendem... talvez porque nunca lhes explicaram as coisas deste modo, presumindo eles de acordo com a sua percepção?
Depois, comê-la-ei... é outra parte dessa condição de ser caçador: sou impelido a comer a minha captura! Os antigos caçadores, os mais primitivos e os filósofos, explicam bem esta parte, pois ao comer o animal, o incorporamos em nós próprios e ele continua a viver, em nós... é algo de profundo que explica a forte ligação da caça à gastronomia, para lá do pragmatismo puro da alimentação e sobrevivência.
A seguir, partilho com os outros esse momento da posse: o lance vivido! Exibo-me e recebo o reconhecimento dos meus iguais, a admiração. É a vaidade humana entendida sob a forma da recompensa, que nos leva a procurar a eficiência para o bem comum: É-se enaltecido mas se contribuiu para o grupo! O que em tempos idos teve a maior importância e por isso se manteve e nos marcou! E não funciona só na caça!

No acto de historiar, há ainda um componente fundamental: a partilha da experiência e do saber adquirido. O ensinar e o imitar, que melhoram a técnica e portanto os resultados do grupo! Ou julgam que é por acaso que somos uma confraria de "mentirosos"? De contadores de histórias e de potenciais vaidosos?

Percebe-se que a prática da caça mantém a nossa ligação à Natureza, e, que nos reintegramos nela ao regressarmos à condição do caçador. O homem, que se afastou da Natureza, regressa assim ao seu estado mais natural ou primitivo, renova energias, limpa as frustrações da vida moderna, reaproximando-se da Natureza e de si mesmo, como os adultos tendem a voltar à infância ou aonde foram felizes! Mais do que isso, imergem na Natureza, onde têm lugar, são aceites porque o caçador faz parte dela e está previsto! A sua actividade é sustentável, como não é a do homem construtor de mega urbes e do desenvolvimento industrial!

Claro que usufruir da Natureza, também outros o fazem! O caminheiro, o fotógrafo e o observador de pássaros, o mergulhador, o ciclista de btt e o alpinista... experimentam esse contacto, mas apenas o contacto e porque não possuindo o gene do caçador, isso lhes basta. Não têm de satisfazer a necessidade de caçar, de se apoderarem de mais do que sensações ou imagens. A necessidade do caçador é ainda mais física! Além do esforço e do jogo da caça, de iludir o animal, importa a sua posse: a captura! A captura é o grande objectivo! Assuma-se e entenda-se, porque sem a captura do animal, o caçador primitivo não sobrevivia... ele não se alimentava de sensações nem de imagens, e sim de carne!

A caça evoluiu, mas não pode ser separada dessa posse, que redunda na morte... a pesca sem morte é a excelência... quando houver a caça sem morte, talvez surja um novo caçador... porém ficará sempre o vazio da posse física, de incorporar o animal, que hoje ainda não dissocio da caça. No futuro... não sei, pois já não será nesta minha vida. Sei sim que a caça evoluiu também, acompanhou o homem... a que se pratica hoje pouco tem a ver com a do início do século passado, menos ainda com a da idade média e nada com a da pré-história... salvo pelo que se manteve, o impulso de caçar e a finalidade de apresar! Mas em contrapartida e pela lei das compensações, assumiu uma maior importância quer na ligação à terra e à Natureza quer na sua preservação, pois que graças à caça e pela caça, sobrevivem hoje espécies e se mantém o ambiente e a biodiversidade! Não tenho dúvida de que o caçador em mim passará a outro, como me foi passado e se manifestou em mim, e assim acontece desde o início dos tempos, porque ele é útil! E passará, não só pelas leis da genética mas também por via das idéias que se divulgam e cultivam, outra admirável e exclusiva capacidade humana!

É verdade que o caçador procura um regresso à Natureza? Sim, o operário da cintura industrial das grandes cidades, o urbano dos bairros citadinos, o que vive nas metrópoles, os saudosos do campo e da vida ali, que mantêm vestígios da cultura campesina, e são ainda muitos, hoje talvez até a maioria! Porém e o caçador rural, o aldeão que vive na, com, e da Natureza? Como pensar que vá à caça para se sentir próximo da Natureza? Também isso não basta...

Então afinal porque caçamos?
Bom, eu, caçador actual e ser pensante, cheguei à conclusão que, quando pego na arma e saio para o campo ou para o mar, afinal aquilo que faço é perpetuar o gesto do meu longínquo ancestral, no momento em que empunhou pela primeira vez uma arma e alijando a sua condição de presa, se ergueu em glória de predador!
É isso que eu revivo e celebro desde essa altura!
É o que me foi passado no código genético e que eu passarei a outros, por muito que nos “eduquem”, reprimam ou reprovem.
É isso que nos diferencia do alpinista, do passeante, do observador!
É isso que nos leva a ser o que somos...

