30 de março de 2015

Lagoa das Furnas

Percurso de cerca de 7 km, fácil e muito bonito.
Com o fascínio de recordar a minha infância, pois era exatamente nas margens desta Lagoa que com 10 anos de idade costumava acampar, usando como tenda um oleado montado sobre uma estrutura de canas da Índia.
A minha companhia era uma pressão de ar, Diana 25, uma caixa de fósforos e um pequeno saco de sal.
Agora sem caça e com os meus cães de quarentena, há que arranjar alternativas para se manter a forma e tentar esquecer a tragédia que se abateu sobre o nosso coelho-bravo.






Texto e foto de Gualter Furtado

11 de março de 2015

Associação Micaelense de Caça reúne com DRRF

Atendendo ao elevado interesse e pertinência do tema da DHV nos Açores, publica-se a informação prestada pela AMC aos seus associados, resultante da reunião que manteve ontem com a Direcção Regional dos Recursos Florestais.

INFORMAÇÃO PARA OS MEMBROS DA ASSOCIAÇÃO MICAELENSE DE CAÇA

No seguimento da reunião promovida pela Associação Micaelense de Caça no dia 6/03/2015 no Clube de Tiro de São Miguel e durante a qual foi amplamente debatida a atual situação que se vive na cinegética de São Miguel e dos Açores e como consequência do surto hemorrágico que afetou o coelho bravo em 8 ilhas dos Açores. Em relação a esta reunião foi emitido um Comunicado e que foi amplamente divulgado. Foi então deliberado solicitar uma reunião à Direção Regional dos Recursos Florestais e, dando cumprimento a esta decisão, solicitamos esta reunião que se realizou nas instalações da referida Direção Regional no dia 10/03/2015 pelas 16h, tendo participado na reunião a Senhora Diretora Regional Eng.ª Anabela Isidoro e o Eng.º Manuel Leitão em representação dos Serviços que oficialmente têm a tutela da Caça nos Açores e pela Associação Micaelense de Caça o seu Presidente e Vice-presidente respetivamente o Sr. Paulo Cruz e o Eng.º Pedro Moniz e ainda o Presidente da Assembleia Geral o Dr. Gualter Furtado.
Os representantes da Associação Micaelense de Caça agradeceram à Sr.ª Diretora Regional a prontidão em nos receber. De imediato foi transmitido a grande tristeza que grassa nos Caçadores Açorianos com a mortandade dos coelhos bravos e as preocupações manifestadas pelos caçadores na reunião de 6/03/2015:

- Maior diálogo e transmissão de informações por parte dos Serviços Florestais;
- Evolução do surto hemorrágico;
- Se existiam informações sobre a origem deste surto hemorrágico;
- Necessidade de se reforçar a componente científica e técnica durante esta crise e na fase posterior a esta;
- Como são realizados os Censos;
- Expectativa quanto à libertação dos cães caça;
- O Futuro do coelho bravo;
- E a nossa disponibilidade para o diálogo.

Ficamos com a promessa por parte dos Representantes da Direção Regional dos Recursos Florestais que estariam disponíveis para nos prestarem regularmente informações acerca do surto hemorrágico. Depois fizeram o ponto de situação atualizado do número de coelhos mortos nas diferentes Ilhas, de reter que continuam a morrer coelhos bravos na Ilha de São Miguel. Quanto à origem do surto hemorrágico na Ilha Graciosa a Sr.ª Diretora Regional relatou-nos que os Serviços Florestais informaram o Ministério Público e o SEPNA que se disponibilizavam para colaborar com informações que eventualmente possam ser úteis às investigações.
Informaram ainda que a libertação dos cães de caça só poderia ocorrer “dois meses depois de se recolher o último coelho morto “, sob pena de se estar a contribuir para o alastramento desta virose hemorrágica. Sabemos que não são só os nossos cães de caça que podem provocar a difusão da hemorrágica, mas concordamos aguardar mais um mês findo o qual será feito novo ponto de situação.  

7 de março de 2015

Comunicado da Associação Micaelense de Caça

1 - Tomamos conhecimento pelos Órgãos de Comunicação Social que a Direção Regional com a tutela da Caça nos Açores, confirmou a estirpe da doença hemorrágica no coelho-bravo na Ilha de São Miguel e praticamente em todas as Ilhas do Arquipélago. 

2 - Os caçadores da Associação Micaelense de Caça manifestam um profundo pesar com esta situação e que prejudica gravemente a sustentabilidade do coelho-bravo nos Açores, embora no caso da Ilha de São Miguel não se conheça ainda e em toda a extensão em que medida esta virose afetará a população do coelho-bravo na Ilha. Aguardamos informação relevante por parte da Direção Regional e dos Serviços Florestais, a quem compete este dever de informação.

3 - Associamo-nos a todos aqueles que exigem um cabal esclarecimento por parte das entidades oficiais sobre a origem deste surto de hemorrágica e como sabemos teve o seu início na Ilha Graciosa. A comunidade dos caçadores Micaelenses e Açorianos merecem este esclarecimento.

4 - A Associação Micaelense de Caça considera que foi acertada a interdição da caça por parte dos Serviços Oficiais que tutelam a caça como mais um meio preventivo e de impedir uma maior circulação da virose, embora e infelizmente saibamos que a circulação da hemorrágica pode ocorrer por outras vias em que não se exclui a intenção premeditada e criminosa.

5 - Sugerimos que seja formalmente solicitada e realizada uma reunião com a Direção Regional dos Recursos Florestais, para que sejamos informados sobre os mais recentes desenvolvimentos sobre este surto de hemorrágica na Ilha de São Miguel e nos Açores.

6 - Preocupa-nos muito o bem estar dos nossos cães de caça, apelando-se a todos os caçadores para fazerem um esforço adicional e até mesmo sacrifícios para nestas circunstâncias garantirem e preservarem os seus cães, grandes companheiros e amigos dos caçadores.

7 - Continuam a morrer coelhos bravos na nossa Ilha, sendo assim, não nos parece aconselhável para já a libertação nos terrenos de caça dos nossos cães de caça, embora saibamos que não são só os nossos cães que iriam difundir a hemorrágica, mas este é o nosso contributo responsável para garantirmos a sustentabilidade do coelho-bravo, animal bravio que se confunde com a natureza e a história dos Açores. As nossas Ilhas e mesmo a agricultura açoriana ficariam bem mais pobres com o desaparecimento do nosso coelho-bravo. Logo que houvesse sinais mais claros sobre o comportamento desta virose hemorrágica, esta questão da libertação dos cães de caça e principalmente nos campos de treino deveria ser prontamente equacionada.

