A sua história confunde-se com a vivência dos habitantes destas ilhas açorianas, tendo sido mesmo um importante recurso económico, mas que alguns dos ditos ecologistas e amigos dos animais fazem por omitir e por esconder nas diversas campanhas que levam a cabo em prol deste animal.
O texto que se segue tem por objectivo alertar para a necessidade de olharmos o cagarro pelo que foi e pelo que é na verdade e não pelo que alguns pretendem que seja.
O Cagarro
Trata-se de uma ave que Habita tanto as falésias que confrontam com o mar como os ilhéus.
Alimenta-se de outros seres vivos - peixes, crustáceos e lulas e consta no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal com o estatuto de pouco preocupante no Arquipélago dos Açores, pelo que não se trata, de todo, de uma espécie cuja existência se encontre em perigo, como parece que alguns desejam fazer crer.
As ameaças à sua subsistência advêm, sobretudo, da destruição dos locais de nidificação desta ave em resultado da expansão humana.
Encontra-se incluída no Anexo I da Directiva Aves e no Anexo II da Convenção de Berna (Pereira, Carlos: 43) e a sua captura nos Açores é considerada contra-ordenação, punida com uma coima.
De referir que, nalgumas Ilhas do Grupo Central do Arquipélago Açoriano ainda é utilizada como isco na pesca e na Ilha de Santa Maria continua a ser empregada na gastronomia local, o que acontece desde a altura do povoamento, sendo essa a razão por que são apelidados os habitantes da ilha mais oriental dos Açores, de Cagarros.
A Caça do Cagarro
A captura de cagarros, na Ilha de Santa Maria em particular, é uma prática ancestral e bem vincada nos usos e na mais genuína tradição mariense, sobretudo nos costumes de duas das suas freguesias mais típicas e emblemáticas da terra, como é o caso de Santa Bárbara e de Santo Espírito, mas não só.
A introdução desta ave na gastronomia insular adveio da carência alimentar com que se depararam os primeiros povoadores e também da necessidade de preencher outras privações pois, para além da carne também proporcionava o fornecimento de ovos, de azeite e de penas, como muito bem nos narra Gaspar Frutuoso, n’ “As Saudades da Terra”, através da pena de João Gago da Câmara, em “Recordações”.
Gaspar Frutuoso, natural da Ilha de São Miguel e falecido em 1591, descreve-nos detalhadamente os usos e costumes, a geografia e a história do arquipélago açoriano e igualmente como se processava a caça ao cagarro:
“Também se acharam nestas ilhas pardelas e estapagados e garajaus: os estapagados eram tão grandes como pombos torcazes ou frangas, brancos pela barriga e pretos pelas costas, tinham pouca coisa o bico retorto na ponta. Eram tantas as pardelas e estapagados que em casa de um Manuel Fernandes, o Tosquiado de alcunha, uma véspera da Páscoa, tomaram setecentos, entre umas e outras, das quais vendeu seu pai a um Álvaro Dorta duzentas por duzentos reis, a real cada uma. E sua mãe mandava chamar as vizinhas que lhe viessem depenar as pardelas, com condição que lhe deixassem a pena e levassem a carne. O qual Manuel Fernandes, com outros ao Pico da Murta, ia fazer fogueiras, pondo-se ao sol, encostados ao pau que tinham atravessado, com que ficava feita uma grade onde as pardelas cegas com o fogo se tivesse, caindo ali, e não fossem pela ribeira abaixo; e os cães que levavam, indo pelo pau atravessado, tomavam as pardelas que na grade esbarravam e uma a uma as deitavam fora de água, tão destros andavam neste ofício, trazia cada cão um chocalho, para que os caçadores de noite fossem tomar a caça onde os ouvisse.
Têm as pardelas esta qualidade que ainda que caiam fora do fogo com que se encandeiam grande espaço, vendo a fogueiro, vão direito a ela, e ali as tomavam. São pretas, como corvos, mas têm o corpo pesado como patas, e têm o bico revolto como gavião; depois de depanados de feição de áden.
Das novas se fazia mais azeite, não fazendo mais que depená-las e esfolá-las e da pele se fazia mais quantidade por ser tudo gordura e a carne não se aproveitava.
Indo tomar as novas nas covas onde estavam, logo lhe iam com a mão ao pescoço e lho apertavam, para que não deitassem o azeite fora, porque se não lho apertassem eles o deitavam logo todo pela boca fora, que parece criá-lo dentro de si, além do que lhe tiravam da pele quando o derretiam. Estando os caçadores em casa e acertando de bulir com os chocalhos logo os cães eram espertos e se alevantavam olhando para eles, parecendo que já queriam ir caçar às pardelas, como costumavam, e às vezes não podendo trazer tantas, com carros as iam buscar ao mato.