Afinal é por isso que caçamos!

Foram os caçadores que deram aos artistas e aos filósofos a oportunidade de o serem... que proporcionaram à humanidade chegar até hoje. Foi a caça que lhes permitiu estarem aqui hoje, os biólogos e políticos, os “bem pensantes” dos direitos animais e do ambiente, os “modernos”, todos os que agora tentam acabar connosco!
Deviam estar-nos gratos, perceber o nosso direito a existirmos pelo simples facto de o sermos e gostarmos de caçar, e, não acabar connosco porque já não lhes fazemos falta, porque perderam a capacidade de nos entender e ignoram este facto ancestral.
Não teremos então já, o direito a existir?
Não pretendo fazer de ninguém caçador, tão pouco impor que seja obrigatório caçar... como o fariam os meus detractores! Procuro apenas divulgar porque sou caçador, e que me respeitem por isso.
Não luto para impor as minhas idéias e sim pela defesa de ter direito a elas!

António Luiz Pacheco, Fevereiro de 2010


Texto da autoria de António Luiz Pacheco e aqui reproduzido com a devida autorização do autor

14 de fevereiro de 2010

Com os Meus Botões

Enquanto procedia à limpeza e manutenção do equipamento, acabei por me deixar envolver e levar em pensamentos e divagações sobre esta paixão que tanto me anima e estimula enquanto devoto de Santo Huberto.

O uso de armadilhas na captura dos animais surgiu muito antes do fabrico das primeiras armas de caça, pois estas exigem um conhecimento mais avançado do que aquele que é necessário para se escavar um buraco no chão e dissimula-lo ou conduzir uma manada para um abismo. No entanto todos estes artifícios possuem em comum quatro objectivos: a segurança do caçador; a conservação de energia; a poupança de tempo e a eficácia na captura.
Neste contexto, as armas foram as que mais se desenvolveram, acabando por transformar-se a pedra que era projectada, através da força muscular, a pouca distância e nem sempre certeira, no mais avançado dos mísseis, controlado por computador e disparado do espaço para um preciso local no globo terrestre.

A tecnologia utilizada na caça acompanhou esta evolução e hoje o caçador moderno tem à sua disposição uma parafernália de acessórios sofisticados que lhe permitem detectar e identificar a presença de um animal a quilómetros de distância na mais negra das noites, medir a extensão que os separa, chama-lo até ao alcance útil da sua arma sem lhe perder o rasto, corrigir a linha de mira através de um sistema digital conectado a um GPS e a uma estação meteorológica portátil, abater o bicho com um único disparo e tudo isto fazer sem qualquer tipo de dificuldade, sem sair do local onde abancou inicialmente e sem perder o tal jogo de futebol que recebe via satélite e visiona através do ecrã do telemóvel, o mesmo que tira a foto final e que manteve o caçador permanentemente conectado ao resto mundo em todas as fases do lance.

Nós, que em defesa da Caça alegamos estar no mais directo contacto com a Mãe Natureza, como é que lidamos e respondemos a isto?
- Investindo em melhores caçadores, mais responsáveis e conscienciosos; privilegiando a aquisição, a partilha de informação e de conhecimentos; agindo na base do saber, do respeito e da ética e, sobretudo, repudiando toda e qualquer conduta do facilitismo em favorecimento do esforço e da persistência que caracterizam os verdadeiros Caçadores e a genuína tradição.

Sobre os botões, a era espacial também nos enriqueceu com materiais próprios para envergarmos na diversidade de climas e condições meteorológicas, os quais persistimos em decorar com pinturas e símbolos vários, objectos em madeira, em osso ou metal, na tentativa de retratar e de regressar ao mundo natural.
Servem como uma espécie de talismãs de boa sorte, "magia" essa que, apesar de falível, jamais será suplantada pela mais exacta tecnologia. Ignorar essa relação é desvirtuar a essência da Caça!

10 de fevereiro de 2010

XI Montaria ao Javali de Mós do Douro

A XI Montaria ao Javali de Mós do Douro, realizou-se no dia 6 de Fevereiro de 2010, e foi organizada pela Associação de Caçadores das Encostas do Douro, tendo sido o seu Director o Sr. Alexandre Silva.
Contou com 110 Portas, 15 Matilhas e 19 Javalis cobrados.