8 - Reafirmamos a nossa total disponibilidade para cooperar com as entidades oficiais e todos os parceiros do setor e sempre com o objetivo de preservar o coelho-bravo, o bem-estar dos nossos cães e o direito consciente à pratica do ato cinegético. 

Comunicado síntese da reunião da Associação Micaelense de Caça, ocorrida a 06 de Março de 2015
Gualter Furtado, o Presidente da Assembleia-geral
Paulo Cruz, o Presidente da Direção

3 de março de 2015

Caçadores vão discutir situação da caça e medidas a tomar

REUNIÃO 06 DE MARÇO, PELAS 18H30, NO CLUBE DESPORTIVO DE TIRO DE SÃO MIGUEL

Confirmada que se encontra a existência da nova estirpe da doença hemorrágica no Arquipélago (a mais mortal de todas), o aparecimento deste surto está a causar muita estranheza e preocupação entre os caçadores.
Os caçadores que se manifestaram em Ponta Delgada acusaram o governo de “passividade” face ao problema, o que foi prontamente rejeitado pelas autoridades regionais.
Estes assuntos serão discutidos pelos caçadores da Ilha de São Miguel, na próxima sexta-feira, dia 6 de Março, pelas 18h30, nas instalações do Clube Desportivo de Tiro de São Miguel.
O encontro é organizado pela Associação Micaelense de Caça, constando da ordem de trabalhos o grave problema da doença hemorrágica e outros casos ligados à caça, bem como as medidas urgentes que devem ser tomadas.

2 de março de 2015

Mais de 10 mil coelhos mortos recolhidos em 7 ilhas

As autoridades regionais já estão na posse dos resultados das segundas análises aos coelhos mortos, que reconfirmam a presença da nova estirpe da Doença Hemorrágica Viral dos Coelhos.
Mais de 10 mil coelhos mortos já foram recolhidos pelos Serviços Florestais em sete ilhas - soube o “Diário dos Açores” de fonte da Direcção dos Serviços Florestais.
Os primeiros exemplares começaram a ser recolhidos na ilha Graciosa em 29 de Novembro do ano passado, aumentando até ao dia 26 de Fevereiro em várias ilhas, com destaque para as Flores, onde foram recolhidos 6.860 coelhos (ver quadro nesta notícia). Até agora os Serviços Florestais não têm registos de coelhos mortos apenas nas ilhas de Pico e Corvo, mas, tal como noticiámos na edição de sábado, vários caçadores picoenses dizem já ter encontrado muitos coelhos mortos naquela ilha e estranham que não seja do conhecimento das autoridades.
O nosso jornal sabe que, ainda no passado fim de semana, caçadores do Pico enterraram vários exemplares pequenos na zona do Paúl da Borrega.
Também nesse fim de semana foram encontrados mais coelhos mortos nas matas da margem sul da lagoa das Furnas, em S. Miguel.
Tal como foi revelado pelo nosso jornal, as primeiras análises em S. Miguel confirmaram o vírus hemorrágico, mas na sexta-feira o governo recebeu, segundo sabemos, as segundas análises, que reconfirmam a presença da nova estirpe da Doença Hemorrágica Viral dos Coelhos.
Fonte oficial da Direcção dos Serviços Florestais disse ao “Diário dos Açores” que a proibição de caça foi decretada naquelas ilhas, “nalguns casos preventivamente, mesmo sem os resultados definitivos das análises, e devido ao significativo número de animais encontrados. Apesar do decréscimo ou até ausência de animais mortos encontrados nas ilhas onde se detectou a doença mais cedo (antes de S. Miguel e Santa Maria), mantém-se a prevenção dos serviços com vistorias e a interdição de caça”.

Caça ao pombo-torcaz e melro preto

Entretanto, vai ser autorizada a caça ao pombo-torcaz e ao melro preto a partir de Junho, no Pico e na Terceira, numa decisão que não merece a aprovação de alguns caçadores. 
As autoridades entendem que “estamos perante espécies não cinegéticas e protegidas”, pelo que “de 15 de Junho a 15 de Setembro e durante esse período, é permitida a correcção, num período mais alargado, de densidade populacional em áreas específicas (nas áreas de vinha da Terceira e Pico), através de requerimento à Direcção Regional de Ambiente, com recurso a diversos métodos, entre os quais a arma de fogo desde que em respeito pela lei da caça”.

Diário dos Açores
Transcrição da notícia de 03 de Março de 2015

28 de fevereiro de 2015

O descontentamento dos caçadores sobe de tom

O Diário dos Açores,  avança hoje, na primeira página que está confirmada a morte dos coelhos na Ilha de São Miguel através da hemorrágica. 
Também ficamos a saber que os coelhos já estão a morrer na Ilha do Pico e, ao que tudo indica, pelas mesmas razões.
Vislumbramos igualmente que se prepara a abertura da caça ao melro negro e ao pombo-torcaz na Ilha Montanha, sem que os caçadores tenham sido ouvidos no processo, o que tem provocado um enorme mal-estar junto da comunidade venatória, ameaçando Cremildo Marques, representante dos caçadores no Conselho Cinegético da Ilha do Pico, demitir-se das suas funções naquele organismo.
À semelhança do que se passa nas restantes Ilhas dos Açores, com especial relevo para a Ilha de São Miguel, que até já viu descer à maior cidade desta Região uma manifestação de caçadores no passado Domingo, o descontentamento com a actual situação da caça é crescente e sobe agora de intensidade, desconhecendo-se como isto irá acabar, se não houver promoção do diálogo. 

Foto resultante do recorte da notícia do "Diário dos Açores" (pp. 4)

27 de fevereiro de 2015

Resposta ao Diogo Caetano

Conforme já tive a oportunidade de transmitir ao Dr. Diogo Caetano e ele já me respondeu, a propósito do seu artigo publicado no Correio dos Açores de 26 de Março, com o título “Caça Hemorrágica”, refiro que existem caçadores e “caçadores”, razão porque quando se aborda o tema da caça não se podem fazer generalizações, inclusivamente, não fosse o contributo dos caçadores (sem aspas) por este Mundo fora e algumas espécies de aves e mesmo de outros exemplares do mundo animal, já teriam sido extintas. Acresce, que não partilho da ideia que nos Açores o coelho-bravo seja uma “praga das culturas agrícolas”.
Numa fase em que os Açores optaram, e bem, por uma marca em que a nossa Natureza é altamente valorizada, o caçador açoriano deve estar na primeira linha da defesa do ambiente e no qual se inclui o coelho-bravo, razão porque nos dias de hoje não me revejo na sua “Caça Hemorrágica”.