O mesmo Manuel Fernandes, com seu pai Estêvão Fernandes e um João Jorge, todos da Ribeira Grande, em uma noite, véspera da Ascenção, mataram sete mil e seiscentas, afora outras que apanharam outros caçadores o dia seguinte, onde ficaram embrenhados pelas moutas e buracos da terra porque são aves que não se alevantam de dia, ainda que as deitem a voar e logo caem no chão, pelas cegar o ar claro. A pena delas é tão boa como a das patas, e ainda melhor. Não comem senão peixe, sendo novas, não cria um casal senão outro; parece que criarão muitas vezes no ano, pois tanto multiplicam. Era tanta a gordura nelas que um Salvador Fernandes e seu cunhado Manuel Fernandes faziam delas, cada dia que iam ao mato caçá-las, uma jarra de três canadas de azeite, entre o que deitavam pela boca e da gordura da pele delas, que esfolavam. E um Bartolomeu Roiz Cariboino, morador no telhal da Ribeira Grande, com Sebastião Vaz, mulato de Baltazar Vaz de Sousa, foram à caça delas uma noite na Ribeira da Praia, com fogueiras, onde tomaram mil e setecentas.
Um João Gonçalves, o Grande, caçador de pardelas pelo que se chamou João Gonçalves Pardela, e um seu filho que chamavam depois Gaspar Gonçalves, o Pardelinha, por herdar este nome do pai, uma noite no Pico da Murta, depois de ter a fogueira feita, choveu tanta água que lhe apagou e ele andou resguardando dois tições para a tornar e reformar, não fazendo senão assoprar e roçar um tição no outro, por se lhe não apagarem; ali caiam as pardelas sobre ele e sobre os tições, com que tomou grande soma delas e pelas caçar se fogueira, com os tições somente, se maravilhavam todos, dizendo: assim tomou este tantas pardelas e dali lhe ficou chamarem-lhe João Gonçalves Pardela.
Cada dez pardelas, ordinariamente, davam uma canada de azeite e mais as caçavam por ele do que por elas.
Ainda que tomavam no tempo antigo tanto número de pardelas, e na Ribeira da Praia, da banda de Vila Franca, matavam em uma noite dez mil estapagados, há anos que são desinçados assim eles como as pardelas. Dizem que desapareceram depois que houve nesta ilha furões que as degolaram todas nas covas, como fazem às galinhas no poleiro; e de maravilha se acha alguma em alguma rocha. E na verdade parece que as não matavam, mas elas mesmo se matavam a si, caindo nas fogueiras, principalmente em tempo de névoa, em que a claridade e fumo de lume desciam maior número delas, e não podendo os cães pegar todas, ficavam muito embrenhadas nas covas da terra, cuidando que ali estavam seguras, mas ao outro dia outros caçadores vinham carregados e em uma só cova achavam vinte, trinta ovos, não porque não pusesse uma mais que dois, senão porque punham muitas no mesmo lugar e se encovavam em uma mesma cova, da qual tirando às vezes uma e tornando a meter a mão achava, outra, e aquela fora tiravam outra, até vinte e trinta.
Na entrada de Fevereiro vinham os estapagados do mar à terra a limpar as covas, e ali se retinham os dias que não vinham, e depois tornavam no mês de Março, em que pondo seus ovos, se deitavam no choco. E as pardelas vinham do mar a criar à terra da entrada de Maio. Uns e outros, dizem alguns, que não criavam mais que um pintão; outros afirmam que dois. Os estapagados entre um chocar e criar, punham três meses, Março, Abril e Maio, e as pardelas punham cinco, Maio, Junho, Julho, Agosto e Setembro. Eram tão gordos os filhos que cada onze, doze, treze, davam uma canada de graxa, e às vezes, quando as traziam do monte, vinha correndo delas o azeite pelo caminho, ou pela boca, porque arrebentavam de gordura e enchiam os fatos dos caçadores, os quais pareciam lagareiras, que andam em lagar de azeite, e por se não vasar pela boca, às vezes lhe atavam o pescoço, e em caldeiras e panelas as derretiam, como em banha de porco, e ficava no mato grande rumo de carne delas perdida, depois de tirarem o azeite dela. No tempo de estavam em choco, eram as velhas mais gordas que antes que chocassem matavam-nas na cova com cães de busca e eram tantas que ainda que fossem dez caçadores, uns após outros, pelo mesmo lugar, no mesmo dia e em muitos dias a reo nos dois meses que chocavam, Maio e Junho e dentro nos outros dois meses depois de criadas, Agosto e Setembro, sempre achavam que tirar e cada um dos caçadores enchia um saco, em que trazia setenta, oitenta, noventa, cento.
É de notar que em Maio e Junho era a matança das velhas nas covas e fogueiras, para comer, e em Agosto e Setembro, para azeite. Estas aves estapagados e pardelas, dizem que no Inverno andam muitas em África, e no Verão vêm criar a outros países, onde parece que vão recolher naquele tempo, por ser terra quente, e no Verão vêm criar a outras partes mais temperadas, e não em África, por ser lá a areia em que costumam criar tão quente que lhe gora os ovos de tal maneira que não criam pintões, pela qual razão vêm cá criar em outras terras mais temperadas, onde a areia ou terra temperada lhe não gora os ovos.