Trata-se já de um acontecimento verdadeiramente Nacional levando a esta Freguesia Monteiros de todo o País incluindo das Regiões Autónomas, embora os caçadores do Norte e em particular os de Trás-os-Montes constituam o grupo mais numeroso.
Os Açorianos Cremildo Marques (o Barbas) e o autor destas linhas são já uma presença constante neste popular e significativo evento cinegético e social.
Como aspecto menos positivo refiro o comportamento impróprio de um ou outro “Monteiro” a fazer tiro ao alvo já depois do sinal indicador do fim da Montaria, com todos os inconvenientes e agravantes que tal comportamento representa para a segurança e para o ajuntamento dos cães (como muito bem sublinhou o Dr. Ângelo Sequeira).

Tanto os mais novos como os Monteiros de idade mais avançada marcaram presença, como foi o caso dos tocadores de acordeão que com a sua sabedoria e sensibilidade musical animaram a festa, a que se juntou um outro cantador de improviso.
Um dos tocadores era Monteiro e transportava a bonita idade de 85 primaveras, enquanto o outro era Matilheiro, mais moderno, mas também na casa dos “entas“.
Destacaram-se também a presença de jovens Monteiras, garantia de um futuro mais alegre, pois sem a presença e participação feminina o futuro da caça seria bem mais triste.

O dia esteve magnífico, com as Portas colocadas a rigor e por Postores eficientes. As vistas sobre o rio Douro eram de cortar a respiração. As vinhas, as amendoeiras, as Oliveiras e o rio são inseparáveis e de uma beleza rara!
A jornada de caça correu bem, com segurança, com porcos, com animação das matilhas.
De seguida foi servido um excelente almoço com uma bela sopa de legumes com feijão e um grão guisado com carne de porco e enchidos e como se não bastasse, tudo isto foi regado com um bom vinho do Douro. Que bem se come nesta Região!

Findo o almoço procedeu-se ao leilão das peças cobradas, ajuda preciosa à Organização para fazer face às crescentes despesas. Aqui o meu amigo Cremildo das Barbas, do Pico, é realmente um Doutorado na matéria. O seu vozeirão, as suas piadas e a sua experiência, são garantia de que os javalis leiloados geram sempre boas receitas, tendo este ano se cumprido novamente tal tradição.
Terminada a arrematação e acertadas as contas, para nós e especialmente para mim, a parte mais difícil foi arranjar o javali “que nos coube em sorte”, não fora o Sr. Januário nos ter disponibilizado a sua garagem, então é que esta tarefa teria sido mesmo muito complicada, é que desmanchar um porco com mais de 100 kgs e às escuras, garanto-lhes que é mesmo muito difícil, mas lá conseguimos dar conta do recado! Inclusivamente foi-nos disponibilizada uma arca congeladora, cedida por uma alma caridosa e amiga, para transportarmos parte do javali, já que a outra foi logo repartida com quem teve a amabilidade de nos ajudar.

Assim, já temos mais um motivo para, em São Miguel, juntarmos uns quantos Compadres e Confrades e fazermos uma festa em honra do Javali e da Caça!
No entanto a Montaria só terminou verdadeiramente na adega do Sr. Polido, a provarmos um excelente Vinho do Porto que só a Região do Douro é capaz de propiciar!

Fazemos votos para que o ano corra Bem para todos e passe depressa, porque já tenho saudades de voltar a Mós do Douro, terra de gente boa e de grandes artistas na arte de trabalhar o Douro.

Gualter Furtado, Fevereiro de 2010


Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

31 de janeiro de 2010

Caça e Desporto

Podemos caracterizar desporto como sendo o fruto duma actividade de recreio, um exercício corporal praticado ou não ao ar livre, cujo objectivo primordial assenta na diversão, no desenvolvimento da agilidade, da destreza, da força física.
A caça é praticada unicamente no espaço livre, em contacto directo com a natureza, mas também é diversão, proporciona o desenvolvimento da agilidade, da destreza, da força física, sendo, por isso, confundida normalmente com desporto, porém Erich Fromm, em "The Anatomy of Human Destructiveness", faz um descrição da Caça que considero justa e pertinente.
Refere que "in the act of hunting, a man becomes, however briefly, part of nature again. He returns to the natural state, becomes one with the animal, and is freed of the existential split, to be part of nature and to transcend it by virtue of his consciousness."
Será, então, a caça um desporto?

Jane Goodall, refere nos estudos que desenvolveu sobre os chimpanzés, que estes se organizam e caçam em grupos, cerca de trinta vezes por ano.
Por sua vez, o antropologista S.L.Washburn, afirma que, entre os primatas, a caça permite o desenvolvimento de uma estrutura social mais humana do que aquela que é registada nos vegetarianos, acrescentando mesmo que a caça não só exigiu novas actividades e novos modos de cooperação, como também alterou a hierarquia e a estrutura social do grupo, factores que foram determinantes para o sucesso da humanidade.