Gualter Furtado
Correio dos Açores, 27 de Fevereiro de 2015

23 de fevereiro de 2015

Caçadores manifestam-se na Ilha de São Miguel

O jornal Açoriano Oriental dá-nos a saber que, ontem, a cidade de Ponta Delgada, foi palco de uma manifestação de cerca de 200 caçadores que saíram à rua com os seus cães de caça em protesto, numa iniciativa do Clube de Caçadores de Vila Franca do Campo (CCVFC), sobre a Doença Hemorrágica Viral (DHV) e contra uma alegada passividade das entidades oficiais em relação à existência e disseminação daquela doença.
Em esclarecimento, a Direcção Regional dos Recursos Florestais (DRRF) fez saber que as medidas tomadas "têm permitido, até à data, uma evolução positiva na contenção dos efeitos do surto nas ilhas onde a doença foi detectada ou por precaução a caça foi proibida", acrescentando que foram ainda "emitidos editais para prevenir a disseminação da doença para outras ilhas, proibindo a circulação de coelhos e seus derivados, assim como de cães de caça".
A determinada altura, José Maria Arruda, presidente da direcção do CCVFC, faz afirmações que considero graves.
Diz ter provas da introdução do vírus na Ilha de São Miguel, não obstante o facto de ter apresentado denúncia no Ministério Público e na GNR, e acrescentou que o CCVFC também iria recolher assinaturas para denunciar a alegada passividade e conivência dos governantes, no Parlamento Regional, junto do Representante da República para os Açores e no Parlamento Europeu, dizendo que os caçadores estavam “cansados”.
Correndo inquérito para averiguar a verdade sobre a existência e a prática de um crime, neste caso da alegada introdução criminosa do vírus nos Açores, seria de todo conveniente que informasse a autoridade judiciária competente da prova que diz possuir, como é da sua obrigação, ao invés de bradar na comunicação social que a tem, se é que a tem.
Quando ainda se esperam os resultados das análises realizadas aos coelhos encontrados mortos e quando é do conhecimento que foram tomadas medidas por parte da DRRF para precaver a extensão dos danos, é leviana a recolha das assinaturas e precipitada a manifestação.
Certamente que se trata de um contexto que nos preocupa a todos e que exige medidas urgentes e concertadas, mas há tempos e limites a respeitar e esses foram ultrapassados.
Que se fará na próxima ocorrência da doença? Abater as aves migratórias? Sim, porque essas também podem transportar o vírus. 
Isto que se fez em nome dos caçadores, não me representa e nada alcançará de positivo.
A bem da verdade, já me bastava a DHV.

22 de fevereiro de 2015

Pombo-torcaz-dos-Açores

O Pombo-torcaz-dos-Açores (Columba palumbos azorica) desde 1993 que é considerado no Arquipélago dos Açores uma espécie incluída na Diretiva das Aves, com o estatuto de ave protegida, e abrangida pela Conservação das Aves Selvagens. Logo a caça a esta espécie está proibida nos Açores.
O Pombo-torcaz é o pombo com maior envergadura na Europa e os que habitam e se reproduzem nos Açores são mesmo tidos pelos estudiosos das aves como uma subespécie endémica do Arquipélago.
É uma ave de grande porte, muito bonita e que tem como habitat privilegiado as matas coníferas embora nos últimos anos seja frequente a sua presença nos jardins das cidades da Europa, inclusive nos mais importantes núcleos urbanos dos Açores.
Nos anos mais recentes devido à expansão desta bonita ave levantam-se muitas vozes, incluindo de caçadores, sendo que alguns são mesmo meus amigos e companheiros de caça,  a defenderem que se deveria abrir a caça ao Pombo-torcaz, e isto como forma de minimizar os prejuízos que esta espécie estaria a provocar na agricultura.
O caminho nos Açores não deve ser este, mas sim indemnizar os prejuízos eventualmente causados pela espécie e elucidar e ajudar os agricultores para que adotem medidas naturais e ambientais de proteção das suas produções agrícolas.
Sabemos que, por exemplo, na Ilha do Pico andam a envenená-los, o que é considerado um crime, mais um que está a ser cometido nestas nossas Ilhas.
A abertura da caça a esta espécie significaria um retrocesso na nossa civilização e municiaria os grupos anti caça de mais um argumento poderosíssimo no combate à caça e aos caçadores.

Texto e fotografia da autoria de Gualter Furtado

Gualter Furtado, um dos caçadores vivos  dos Açores que mais Pombos-torcazes cobrou nos Açores e em Portugal.
A foto é de um borracho de Pombo-torcaz-dos-Açores, captada pelo autor numa mata da Ilha de São Miguel.

9 de fevereiro de 2015

Dias negros para a caça nos Açores

Recentemente publiquei um artigo com o título “Mortandade de coelhos na Ilha Graciosa”, e a este propósito escrevi, “Paira a dúvida na comunidade de Caçadores  Açorianos se esta brutal mortandade de coelhos foi resultado de mão criminosa, que trouxe para a ilha coelhos infetados pela virose hemorrágica e que rapidamente infetou os coelhos locais, ou, se estamos perante um fenómeno natural que leva a que a hemorrágica apareça ciclicamente nestas Ilhas mediante certas condições climatéricas e outras“, embora saibamos que a variante deste vírus seja diferente da que foi detetada em anteriores epidemias nos Açores e se assemelhe à que ocorre presentemente no Continente  Português  e com  resultados catastróficos. Até hoje não tivemos resposta para esta dúvida.
Depois da Graciosa, São Jorge, Terceira e Flores parece que a Hemorrágica poderá ter chegado à Ilha de São Miguel, pois foram recolhidos no dia 08/02/2015 vários cadáveres de coelhos-bravos nesta Ilha.
Ao que nos informaram os Serviços Florestais, já têm em sua posse vários exemplares, agora só nos resta aguardar os resultados das análises, mas certamente e infelizmente estamos preparados para o pior.
Os caçadores Açorianos e todos aqueles que são amigos da natureza estão a viver dias negros nestas Ilhas.
Sempre defendi que a caça deve estar unida com a Agricultura, e  certamente que o desaparecimento do coelho-bravo da paisagem Açoriana é um duro golpe para todos, sobretudo para uma Região que pretende escolher para Marca de referência a natureza e o meio ambiente.