Um Pero Gonçalves, da Ribeira Grande, ia muitas vezes caçar pardelas e com quatro achas que acendia matava setecentas, oitocentas juntas; e eram tantas as que caiam que quasi matavam o lume, por se cegarem com ele, e tinham trabalho de ter mão nelas e torná-las antes que se metessem na fogueira, as quais não sentiam cair senão quando as viam com a claridade do lume e os cães davam com elas, caírem caladas. Mas os estapagados como vinham bradando, logo eram sentidos. Valia oito, nove, dez pardelas meio vintém, que eram do tamanho de grandes frangas.” (Câmara, João Gago da: 43, 44, 45 e 46)
Um Sabor Pessoal
Comestíveis eram os cagarros capturados antes de abandonarem o ninho, que depois de depenados, de lhes terem sido retiradas a pele e a gordura ficavam do tamanho de uma codorniz. Confesso que bem temperados, fritos, picantes q.b. e acompanhados por batata frita e estaladiça eram um pitéu excepcional que muito apreciava. Os maiores eram utilizados para isca na pesca ao sargo e melhor não havia.
Hoje em dia a captura de cagarros é um ilícito de mera ordenação social e punida com uma coima. No ano passado, em Santa Maria, foi um indivíduo identificado em flagrante e autuado um estabelecimento de restauração e bebidas que os tinha armazenado para posterior venda ao público e consumo.
Conclusão
Pela narrativa de Gaspar Frutuoso podemos concluir que desde os primórdios do povoamento que os habitantes destas ilhas açorianas se entrelaçam num enredo complexo e delicado nos destinos destes graciosos visitantes.
Assim o foi no passado, o é no presente e o será no futuro.
Se no passado integravam o modo de vida ilhéu e representavam um factor económico importante na subsistência deste povo insular, hoje o mesmo já não acontece, sendo inclusivamente omitida tal informação, como se não tivesse sido um facto marcante ou pertinente para a sobrevivência dessas pessoas. Porém não deixou de estar esta ave no centro de um sem número de actividades levadas a cabo por grupos que se auto proclamam defensores, de amigos dos animais e de ecologistas, destacando-se desses esforços a Campanha SOS - Cagarro, cuja edição de 2010 decorrerá de 1 de Outubro até 15 de Novembro.
Essa iniciativa é patrocinada por diversas entidades, dirigida sobretudo ao público mais jovem, em idade escolar, que não possui outra alternativa senão absorver e assimilar a informação que lhes é debitada, independentemente da qualidade da mesma, e levada a cabo através da elaboração e projecção de vídeos e de filmes, actividades de sensibilização, exposições, reuniões, palestras, t-shirts, enfim, um sem número de actividades que custam muito dinheiro e que se repetem a si mesmas anualmente e ciclicamente.
O cagarro é por eles descrito como uma ave prodigiosa e senhora de grandes feitos, o centro de uma imensa e verdadeira paixão.
Apelam incessantemente à sua protecção, invocam a sua defesa, rogam a sua salvação, imploram a denúncia de situações ilícitas.
Se compararmos a mensagem que esta campanha nos transmite, que é a da urgente e inadiável protecção e defesa do cagarro com o facto da ave constar no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal com o estatuto de pouco preocupante no Arquipélago dos Açores, acabamos por concluir que o que acaba por mover tais promotores é, realmente, um grande amor por esta ave, pois mais espécies existirão em muito piores situações que não gozam de tantos cuidados e atenção. Outros, porém, sem excluirem a primeira possibilidade, também poderão vislumbrar nesse tipo de campanhas a existência de um proveitoso negócio, um modo de vida, de projecção social e política, mais uma maneira de pagar as contas do mês, que tem por base não o amor pela ave, mas uma enorme mentira, criada e mantida, precisamente, pelos seus mentores para se auto-financiarem e projectarem na sociedade, porque doutro modo passariam completamente desapercebidos e imperceptíveis.
O cagarro faz parte do nosso passado pelos motivos aqui expostos e com eles temos ainda uma relação forte e muita próxima, mas é necessário sermos sinceros e honestos no relato dessa história secular, por muito que possa acabar por envergonhar alguns dos seus actores mais modernos e tudo isto em nome das gerações futuras, aquelas que tanto lhes parecem preocupar, para que nessa tradição e vivência os vindouros possam encontrar uma herança autêntica e não um logro vazio de conteúdo ou de valor, que nada vale e nada transmite de substancial a não ser uma corrente de pensamento controversa, uma ideologia por vezes extremista e radical, desfasada da realidade e das verdadeiras necessidades das pessoas.
Resposta ao "planisfério das ilhas"
Bibliografia:
Câmara, João Gago da (2002). Recordações. Gráfica Açoriana Lda.
Pereira, Carlos (2010). Aves dos Açores. SPEA - Socieadade Portuguesa para o Estudo das Aves.
Fotografia: http://www.azores.gov.pt/NR/rdonlyres/B8300C48-5F89-4326-9100-4AB98BE5ABD2/354190/1884.jpg