As gravuras rupestres ensinam-nos que fazemos parte do mundo natural e de um outro que não controlamos, que se prolonga na nossa consciência e que existe muito para além da nossa própria existência, o qual ainda buscamos incessantemente tal e qual o fazíamos há milhares de anos atrás, movidos pelos mesmos objectivos e em cumprimento das mesmas regras.

Actualmente as pessoas, inclusivamente algumas das que se dizem caçadores, identificam a Caça como um desporto, porém esta designação não reflecte a verdadeira essência do que é realmente a Caça, sendo mesmo injusta e incompleta, ordinária, que muito a prejudica.
O verdadeiro Caçador jamais poderá aceitar essa designação e muito menos a presença de quem, da caça, queira fazer um desporto.

A Caça é, antes de mais, a realização de um instinto que nos permanece inalterado desde a alvorada dos tempos e negar a sua existência é repudiar a essência do que realmente somos, pois foi da combinação dessa força inata com o intelecto que surgiram as gravuras do Vale do Côa e nasceu a mais moderna das composições.
Podemos facilmente constatar que, passados todos estes anos, permanecemos iguais, fiéis à nossa condição de predadores, unidos e motivados, não por uma mera actividade, mas pela mesma paixão, através da qual regressamos ao nosso estado original, nos tornamos unos com o mundo natural e nos libertamos.
A Caça não é, definitivamente, um desporto!

26 de janeiro de 2010

A Lebre

Organizado pelo Cavaco (Presidente da Confraria dos Gastrónomos dos Açores) e com a participação amiga do actor Fernando Mendes e outros companheiros dos Açores e do Continente, no passado dia 23 de Janeiro, realizou-se um almoço no restaurante “Mar e Serra”, em Ponta Delgada, cujo prato principal foi a Lebre.


Cozinhada a rigor, à moda de Évora e por uma Senhora Alentejana, a Lebre foi alvo de uma homenagem condigna, merecendo inclusivamente um discurso escrito e lido pelo Presidente Cavaco.



A caça não é só o acto de "matar", mas sobretudo um vasto conjunto de vivências e de sentimentos em que a componente social e a gastronomia são ingredientes fundamentais.

Viva a Lebre!

Gualter Furtado, Janeiro de 2010


Texto e fotos da autoria de Gualter Furtado

9 de janeiro de 2010

A Espingarda de Caça em Portugal

Uma arma, independentemente da duvidosa qualidade da legislação que a possa identificar e regulamentar, tanto poderá sê-lo em função da sua natureza, i.e., quando fabricada propositadamente para servir como tal, ou resultante do seu uso e serve para atacar ou para defender.

Óscar Cardoso sabe-o na perfeição e do enorme conhecimento que acumulou ao longo de uma vida bastante preenchida, resultou uma das mais valiosas obras nacionais sobre o tema em epígrafe, intitulado, precisamente, de "A Espingarda de Caça em Portugal - grandes marcas, balística & outras artes".

São 163 páginas recheadas da mais rica informação, acompanhada e complementada por uma diversidade enorme de fotografias e gravuras de qualidade,... em suma: um grande livro que todos devem procurar obter!

A minha admiração pelo mesmo transcende o valor contido em cada uma das suas páginas e se transforma, naturalmente, em respeito pelo seu autor.Tal não se deve apenas à importância do conteúdo desta obra, mas também ao espírito de sacrifício e de abnegação que o caracteriza.

8 de janeiro de 2010

A Caça Vista Pelos Pintores

No título original "La Chasse Vue Par Les Peintres", é uma fenomenal obra da autoria de Sylvie Ménard, publicado em 1987, que retrata e explica, ao longo das 151 páginas que lhe dão o conteúdo, 65 quadros alusivos ao tema da caça.

Começa, precisamente, com a reprodução de uma pintura existente nas Grutas de Lascaux, datada de há dezassete mil anos antes de Cristo, e que representa um bisonte, um homem e um pássaro, perante a qual Picasso, quando com ela se deparou, afirmou: "fui eu que fiz isto", até à mais recente, datada de 1933, da autoria de Marcel Gromaire, intitulada "Le Braconnier", que se encontra exposta actualmente no Museu Nacional de Arte Moderna, em Paris.

O livro possui vários capítulos, que vão desde o da "Mitologia e Crenças", o "Cerimonial da Caça", e "Artes de Caça" terminando no dos "Quadros de Caça", com o famoso "Trophée de Chasse", de Claude Monet, datado de 1862.