Gualter Furtado 

7 de fevereiro de 2015

Fiz anos

Fiz anos. Acontece a qualquer um, não é? Não sei, não posso saber, como cada um de vós comemora o seu dia. 
Tempos houve em que o meu dia era uma festa. Mas, o pouco com que a fazia, esvaziou-se das presenças que a faziam. E vieram anos em que, enfim, se mastigava o dia. Depois voltei a desejá-lo: eu queria tanta coisa! Duma simples cartucheira a um atrelado de cães, duma mala de espingarda a uma edição dum livro anos a fio desejado, eu precisava e queria tudo.
Hoje, há alguns anos já, devo dizê-lo, não preciso de nada, não quero nada. Um maço de cigarros serve de prenda. Dos que eu fumo, claro. Houve até, pelo meio, alguns anos em que dei a mim mesmo "aquela prenda". Mas, já não quero nada, não preciso de nada. Agradecido, naturalmente, sempre fui. A família traz uns cheques-livro e eu fico contente. Podia ser tão sómente um maço de tabaco (dos que eu fumo) e já seria muito bom.
Vocês, claro, não souberam mas fiz anos. Há quem, no seu dia, vá jantar fora, a um lado qualquer. Mas eu nunca gostei disso. Aprecio estar na minha casa, na minha jaula, com os meus. Havendo o bulício dos próximos, melhor. Já não conto - não posso contar - com a repetição dos dias em que ruidosamente apareciam os que haveriam de ir às sortes comigo. Agora, com o passar dos anos, habituei-me a um estranho recolhimento em que pesa mais a memória, as "lembrances" que o foguetório do dia. Mas, a carga de nostalgias que isso induz e sempre ensombra uma data, que deve ser nobre, porque sempre é um rei que faz anos tem-me levado a socorrer-me da família para a esconjurar. Impedida por força maior, a família este ano não esteve disponível. Minha mulher, sempre amante, sempre amiga, quiz saber o que eu mais desejava para o jantar. Mas não a pude ajudar, por nada querer, por já nada precisar. "Deixa - disse-lhe - vou convidar uns amigos e basta-me um copo de vinho, umas taliscas de presunto". Imaginou, justamente, a casa invadida, inquiriu, barafustou mas eu, com o meu envelhecido rosto, limitei-me a dizer-lhe "Eu trato de tudo. Não estragues o MEU dia".
Os convidados começaram a chegar. O primeiro, reconhecio-o logo pelo rosto picado das bexigas:
- Camilo, que honra, entre... e não se há-de ir embora sem falarmos da cabra tinhosa no fojo.
- O segundo vinha com a velha samarra: Mestre Aquilino, não imagina como me alegra a sua presença! Vou querer que me explique como levou um pointer para a sua Soutosa.
Não imagina como isso me tem intrigado!
E assim se sucederam. O Pe. Domingos, Torga, Galvão...
Acácio da Rapada vinha com com o Dr. Fausto que, deselegantemente, ainda vinha a remorder «Ele que se foda, deixa-o ficar, que se aguente se quizer que as perdizes não esperam. Vir para aqui de fatinho brasileiro e não aguentar uma linha...» e a desdizer de quem tanto gostava, do Tomaz, que, de resto, também não faltou. Devo-os nomear todos? Mas, se foram tantos... Invadiram-me a casa, inundaram-me a casa. E eu apenas com um copo, uma garrafa e presunto de que sobravam apenas aparas.
Lá fora, entretanto, os cães da vizinhança entraram em alvoroço. E como a minha rua é tal e qual como a que David Mourão-Ferreira escreveu para a Amália " ...rua quieta / onde à noite / ninguém passa..." fui ver. Mal abri uma nesga da porta, entraram os meus cães todos, alguns, devo dizê-lo, de que eu ingratamente já nem me lembrava. Com eles reparti o resto do presunto e ergui o copo a um brinde: um ano, um ano mais, amigos, convosco à minha mesa, convosco pelos montes onde, neste momento deve estar tanto, tanto frio...

Sérgio Paulo Silva
05/02/2015

13 de dezembro de 2014

Mortandade de coelhos na Ilha Graciosa

O Governo da Região Autónoma dos Açores encerrou a caça a todas as espécies cinegéticas na Ilha Graciosa, Ilha do Grupo Central dos Açores.
Esta medida foi tomada no seguimento de um elevado surto de Hemorrágica nos coelhos bravos que ameaça dizimar quase toda a população desta espécie cinegética  naquela Ilha. Nos últimos dois anos a dimensão demográfica de coelhos na Ilha Graciosa apresentava resultados muito positivos ao ponto de alguns caçadores locais retomarem a caça desta espécie, e, inclusivamente, constituído matilhas de podengos, estando agora desolados com o que se está a passar.
Paira a dúvida na comunidade de caçadores açorianos se esta brutal mortandade de coelhos bravos foi resultado de mão criminosa, que trouxe para a Ilha coelhos infetados pela virose hemorrágica e que rapidamente infetou os coelhos locais, ou, se estamos perante um fenómeno natural que leva a que a hemorrágica apareça ciclicamente nas Ilhas  mediante certas condições climatéricas e outras.
Era muito importante que esta dúvida fosse esclarecida. E quem a pode esclarecer são as Autoridades  Policiais, os Serviços Florestais e a Ciência. 
Os caçadores açorianos de outras Ilhas que já viveram no passado este filme de terror, designadamente os das Ilhas Terceira, Santa Maria e de São Miguel, vivem mais uma vez uma grande angústia que é esta doença viral hemorrágica poder a vir espalhar-se novamente pelo Arquipélago, razão porque todo o cuidado é pouco e temos de estar de olhos bem abertos.
O coelho bravo, praticamente desde os primórdios do povoamento das Ilhas Açorianas, que faz parte da nossa realidade rural e constitui um património natural relevante da nossa história. Acreditamos e defendemos que deve haver um compromisso permanente e equilibrado entre os agricultores e os caçadores, por forma a que os lavradores e os agricultores não sejam prejudicados quando ocorrem episódios de sobre-população de coelhos e sejam  ajudados pelos caçadores e vice-versa quando surgem ameaças à sustentabilidade do nosso coelho bravo.
Os próximos dias vão ser muito importantes neste processo.
Relembro que estão em causa muitos valores fundamentais, como seja, por exemplo, as centenas de cães de caça das nossas matilhas.