Nas páginas iniciais podemos encontrar o "Saint Eustache", um quadro a óleo sobre tela, não datado, da autoria de Lucas Cranach l'Ancien, que viveu nos anos de 1472 a 1553.
Santo Eustáquio está representado nesse quadro a segurar uma cabeça de veado que possui, entre as hastes, a cruz cristã com Jesus Cristo crucificado.
Reza a história que dava pelo nome de Plácido e servia no exército de Trajano quando se deparou com um cervídio miraculoso que ostentava o símbolo cristão, situação que o levou a converter-se ao cristianismo.
Essa lenda é semelhante à de Santo Huberto, na medida em que foi também um encontro com um veado que apresentava a cruz cristã nos esgalhos, que o levou a interiorizar e a aceitar a fé cristã, sendo hoje reconhecido e aceite mundialmente como o patrono cristão dos Caçadores.

Esta magnífica obra francesa bem que poderia ser o prelúdio para uma outra, de origem portuguesa, que pudesse seleccionar e compilar os melhores trabalhos nacionais desta natureza, haja para tal, apenas e só, a necessária vontade!

31 de dezembro de 2009

Caça e Felicidade

"A vida que nos é dada tem os seus minutos contados e, além disso, é-nos dada vazia.
Quer queiramos quer não, temos que preenche-la por nossa conta: isso é, temos de ocupa-la, de um ou de outro modo.

Por isso a substância de cada vida reside nas suas ocupações.

Ao animal não somente lhe é dada a sua vida, mas também o reportório invariável da sua conduta. Sem a sua intervenção, os instintos dão-lhe já decidido o que vai fazer e evitar. Por isso, não pode dizer-se do animal que se ocupa muito nisto ou naquilo. A sua vida não esteve nunca vazia, indeterminada.

Mas o homem é um animal que perdeu o sistema dos instintos, ou, o que é igual, deles conserva só resíduos e cotos incapazes de lhe impor um plano de comportamento. Ao encontrar-se existindo, encontra-se perante um pavoroso vazio. Não sabe o que fazer; tem ele mesmo que inventar os seus afazeres ou ocupações.

Se contasse com um tempo infinito diante de si, não importaria grandemente: poderia ir fazendo o que lhe ocorresse, experimentando, uma após outra, as ocupações imagináveis. Mas - aí está! - a vida é breve e urgente; consiste sobretudo em pressa, e não há outro remédio senão escolher um programa de existência, com exclusão dos restantes; renunciar a ser uma coisa para poder ser outra; em suma, preferir umas ocupações às restantes."

- excerto retirado do capítulo "Caça e Felicidade", do livro "Sobre a Caça e os Touros", de Ortega y Gasset


Na fotografia, o meu avô está de óculos escuros e boina e esta retrata a primeira caçada realizada na zona das pistas, no Aeroporto de Santa Maria, nos inícios da década de 60, do séc. XX.
Da esquerda para a direita está o Sr. Soares, atrás dele encontra-se o Sr. João Caraça. De joelhos, à frente, situa-se o Mestre João "dos frigoríficos" e, atrás, com um chapéu de aba larga, o Sr. Sargento Pereira, da Guarda Fiscal. À frente do meu avô, está o Sr. José "Espanhol", faroleiro de profissão. Os restantes não fui capaz de identificar.
Nela, são também visíveis as nossas foices de caça e o produto de uma bonita caçada!

O meu avô soube preencher todos os minutos da sua vida e ocupou-a o melhor que pôde, não deixando nunca que o que quer que fosse lhe controlasse ou tomasse o destino, lhe roubasse a substância ou deixasse de ser quem era.
Viveu-a plenamente e fê-lo sem medo de perder ou ganhar, porque é necessário coragem para assumir tanto a derrota como a responsabilidade da vitória e ele teve dumas e doutras, viveu a vida sem renunciar a nada, nem a ninguém.
Acredito que tenha sido feliz e foi de certeza o Caçador que eu pretendo ser!

29 de dezembro de 2009

Galinholas Homenageado

"O Templário", semanário, com sede em Tomar, publicou na sua edição de 24/12/2009, um artigo sobre o livro "Galinholas", de Fernando de Araújo Ferreira, intitulado "Galinholas - editado há 60 anos".


O texto divulgado teve como base a transcrição da composição que elaborei sobre essa obra ímpar da literatura cinegética nacional e começa nos seguintes termos:



"A efeméride é assinalada pelo açoriano Pedro Miguel Silveira no seu blogue ribeira-seca.blogspot.com.
O livro "Galinholas", da autoria de Fernando (Nini) de Araújo Ferreira, irmão de Júlio de Araújo Ferreira, foi editado há 60 anos.
A propósito e com a devida autorização do autor, transcrevemos o apontamento que fez no seu blogue: ..."
.

14 de dezembro de 2009

Um Presente de Natal

Para o Natal proponho um excelente livro.

"Páginas de Caça"

Teve a sua primeira edição em Janeiro de 2009 e tem por base uma rica selecção de textos e organização da responsabilidade de A. M. Pires, que a Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros publicou em associação com a Âncora Editora.

Poderá ler-se na apresentação efectuada pelo Eng. Beraldino Pinto, Presidente da Câmara de Macedo de Cavaleiros, o seguinte:

"A caça tornou-se uma marca indelével da identidade do concelho de Macedo de Cavaleiros. Inspirados pela beleza das paisagens, por uma boa jornada de caça e pelo saber receber dos macedenses, são muitos os caçadores que desde tempos longínquos aqui acorrem. A Festa dos Caçadores do Norte e a Feira da Caça são igualmente testemunhos dessa marca que se vai transmitindo entre gerações.
A caça, mais do que o simples acto venatório, pelo contacto que proporciona com a natureza e as peripécias dos caçadores, é também fonte de inspiração literária. A obra de Miguel Torga é um notável exemplo de momentos de caça vertidos em literatura. Como Torga, muitos foram e são os autores transmontanos, uns reconhecidos, outros desconhecidos da maioria, que escreveram em prosa ou verso, sobre a ancestral actividade que é a caça. A produção literária é imensa, mas por vezes publicada em edições de difícil acesso à maioria dos leitores, e daí a necessidade de a compilar.
O epíteto de concelho da caça confere ao Município de Macedo de Cavaleiros condições de excelência para ser o percursor da primeira antologia sobre caça na literatura transmontana.
Acrescentou-se ainda o privilégio de Macedo de Cavaleiros ter um homem desta terra, o Dr. Pires Cabral, escritor de reconhecido valor e exímio organizador de antologias. A conjugação germinou na antologia que tem entre mãos, obra que reflecte um trabalho exaustivo de levantamento e compilação de textos por parte do Dr. Pires Cabral, a quem o Município de Macedo de Cavaleiros agradece ter aceite o convite para organizar esta ontologia e o incondicional empenho que nela depositou.
O Município de Macedo de Cavaleiros orgulha-se de promover esta publicação que vem suprimir uma lacuna na literatura transmontana e nacional e de ter o seu nome inscrito nessa antologia de textos sobre caça escritos por autores transmontanos."

Deixo-vos um pouco do que poderão encontrar, neste excerto de Miguel Torga:

"Vamos, irmã de Apolo!
Ladram de impaciência os cães à nossa espera.
de espingarda traçada a tiracolo.
Não há fera
Que nos resista...
Somos o instinto, a força e a quimera.
Na sua eterna e lúcida conquista!

Como não obtinha resposta, procurava na caça a libertação desse e doutros pesadelos. No regresso às primárias leis da vida, à virgindade nativa do instinto, o pensamento cessava, e a lancinante dor de o possuir amortecia.
- Ferido, Nilo! Busca lá...
Uma perdiz levantara voo no planalto, abrira-se inteira à pontaria, recebera no peito o relâmpago do tiro, e continuara como uma seta.
de repente, lá longe, num último arranco, erguera-se a pino, de bico ao céu, e subira, até se lhe acabar o alento. Só então caíra maciça e perpendicular sobre o abismo.

Desde a roupa que vestia, delida como um velho paramento e afeiçoada aos movimentos do corpo como uma segunda epiderme, á frugalidade sã da merenda, sempre igual, ao vinho bebido excepcionalmente, tudo fazia parte de uma secreta comunhão com a sacralidade da natureza. O dia raiava na emoção do primeiro disparo. Antes que a vontade hesitasse, o estalão das passadas tornava próxima qualquer distância.
Alheia ao suor da fadiga, a atenção ia acompanhando, por relances, objectiva e deslumbradamente, a consumação circular do tempo e a variação ondulada dos horizontes. Quando as forças decaíam, a tarde declinava também. A última perdiz morta era o sol posto."

Além do citado Miguel Torga, encontrarão também Fausto José, António Cabral, Sousa Costa, P.e Domingos Barroso, Camilo Castelo Branco, João de Araújo Correia, Ângelo Sequeira, Salvador Parente, A. M. Pires Cabral, Vaz de Carvalho, João de Deus Rodrigues, Manuel Vaz de Carvalho, Dr. Ferreira Deusdado, Mello Júnior, Montalvão Machado, Cristiano de Morais, Bento da Cruz, Guedes de Amorim, Fernando de Mascarenhas, António Fortuna, Gil Monteiro e Pina de Morais.

São 277 páginas de caça, do melhor que existe na literatura transmontana e do País, uma excelente oferta de Natal.