Gualter Furtado
13 de Dezembro de 2014

8 de dezembro de 2014

Abertura às Codornizes na Ilha de São Miguel

A caça à codorniz na Ilha de São Miguel abriu no dia 7 de Dezembro de 2014 e prolonga-se até ao último Domingo deste mês. Este ano fiz a abertura com o meu parceiro de caça que é o Celestino e acompanharam-nos os meus dois experientes Épagneul bretões, cujos nomes são a admirável Pipoca (F) e o eficiente Pico (M). Escolhemos os terrenos em função do vento moderado de quadrante nordeste, do tipo de maneio que foi aplicado nos tempos mais recentes, do conhecimento do habitat e dos resultados que obtivemos nas últimos épocas. 
A arma que utilizei foi a Browning Maxus, de calibre 12, com 66 cm de cano, choque cilíndrico e cartuchos de bucha de feltro, Galgo Verde, de 32 gramas e de chumbo 9. 
Normalmente utilizo para caçar a esta espécie cinegética a minha paralela Arrieta, de calibre 20, mas como de seguida íamos caçar aos coelhos com os meus outros cães optei pela primeira que é também uma arma polivalente, leve e com a qual tenho obtido excelentes resultados. 
Só fomos depois caçar aos coelhos, porque dá-me pena ver os meus cães coelheiros não poderem fazer o que mais gostam na vida que é caçar e depois, em São Miguel, os dias que se podem caçar a esta espécie não são muitos. Mesmo assim foram seis horas a andar.
Voltando às codornizes, o dia estava excelente para o trabalho dos cães de parar, proporcionando paragens magníficas e cobros muito bonitos. 
As codornizes foram todas cobradas depois de paradas pelos cães, como deve ser neste tipo de caça.
Longe vão os tempos em que se faziam nesta ilha de São Miguel caçadas de dezenas de codornizes e sem pôr em causa a sustentabilidade da espécie. Era o tempo em que a cultura dominante dos Açores era a produção do trigo ceifado à mão e não existiam os adubos, pesticidas e outros produtos químicos que tanto mal fazem às espécies cinegéticas. Não obstante, as mudanças profundas ocorridas nas ultimas décadas no habitat das Ilhas, nas técnicas e no maneio dos campos, ainda hoje esta autêntica heroína, que é a codorniz açoriana, continua a ser a espécie rainha de muitas Ilhas Açorianas e a proporcionar jornadas de caça inesquecíveis.
Compete aos caçadores açorianos e aos serviços oficiais tudo fazerem para preservar este património cinegético que nasce e vive nestas bonitas Ilhas.



Texto da autoria de Gualter Furtado 
Foto da autoria de Mário Arrifano
As codornizes que constam do quadro de caça, resultam do esforço de três caçadores

10 de outubro de 2014

Abertura às Galinholas nos Açores - 2014

A época da caça às Galinholas de 2014 já abriu nos Açores.
Cada Ilha em que é permitida a caça a esta espécie cinegética nobre tem o seu calendário venatório próprio, possuindo em comum que todos começam no mês de Outubro, mas terminam em Novembro ou Dezembro consoante a Ilha em causa.
A caça à Scolopax rusticola nas Ilhas Açorianas só pode ser exercida aos Domingos, durante um período limitado de horas, e o número de espécies cobradas varia entre duas a três Galinholas por caçador.
O processo de caça só pode ser de salto e com cão de parar.
De referir que as Galinholas nos Açores são sedentárias, exigindo pois uma gestão muito cuidada para garantir a sua sustentabilidade. Os principais inimigos da Galinhola são os predadores (cães abandonados e gatos) e principalmente a mudança do habitat. O meio ambiente onde habita a Galinhola é normalmente de difícil acesso e está intimamente ligado com a flora endémica dos Açores. A sua destruição significa um duro golpe na história e na vida do Arquipélago que ainda é um dos mais puros do Globo.

A título de curiosidade a foto foi tirada exactamente na linha da fronteira mais a Ocidente da Europa.
A "pedra" (Ilhéu de Monchique) que se vê no mar deu origem à expressão portuguesa "emigrar a salto", pois era utilizada no século passado na emigração clandestina para os Estados Unidos da América, aproveitando os navios que passavam ao largo da Ilha das Flores, na travessia do Atlântico.

Texto e foto da autoria de Gualter Furtado

21 de setembro de 2014

Estórias de um não caçador confesso

O primeiro tiro

Vou procurar explicar tintim por tintim, qual a razão porque não sou caçador. Em primeiro lugar porque não fui bem sucedido no primeiro disparo, ocorrido aí pelos quinze anos de idade, já que por mau aconchego da coronha no ombro, assim que disparei, apanhei com ela nas ventas e fiz marcha atrás devido ao coice da espingarda. Foi um baptismo de fogo que me marcou para o resto da vida. Hoje, a minha consciência crítica interroga-se, perguntando:
- Quem te mandou a ti sapateiro, tocar rabecão?
Só no sétimo ano do Liceu, aí pelos dezoito anos, vim a perceber como funcionam a Física e a Matemática relativas ao disparo de uma arma de fogo e em particular, o facto de cada disparo ter associado a ele um recuo da arma, o qual na gíria dos caçadores é conhecido por “coice”. Trata-se de um fenómeno dinâmico que envolve a lei da igualdade da acção e da reacção e a lei da conservação da quantidade de movimento. Face à primeira daquelas leis, a qualquer acção de um corpo sobre outro corresponde uma reacção oposta e de grandeza igual à acção. Daí que à força propulsora que faz mover o chumbo de caça esteja associada uma força oposta associada à arma e daí o “coice”. Por outro lado face à segunda daquelas leis, num sistema isolado, a quantidade de movimento do sistema permanece constante. A quantidade de movimento de um sistema é o produto da massa pela velocidade. No nosso caso, o sistema é a espingarda com um cartucho lá dentro. Antes do disparo, a quantidade de movimento da espingarda com um cartucho lá dentro, é zero. Terá de ser o mesmo depois do disparo. Mas após este, o sistema separou-se em duas partes. Daí que a quantidade de movimento do chumbo expelido seja simétrica da quantidade de movimento da arma disparada.
O “coice” que me atingiu ocorreu no decurso de férias grandes passadas em casa do meu tio paterno, na aldeia da Cunheira, no concelho de Alter do Chão. O meu tio era um exímio caçador e assistiu ao infortúnio com a espingarda que me emprestara para eu dar o meu primeiro tiro. Como era um grande brincalhão, nesse dia à tarde submeteu-me à chacota dos frequentadores da taberna de que era proprietário e eu senti-me vexado com as chalaças do meu tio. Como eu o costumava acompanhar a ele e aos caçadores nos petiscos de fim de tarde, bebendo “traçadinhos”, nessa tarde inverti as proporções e usei mais vinho que pirolito de berlinde. O resultado está à vista. Tive que ir mais cedo para a cama e no outro dia de manhã acordei com a boca a saber-me a bicicletas partidas.

A espera às rolas

Noutro dia daquelas fatídicas férias o meu sempre bem disposto tio, levou-me com ele à caça às rolas na modalidade de “espera”. Para tal ficámos emboscados numa choça construída pelo meu tio com vegetação existente no local. O nosso quartel-general fora implantado pelo meu tio à distância julgada conveniente de uma nascente de água existente no meio do mato e onde as rolas iam beber no pino do calor. Todavia, apesar do engenho e arte do meu tio, tanto na construção da choça como pela experiência de tiro, as rolas tardavam em descer dos ares e não se iam dessedentar ao nascente. Intrigado com o que se estava a passar e que não era habitual, o meu tio saiu para fora da choça para avaliar melhor a situação. A conclusão a que chegou foi rápida. As rolas não se aproximavam da nascente, porque eu com quinze anos de idade, tinha um metro e setenta e cinco de altura e metade das pernas fora da choça, a denunciar a nossa presença às rolas. Nesse dia à tarde, fui outra vez alvo das graçolas do meu tio e das risadas dos caçadores. É que ele disse na taberna:
- Hoje fui às rolas e pela primeira vez apanhei uma “grade”. Sabem porquê? É que o meu sobrinho tem pernas de girafa e espantou as rolas.
Nessa tarde cheguei à conclusão que fora talhado para ser não caçador, pelo que fiquei com a cabeça fria. Bebi os traçadinhos com mais pirolito que vinho, deitei-me à hora normal e no dia seguinte acordei fresco que nem uma alface. Daí que por mim, siga o adágio:
- Quem quer caça vai à praça!

Texto da autoria de Hernâni Matos
Autor do blogue Do Tempo da Outra Senhora 

Aguarela Rola-brava ou Rola-comum, da autoria de Francisco Charneca
Perfil no Facebook Francisco Charneca

20 de setembro de 2014

A Colectânea Literária Cinegética vista por Hernâni Matos

ADVERTÊNCIA

Não sei se vai ocorrer aqui hoje ou não, uma tragédia cinegética ou até mesmo um eventual ecocídio. É que só o Diabo se podia lembrar de me convidar para falar desta admirável colectânea literária cinegética. É que eu nem sequer sou “marteleiro”, mas sim um não caçador confesso.
Se não foi o Diabo, então quem foi? Hum, isto cheira-me a tramóia de Mestre Velho Murtigão, afastado dos seus afazeres rituais nos santuários bacorais de Santo Alêxo da Restauração e com o espírito liberto para fazer das suas. Eu até era capaz de jurar pela alma dos quatro perdigões reais, que a urdidura e a trama desta tragédia cinegética tem a marca inconfundível de Mestre Velho Murtigão. Todavia ele não será o único culpado, já que terá contado com a colaboração de mais dois cúmplices. Um deles foi o Francisco Charneca que terá sido o seu lugar-tenente em toda esta marosca. O outro foi o José Amaro, que foi o mestre-de-cerimónias que com falinhas mansas acabou por ser o responsável final por eu estar aqui hoje.
Foi uma armadilha que me montaram e eu caí na esparrela de ter de falar destas caçadas literárias. Convenci-me desde logo que o convite formulado fora fruto das circunstâncias de não terem arranjado um especialista de serviço. Lá diz o rifão “Quem não tem cão, caça com gato”. E nisto tudo havia gato e o gato era eu, pelo que a minha primeira reacção foi declinar o convite do José Amaro. Aconteceu, porém que li uma dedicatória na contracapa do livro, a qual reza assim: “Aos nossos companheiros, cúmplices e amigos inseparáveis da Caça – os cães”. Foi então que mudei radicalmente de opinião e aceitei o convite do José Amaro. Sabem porquê? Porque aquela dedicatória também me é dirigida, já que “Alentejanos, argarvios e cães de caça, é tudo a mesma raça”. Aceitei pois o desafio, correndo o risco de em vez de falar de caça, fazer uma conversa de caca, o que constituiria uma tragédia verbal superior à ablação da cedilha.
De resto fui convidado, não por ser propriamente um “picareta falante”, mas por ser há muito conhecido como “picareta escrevente”.
Vamos lá ver no que isto vai dar. Que Santo Huberto lá no céu e Diana no Olimpo, tenham piedade de nós.

O PRIMEIRO CAÇADOR

De acordo com o Génesis, o primeiro livro da Bíblia, Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, pelo que por necessidade de sobreviver, Adão terá sido o primeiro caçador. Diz-nos a antropologia que de facto, foi a necessidade de sobreviver que levou o homem primitivo a caçar, isto é, a perseguir outras espécies animais, com a finalidade de os abater e consumir na alimentação.
A caça como actividade humana aparece representada nas pinturas e gravuras de grutas como Lascaux, Chauvet ou Altamira. Provavelmente, o homem terá começado por caçar sem armas, às quais terá começado a recorrer em certo estágio da sua evolução. E naturalmente com a evolução do homem, vão evoluindo igualmente as armas usadas na caça. Estas classificam-se em:
-    Armas de arremesso de mão: dardo, azagaia e arpão.
-    Armas de arremesso de engenho: funda, fisga, arco, besta, zarabatana e bumerangue.
-    Armas de choque: cajado, moca, machado, punhal, faca, espada, sabre e lança.
-    Armas de choque e arremesso de mão: machado, punhal e lança.
-   Armas de fogo: mosquete de pederneira, espingarda, pistola, revólver, etc.
Na caça, o homem pode também utilizar armadilhas diversas, tais como gaiolas, laços e redes. Pode igualmente ser auxiliado pelo cavalo em que se faz transportar ou por animais como o cão e o furão, assim como por aves de rapina como o falcão e o açor, usados na caça de altanaria.

O DESESPERO DE ADÃO

Adão deve ter sido o caçador mais feliz de todos os tempos, já que não lhe foi exigida carta de caçador, nem bilhete de identidade ou passaporte, assim como licença de caça, o que pode obrigar a ter cinco tipos de licenças: licença nacional, licença regional, licença de caça para não residentes em território nacional, licença para caça maior e licença para caça a aves aquáticas. Se fosse hoje, para além disso, Adão teria de trazer consigo, recibo comprovativo da detenção de seguro de caça, licença de uso e porte de arma, livrete de manifesto de armas, cartão nacional de identificação dos cães e licença de cão de caça. Estou certo que Adão se passaria dos carretos e diria:
- Arre, porra, que é demais!

A COMUNHÃO COM A NATUREZA

Caçar é uma actividade nobre, regulamentada por lei e existe um “Código de Comportamento do Caçador” elaborado sob os auspícios do Conselho da Europa e adoptado como recomendação n.º 8-17 pelo Comité de Ministros dos Estados Membros em 23 de Setembro de 1985. Divulgado entre nós pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e Associações de Caçadores com oobjectivo de promover uma ética de caça fundamentada nas realidades de hoje. Reconhece-se que a fauna selvagem deve ser preservada para as gerações presentes e futuras pelo seu valor ecológico, económico, estético, cultural e educativo. Reconhece-se ainda que a caça pode ser considerada como um elemento importante de gestão da fauna selvagem, com a condição de respeitar as necessidades ecológicas das espécies e dos seus equilíbrios biológicos. Todavia, certos tipos de comportamento podem ter repercussões nefastas no futuro de algumas espécies. Daí a importância de que se reveste, os caçadores seguirem o “Código de Comportamento”, já que é imperioso respeitar a fauna silvestre e observar normas éticas e de segurança inerentes ao acto venatório assim como contribuir para uma gestão racional dos recursos cinegéticos.
A caça põe o homem em contacto íntimo e em comunhão com a Natureza. Fazem-se grandes caminhadas e como diria o poeta sevilhano António Machado (1875-1939):
- Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao andar.
E nas suas andanças por cerros e vales, o caçador acompanhado do seu fiel amigo, o cão, aprende a conhecer a natureza, a interpretá-la e a respeitá-la.