12 de dezembro de 2009

Galinholas

Assim se designa este livro, cujo autor se trata de Fernando de Araújo Ferreira, irmão de Júlio de Araújo Ferreira.

Esta obra da literatura portuguesa foi composta e impressa no ano de 1949, na Tipografia e Papelaria "A Gráfica", em Tomar, numa altura em que a Europa, devastada pela guerra, muito se esforçava por emergir de um dos mais negros períodos da sua História, que foi a Segunda Guerra Mundial.


Nesse final de década, do séc. passado, na ilha açoriana do Faial, o, então, Capitão Júlio de Araújo Ferreira, tirou as primeiras fotografias de galinholas deste País permitindo, assim, que chegassem até nós através deste excepcional documento que permanece tão actual como o foi no dia em que nasceu.

Possui mapas de rotas, registos datados, medições de exemplares, correspondência trocada com as mais ilustres e distintas personalidades, instituições e universidades estrangeiras, relatos na primeira pessoa, e, uma prosa encantadora, fascinante que nos desperta, estimula e desafia.

"... Não sei se já repararam neles, na expressão desses olhos, quando à vossa mão vai parar uma galinhola de asa... Eu creio que nenhum caçador, que tenha sensibilidade, possa demorar a sua atenção no olhar da galinhola sem que sinta pena, sem que lá dentro haja uma certa revolta por roubar aquela vida à extensão das florestas, à solidão do seu destino. Olhos que parecem chorar muito embora não haja lágrimas vulgares, líquidas, mas sim as que se adivinham na expressão pungente que nos lança, expressão de desalento de saudade.
É assim e eu o sinto... mas no fundo sou essencialmente caçador, corre-me nas veias aquele fogo primário que através de tudo, da própria sensibilidade, nos faz andar em frente como o animal que caça, como o homem bárbaro das cavernas, ou, até, como a «mesmíssima» galinhola - cuja agonia sentimos - ao devorar os seus vermes.

... Caçador é aquele que entregue a si mesmo, sozinho se necessário for, sabe procurar e sabe perseguir, se adapta aos terrenos e parece dotado dum sexto-sentido a que os «caçarretas» chamam muito simplesmente... «leiteira». Caçador não é sinónimo de matador e muito menos de exterminador.
O vulgo, aqueles que vivem longe das realidades do mato, confundem muita vez o bom atirador com o bom caçador. E no entanto a diferença é notória e vasta.

... A caça das galinholas, de salto e na floresta, é só para caçadores, para os que têm em si o «fogo sagrado».

... A vida começa e termina ali, num cão que se pára, numa galinhola que salta, numa finalidade que se realiza. Nada mais para além, nem cidades, nem mundo, nem lutas ou misérias humanas; nós, a vida livre, a raíz da nossa condição de animal caçador a embeber-se na seiva natural que nos envolve.

... Para muitos não há mais do que horas da mesma vida, hoje, amanhã, depois... sempre!
Horas civilizadas de funcionários ou empregados, do homem de hoje, horas que rolam iguais pela vida fora, o mesmo pão, a mesma «fome», a mesma cama, e a esperança doutro rumo a esfumar-se na eterna e gelada realidade ou a acalentar-se como sonho inútil e perdido.
Porque não há-de ser a caça para esses... LIBERTAÇÃO!
Perdidos em considerações fechámos este capítulo. Perdoem-nos os caçadores."


Disse-o Fernando de Araújo Ferreira em algumas das 140 páginas que escreveu e assim que finalizou este maravilhoso livro, numa demonstração da sua nobre qualidade e de uma grande coragem, há 60 anos atrás!

10 de dezembro de 2009

Entronização de Confrades da C.G.C.A.

Numa cerimónia realizada no dia 6 de Dezembro de 2009, nas instalações do Clube Cinegético e Cinófilo da Praia da Vitória, ilha Terceira, procedeu-se a uma cerimónia de entronização de 12 novos Confrades da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores.

De enaltecer a realização da primeira entronização de uma mulher Confrade e que se tratou da jovem Júlia Ourique.

O evento contou ainda com a participação da Confraria do Verdelho, representações da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Secretarias Regionais da Economia e da Agricultura e Florestas, bem como do Representante da República para os Açores, o Juiz Dr. José Mesquita.

As entronizações foram presididas pelos Presidentes da Direcção e da Assembleia Geral, respectivamente Olívio Ourique e Gualter Furtado.