ESTÓRIAS DE CAÇADORES

Para além do prazer proporcionado pela caça em si, há outras alegrias no final das caçadas: a exibição dos troféus de caça, o convívio à boa mesa e as estórias que se contam. Lá diz o rifão que:
- Quem conta um conto, aumenta um ponto.
assim como:
- Mau caçador, bom mentidor.
E também:
- Mentiras de caçadores são as maiores.
Um caçador é naturalmente um bom contador de estórias, umas verdadeiras outras romanceadas ou até mesmo pura ficção, mas todas elas, estórias. As estórias contam-se à mesa depois das caçadas, mas contam-se também no Facebook, rede social onde foi criado um grupo chamado “Arte Cinegética”, destinado à divulgação de obras de Arte Cinegética, tanto no âmbito das Artes Plásticas como da Literatura, Fotografia, Joalharia, Design e Taxidermia. Tal grupo de que também sou membro, tem 781 membros e tem como administradores Francisco Charneca, José Amaro José Joaquim Marques Chaparro e Pedro Miguel Silveira. Foi o grupo “Arte Cinegética” que esteve na origem do Clube Literário Cinegético, pelo qual estou aqui a dar a cara ou se preferirem o focinho, já que estamos a falar de caça.
A primeira publicação do Clube é esta “Colectânea Literária Cinegética” onde caçadores, inevitavelmente contadores de histórias, trocaram a espingarda pela caneta e resolveram passar ao papel, tanto em prosa como em poesia, algumas das estórias que lhe vão na alma.

FALEMOS ENTÃO DO LIVRO

Trata-se de um livro com capa cartonada com as dimensões de 17x24x2 cm, com o peso de 585 gramas e um total de 342 páginas, dividido em 48 partes e profusamente ilustrado. Reúne prosa e poesia de 42 autores-caçadores. a saber: Adriano Palhau, Agostinho Beça, Alexandre Fernandes, Ângelo Sequeira, António Afonso Inácio, António Luiz Pacheco, António Maria Pignatelli, António Pedro Rodrigues, Edgar Cordeiro, Fernando Coutinho, Fernando Manuel Santos Mota, Fernando Mascarenhas Loureiro, Francisco Charneca, Gilberto Fernandes, Gonçalo Roquete, Helena Cotrim, Joaquim Santos, João António Freixo Boavida, João Carlos Sequeira, José Amaro, José António Neves, José Maria da Cunha, José Martins, José Joaquim Marques Chaparro, Júlio Sousa, Luís Barata, Luís Guimarães, Luís Miguel Pereira, Luís Paiva, Manuel Prata de Almeida, Manuel Vassalo, Mestre Velho Murtigão, Miguel Pereira, Paulo Farinha Pereira, Paulo Oliveira, Paulo Santos, Pedro Delgado, Pedro Miguel Silveira, Rodrigo Abreu, Sérgio Paulo Silva. Nelson F. Tomaz e Nuno Sehastião. Os textos têm um elo comum a paixão pela caça que lhes está na massa do sangue.
As ilustrações num total de 191 pertencem a 11 autores. São eles: Alexandre Fernandes, António Charneca, Fernando Farinha Pereira, Francisca Paiva, Francisco Charneca, Francisco Fachadas, Francisco Marques, Inês Valadas Pereira, Luís Barata, Manuel Trovisco e Rita de Mascarenhas Loureiro.
A colectânea foi coordenada por José António Neves e por Francisco Charneca, respectivamente a nível de textos e de ilustrações. A paginação e a capa são também de Francisco Charneca.

O SIMBOLISMO DO LIVRO

Este livro está repleto de simbolismo. Tem como cor dominante, a cor da terra de barro, o mesmo barro com que Deus terá modelado o primeiro homem, o qual por desobediência da sua cara-metade, acabou por ter de expulsar do Paraíso. Por isso, este livro é também uma homenagem a Adão, o primeiro caçador da História da Humanidade.
Para além disso, neste livro os tons de ocre castanho, um dos pigmentos minerais usados na decoração de grutas como as de Lascaux, Altamira e Chevreux, são também uma homenagem, aos artistas rupestres precursores da arte cinegética, que esteve na génese do grupo homónimo do Facebook.

DUAS PALAVRAS

Em “Duas palavras...”, que é como que um ante prefácio, os coordenadores da colectânea dão-nos conhecimento que (e passo a citar):
A generalidade dos autores, a maioria, a publicar pela primeira vez, oriundos da geografia portuguesa, assume galhardamente a sua condição de caçadores que escrevem, devendo ser este livro avaliado essencialmente sob esse prisma. Nas suas diversas histórias, narrativas e crónicas, onde a fantasia, o humor e o vernáculo, tão característicos das nossas tertúlias, temperam a austeridade dos lances, encontraremos a expressão de diferentes idiossincrasias, unidas pelo gosto comum da multidisciplinar prática venatória.
E mais adiante dizem:
Nestas páginas encontraremos ainda múltiplas vivências, tanto no território pátrio como fora dele, onde a crua realidade é omnipresente. Isso permite-nos a percepção clara do arrebatamento que incita ao acto cinegético, da dureza imposta pelo ambiente natural e das palpitações do esforço tenaz, materialização sublime do corolário da vontade e do espírito de sacrifício.
E terminam dizendo:
As ilustrações, embora sejam uma manifestação artística com valor próprio - aliás, de excelente qualidade - combinam-se com a escrita numa simbiose admirável. Alguns dos seus autores, apesar de nâo-caçadores, revelaram, em traços precisos e indeléveis, um esclarecido entendimento da paixão que nos movimenta e dos horizontes que perseguimos.

IN MEMORIAM

Em “In Memoriam…”, os coordenadores da colectânea dão conhecimento de que “Nas montarias peninsulares é honrosa tradição recordar os amigos e companheiros desaparecidos.” Por isso entenderam nesta colectânea “…proceder de igual modo através da evocação de uma figura representativa e consensual devido à singularidade dos seus feitos e à extrema dignidade do comportamento pessoal.”. Trata-se de Mestre José Pardal que segundo nos revelam “Na sua multifacetada experiência personifica o arquétipo do caçador integral e consciente, daí a eleição deste vulto incontornável da nossa cinegética para preitear a memória, dos que, como Ele, nos antecederam ou acompanharam.”

PREFÁCIO

O notável prefácio de Gonçalo Roquette levou-me à conclusão de estar em presença de alguém que é com certeza um grande caçador e dispara igualmente bem com a arma e com a caneta. Ideia que é reforçada pela sugestiva ilustração que acompanha o prefácio. Dele respiguei a seguinte afirmação: “Não há dúvida que as terras da felicidade são os nossos locais de caça. Onde regressamos, religiosamente, para celebrar a vida ali vivida. Assim são os livros como este, não só mas também, uma maneira de caçar.”, bem como esta outra:”Com esse apontamento quero assinalar que a caça é indiscutivelmente um factor de união entre os homens, independentemente da sua opinião política, da religião que professam, da sua raça, do sexo, dos seus bens de fortuna e do seu berço, “Os homens compreendem-se uns aos outros na medida em que os animam as mesmas paixões”. E aqui Roquete cita Stendhal. Parabéns pelo texto. Estou certo que é considerado um privilégio, tê-lo como amigo e ser seu companheiro de caça.

DAS ESTÓRIAS

Das estórias pouco posso dizer. São histórias de caça, em prosa e em verso, com estilos e domínios de escrita diversos, reflexo da experiência cinegética e do imaginário de cada um. Há que lê-las e partilhar com cada um dos autores o relato da sua vivência e da sua imaginação.

POSFÁCIO

O posfácio de Nuno Sebastião, elaborado depois de calcorrear estas páginas de caça, trouxe-lhe à memória o saudoso tempo do terreno livre dos seus tempos de catraio, quando acompanhava o pai. Era o tempo da vida livre e desburocratizada de campos sem tabuletas, tempos que não voltam. E felicita os confrades que em prosa e poesia, decidiram formar jolda e trocarem alazarina pela caneta para nos brindarem com uma lição de ética venatória e bom companheirismo.

TRIBUTO

No final do livro e muito bem, os coordenadores da “Colectânea Literária Cinegética” prestam um tributo aos companheiros e companheiras que ao seu lado celebram com a indispensável benevolência, a sua dedicação à festa da caça.

GLOSSÁRIO

No final do livro é possível consultar um valioso glossário com 436 termos e expressões idiomáticas usadas pelos caçadores. Curiosamente, o significado não é o que pode parecer à primeira vista.
A talhe de foice, destaquei os seguintes termos: Amélias que são pessoas pouco desembaraçadas. Badagaio que é a queda desamparada. Bufar que é expirar com força. Choça que é o abrigo utilizado pelo caçador para se esconder da caça na modalidade de espera. Javardo que é o javali adulto. Jolda que é um grupo organizado de caçadores. Marteleiro que é o caçador que erra tudo a que atira. Picada que é um caminho estreito em terra. Pissadas que são raspanetes e Ponta de fora que é a posição do caçador que na caça às perdizes de salto, orienta a caçada.
Este glossário é decerto um bom ponto de partida para a edição autónoma de um dicionário de termos e expressões idiomáticas usadas pelos caçadores. Fico à espera.

ATÉ QUE ENFIM

Permitam-me que termine parafraseando D. Francisco Manuel de Melo, dizendo: “Da infelicidade da composição, erros de escritura e outras imperfeições de estampa, não há que dizer-vos, vós as vedes, vós as castigais”. E acrescentarei:
- Assim seja, para mal dos meus pecados.
Todavia peço-vos, oh cavaleiros do código antigo, cumpridores de preceitos, romeiros dos santuários de caça, fiéis devotos dos templos da sua degustação, tende piedade de mim!

Texto da autoria de Hernâni Matos, autor do blogue "DO TEMPO DA OUTRA SENHORA", lido pelo próprio, aquando da apresentação do livro, na Casa de Estremoz, no dia 6 de Setembro de 2014

28 de agosto de 2014

Octogésimo aniversário do Senhor Braga dos Anjos

No dia 27 de Agosto de 2014, no bonito Lugar dos Anjos, na Ilha de Santa Maria, o Sr. José Braga (o quarto a partir da direita*) completou 80 anos de vida. Nesta foto só estão caçadores que sempre viram no Senhor Braga um exemplo de homem e caçador a seguir.
A família e os amigos prepararam-lhe nos Anjos uma festa simples mas muito bonita e durante a qual os pratos fortes servidos foram muita gastronomia típica da Ilha de Santa Maria, a amizade, a solidariedade, a caça, os cães de caça, o fado e cantigas ao desafio. 
Marcaram presença muitos familiares e amigos vindos de outras Ilhas dos Açores, do Continente Português, da América e do Canadá.
Caçar com o Senhor Braga na sua bela Ilha de Santa Maria foi sempre uma honra e um privilégio. Muitos Parabéns!


*Da esquerda para a direita:
Manuel Frias, Pedro Miguel Silveira, José Frias, Horácio Moura, António Monteiro, José Braga (Braga dos Anjos), Gualter Furtado, Virgílio Paz Ferreira e Jorge Santos

Texto e fotos de Gualter Furtado

16 de agosto de 2014

Duas estreias a 15 de Agosto de 2014

A Primeira: Liegeoise paralela que os Herdeiros do Senhor António  José Galante me ofereceram.
Esta espingarda de caça Belga tem cerca de 60 anos e é possuidora de uma chumbada simplesmente extraordinária. 
Utilizei cartuchos com chumbo 7, que não ultrapassaram os 30g e carregados a pressões também relativamente baixas.
A Segunda: A minha cachorra, quase Beagle, que se revelou um animal excelente.
Nesta primeira oportunidade de caça a sério,  deu-me a cobrar dois coelhos e ela própria cobrou o seu coelho bravo numa cena de caça destemida. 
Esta jornada desenvolveu-se na Ilha Terceira, na companhia de uns amigos caçadores que conheço há longa data, a que se juntou o Celestino.
Os terrenos eram de uma beleza inigualável já que a Caldeira Guilherme Moniz é simplesmente extraordinária e não merece que se deixem lá os cartuchos vazios, pelo que devem ser recolhidos como mandam as boas práticas do exercício cinegético.
Um realce especial para o cuidado e respeito que devemos  ter com os  imponentes toiros bravos1, que são os Reis daquela paisagem e com os quais nos cruzamos por diversas vezes, acautelando sempre a devida distância.
Finalmente, uma referência para o almoço com as deliciosas alcatras, magistralmente preparadas pelas esposas dos amigos caçadores da Ilha Terceira, só possíveis de degustar nesta Ilha de Jesus Cristo2.

Texto da autoria de Gualter Furtado

Legenda:
1- Autarcas e mordomos da Ilha Terceira estão a recolher documentação para candidatar a Tourada à Corda da Ilha Terceira a património da humanidade.
2- Primeira designação da Ilha Terceira

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