De seguida foi servido um jantar a todos os Confrades e Convidados, cuja ementa foi a seguinte :

- Canja de pomba da rocha
- Arroz de pato bravo (real e marrequinha)
- Coelho bravo frito
- Alcatra de coelho bravo
- Codornizes bravas fritas com molho regional
- Galinhola na Caçarola
- Lebre com feijão
- Javali assado no forno

Entretanto, no dia 5 de Dezembro, no salão nobre da Câmara Municipal da Praia da Vitória, uma ampla delegação da Confraria de Gastronomia Cinegética dos Açores participou na cerimónia de entronização que a Confraria do Vinho Verdelho fez ao Presidente do Governo dos Açores - Carlos César.


Texto e fotografias da autoria de Gualter Furtado

9 de dezembro de 2009

Homenagem ao Jornal - Caça

No dia 05 de Dezembro de 2009, o jornal diário Açoriano Oriental publicou um artigo da autoria de Gualter Furtado, sob o título de "A minha homenagem ao Jornal - Caça", que poderá ser lido a seguir.

"Recentemente numa véspera de uma caçada às Galinholas na Ilha do Pico, na Piedade e na perigosa adega do Cremildo, entre algumas histórias de caçadores e um copito de nêveda, aguardente de figo, etc, um caçador continental de nome Nuno Sebastião, perguntou-me se eu já tinha ouvido falar num jornal de caça que tinha sido publicado em São Miguel na década de 30 do séc. passado. Eu respondi que não, mas que em breve e a ser verdade ia procurar ler todos os números deste jornal.
O Nuno Sebastião é detentor de uma das mais importantes bibliotecas de cinegética sobre a caça no “Mundo Português”.
Já em São Miguel contactei o Pedro Miguel Silveira de Santa Maria que também é um caçador bem informado e pai de um dos melhores blogues de caça do País (Ribeira Seca), que prontamente me confirmou esta informação, mais, disse-me que o jornal de nome Caça foi fundado em 1936 e o seu número 1 saiu no dia 1 de Junho de 1936 que era um jornal "mensário e de distribuição gratuita aos Caçadores do Distrito (São Miguel e Santa Maria)" e que o seu Redactor - Editor - Proprietário era o Senhor Eduino G. Botelho.
Munido desta informação pedi ajuda ao Senhor Albano Martins do Vale (Bibliotecário, Pescador e Caçador) que prontamente localizou na Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada os 11 números do jornal que penso serem a totalidade da edição desta pioneira e louvável iniciativa realizada no séc. passado. Portanto o meu muito obrigado ao Sr Albano Martins do Vale.
Este jornal editado na gráfica do Açoriano Oriental merece ser recordado hoje e a minha sentida homenagem à meia dúzia de caçadores que tomaram esta iniciativa.
O jornal publicou-se em 1936 e 1937 e tem artigos muito pedagógicos e informações muito úteis para a população e para os caçadores de então. Artigos sobre as espécies cinegéticas, as doenças dos cães de caça, introdução de faisões e perdizes, combate aos furtivos, eram frequentes e alguns deles mantêm a sua actualidade.
Através do jornal Caça pode-se constatar o pioneirismo dos Serviços Florestais de então na promoção da caça, e que deveria ser um incentivo acrescido para a versão actual dos Serviços Florestais.
Os Colaboradores eram meia dúzia de entusiastas pela caça desejosos de levar ao conhecimento dos caçadores e população rural a importância da caça, e designadamente as regras, as leis, as espécies cinegéticas que regiam e constituíam o Mundo da Caça.
Não resisto em transcrever parte do editorial publicado no Nº 1 do Jornal Caça: "... É nosso objectivo despertar o interesse dos caçadores pela caça e nestas palavras cabe tudo o que por este magnifico desporto é necessário fazer-se para que no nosso meio haja caça, haja caçadores e para que cada um tenha por este assunto toda a dedicação, todo o carinho, e até mesmo todo o respeito...” Como são tão actuais estas palavras escritas já lá vão 73 anos!
Aqui fica a minha Homenagem aos Senhores Eduino G. Botelho, Eduardo Rebelo, Vasco Bensaude e a todos os que participaram nesta iniciativa de Cidadania a favor da Caça com regras, entusiasmo e respeito."



Para concluir este "post", gostaria de salientar o seguinte:

- A referência elogiosa que nos é dirigida directamente e que muito nos sensibiliza, em verdade, não a merecemos, pelo que a mesma só poderá ser compreendida em função da vasta educação e delicadeza que caracteriza o autor do texto acima, demonstrada, também, através da enorme partilha de informação e da empenhada colaboração na construção deste lugar de Caça.

- Quem nos deu a conhecer a existência do jornal "Caça" foi o Sr. Nuno Sebastião, aliás, é aos bons conselhos dele que devemos alguns dos bons livros que temos a sorte de desfrutar e de compartilhar, sendo este, precisamente, o nobre sentimento que nos une e que também esteve na origem do Jornal - Caça.

A Todos, bem hajam!

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